segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

coisas que eu gosto (de ver ) 5 - Especial de Natal



Johnny vai à guerra, de Dalton Trumbo, 1971.



Já que estamos nesse lufa-lufa de Natal, pensei em comentar este filme, que tem tudo a ver com "o espírito natalino". Único filme do grande roteirista americano Dalton Trumbo ( só clássicos, como Spartacus, Pappillon, The Fixer, A Guy named Joe- refilmado por Spielberg como Além da Eternidade-, Exôdus, O último pôr do sol, A princesa e o plebeu, etc ), ganhador de 2 oscars como roteirista ( que, entretanto, foi impedido de receber ), baseado em seu romance, de mesmo nome.

Trumbo foi uma das vítimas do macartismo, tendo sido proibido de trabalhar no cinema, isso quando estava no auge da sua carreira como roteirista. Ele foi um dos "dez de Hollywood", cineastas que, ao serem confrontados pela sanha anti-comunista oportunista do medíocre senador Eugene McCarty, alegando a 1a Emenda da constituição americana, se recusaram a testemunhar no Comissão de assuntos anti-americanos - uma espécie de CPI do mensalão local, formada por uma laia que muito se assemelha à turba de tucanos, pefelistas e heloísas helenas assanhados travestidos de moralistas e patriotas, mas que buscavam apenas aparecer na tv e angariar votos ( tal como cá ). Testemunhar na CPI, digo, na comissão era um eufemismo para delatar possiveis comunistas ou simpatizantes. Muitos fizeram isso. O grande cineasta Elia Kazan, entre eles. Para salvar a pele, muitos entregavam qualquer um. Havia até uma lista com os nomes manjados que a comissão oferecia aos depoentes. O que importava era, como em qualquer processo inquisitório, que as vítimas capitulassem, e abdicassem de sua dignidade através do processo mais torpe: a delação, a traição. Nada mais prazeroso ao algoz do que transformar suas vítimas em algozes de novas vítimas. É a legitimação da opressão.


Os "dez de Hollywood" se recusaram a fazer qualquer delação e caíram em desgraça. Foram presos, depois colocados na "lista negra", proibidos de trabalhar em qualquer atividade da indústria cinematográfica.

Abrindo um parenteses: Junto com Trumbo estava John Howard Lawson, também roteirista e, pelo que penso, talvez o único que fosse realmente comunista no grupo. Lawson era ativista dos direitos civis, foi criador e presidente da WGA ( Writers Guild of America, o sindicato dos roteiristas, o mesmo que hoje está deixando os executivos de Hollywood de cabelos em pé, com essa greve histórica que já dura tres meses... ), escreveu o roteiro de "Bloqueio", um filme que defendia os republicanos espanhóis contra as forças fascistas de Franco, visitou a antiga União Soviética diversas vezes, era sem dúvida um militante de esquerda. Lawson terminaria sua vida dando aulas, escrevendo um excelente livro sobre dramaturgia chamado O processo da criação cinematográfica, que recomendo a quem quiser entender um pouco de roteiro e de direção. Os demais, como Trumbo, eram apenas humanistas, progressistas, coisa que na América equivale a ser "vermelho". Ainda mais nos anos cinzentos da guerra fria. Ou, nos dias atuais, da doutrina Bush.

Seja como for, comunistas, esquerdistas, ou apenas simpatizantes, eles foram severamente punidos e perseguidos. Para poderem sobreviver, já que estavam na lista negra, e nenhum estúdio lhes dava trabalho, foram obrigados a escrever sob pseudônimos, ou, mesmo arrumar "testas de ferro" que assinassem seus trabalhos. Há um belo filme de Martin Ritt, Testa de Ferro por acaso, com Woody Allen, que retrata de forma pungente essa página vergonhosa da história americana recente.

Trumbo passou anos escrevendo com pseudônimos ou através de amigos que lhe emprestavam o nome. Os dois Oscars que recebeu foram entregues aos seus testas-de-ferro, só sendo devidamente creditado como o verdadeiro premiado e recebido as estatuetas carecas nos anos setenta ( só um, o outro lhe foi "entregue" postumamente, pois morreu em 1976).



Sua reabilitação se deve em muito a Kirk Douglas, que bancou toda sua reputação de grande ator para incluir o nome de Trumbo nos créditos de roteiro de Spartacus.


Trumbo escreveu o romance Johnny got his gun em 1938, já prevendo os horrores da 2a guerra mundial que se aproximava. O romance, como o filme, conta a história de um jovem idealista que se alista para lutar no exército americano durante a primeira guerra mundial. Atingido por uma bomba, perde os braços, as pernas, tem o rosto destruído, ficando cego, surdo e mudo. Todo o romance se passa na mente de Johnny que, apesar de tudo, se mantém intacta e ativa. A narrativa é mesclada pelas sensações vividas pelo "pedaço de carne viva" e seus sonhos, lembranças, devaneios, que se misturam à realidade de tal forma, que aos poucos, vamos perdendo a noção do que é real ou imaginário. Levando em conta a capacidade inesgotável de fazer o mal do ser humano, com suas armas, suas guerras, com a frieza dos cientistas, o oportunismo dos políticos, a mentalidade tacanha e autoritária dos militares, a ganância desenfreada dos capitalistas ( os únicos que ganham com as guerras, seja qual forem elas ), qualquer pesadelo parece insignificante diante da realidade. Neste sentido, o livro tem uma perspectiva de humor negro, apropriada para quem deseja denunciar a hipocrisia dos sentimentos patrióticos. Totalmente despojado de qualquer membro ou sentido que o faça interagir com os outros homens, aquele "pedaço de carne viva" é o único ser humano em toda a história.

Trumbo sempre quis transformar seu livro num filme, apesar de a princípio, a história oferecer pouca ou quase nenhuma perspectiva cinematográfica - pelo menos, para um filme narrativo.

Diversas vezes provoquei meus alunos nas aulas de roteiro, oferecendo este desafio: como fazer um filme onde o personagem não fala, não vê, não escuta, não tem rosto, não tem braços, nem pernas ( porém, tem sexo - isso é um detalhe fundamental. "Quando sentem a aproximação de uma bomba, instintivamente os soldados se colocam em posição fetal, protegendo seu sexo¨, diz um dos médicos-militares que "cuida" de Johnny ). Diante dessa provocação, a maioria dos alunos acaba desistindo do desafio, por considerá-lo insolúvel. Ao que eu respondo: mas ele pode pensar. E o pensamento é talvez a matéria mais cinematográfica existente.


E é assim que Trumbo consegue fazer sua narrativa fluir - através de dois planos, a realidade, onde um cotoco humano coberto por uma tenda deitado numa padiola num quarto vazio e escuro, imagem apavorante, e o imaginário, o mundo interior de Johnny. Através da representação dos pensamentos, sonhos, delírios do rapaz deformado, o filme respira, se realiza plenamente.

Trumbo penou para realizar o filme. Primeiro, pelas questões referentes à lista negra. Depois, pela aparente inviabilidade do projeto. Nenhum estúdio quis arriscar um centavo num filme no qual 50% ou mais da história se passava num quarto escuro, onde um "pedaço de carne viva" tecia comentários em voice-over. Trumbo resolveu ele próprio produzir o filme, usando seus proprios recursos. Num primeiro instante, pensou em entregar o projeto a Buñuel. Se havia alguém capaz de contar aquela história, esse alguém era Buñuel. Porém, problemas de orçamento e cronograma impediram o gênio espanhol de fazer o filme. Buñuel aconselhou Trumbo a dirigir ele mesmo o filme.

O filme é mais soturno que o romance, ainda que, aqui e ali, haja espaço para algum humor - nigérrimo. O tom mais pesado e totalmente pessimista deve-se ao fato de que muita água - e principalmente, muito sangue - correu, desde que ele escrevera o romance, até o momento em que conseguiu levá-lo às telas. Se as atrocidades vivenciadas por Trumbo na primeira guerra mundial forneceram horror suficiente para escrever seu romance, ele agora tinha não somente as experiências da 2a guerra mundial, muito mais cruenta e violenta que a primeira, bem como todo o processo de desumanização vivido pelo mundo, com a revelação dos horrores nazistas, dos campos de concentração, da bomba atômica, da descoberta do terror stalinista ( que foi uma ducha de água fria para aqueles que, como Trumbo, acreditavam num "outro lado" diferente e oposto ao mundo ocidental e capitalista ), a perseguição macartista, a guerra fria e, mais diretamente, à guerra do Vietnã, em pleno curso quando Trumbo finalmente consegue viabilizar o filme.

Estéticamente, o filme é dividido em dois planos, realidade e sonho. As cenas do "cotoco humano" são primorosas, filmadas em preto e branco com tons expressionistas ( a cena que abre o filme, com os médicos filmados de baixo pra cima, numa grande angular, eles usando máscaras de cirurgia, num preto e branco totalmente contrastado parece saída de um filme de Robert Wiene ou Lang, do cinema expressionista alemão, é impressionante ). Já as cenas "mentais" de Johnny, suas lembranças, seus sonhos, são todas num colorido que começa em tons pastéis e vai acumulando cores, num tom mais surrealista. Não só a fotografia cria a aura onírica, mas a própria interpretação, progressivamente rompendo com o realismo, e o espetacular uso do som, sempre exagerado, com pontuações que muitas vezes seguem o sentido dramático oposto ao da cena. O silvo da bomba que irá atingir Johnny é usado repetidamente, criando uma sensação incômoda - é através da aproximação da bomba que a ação retorna à realidade.

A narrativa aposta na perda progressiva da sensação de realidade, e aos poucos perdemos a noção do que é lembrança, do que é sonho, do que é delírio, os elementos vão se misturando de tal forma que o que vemos é muitas vezes confuso, estranho, perturbador.

Num dos sonhos, Johnny encontra-se com Jesus, interpretado de forma extraordinária por Donald Shuterland, não à toa, um dos atores mais identificados com a contra-cultura naquele momento. Recém saído do anarquico M.A.S.H., de Altman, Shuterland faz um Cristo cínico, engraçado, demasiadamente humano. Um Cristo que, impotente diante da desumanidade dos homens, aceita seu papel de "coveiro" da humanidade. Há uma cena muito boa, em que Jesus e Johnny discutem os limites de deus, diante das ações dos homens ( foram os homens que fizeram Johnny ser o que é ), na oficina de carpintaria de Cristo. O trabalho de Jesus é justamente fazer as cruzes que irão enfeitar os cemitérios.

