domingo, 30 de setembro de 2007

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Pegadinha



Responda rápido, sem pensar: quem é esse belo tipo faceiro da foto ao lado:

(a) Cate Blanchet?
(b) Jude Quinn?
(c) Bob Dylan?
(d) Todas as opções acima?

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

O ovo da serpente

Sobre Tropa de Elite


O cinema é um excelente veículo para difusão ideológica. Tanto Leon Trotsky, um dos líderes da revolução russa, pela esquerda, como Goebblels, ministro da propaganda de Hitler, pela extrema-direita escreveram textos defendendo o uso do cinema como arma ideológica ( Goebblels sonhava com um "Encouraçado Potemkin" nazista, e tentou seduzir o mais renomado diretor alemão de então, Fritz Lang, a tornar-se o cineasta oficial do nazismo, mas Lang disse que ia ali comprar um cigarro e fugiu da Alemanha ). A indústria hollywoodiana sempre se serviu do cinema como forma propagandistica, seja dos ideais do "american way life", seja do anti-comunismo ( até filmes de ficção científica como "Vampiros de AlmaS", de Don Siegel, com seus alienígenas frios e coletivistas que se apossavam de corpos e almas dos indefesos americanos, metafora até divertida - pelo menos hoje, podemos rir com isso - da "lavagem cerebral" ou cooptação, promovidas pelos comunistas ), seja contra o inimigo da vez, fossem russos, chineses, cubanos, vietnamitas, narcotraficantes e agora os muçulmanos.
Da mesma forma, mas sem menos impacto ( por não dispôr de um poderoso sistema de distribuição e exibição, como Hollywood ), a esquerda soube usar a força das imagens como forma de denunciar o capitalismo, o imperialismo, os desmandos de Washington, ou simplesmente, propagando a idéia ou utopia de um mundo melhor, mais igualitário, em detrimento aos padrões determinados pelo consumismo - o "ser" em detrimento ao "ter".
Falar hoje em direita e esquerda pode soar como arcaísmo, nostalgia, anacronismo. Para muitos, a divergência entre as duas concepções de mundo deixou de existir com a queda do muro de Berlin ou, um pouco depois, a falência quase simultânea de todos os governos comunistas ou dito comunistas do leste europeu, a começar com a finada União Soviética. Ainda que se possa afirmar, sem dúvidas, que o regime político existente naqueles países havia se distanciado de tal forma de uma concepção de comunismo ou socialismo, por outro lado, não se pode negar que, com o derrocada daquele bloco, houve um triunfo, não das liberdades, não da democracia, mas da hegemônia americana sobre quase a totalidade do mundo. Não chega ser errado afirmar que, ao invés de acabar a divergência ideológica entre esquerda e direita, houve sim uma derrota da esquerda e uma acachapante vitória da direita na forma de compreender o mundo, a vida, alardeada em discursos pseudo-filosóficos que pregavam o "fim da História", e sistematizada naquilo que hoje em dia se convencionou chamar "pensamento único".

Obviamente, a esquerda não morreu, tampouco desapareceu. Talvez tenha recuado a um pragmatismo às vezes demasiado, por exigências dos novos tempos, e a valorização exarcerbada da tática, dos "meios", torne a utopia um pouco cínica ou macule os "fins" que se almejam.

Mas a verdade é que a cada dia se evidencia que, longe de ser um anacronismo, a disputa política e ideológica entre esquerda e direita se torna mais acirrada, ainda mais nesses tempos terríveis de "relativismo" - pensamento permissivo que grassa em boa parte dos intelectuais e formadores de opinião. A constatação correta que os valores absolutos não passam de discurso, e portanto, produto ideológico das classes dominantes, acabou gerando uma cultura de pensadores "desvertebrados", a tudo maleáveis, que se vergam de um lado para o outro, conforme a conveniência, lenientes e subservientes, que acabam reafirmando as posições mais reacionárias em nome de uma mal disfarçada aceitação do status quo e, em última instância, a uma defesa inconsciente (?) de seus valores de classe - no caso, a classe média dividida entre os sonhos de ascensão social e o pavor de um rebaixamento econômico sempre iminente, ainda mais em países pobres ou em desenvolvimento, como o nosso. Pela sua natureza, a classe média tende sempre ao conservadorismo, pois, se não pode ter os anéis, quer preservar os dedos. Por outro lado, a classe média, pela sua escolaridade, pelo acesso aos meios de comunicação, por ser, não formadora, mas disseminadora de opinião, acaba sempre sendo o alvo prioritário do discurso ideológico. E aqui, finalmente, chegamos ao ponto que quero discutir.