Neste sentido, há um evidente sentimento de cristandade perdida e ressentida no filme. O filme usa e abusa de elementos cristãos, além do próprio Cristo, para mostrar a inviabilidade da proposta cristã ( estendendo-se aí para qualquer outra religião ) em resolver os problemas do mundo. É impossível acreditar em Deus neste mundo. Lembrando a famosa frase de Dostoiévski em "Irmãos Karamazov", "se deus não existe, tudo é permitido", Trumbo parece afirmar, não sem tristeza ou desencanto, que a impossibilidade da existência divina levou o homem a uma permissividade sem limites em relação à sua própria humanidade. "Tudo é permitido": o horror, o horror, como anos depois balbuciaria Marlon Brando, em "Apocalipse Now"(sobre esse filme falarei depois).

(atenção: a partir daqui falo sobre o desfecho do filme. Quem preferir ver o filme antes de saber como ele termina, é bom parar por aqui. )

Ao final, desiludido, Johnny, que consegue finalmente se comunicar com os demais, através de código morse ( batendo a cabeça contra a cabeceira da cama, repetidamente, a frase S.O.S ), pede para ser exibido num show de circo de horrores, pois seria a unica forma de poder conviver com os demais mortais. Diante da recusa ( algo jocosa ) dos médicos e militares, Johnny pede para ser morto. É o climax do filme, que o projeta à condição das obras-primas: os militares recusam a matar o doente, afinal, seria um crime. Há um diálogo esplendoroso entre o general e o capelão, que assistem aos pedidos de Johnny pela morte. O general cobra do padre que diga alguma coisa "confortadora" que faça o "pedaço de carne viva" desistir de sua vontade de morrer. E o padre retruca que não é capaz de pensar nada reconfortante, diante da desgraça que aflige o pobre Johnny. O general, irritado, diz que o trabalho dos padres é esse, reconfortar os desesperados. Ao que o capelão responde: "foi o seu trabalho que fez ele ficar assim, não o meu."

Belo diálogo.
Ao final, um soco no estômago que derruba até o mais insensível dos homens: o que parecia ser uma redenção ( o fato de Johnny conseguir se comunicar com os demais, e finalmente conseguir se socializar, provar que está vivo ), revela-se o pior dos pesadelos. Johnny não quer viver, mas os militares não o deixam morrer. É sedado, mantido confinado em seu quarto, sabe-se lá por quanto tempo mais. É condenado à vida, àquela vida vegetativa, pois os mesmos generais que massacram milhares de homens nas guerras hipocritamente são contrários à eutanásia - cabe somente a deus tirar a vida.

O final do filme é doloroso ao extremo. Sozinho em seu quarto (prisão), dopado, incomunicável, Johnny repete exaustivamente a mensagem de S.O.S, batendo sua cabeça contra a cama, sem obter resposta ou socorro. É um plano longo, um zoom-out, vamos nos afastando daquele pedaço de homem que está condenado a viver, por muitos e muitos anos ( afinal, Johnny é apenas um jovem de 20 poucos anos, e afora não ter braços, pernas, olhos, boca, rosto, ironia das ironias, goza de excelente saúde ). A imagem vai escurecendo lentamante, enquanto escutamos a batida solene de um tambor, um surdo, marcando o compasso do luto. Arrepiante.

O filme não é perfeito. Há algumas irregularidades, principalmente nas cenas surrealistas. Algumas são bem fracas, e apelam para um efeito fotográfico meio ultrapassado, que é o uso do filtro "flood", para criar uma aura de evanescência. Trumbo usa esse efeito em duas cenas: numa em que mostra uma missa, onde o padre diz que "deus está do nosso lado", abençoando os soldados que irão morrer pela pátria e numa outra, na festa de Natal na padaria onde Johnny trabalhava antes de se alistar. Essa cena, aliás, é a mais excessiva do filme, no sentido de concentrar quase todos os elementos de "exagero" típico de "cenas de sonho". Além do filtro flood, há marcas excessivamente teatrais, como a do dono da padaria que, paramentado como um estereótipo do capitalista, faz o brinde que une a todos, patrão e empregados, pátria e jovens que irão entregar suas vidas numa guerra sem sentido nem retorno, repetindo, ad nausean, ao longo da cena, a frase: "I´m a boss, this is a champagne, Merry Christmas".

Particularmente, é o momento menos feliz do filme, que ademais, mereceu de Buñuel a seguinte crítica: "um filme sensível e tocante, que se ressente de alguns sonhos filmados de forma muito burocrática". A crítica de Buñuel é pertinente.

Mas é na parte "real" (ou, a do pesadelo? ) que o filme logra melhores resultados.

Não à toa, ganhou o Prêmio Especial do Festival de Cannes, em 1971, mais o prêmio FIPRESCI.

O filme conta com um elenco afiado: Timothy Bottons interpreta Johnny, Jason Robards faz seu pai ( que ator magistral é Robards, ele se impõe em todas as cenas que aparece), o já citado Shuterland interpreta o divertido e cético Cristo. Além destes, há uma série de bons atores coadjuvantes, com particular destaque à Sandy Wyeth, que faz a prostituta ruiva Lucky ( Sandy era uma beldade nos anos 70, tendo filmado Easy Ryder ). O próprio Trumbo atua no filme, justamente na desastrosa cena do "i´m a boss, this a champagne, Merry Christmas", no papel do capitalista empostado ( a informação é do IMDB, geralmente é confiável ).

Taí uma bela forma de curtir a tarde sonolenta de 25 de dezembro, regurgitando o peru da véspera e de ressaca pelo vinho da ceia. Reúna toda a família e passe Johnny vai à guerra. Vai ser uma experiência inesquecível. Um filme propício para esse momento de confraternização, de solidariedade, de caridade, de respeito, amor e paz entre os homens de boa vontade.

Mas recomendo um anti-ácido àqueles que tenham a sensibilidade ainda não totalmente obliterada.

domingo, 23 de dezembro de 2007

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

coisas que eu gosto ( de ouvir) 6:



The Birds, vários.

Tenho que confessar que nunca fui muito fã dos Beatles. Sempre achei meio bonitinho demais, gracinha demais, legalzinho demais. Claro que eles tem coisas boas, o disco Revolver e o Álbum Branco são muito bons. Mas ainda que sempre rolem bem no toca-discos (ops! ) ou nas festinhas, não é exatamente o que curto em música (pop? nunca soube se os beatles eram uma banda de rock´n´roll ). No mais, prefiro os discos solos dos ex-integrantes dos Beatles, particularmente do trabalho do George Harrinson.

Pra mim, a melhor banda dos anos 60 sempre foi e será The Byrds. Curiosamente, é uma banda que no começo procurava emular "à moda americana" o som dos ditos FabFour. Mas isso não é uma particularidade apenas dos Byrds, a maior parte das bandas surgidas na primeira metade dos anos 60 tentavam pegar carona no sucesso e no estilo melódico dos Beatles - a exceção ou a contrafação seria os Rolling Stones, que não estavam nem aí pra música de seus compatriotas. Mas havia um diferencial nos Byrds. Musicalmente, havia Roger McGuinn, um dos maiores guitarristas americanos com seus "riffs" ao mesmo tempo estridentes e melódicos, muito melhores que os solinhos do George Harrison e muito mais presentes nas canções, ao contrário do pobre Harrison, que era literalmente "abafado" pela dupla Lennon&McCartney.

E depois, havia Dylan.

Durante muito tempo os Byrds foram a melhor tradução de Dylan, de quem gravaram inúmeras canções, em versões musicalmente mais sofisticadas ( à época, Dylan ainda estava naquela fase joãogilbertiana de banquinho e violão e gaitinha ). Em boa parte, a popularidade inicial de Dylan se deve em muito às versões que os Byrds gravaram de suas músicas.

Os Byrds transitaram para o rock mais lisérgico, mais psicodélico e mais sofisticado muito antes do lançamento do Sargent Pepper´s. Fifth Dimension, Eight Miles High, entre outras, aconteceram antes de Lucy in the Sky with diamonds - e musicalmente, são muito mais elaboradas.

Muitos músicos passaram pelos Byrds, ao longo de suas várias formações ( sempre com McGuinn no comando ), o que contribuiu para que os Byrds soassem um pouco diferentes, a cada disco, sem perder sua identidade musical. E como havia um revezamento entre os vocalistas, maior do que o "par-ou-impar" entre Lennon e McCartney, havia uma maior diversidade musical, por conta dos timbres tão diferentes como os de David Crosby, Gene Clark, Chris Hillman e do próprio Roger McGuinn.

No clip abaixo, os Byrds na sua formação clássica canta uma de suas mais belas canções, "Going Back"

Outra coisa que me faz gostar muito dos Byrds. A participação da banda na trilha sonora de Easy Rider, de Dennis Hopper. Posso estar forçando a barra mas, bem, é minha opinão, penso que uma boa parte do impacto de Sem Destino reside na força poética e melódica das canções do Byrds que pontuam a narrativa do filme, como por exemplo a melancólica The Ballad of Easy Rider e a rascante It´s alright, Ma ( I´m only bleeding ) - esta de Dylan.

Das muitas versões que os Byrds fizeram para Dylan gosto especialmente de, além da já citada It´s Alright, Ma, Heels on Fire, My Back pages, You ain´t going nowhere, Chimes of Freedom, Lady Down Your Weary Tune, All I really want to do e Positively 4th street mas não me agrada a versão de Lay Lady Lay tampouco a de Mr. Tambourine Man ( que aliás, foi regravada pelo Zé Ramalho e os The Fevers, sim, eles mesmo, a maior "banda cover de todo mundo" do Brasil, com imitação perfeita dos riffs de guitarra de McGuinn ).

Para quem desconhece o som desta banda, recomendo as coletâneas The Byrds greatest hits, The very best of the Byrds ou 20 Essential tracks ( sendo que este o que acompanha a trajetória inteira da banda ) e, é claro, The byrds play Dylan, coletânea das principais canções de Dylan gravadas pelos "pássaros".

Então, o que estão esperando? Um bom presente pra se dar, nessa época de gastança natalina. As Lojas Americanas costumam vender baratinho. Vocês vão gostar, tenho certeza. E nunca mais vão conseguir ouvir o "quarteto de Liverpool" com a mesma condescendência.

Quadros que queria ter na parede aqui de casa (9)


"As tentações de Santo Antão", de Hyeronimus Bosch.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

fotogramas (4)




Eu e o Durán, num flagrante de reverência explícita.




(não estranhem as minhas longas madeixas nem a batina usada pelo Durán, essa foto é das filmagens de O resto é silêncio, que eu dirigi e que o Durán fez uma participação como ator, cinco anos atrás )

Não fui eu quem disse, mas David Rasche


"- Atores acostumados aos textos de David Mamet sabem que o mais instigante em sua dramaturgia são os duelos de argumentação entre os personagens. Em uma peça como "Oleanna" ( sobre o potencial assédio sexual de um educador sobre sua aluna ), uma hora você se convence que o professor está certo. Em seguida, a estudante argumenta e derruba sua convicção. Você nunca sabe quem tem razão. Com o roteiro escrito por Paulo Halm para "Olhos Azuis", isso também acontece."

Sim, é cabotino me auto-elogiar através do comentário dos outros. Mas cá entre nós, exageros à parte, não é todo dia que você é comparado ao David Mamet.
David Rasche acabou de filmar o mais recente filme do Zé Joffily, Olhos Azuis, do qual sou roteirista.
O David, de quem eu já era fã por conta do impagável seriado "Na mira do tira" ( no qual ele interpretava o detetive durão Sledge Hammer ), é um excelente ator e uma grande figura humana.
Com a ajuda de meio litro de uísque ( agora entendo porque o Nelson Pereira dos Santos só se referia à bebida como "o professor", achava que era um trocadilho com o famigerado Teatcher´s, quando na verdade era uma alusão à capacidade do uísque nos fazer falar perfeitamente qualquer idioma, bêbados não tem fronteiras linguísticas ) consegui conversar com ele, trocar idéias, e aproveitei pra pedir licença para usar seu comentário publicado no O Globo ( matéria do Rodrigo Fonseca ) aqui no meu blog.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

o povão sofre






Foi um domingo ruim para uma grande parte da população brasileira ( O Corinthians tem a segunda maior torcida do Brasil, só perde para a do Flamengo ) e com certeza para uma boa parte da população venezuelana (49% dos venezuelanos, com certeza).

E agora? (2)









E agora, Chavez?




Criaram tanto alarde em torno da emenda constitucional que permitiria a reeleição consecutiva do presidente Chavez e esqueceram dos outros 68 pontos previstos para serem alterados na Constituição Venezuelana, muito mais importantes e fundamentais para a melhoria da vida da maioria da população daquele país.


Na verdade, e em boa parte por culpa do estilo espalhafatoso e algo histriônico do Chavez, usaram a questão da reeleição para brecar as mudanças constitucionais realmente necessárias para o processo de democratização radical que a Venezuela está vivendo.

A direita, os grandes grupos de comunicação, a classe média covarde, a CIA, com certeza o Bush devem estar exultantes. É a primeira grande derrota da esquerda latina depois de um período de sucessivos e importantes avanços ( eleição e reeleição do Lula, eleição do Kirschner e da sua sucessora e esposa Cristina Kirschner, eleição do Evo Morales na Bolívia, eleição do Rafael Correa no Equador, do Tabaré Vasquez no Uruguai e mesmo a primeira reeleição do Chavez ).

Se a derrota no plesbicito significa uma guinada conservadora na tendência pró-esquerda na América Latina ou se é apenas um retrocesso momentâneo, localizado ou tão somente um alerta para conter o açodamento do Chavez ( que às vezes parece mais um personagem do BBB em sua ansia por aparecer do que um verdadeiro estadista ), ainda é cedo para dizer.

Mas que doeu, doeu...

E agora? (1)









E agora, Corinthians?





Sou flamenguista e apesar de estar feliz da vida por termos entrado na Libertadores, fiquei triste com a queda do Curingão pra segundona.

O povão deve ter ido dormir bem triste, ontem...

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Unidos venceremos (2)




O grande ator Danny Glover ( que, dizem, irá dirigir um filme no Brasil ) também apóia a greve da WGA.

sábado, 24 de novembro de 2007

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

entranhas cinematográficas ( e ideológicas ) de Tropa de Elite (final)


Acho que ninguém aguenta mais ouvir falar de Tropa de Elite, tampouco sinto vontade de insistir nesse assunto. Mas não poderia deixar de fechar a série de títulos referenciais para uma plena compreensão do filme do José Padilha sem falar daquele que, sem dúvida, é seu melhor espelho: Nascimento de uma Nação, de D.W. Griffith (1915).
Resguardadas a distância histórica e as diferenças técnicas e mesmo, estéticas de um filme e do outro, há uma clara semelhança na estrutura dramática de ambos os filmes. Nem tanto pela óbvia heroicização do abjeto ( uma tropa militar acima do bem e da constituição, que tortura e mata, em nome da "lei" no caso dos homens de preto de Padilha, e os Ku-Klus-Klans de Griffith ) mas principalmente pela construção do "vilão".

Em Nascimento de uma nação, Griffith, dentro de sua lógica sulista, portanto, com o olhar ressentido do derrotado, deforma a realidade e a história transformando em vilões os abolicionistas e em feras desumanas os ex-escravos libertos. Dentro de seu original e particular ponto de vista, as vítimas são os fazendeiros escravocratas brancos sulistas, derrotado por uma tropa de mestiços nortistas, que se vêem constantemente ameaçados e humilhados pelos cada vez mais arrogantes negros libertos. Há tres vilões no filme: o branco nortista e abolicionista Stoneman, seu braço direito Lynch, mulato ambicioso e, finalmente, a população negra desaforada e animalesca, que se vira contra seus antigos senhores com petulância e brutalidade.


Lógica muito semelhante à elaborada por Padilha no Tropa de Elite: o vilão do filme é a classe média que, segundo o filme, alimenta e sustenta o tráfico, a classe média que defende os direitos humanos dos bandidos e impede a ação erradicadora dos "homens de preto", em suma, a porção dita liberal da classe média, que seria a principal responsável pela força do narcotráfico em nosso país.
Sem muito esforço comparativo, em Tropa de Elite o papel de Stoneman ( o branco que por conta de seus ideais liberais trai a sua raça e favorece tibia e irresponsavelmente a ascensão dos ex-escravos brutos e rancorosos ) seria representado pela classe média liberal, pelos jovens de classe média que consomem drogas, pelas ONGs que mantém relações dúbias com o tráfico; Lynch, o mulato ambicioso que se aproveita do "liberalismo" do patrão branco para ampliar seu poder seria o Baiano, o traficante que cheira pó com os branquinhos de classe média da ONG mas que não reluta em fritá-los no "microondas" quando contrariado ( da mesma forma que Lynch sequestra e tenta possuir sexualmente a filha de Stoneman, seu protetor ); finalmente, a massa de ex-escravos brutais e animalescos seriam os anônimos soldados do tráfico, os favelados que "ameaçam" cada vez mais os moradores do asfalto, a classe média branca e indefesa.
Tanto Birth of a Nation quanto Tropa de Elite deixam claro quem são os heróis na medida em que estabelecem exemplarmente quem são os seus vilões. Os dois filmes demonstram didaticamente as condições que favorecem o surgimento ( e a necessidade ) de tropas paramilitares, com poderes ilimitados, como única forma de defesa da sociedade civil. E se os heróis cometem "excessos" ( a foto que ilustra esta postagem mostra o linchamento de um negro pelos KKK, num momento de violência muito semelhante às cenas de tortura cometidas pelos "caveiras" de Padilha ), a narrativa de ambos filmes justifica e/ou racionaliza o que poderia ser um deslize na conduta dos heróis: trata-se de uma guerra e o inimigo é muito pior, muito mais desumano e, principalmente, mais forte e mais numeroso. Os KKK lincham o negro que tentara estuprar uma inocente e adorável donzela branca, provocando o seu suicídio ( ela prefere se matar a ser possuída por um negro). Os "caveiras" brutalizam uma jovem moradora do morro ( não tão inocente assim, uma vez que era namorada do traficante Baiano ) e quase empalam um marginal com o cabo de uma vassoura, na cena mais brutal de Tropa de Elite, movidos pelo desejo de vingar seu companheiro covardemente assassinado pelos traficantes, com um tiro pelas costas.

Muito criticado, desde à epoca de seu lançamento ( considerado ao lado de O Judeu Süss, realizado na Alemanha Nazista, como um dos filmes mais racistas já realizados ), Birth of a Nation talvez pudesse ser defendido hoje em dia pelo mesmo argumento usado pelos defensores de TE: Griffith estaria apenas retratando o ponto de vista de um racista e, dentro de sua psicopatia, um racista enxergue realmente os negros como vilões e os antigos escravocratas como vítimas indefesas, que são defendidos pelos paladinos encapuzados da Ku-Klus-Klan. Da mesma forma que Padilha "apenas" retrata o ponto de vista de um policial linha dura, sem entretanto compartilhar ou defender este mesmo ponto de vista.
Comparando os filmes, e a reação das platéias de um e de outro, por que isentar Padilha e taxar Griffith de reacionário, ou, por outro lado, por que não "relativizar" o discurso de Nascimento de uma Nação, fingindo que não é racista e facistóide, argumentando que Griffith "apenas" filmou o ponto de vista dos escravocratas sulistas derrotados pela União, sem compartilhar de seus ideais ou tampouco ser um entusiasta dos KKK?

Difícil, não acham? Diria quase impossível.

Em tempo: ao final de Nascimento de uma nação, Stonema cai em si do perigo personificado pelos negros que até então defendia e se alia aos escravocratas, colocando-se sob a tutela dos paladinos encapuzados. Lynch é morto e os negros "petulantes" reconduzidos ( sob a mira das armas dos KKK ) no seu devido e submisso lugar. De certa forma, é essa a mensagem final que Tropa de Elite passa ao seu público: assim como Stoneman, cabe à parcela mais esclarecida da classe média renunciar ao seu liberalismo, parar de proteger os traficantes ( o que é a defesa dos direitos civis e humanos senão "fazer vista grossa" para a bandidagem? ), e deixar que os "caveiras" reestabeleçam a ordem.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Betty a feia também apóia a greve dos roteiristas americanos


A atriz America Ferrera, intérprete de "Betty a feia", em manifestação de apoio à greve dos roteiristas de Hollywood.

A propósito, o seriado Ugly Betty é muito divertido.

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

a praga chamada "politicamente correto" (1)

Não existe nada mais chato que a chamada postura "politicamente correta". Sinceramente, penso que isso é uma manifestação conservadora usada para perpetuar as chamadas "minorias" e demais segmentos explorados historica e cotidianamente numa posição de inferioridade porém, com a consciência tranquila. Crioulo passa a ser "afro-descendente", viado vira "homoerótico, homoaderente", e por aí vai. A terminologia dita agressiva, racista ou machista deve ser abolida e trocada por termos civilizados. O que é uma questão política vira uma questão semântica, ou de etiqueta.

Estranhamente, os defensores desse tipo de pensamento "polido" geralmente são os que mais protestam contra o sistema de cotas para a população negra ascender às universidades, aos empregos públicos, o que de fato criaria condições para uma equiparação econômica, cultural e social com a população branca. Para eles isso é populismo, da mesma forma que bolsa família e projetos sociais vizando reduzir a miséria ( isso então é chamado de esmola ou pior, compra de votos ). Os mais radicais chamam essa política afirmativa de verdadeiro racismo, porque essas medidas compensatórias no fundo seriam atitudes preconceituosas às avessas, descriminando a população branca.

Vejam só a que ponto chegamos: chamar um negro de crioulo é racismo, vetar-lhe o acesso às faculdades, garantir-lhe chances de ascensão profissional, ser contra a criação de cotas nos concursos públicos para uma população históricamente submetida à pobreza, isso não é racismo.

No tocante aos gays, é politicamente correto chamá-los de "homoadeptos", ou qualquer termo nesse gênero, semanticamente polido. Bem provavelmente os adeptos desta espécie de Socila (antiga escola de etiqueta, formadora de dondocas e misses ) vernáculo-liberal devem achar muito divertidas as passeatas gays, etc. Afinal de contas, os gays são tão alegres ( o trocadilho é intencional ). Agora a boa maioria dos adepto da correção política com certeza torce nariz para a extensão dos direitos dos casais heterosexuais aos casais gays ( planos de saúde, herança, adoção de filhos, etc ), pelo ingresso de gays nas forças militares, etc.

A postura "politicamente correta" acaba gerando monstruosidades, algumas tão ridículas que chegam a ser risíveis...

Olha a pérola que li na internet...


Risada de Papai Noel é proibida em Sydney

Os papais-noéis da maior cidade australiana foram orientados a não usar mais o tradicional "ho, ho, ho" devido a risada ser considerada ofensiva contra as mulheres. As autoridades instruíram os profissionais de Sydney a utilizar o "ha, ha, ha".

Um Papai Noel contou que foi aconselhado por uma empresa de recrutamentos a não usar a expressão porque poderia assustar as crianças e também por causa da gíria "ho", prostituta no inglês americano.

Julie Gale, que coordena uma campanha contra o contato precoce de menores com a sexualidade, chamada de Kids Free 2B Kids (crianças livres para serem crianças), é contra a orientação. "Estamos falando de quem ainda não entende 'ho, ho, ho' com outra conotação e nem precisariam", afirma ela. "Deixem Papai Noel em paz", pediu.

Um representante da empresa afirma que é um equívoco dizer que a companhia baniu a risada tradicional do personagem e que a decisão foi deixada a cargo de cada Papai Noel.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

entranhas cinematográficas ( e ideológicas ) de Tropa de Elite (4)


Starship Troopers, de Paul Verhoven


Fantasia gay SA ( não confundir com Sociedade Anônima, e sim referente às SA, ou Sturmabteilung, grupo paramilitar comandado por Ernst Rhöm, que tinha como característica uma real afinidade ao conceito de "socialismo" nacional, dentro da concepção nacional-socialista que fundamentava o partido nazista e uma concepção homoerótica da virilidade, advinda dos gregos... em suma, era a facção esquerdista e gay do partido nazista, que foi devidamente "expurgada" na famosa "noite dos longos punhais", na qual foram quase todos mortos pelos membros das SS ) dirigida pelo até então esperto diretor holandês radicado em Hollywood.
O filme é uma caricatura, o que foi confundido pelos admiradores de Verhoven como um esculacho ao culto do herói, tão caro ao cinema ianque ( pelo menos o cinema ianque dos grandes estúdios, das famosas "majors" ).
Mas no geral, parece fascinado pelo fetiche das fardas, por uma visão de uma sociedade militarizada onde os civis são cidadãos de 2a classe, pelo culto à violência, reproduzida com um sentido quase sexual ( o ato de matar e morrer comparado a um orgasmo ), em suma, uma idealização do soldado como macho superior num mundo exclusivamente masculino, no qual as mulheres são seres inferiores ( só admitidas quando "masculinizadas" ) e onde sentimentos nobres como a lealdade, a fraternidade e o amor ( e claro, o sexo ) só podem ser aceitos entre os iguais. Entendendo igualdade aí restrita à elite da sociedade, ou seja, aos homens. A velha tese boiola que, dizem as más línguas, fazia a cabeça dos gregos ( ..."ou seria dos persas", como diria o personagem gay interpretado por Carlão Kroeber, no delicioso "Guerra Conjugal", filme de Joaquim Pedro de Andrade, sobre o qual um dia falaremos ).
A citação do filme do Verhoven ( que realizou grandes filmes como Turkish delight, Soldado Laranja, Conquista Sangrenta, Robocop, antes de entrar em decadência bem remunerada com Atração Fatal e Showgirls e finalmente, este Starship Troopers ) é pura provocação: não há exatamente pontos de referência entre Tropa de elite e essa tropa estrelar, além do fato do culto ao poder "regulador" das tropas de elite militar na vida social e do uso da tortura como forma eficaz de se vencer uma guerra. Lembremos o filme do Verhoven: ao final, o oficial da Gestapo futurista preconizada no filme tortura o inseto-cerebro ( e ânus ) para obter as informações necessárias para derrotar o exercito de baratas e grilos gigantescos que ameaça a Humanidade. E é através da tortura que a Humanidade triunfa. Ou seja, é um líbelo em defesa da tortura como forma legítima de se combater o "mal" e fazer o "bem" triunfar.
Pensando bem, há muitos pontos de convergência.
De certa forma, a caricatura até bem humorada de Verhoven foi levada a sério pelo Padilha, que faz dos seus "caveiras" um poder regulador dentro de uma "cidade partida", uma espécie de cruzados impolutos e incorruptíveis, e cujo uso da tortura como forma de defesa do bem contra o mal.

Note-se que, da mesma forma que em Full Metal Jacket, em Starship Troopers há o processo cruel de "educação" militar, que transforma homens supostamente civilizados em armas letais. Tudo em nome da defesa da "civilização" contra a "barbárie".

Mas o que em Starship troopers é caricato, debochado e, mesmo, paródico, em Tropa de elite é tratado como um ritual de purificação e depuração dos fracos e indesejáveis ( se bem que, como na cena da "aula de estratégia", com belas tiradas de humor ).

A ação de Tropa de Elite se passa em 1997, um passado recente. Já a de Starship Troppers ocorre num futuro distante.

Um filme mostra o passado recente para "justificar" a violência dos dias presentes. O outro mostra um futuro para "alertar" dos perigos que a ameaçam a humanidade que se deixa desarmar.

Cara e coroa de uma mesma moeda - diante de uma ameaça à civilização, é necessário recorrer às forças acima das leis, da moral, da ética, pois somente estas conseguirão derrotar o mal. Nas entrelinhas, a carta branca que a sociedade ( geralmente, os membros mais aquinhoados das sociedades, a elite ) dá aos fascistas para impôr a ordem e garantir sua sobrevivência.

Recomendo verem Starship Troopers e compararem com Tropa de Elite. Verão que as coincidências são muitas. O problema é que no filme do Verhoven dá pra rir... enquanto que Tropa de Elite provoca uma inevitável sensação de medo.

sábado, 10 de novembro de 2007

Adeus, Norman Mailer


Li na internet a notícia do falecimento de Norman Mailer, hoje, aos 84 anos.
Grande escritor e intelectual norte-americano, autor de livros fantásticos como "Os nus e os mortos", "Os degraus do Pentágono", "A canção do carrasco", entre mais de 40 romances ( entre esses, "A luta", um romance reportagem sobre a disputa entre Muhammad Ali e George Foreman, considerada a mais espetacular luta de boxe de todos os tempos, um romance erótico passado no Egito à época dos faraós, "Noites antigas", em nada semelhante a essa profusão de romances pseudo-históricos que proliferam hoje em dia, e de um "Evangelho segundo o filho" , narrado pelo próprio Jesus - o Saramago teve idéia semelhante, escrevendo O Evangelho segundo Jesus Cristo, mas com estilo totalmente diferente).
Polêmico, brigão, combativo, vaidoso, veterano da 2a guerra mundial, beberrão, mulherengo, meio fanfarrão, um autor ianque da estirpe de Ernest Hemingway, se bem que, literariamente falando, seu jeito de escrever diferisse diametralmente do estilo classudo e seco "hemingwayniano".
Já citado aqui neste blog, com um texto em que fala sobre a escritura de roteiros. Mailer entendia do riscado, alguns romances seus foram filmados, ele atuou em Ragtime de Milos Forman, colaborou no roteiro de Era Uma Vez na América, de Sergio Leone e dirigiu alguns filmes, inclusive o longa, Machões não dançam, adaptação de uma boa novela policial de sua autoria.
Crítico ferrenho da politica imperialista e militarista norte-americana, vai deixar uma lacuna na inteligência americana.
Enquanto isso, Bush engasga no pretzel, atola no Iraque, mas continua firme e forte.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Unidos venceremos




A atriz Julia Lois-Dreyfus, a Elaine do saudoso seriado Seinfeld, manifestando seu apoio à greve dos roteiristas de Hollywood.

domingo, 4 de novembro de 2007

ou esta...


Grateful Dead, mítica banda de rock.

Caveira por caveira, prefiro essas...




Caveiras de açucar do Dia dos Mortos, México.

Caveiras de Cristo


"Os novos cruzados" em pleno culto.
Assim como o capitão Nascimento do filme, os caveiras sofrem de remorsos. Mas ao mesmo tempo crêem que estão no meio da luta do Bem contra o Mal, e que o Bem, com ajuda de Deus e da tortura, irá finalmente triunfar.

domingo, 28 de outubro de 2007

entranhas cinematográficas ( e ideológicas ) de Tropa de Elite (3)


Full Metal Jacket - "Nascido para Matar", de Stanley Kubrick (1987)



Não sou dos maiores fãs do Kubrick, tampouco deste filme. Mas há de convir que há uma profunda semelhança entre o treinamento dos recrutas no filme de Kubrick e o dos "caveiras" de Padilha. Num e noutro, assistimos a cenas brutais, sádicas, um ritual extenuante através do qual o homem se transforma numa besta letal. Tanto em Full Metal Jacket quanto em TE há cenas engraçadas, sendo que a aula de "estratégia" de TE, em que o capitão Nascimento dá uma granada engatilhada para um sonolento aspira Matias segurar, enquanto segue com sua monotona peroração acerca das diferentes versões da palavra "estratégia", é , disparado, uma das sequências mais engraçadas que o cinema já produziu. As cenas são muito parecidas.
Mas ser parecido não quer dizer necessariamente ser igual. É aí que reside a grande diferença entre forma e conteúdo.
A semelhança formal das sequências são enormes, até mesmo no tom visivelmente "exagerado", que provoca risos. Quando analisamos o discurso dos filmes, a distância que surge entre um e outro é abissal. Quase antagônicas.

A diferença entre um e outro filmes é o ponto de vista do diretor - enquanto que Kubrick tem um evidente propósito em mostrar como o homem pode ser desumanizado e tornar-se uma eficaz e disciplinada máquina de matar, dando uma aula sobre o processo de alienação ( e o tom propositalmente caricatural das cenas remete ao distanciamento brechtiano ), em Tropa de Elite o que vemos é um processo de depuração. O treinamento é bruto, não para desumanizar seus participantes, mas para eliminar o mal inflitrado - os corruptos. A brutalidade dos exercícios é uma forma de desestimular que recrutas covardes, preguiçosos e, principalmente, os corruptos consigam penetrar no impoluto corpo de "caveiras".
Neste sentido a humilhação que sofre o capitão Fábio, o tíbio PM envolvido com prostituição e bicheiros, é exemplar: todos sabemos que ele é covarde, preguiçoso e principalmente, corrupto. Típico estereótipo do policial. O que vemos é que na Tropa de Elite não há lugar para tipos assim. E as cenas em que Fábio é achincalhado pelo Capitão Nascimento são sempre bem humoradas. Moral do filme: é assim que se deve tratar os maus policiais. Não é isso que a sociedade quer? Uma polícia honesta, séria, que cumpra seu necessário trabalho? Sem corruptos, sem moleirões, sem covardes e velhacos?


Neste sentido, é inóqua a crítica que o colunista do Globo Arthur Xexéu faz ao filme, ao mencionar o comentário sobre um "aspirante a caveira" que ficou surdo pelo rigoroso treinamento aplicado pelo capitão Nascimento. Vendo, depois, a tentativa do covardão e corrupto capitão Fábio em ingressar na Tropa incorruptível, conseguimos "ver" o que deve ter acontecido com o citado aspirante que ficou surdo. E como Nascimento alerta que "ele era safado", entendemos que ele teve o castigo merecido.


Sobram do treinamento apenas os bons, os mais fortes, os incorruptíveis. Como toda depuração é uma purificação, entendemos que os que sobrevivem para tornar-se "caveiras" são uma espécie de "eleitos", no sentido religioso mesmo da palavra. São imunes à dor, às privações, às tentações. Os "caveiras", antes de máquinas desumanas treinadas para matar, são uma espécie de "cruzados", homens superiores, acima do bem e do mal.


E o conceito de "homens acima do bem e do mal, acima do conceito de classes, disciplinadores da sociedade e mantenedores da ordem" não é exatamente um dos princípios do fascismo?

saudades do "bodódromo" (Petrolina, PE)




"Cabritada mal-sucedida"
(1953)


Samba de Geraldo Pereira e Jorge Gebara



Bento fez anos,
E para almoçar me convidou,
Me disse que ia matar um cabrito,
Onde tem cabrito eu tou,
E quando o "Comes e Bebe" começou,
No melhor da cabritada,
A Polícia e o dono do bicho chegou.
Puseram a gente sem culpa,
No carro de Radio Patrulha e levaram,
Levaram também o cabrito,
E toda a bebida que tinha, quebraram,
Seu Comissário, zangado,
Não tava querendo ninguém dispensar,
O patrão da Sebastiana,
É que foi ao distrito,
E mandou me soltar.


domingo, 21 de outubro de 2007

quadros que queria ter na parede aqui de casa (7)


Jogo de Bola, de Cândido Portinari.

coisas que eu gosto (de ver) 4:


Noite Escura, filme de João Canijo, Portugal 2004.

Grande filme português, de um diretor pouco conhecido aqui no Brasil ( apesar de já ter feito um filme, A Filha da mãe, estrelado pelo José Wilker ). Conheci o João Canijo no Festival de Cinema Latino de Chicago, em 2002. Éramos quase que dois peixes fora d´água. Eu porque estava representando como roteirista o filme da Sandra Werneck, Amores Possíveis ( e em festivais de cinema, se você não é o diretor ou produtor do filme, ou então o ator principal, você fica ali, meio perdido, ninguém te dá muita atenção, roteirista então...). E o João, por ser português. Se no meio daquela multidão de cineastas hispânicos, latino-americanos, ser brasileiro já era motivo de estranheza ( apesar de uma estranheza carinhosa, afinal, nossos hermanos latinos simpatizam gratuitamente conosco ), um cineasta luso, com um filme totalmente rodado em Paris, era realmente uma espécie de ET. O filme que ele tinha em concurso era o belo Ganhar a vida, que retrata a migração portuguesa contemporânea para os países mais desenvolvidos na Europa "sem fronteiras". Nos encontramos numa festa promovida pelo sempre simpático Pepe Vargas, diretor do festival, um convescoste bem familiar, nada a ver com as festas nababescas do cinema brasileiro, uma coisa bem íntima, um churrasco no quintal de sua casa, num simpático subúrbio de Chicago. De modo que o brasileiro e o português acabamos por juntarmos nosso deslocamento e ficamos papeando sobre os cinemas de nossos países.

Papeando é uma licença poética. Meu inglês é, como naquela comunidade do orkut, "too bad", meu espanhol só funciona depois de algumas doses de birita, mas o maior problema linguístico é entender o português falado pelos portugueses. Às vezes parece russo. Realmente, é uma coisa que dificulta em muito a circulação do cinema português no Brasil. "Aquela língua" só consegue ser compreendida com legendas. E pra complicar, o Canijo fala com aquele acento gutural típico dos moradores do Porto, mais fechado e hermético que o português cantadinho dos alfacinhas, os lisboetas. O irônico é que o nosso português é plenamente compreendido pelos lusos, por ação e graça das telenovelas globais, que inundam a programação televisão portuguesa há mais de 20 anos - há casos de emissoras que passam novelas das duas as dez...

Mas não é pra falar dessa conversa de meio-surdos em Chicago que estou escrevendo, e sim para comentar um filme do Canijo, que acabei assistindo em 2004, por ocasião do Festival de cinema Luso-brasileiro de Santa Maria da Feira, onde ambos fomos jurados. Noite escura passou, fora de competição. A despeito da dificuldade de compreensão idiomática, o filme me impressionou sobremaneira. É um filme muito forte, brutal, com uma mis-en-cene elaboradérrima, um ritmo tenso, sempre crescente, uma fotografia cheia de movimentos de câmera que às vezes lembram a movimentação da câmera de um Altman, passando de assuntos e ambientes, criando uma espécie de labirinto visual, onde os personagens parecem aprisionados e sem saída. Ao mesmo tempo, o uso de câmera na mão, sempre tensa e angustiante, encurralada nos limites de um amabiente quase sempre fechado, remete ao cinema de Cassavetes É um filme bastante tenso, sufocante. A trama é inspirada na tragédia de Eurípedes, Ifigênia em Aulis, transmutada para um Portugal moderno, repleto de contradições, dividido entre a fartura dos investimentos da comunidade européia e a agonia de suas tradições e a corrupção de seus valores.

A peça de Eurípedes fala do drama do rei de Micenas, Agamemnon, que é obrigado a sacrificar a filha mais jovem, Ifigênia, a fim de aplacar aos deuses, que vinham castigando seu reino com a seca e a devastação. Agamenon tem outra filha, Electra, que nutre pelo pai uma espécie de amor incondicional. Já a esposa de Agamenon, Clitemnestra, ao descobrir que o marido sacrificara a filha caçula, acaba matando-o.

Na adaptação de Canijo, a ação se passa numa boate de prostituição. Pressionado por mafiosos russos, Nelson, o dono do bordel aceita oferecer sua filha mais jovem como pagamento de suas dívidas. A decisão do pai é questionada pela filha mais velha, que tenta salvar a irmã do destino cruel: tornar-se prostituta. É um filme dominado pelas mulheres, determinadas, enérgicas, enquanto os homens parecem rastejar na sua impotência ou covardia. Nelson ( em ótima interpretação de Fernando Luis) , é tíbio, pusilânime em sua covardia em aceitar o destino cruel que se lhe apresentam. Apesar de amar a filha, tem mais amor ao próprio pescoço. Ele é pressionado por todos os lados: pelos russos, pela filha mais velha ( interpretada por Isabel Batarda, belíssima atriz, aqui enfeiada, masculinizada ), pela esposa Celeste, aparentemente cínica e alienada ( numa interpretação cheia de nuances de Rita Blanco, espécie de atriz-fetiche de Canijo ), pelos próprios remorsos - sabe que é um patife covarde, mas isso não o impede de sofrer.

A trama de Canijo é narrada pelo ponto de vista de Carla, a filha mais velha e mais feia. E é o seu desespero em ver a família ser destruída pela covardia do pai, que no entanto ama desesperadamente. Ela tenta dissuadir o pai, sem sucesso, tenta pedir auxílio à mãe, que ignora seu desespero, tenta ajudar Sônia, a irmã caçula, que entretanto rechaça seu socorro. A percepção de sua incapacidade de mudar o destino, traçado por mãos mais fortes que a sua, vai enlouquecendo progressivamente a personagem.

Num momento intenso do filme, ao propôr que o pai lhe entregue aos russos, no lugar da irmã caçula, ela procura mostrar que, apesar de feia, é muito mais experiente que a outra. Ela seduz o pai, numa cena cheia de sensualidade doentia, incestuosa, que culmina numa felação nervosa a qual o pai não consegue resistir. Essa cena é talvez a melhor representação do "complexo de electra" em cinema ( em detrimento às diversas representações do mito do amor edipiano, que gerou filmes tão dispares quanto O sopro no coração, de Louis Malle, La Luna, de Bertollucci, Os imorais, de Sthephan Frears e, mesmo, os incompreendidos, de Truffault). Mas nem pelo sexo ela consegue demover o pai tíbio e covarde.

O filme é impregnado de violência. A abertura do filme mostra Carla lavando o assoalho sujo de sangue de uma prostituta russa, que aparece com a garganta dilacerada. Mais adiante, um sócio de Nelson será esfaqueado na jugular, em meio a uma discussão com o chefe dos mafiosos russos. Uma outra prostituta é enforcada - seu corpo despenca do teto pesado e inerte. No final, há um tiroteio, muitas mortes - enquanto isso, mulheres em trajes sumários, seminuas exibem-se monotonamente no palco da boate, num contraponto que remete à disputa entre Eros e Thanatos, com a predominância deste.

Numa tentativa final de salvar a imã, Carla parte para o sacrifício, pistola na mão, enfrentando os russos. Mas mais uma vez, ela falha. E morre. Sua morte não impede que Sônia seja levada pelos mafiosos russos, tampouco salva o pai. Nelson, causador e vítima de sua própria desgraça, é morto por Celeste. Ao final do filme, enquanto os corpos de Carla e Nelson abraçados e unidos pelo mesmo sangue derramado jazem no estacionamento, a noite segue na boate, onde clientes e prostitutas seguem seu cotidiano aviltante, sem perspectivas, mais monótono do que trágico.

Aliás, dentro do conceito de tragédia grega, as prostitutas e clientes da boate de Nelson funcionam como uma espécie de côro, que de certa forma comenta, num segundo plano, aspectos da história e, principalmente, a questão da prostituição - que seria uma metáfora da situação de Portugal, corrompido pelos euros que mudaram radicalmente o país, sem no entanto resolver nenhum de seus problemas estruturais ( tanto que é um dos países mais pobres da comunidade européia ).

O filme é tenso, duro, nervoso, de um colorido neurótico - há uma preponderância das cores vermelhas e verdes, por sinal, cores da bandeira portuguesa. Num dado momento da trama, a personagem Sônia, a irmã caçula, canta uma triste canção, uma espécie de fado - e o que é o fado se não uma junção entre a premissa fatalista da tragédia grega e a melancolia incurável dos portugueses? A canção funciona como uma espécie de comentário melódico ao filme, mas também é um contraponto - é um raro momento de doçura ( ainda que uma doçura agônica, acridoce ) em meio à nervosa movimentação da câmera e a cada vez mais tensa atuação dos atores.

É uma pena que a sonoridade do português de Portugal difira tanto do nosso português. Isso impede que um filme impressionante como Noite Escura possa vir ser exibido no Brasil. Pelo menos, não sem legendas. Tenho uma cópia em dvd que só dá pra assistir com auxílio das legendas em inglês.

É lamentável porque, além de privar o público brasileiro do cinema de Canijo, sem dúvida um dos cineastas portugueses mais interessantes, figura constante em Cannes - Noite Escura concorreu à Palma de Ouro e também foi o filme português indicado ao Oscar de filme estrangeiro - , essa dificuldade idiomática entre Brasil e Portugal acaba criando o mito de que o único cineasta português é Manoel de Oliveira, cujos filmes acabam passando no Brasil com mais frequência mas pelos quais eu não tenho a menor paciência (apesar de achar simpático o velhinho continuar filmando a "bordo" dos seus noventa e tantos anos, mas daí gostar de seus filmes, há uma grande distância ).

João Canijo e Pedro Costa ( O quarto de Vanda, Juventude em marcha ) são os melhores realizadores portugueses da atualidade, sendo que o cinema de Canijo me agrada mais, pela sua elaborada dramaturgia. Pena que falemos a "mesma" língua. Fossem cineastas espanhóis ou franceses, ou mesmo romenos, seus filmes teriam melhor aceitação aqui, no Brasil.

sábado, 20 de outubro de 2007

coisas que eu gosto ( de ouvir) 5:



A bossa eterna de Elizeth e Ciro


Disco fundamental para quem deseja conhecer a boa música popular brasileira.
Dois pesos pesados da musica brasileira dando o melhor de si, para felicidade daqueles que apreciam um bom samba.
A divina Elizeth Cardoso, consagrada por interpretações sublimes e pungentes ( considero sua gravação de "Barracão", de Herivelto Martins, no disco ao vivo com Jacó do Bandolim a mais bela interpretação da MPB ) revela aqui seu lado mais descontraido, ao lado do sempre irreverente e malandro Ciro Monteiro.
Sou fã de carteirinha do "formigão", sem dúvida o mais carioca dos cantores da MPB. Apoiado num timbre de voz saboroso, dono de um estilo personalíssimo, Ciro esbanjava alegria.
Ao seu lado, a Elizeth dá um tempo à "diva" e incorpora uma cabrocha cheia de ginga e malandragem. É um disco que celebra a alegria, e que compartilha com os ouvintes o prazer de viver.
Na versão "bolachão", tanto o lado A quanto o B abriam com dois deliciosos "pout-porrys", com duelos entre Ciro e Elizeth, marcados pelo bom humor que contagia o ouvinte. São trechos de canções imortais, cuja letra imediatamente vem à lembrança e é irresistível não unir nossa voz à dos grandes cantores. É o caso de Taí, de Joubert de Carvalho, Adeus Batucada, de Ismael Silva ( por sinal, dois grandes sucessos de Carmen Miranda ), ou Mulher de Malandro, de Heitor dos Prazeres e Meu fraco é mulher, de Conde e Heitor de Barros.
Nestas e nas demais faixas do disco, Elizeth e Ciro são acompanhados pelo regional do Caçulinha ( sim, ele mesmo, o que hoje se apresenta no "circo de horrores" dominical do Faustão, triste aposentadoria para um grande músico ), em ótima forma.
Juntos também a dupla arrasa com "Quando eu penso na Bahia", de Ary Barroso, número cheio de deliciosa teatralidade, bem ao estilo do teatro de revistas - um aspecto da cultura e do show bizz brasileiros lamentavelmente perdidos. Ao ouvir essa faixa, quase é possível "ver" Elizeth e o formigão em um palco imaginário, tal a força visual da interpretação.
Nos momentos solos, o destaque é a emocionante Sei lá Mangueira, que Elizeth canta de forma sublime, talvez a mais bela canção sobre já feita sobre a verde-e-rosa, curiosamente composta pelo rival portelense Paulinho da Viola, com versos de Hermínio Belo de Carvalho: "visto aqui do baixo, mais parece o céu no chão". Que bela metáfora.
Outra boa interpretação de Elizeth é o samba "Louco", de Wilson Batista e Henrique Alves, que anos depois o saudoso João Nogueira iria gravar e associar inevitavelmente à sua carreira: "louco, pelas ruas ele andava, o coitado chorava/ transformou-se até num vagabundo/ Louco, para ele a vida não valia nada, para ele a mulher amada/ era seu mundo".
Já Ciro arrebenta com Certa Maria, composição sua com o poetinha Vinícius de Moraes.
É um disco que não parece ter sido gravado há quase 40 anos. O frescor e força dos intérpretes, a eternidade das canções, o clima de camaradagem que emana das gravações, sempre contagiante, afungentam qualquer sentimento nostálgico.
Um disco pra botar no "repeat" e deixar rolar. Recomenda-se ouvir acompanhado de uma boa cervejinha gelada. Ou melhor, várias.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Precisa dizer mais alguma coisa?


Capa da Veja desta semana.
"Pegou geral" - O filme Tropa de Elite é o maior sucesso do cinema brasileiro porque trata bandido como bandido e mostra usuários de droga como sócios dos traficantes".
Para uma revista sabidamente inimiga do cinema nacional, seria estranho uma capa e uma crítica tão elogiativas...
Seria estranho, não fosse a Veja a porta-voz da direita brasileira. A maior publicação conservadora da mídia brasileira não ia fazer essa publicidade de graça.
O Padilha pode se dizer "surpreso" com a reação empática dos expectadores que gritam "caveira" ou aplaudem o seu capitão Nascimento no escurinho do cinema. Pode tirar o corpo fora dizendo que "apenas retratou o ponto de vista de um policial" e jogar a culpa na platéia pela "leitura" fascistizante que fazem do seu filme. Mas será que ele vai escrever uma carta pra Veja criticando o ponto de vista ultra-direitista da revista sobre seu filme?
A pergunta que não quer calar: o Padilha não sabia o filme que estava fazendo?

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

momento gastronômico (1)


Falei que, vez em quando, ia publicar umas receitas. Pois é, adoro cozinhar. Saudades do tempo em que tinha um fogão de seis bocas. Foi logo que mudei pra Santa Teresa, 11 anos atrás. Quem frequentou o apartamento da Aarão Reis e partilhou das minhas "experiências" culinárias deve sentir saudades das verdadeiras orgias gastronômicas que volta e meia eu produzia lá.

Hoje em dia sou um cozinheiro preguiçoso. Só enfrento o fogão quando tem visitas. Sem contar que a Clarisse também cozinha bem. E que a Beth, a moça que trabalha aqui três vezes por semana, cozinha muito bem, de modo que enfrentar uma cozinha tem que ser por uma boa causa. Um puta almoço de domingo, com amigos, por exemplo. E sou daqueles cozinheiros pantagruélicos, gosto de cozinhar pra um batalhão. Minha feijoada é famosa. Dizem que dá de dez na do Mineiro, de Santa Teresa ( que a Angela não leia esse blog ). Mas não faço p´ra menos de 20 pessoas. Durante a Copa passada, a galera vinha ver o jogo ( aliás, ia, era ainda em Santa Teresa ) lá em casa, menos por conta do futebol insosso do timeco do Parreira, mas para "afogar" as mágoas na suculenta feijoada - que, modéstia a parte, é feita só com carnes nobres do porco.
O bacalhau ao zé do pipo, que eu prefiro chamar de "bacalhau dos amigos", que geralmente sirvo na época do Natal, também faz a alegria da moçada. A lula recheada também tem seus fãs, bem como o polvo a espanhola e, claro, o lombinho com puré de maças que durante um tempo, era a especialidade da casa.
Mas a intenção aqui é partilhar de receitas legais, não encher a minha bola.
A primeira que publico aqui é um prato maravilhoso, a Camoranga, ou mais simplesmente, camarão na moranga. Esse ainda não fiz, foi a Clarisse que cozinhou outro dia. Não é dificil, não. Prato ideal pra tres, quatro pessoas no máximo. Excelente pra um dia frio, se estiver chovendo então, melhor ainda. Com um vinhozinho, desce "redondo", mas também não cai mal com uma cerveja gelada e uma cachacinha. É comer e ficar "lagarteando" de barriga pro alto, o que pode não ser lá muito saudável, mas não tem nada melhor.


CAMORANGA


Ingredientes:

1 moranga média

3 colheres (sopa) de azeite de oliva

1 cebola picada

2 xícaras (chá) de molho de tomate

2 xícaras (chá) de requeijão cremoso

2 colheres (chá) de molho de pimenta

500 g de camarão limpo

1 xícara (chá) de salsinha picada

sal a gosto


Modo de Preparo:

Lave a moranga, faça uma tampa na parte superior e com uma colher retire as sementes e as fibras. Em seguida, embrulhe a moranga a moranga com papel-alumínio e coloque-a em uma panela grande. Junte 1 litro de água, sem cobrir a moranga, leve ao fogo e cozinhe por 30 minutos, ou até ficar macia. Aqueça em uma panela 2 colheres (sopa) de azeite de oliva, junte a cebola e refogue, mexendo de vez em quando, até dourar. Adicione o molho de tomate, o requeijão, o molho de pimenta e o sal. Misture bem e cozinhe por 5 minutos, mexendo de vez em quando. Por último, adicione os camarões e a salsinha e misture bem. Cozinhe, mexendo de vez em quando, por mais 5 minutos, ou até os camarões ficarem cozidos. Retire do fogo e despeje o creme de camarões dentro da abóbora. Pincele a casca de abóbora com o azeite restante e embrulhe-a em papel-alumínio. Disponha-a em uma fôrma de 30 cm de diâmetro e leve ao forno em temperatura média por 20 minutos, ou até a abóbora assar. Retire do forno e sirva em seguida.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

entranhas cinematográficas ( e ideológicas ) de Tropa de Elite (2)


Mississipi em Chamas, filme de Alan Parker.



Considero este filme um dos mais abjetos já realizados. O cineasta inglês foi mais feliz em filmes como Expresso da Meia-Noite, apesar da xenofobia anti-turca, em Asas da Liberdade, no ótimo Commitments, em Coração Satânico. Mas este seu filme me incomoda pelo descompasso entre o discurso progressista - a luta pelos direitos civis na América, no início dos anos 60 - e a metodologia típica dos filmes policiais mais fascistas, comum à cultura e ao cinema hollywoodiana. Recordemos a história do filme: Gene Hackman e Willian Dafoe são dois agentes do FBI que investigam o cruel assassinato de militantes dos direitos civis pela Ku-Klus-Klan, no Mississipi ainda dominado pelo racismo. Para desbaratar o grupo de extrema direita, e capturar os assassinos, o policial experiente e linha dura (interpretado por Hackman ) acaba convencendo o colega liberal e ético ( Dafoe ) que somente pelo mal poderão vencer o mal. E para combater os KKK terão que usar os métodos mais sujos - no caso a tortura. Eles capturam e torturam um dos membros do Klan que, como inevitavelmente acontece em casos de tortura, acaba delatando o resto do grupo. O que me incomoda é a lógica de que os fins nobres justificam os meios mais perversos. Tortura é crime hediondo, mas o fato dos "bons" torturarem os "maus" (ainda mais por uma causa nobre ) acaba sendo absorvida ( e absolvida ) pela platéia como um método necessário para o combate ao crime, ao racismo, etc.
A ética do filme é maniqueísta pois estabelece que o crime quando praticado pelos maus é errado, enquanto que o crime praticado pelos bons é justificavel, e em certas circunstâncias, aceitável e mesmo necessário. Esse discurso é adotado pelo filme do José Padilha, ainda que ele insista em dizer que o filme só faz reproduzir o ponto de vista do personagem policial, que pratica a tortura. No filme do Parker há um conflito entre o personagem ético ( "certinho e careta") de Dafoe e o personagem realista e pragmático ( "que conhece a realidade das ruas" ) de Hackman quanto a sujar as mãos em nome do exito da missão. Ao final do filme, os bons triunfam, o mal é derrotado e a sensação que o expectador vivencia é que para derrotar o mal é necessário renunciar ( como faz o personagem de Dafoe ) à sua consciência, aos seus princípios éticos e morais, e "sujar as mãos", usando de métodos tão hediondos como os praticados pelo inimigo.
O que me irrita particularmente no filme de Parker é o uso de uma causa nobre - a luta pelos direitos civis e humanos, o combate ao racismo - para justificar a prática da tortura (ou de qualquer expediente abominável ). Como, a exceção talvez de reacionários racistas, ninguém simpatiza mesmo com os membros da KKK, quem irá se importar que eles sejam torturados, mortos, who cares? O importante é punir o mal, seja lá sob qual a forma ele apareça. Sejam os racistas da KKK, os bandidos, os traficantes, os terroristas. Pela ótica do filme, se aceitamos que sejam usados métodos "não-ortodoxos" no combate ao crime, ao mal, como protestar contra a tortura que o governo americano pratica em Guantánamo contra os prisioneiros supostamente acusados de terrorismo?
No caso brasileiro, quem liga se o Bope tortura traficantes?
Talvez haja um exagero, como quando no filme, os bravos soldados da Tropa de Elite torturam uma moça da favela para que ela revele o paradeiro do "Baiano", afinal, ela não é bandida. Talvez a platéia se incomode com a exposição da violência - mas o filme, até por sua postura "independente", não julga a ação dos seus personagens, deixa para a platéia julgar. E qual o julgamento que se espera de uma platéia assustada pelos altos índices de violencia e criminalidade vivenciados hoje no Brasil? Ainda mais uma platéia que assiste a um filme que, ao renunciar a uma visão crítica, apenas mostra os "homens de preto" como seres humanos, passíveis de erros, capaz de exageros, porém profundamente dedicados ao combate ao crime e a corrupção.
Da mesma forma que a platéia se identifica com os nobres agentes do FBI na sua luta contra os racistas criminosos da KKK, e perdoa ou mesmo admite o uso de meios sujos nessa luta, penso que a platéia brasileira pode achar brutal algumas cenas de Tropa de Elite, mas sai do cinema com o sentimento reconfortante de que felizmente existe no país alguém que faça o "serviço sujo" para ela. E a visão acrítica ou, como prefere o Padilha, "independente" do filme "Tropa de Elite" acaba servindo para aplacar a consciência pesada do expectador, que no escurinho do cinema, considera que aquela tortura é incorreta porém necessária, afinal, como o filme também mostra, os maus, os traficantes, os corruptos, a classe média permissiva, precisam ser derrotados.
E no mais, por mais que o filme e seu diretor tenham adotado uma postura "independente", Tropa de Elite não consegue fugir ao maniqueísmo. Independente dos "excessos", independente da brutalidade de muitas cenas de tortura ( o da moça da favela e o quase empalamento de um vapor, devidamente interrompido pela vitima que se "dispõe" a delatar o esconderijo do traficante antes que os expectadores sejam violentados por uma cena realmente brutal, como bem observou Carlos Reichenbach, num artigo em o Globo ), o maniqueísmo domina o filme, até mesmo na escalação do elenco. Os "bons" tem cara boa. Os "homens de preto" são os boa-pintas Wagner Moura, Caio Junqueira e o André Ramiro enquanto que o "vilão", o traficante Baiano (Fábio Lago ) é feioso, barrigudo, despojado de qualquer atrativo. Será que ao pensar "visualmente" seus personagens, o Padilha teria tido uma postura "independente"?

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

O retorno do Jedi ou a volta do boêmio - Eduardo Coutinho reencontra seu melhor cinema





Jogo de cena, de Eduardo Coutinho.

Confesso que achava que o cineasta Eduardo Coutinho estava nos "devendo" um bom filme há tempos.

Autor dos magistrais Cabra Marcado pra Morrer ( sem dúvida, um dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos ), Santa Marta-duas semanas numa favela, Boca do Lixo, Santo Forte e Edifício Master, Coutinho tinha demonstrado uma certa "preguiça" no Babilônia 2000, que, apesar de simpático, era uma espécie do "mesmo do mesmo" do cinema que, desde "Boca do Lixo, o diretor vinha propondo. Uma sala de visitas para pessoas simples, gente do povo, anônimos, geralmente em condições adversas, falarem de suas vidas anônimas, se exporem, cantarem (desde Boca do Lixo todos os filmes de Coutinho têm um "número musical" ), em suma, brilharem. O cinema humanista de Coutinho parece ecoar os versos de Caetano ( na verdade, inpirado em Maiakovsky ) que dizem: "gente é pra brilhar, não pra morrer de fome". Mas se havia simpatia ( e todo carioca sabe que "simpatia é quase amor") em Babilônia 2000, a impressão que passava ( ao menos, para mim ) era de uma visível indolência, uma repetição, como se o diretor houvesse encontrado uma "fórmula" que, como sempre acontece, acaba por diluir a força expressiva de seus melhores filmes.

Depois veio "Peões", que considero um dos filmes mais reacionários já realizados no Brasil. Vou melhorar a frase: um dos filmes mais reacionários já realizados por um cineasta nitidamente identificado com os valores sociais e com as classes menos favorecidas. Um amigo em comum me disse que Coutinho não gostava do Lula. Gostar ou não do Lula é um direito do Coutinho, mas daí fazer um documentário impregnado com essa antipatia, disfarçando-o de forma a parecer "neutro", são outros quinhentos. Peões é um filme que busca o tempo todo "demonstrar" que, enquanto Lula se "deu bem", seus antigos e anônimos companheiros de fábrica e de greves tinham ficado para trás, tinham fracassado, como se fossem apenas uma massa de manobra para a ascensão do líder operário que viria tornar-se presidente do Brasil. Para defender a tese, Coutinho chega a cometer um dos "pecados capitais" do documentário: o falseamento da "verdade", através da omissão de fatos que, se expostos, revelariam o parcialismo de seu ponto de vista. Um exemplo: para mostrar que a maioria dos companheiros de Lula acabou no ostracismo, na pior, enquanto o atual presidente ascendia politica, social e mesmo economicamente, Coutinho "omite" que um daqueles anônimos, que desfilam pelo filme, na verdade é Djalma Bom, um dos fundadores do PT, ex-deputado federal e atualmente vice-prefeito de São Bernardo. No filme, ele é apresentado apenas como um ex-operário, que tocava violão ( olha aí o número musical ) nos comícios, reforçando a tese (reacionária ao extremo, digna de um Diogo Mainardi da vida ) de que só Lula teria obtido vantagens nas famosas greves do final da década de 70, enquanto que a massa, "aqueles anônimos que realmente fizeram a greve", no final das contas, apenas perderam. Questionável manipulação da verdade para defender uma tese, por si só lamentável.

Por muito menos, por editar "desfavoravelmente" o depoimento de Charlton Heston, porta voz da famigerada NRA, quase crucificaram o Michael Moore...


Depois veio "O Fim e o Princípio", que, sinceramente... é uma nulidade, uma chatice sem par, um filme que parece ter sido realizado apenas porque deram dinheiro para o diretor filmar "o que bem entendesse", como ele mesmo diz, na narração, no ínicio do documentário (?). Nem a famosa capacidade do Coutinho em extrair depoimentos sinceros e espontâneos de seus entrevistados, que torna seus filmes tão pessoais e interessantes, parece funcionar. Tudo soa meio forçado, ele chega ao ponto de perguntar a uma octogenária se ela tem medo da morte. Feito por um dos muitos imitadores do Coutinho ( aliás, uma praga na cinematografia brasileira recente, quase 80% dos estudantes de cinema fazem filmes pastichados dos filmes do Coutinho ), O Fim e o Princípio teria sido ignorado ou mesmo tratado como pueril. Mas os fãs de Coutinho, assim como seus imitadores ou discípulos, são complacentes, e o filme foi elevado à estratosfera das obras primas. Houve quem enxergasse naquela "conversa pra boi dormir" uma espécie de "prosa roseana" cinematográfica, seja lá o que isso venha significar... mas a maioria da crítica no Brasil é assim, mesmo. Ou totalmente bajuladora, ou de uma fúria sanguinolenta.

Por essa razão, há algum tempo considerava Coutinho no "vermelho", estava nos devendo um filme que fizesse juz à sua fama e ao seu talento. Eis que surge "Jogo de Cena". Talvez o filme do Coutinho mais rico, do ponto de vista da linguagem cinematográfica, desde Cabra Marcado. Ainda que seja um filme no formato "talking heads", cabeças falantes, planos próximos de rostos, closes, pouquissíma ou quase nenhuma mudança no enquadramento (afora uma ou outra inserção de planos dos entrevistados subindo uma escura escada em espiral, que leva ao palco do teatro onde ocorrem as entrevistas ), o filme cria um espetacular jogo metalinguístico, a partir do confronto entre realidade e ficção, com atores e personagens reais alternando depoimentos, criando uma rica dialética, na qual o expectador é apresentado aos mecanismos da criação artística. Como não lembrar de Brecht? Como não lembrar de Pirandello? O filme provoca diversas reflexões. O que é realidade? O que é simulação? O que é criação? O que é material dramático? O expectador é questionado o tempo todo, forçado a pensar, melhor: convidado a pensar, pois, mais do que em qualquer outro de seus filmes, Coutinho nos transporta da poltrona do cinema para um banquinho, ou, mais comum numa filmagem, para uma "três tabelas" colocada ao lado da câmera e diante do entrevistado, partilhando com o diretor o convívio direto com aquelas pessoas, aquelas mulheres, personagens reais ou interpretes, e mesmo essas, pessoas reais, despojadas da "máscara", desencarnadas dos seus personagens.
O que poderia ser apenas um "jogo de cena", aos moldes do quadro que o Jorge Furtado criou no Fantástico (onde atores e personagens reais contavam histórias, cabendo ao expectador advinhar quem era quem ), nas mãos habéis de Coutinho, com ajuda da montagem brilhante de Jordana Berg, vira um profundo estudo sobre o ser humano, mais especificamente, sobre a mulher.

"Jogo de cena" talvez seja o filme mais profundamente feminino já realizado por um homem, similar cinematográfico da poética de Chico Buarque ( reconhecidamente, um homem que consegue entender e traduzir como poucos a essência feminina ). Os depoimentos, tanto os reais, como os interpretados, são reveladores da "dor e a delícia de ser o que é”, como dizia aquela canção do Caetano ( outro que também entende e muito da anima feminina ). Por outro lado, o depoimento das atrizes sob o processo de composição das "personagens" que interpretam é uma aula de dramaturgia. Penso que, desde Nossa Música, de Godard, não via um filme tão imprescindivelmente didático, no sentido de ensinar cinema. Devia ser incluído nos currículos de todas as escolas de cinema, não na cadeira de documentário, mas na área de dramaturgia, especificamente em direção de ator.
"Jogo de Cena" consegue ser profundamente intelectual e ao mesmo tempo, emocional, sensível, comovente. Porque no fundo, o filme aponta a gênese de toda criação artística e intelectual : o ser humano, com suas qualidades e defeitos, com sua beleza e feiúra, com sua força e sua fragilidade. Seja numa atitude mimética, seja questionando os processos de simulação da realidade, a função da arte no fundo é do recompôr a nossa humanidade estilhaçada, e o artista, seja ele o ator, o poeta, o cineasta, é aquele que recolhe nossos fragmentos perdidos e nos devolve a unidade perdida. Nos reintegra. Nos totaliza. "Jogo de cena" não mostra "versões" diferentes de um mesmo ser. Ele completa cada uma daquelas mulheres, torna aquelas mulheres anônimas em seres humanos ímpares, únicos, cada qual ciente da " dor e da delícia de ser o que é". E no palco de Coutinho, tanto as atrizes famosas, como as menos conhecidas e aquelas mulheres anônimas, todos brilham com a mesma intensidade. "Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome" - é isso o que o filme nos mostra.
Há, entre muitos achados geniais e tocantes, um momento especialmente mágico. Uma das personagens canta uma canção ( não seria um filme do Coutinho sem um personagem cantando, não é mesmo?). Ouvimos, em off, Marília Pera, a atriz que "a interpreta", cantando em contraponto a mesma canção. Através do som, realidade e simulacro se unem, pessoa e intérprete se fundem, é um momento de rara poesia.
É gratificante testemunhar o reencontro de um grande cineasta com seu melhor cinema, após alguns trabalhos menos interessantes ou mesmo, decepcionantes. Eduardo Coutinho mostra que, como poucos, conhece o "segredo do polichinelo", sendo capaz de reinventar seu próprio cinema, quando muitos ( eu, inclusive ) consideravam-no exaurido. Aos 74 anos, o mestre faz um filme cheio de frescor, de vitalidade, de um humanismo contagiante e necessário, nestes tempos de cinismo e desencanto, profunda e verdadeiramente moderno. Perto de Jogo de Cena, os ditos filmes "moderninhos" parecem rançosos, natimortos.

Um grande filme. Imperdível. Mais: imprescindível.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

entranhas cinematográficas ( e ideológicas ) de Tropa de Elite (1)


Batalha de Argel, de Gillo Pontecorvo (1966)


Filme magistral sobre a luta pela independência da Argélia contra colonizador francês. O filme, que é totalmente ficcionado, passa, pela maestria de suas tomadas, a impressão que é um documentário. As cenas de conflitos são de um realismo cru e ao mesmo tempo, eletrizante.
Penso que o Padilha ou, com certeza, o diretor de fotografia do Trope de Elite, Lula Carvalho, deva ter se inspirado nas imagens de Batalha de Argel para compôr as cenas da ação do Bope nas favelas. Até porque, geograficamente, os bequinhos e vielas de nossas favelas lembram muito os tortuosos caminhos da Casbah argelina ( imagino que talvez eles também tenham usado o magnífico filme Terra e Liberdade, do Ken Loach, como modelo para filmagem das cenas de combate ).
Mas o que me fez lembrar mais do Batalha de Argel foi a atuação do pelotão de paraquedistas franceses, tropa de elite sanguinária enviada para Argel, num momento em que os guerrilheiros argelinos começam a ter sucessivas vitórias em sua luta. Da mesma forma que a nossa "tropa de elite", o esquadrão francês se utilizava da violência bruta e da tortura para derrotar seu inimigo. A cena em que o comandante paraquedista francês tortura um prisioneiro argelino com um maçarico é uma das mais brutais do cinema. De certa forma, a tática dos militares franceses foi incorporada pelo Bope - a tortura destrói o inimigo duplamente: fisicamente pela dor, e moralmente, pelo que é obtido pela dor - a delação, a traição.
E a concepção de que o "mal" só poderá ser derrotado por um "mal" pior e mais malévolo parece reger tanto a atuação dos paraquedistas franceses como a da "tropa de elite" tupiniquim.
A estratégia do terror como forma de intimidar e derrotar os inimigos não é nova. Os aviões nazistas da Legião Condor tocavam sirenes assustadoras quando se aproximavam de Guernica, anunciando o bombardeio e a matança, na Guerra Civil Espanhola. Copolla iria reproduzir essa sensação de pavor e atemorizamento na famosa cena em que helicópteros americanos atacam aldeias vietnamitas ao som ensurdecedor da Cavalgada das Valquírias, de Wagner, no magnífico Apocalipse Now ( filme que Carlão Reichenbach considera fascista, opinião com a qual não concordo, mas isso é outra história ). Cavalgada das Valquírias é também a música que acompanha as ações dos cavaleiros embuçados da Ku-klus-klan de Nascimento de uma nação, de Grifitth. A caveira, que o aspira Neto tatua no braço, a caveira que é o símbolo do Bope e "grito de guerra" dos ardorosos admiradores do filme do Padilha, por sua vez, era a insígnia da SS nazista. E o "Caveirão", blindado usado pela polícia carioca para invadir favelas, por sua vez, usa sirenes e gritos de guerra amedrontadores, da mesma forma que a Legião Condor nazista.

Recomendo assistirem ao Batalha de Argel. Além de ser um filmaço, nos ensina que o uso do mal contra o "mal" não surte efeitos duradouros. Da mesma forma que a violência da repressão francesa não conseguiu impedir a população argelina de obter sua independência, me parece que a repressão estúpida praticada pelo Bope, que viola os direitos humanos, que apenas reproduz de forma ampliada o mal produzido pelo "inimigo", está igualmente fadada ao fracasso.
Mas o filme do Padilha sequer aventa essa possibilidade.