Tropa de Elite, filme do cineasta José Padilha ( que nos tinha brindado com um excelente documentário, Onibus 174 ) é ou não fascista?

Não conheço o Padilha ( parece frase de Nelson Rodrigues ), participei de um debate com ele uma vez na Darcy Ribeiro, e ele me pareceu um provocador, do tipo que adora uma polêmica, que perde o amigo mas não a provocação, a frase de efeito. Então, afora esse lado mais propenso à polêmica, não saberia dizer qual sua posição política, nem sequer se tem alguma posição política. Onibus 174 passa a idéia de uma pessoa com preocupações sociais. Já Tropa de Elite é um filme que, em última instância, defende a existência de uma força militar, com poderes e recursos ilimitados, acima do bem e do mau, que combata o narcotráfico com força total, uma mistura de Swat com os Intocáveis de Elliot Ness, mas também com semelhanças com a SS nazista que não se restringem apenas aos uniformes negros e o emblema da caveira. Nunca vi nenhum pronunciamento político do José Padilha, de modo que não posso afirmar que ele seja fascista ou tenha tendências fascistizantes, seria leviano da minha parte afirmar isso.
Agora, posso analisar o filme que ele fez. Partindo do pressuposto que toda obra artística possui um inseparável teor confessional, às vezes até inconsciente, posso afirmar, sem medo, que o diretor compartiha com o discurso apresentado em sua obra. Neste sentido, Padilha seria o primeiro cineasta que, corajosamente, se apresenta como um pensador de direita e realiza o primeiro e mais eficiente filme de direita no Brasil.

Quando digo corajosamente é porque no Brasil ninguém se diz de direita. Os políticos, mesmo os oriundos da ditadura, se definem sempre como de centro. Ou, liberais - na acepção econômica, liberalismo economico, livre mercado, do estado mínimo, defensores do capitalismo, da economia transnacionalizada etc. No meio artístisco ou intelectual então, pouquissímos aqueles que assumem publicamente sua opção política e ideológica alinhada à direita. Tradicionalmente, os artistas se apresentam como contestadores, transformadores, críticos, e isso lhes aproxima quase sempre de um perfil de esquerda. Se formos contar, vão sobrar dedos na mão para listar os artistas que sempre se definiram como de direita ou conservadores: Nelson Rodrigues, talvez o mais notório e sem dúvida, o mais talentoso entre eles, Gustavo Corção, Diogo Mainardi ( nem sei se podemos chamá-lo de artista, mas vá lá... ), o "saudoso" Ipojuca Pontes, Paulo Francis, o compositor Ary Barroso ( foi inclusive vereador pela UDN ), o ator e duble de cafajeste Jece Valadão, quem mais...? Não consigo lembrar mais nenhum. Uma vez ouvi num debate o decano dos roteiristas brasileiros, o talentoso e engraçadissimo rabugento Leopoldo Serran afirmar textualmente que era de direita, mas penso que era uma blague. Portanto, poucos aqueles que têm ou tiveram coragem de se expôr como sendo de direita.

Claro que isso não impediu que livros, filmes, peças possuissem um discurso conservador, reacionário, mas como manda o "relativismo", não se pode condenar o livro pela capa, nem confundir a obra com seu autor. Tudo é relativo. Aliás, é moda dizer, dentro do conceito relativista, que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Costuma-se lembrar que Chaplin, talvez o mais humanista dos cineastas, era um sujeito com muito pouco escrúpulos, mais parecido com o milionário bêbado do grande filme "Luzes da cidade" ( quando bêbado gentil, quando sóbrio um capitalista frio e desumano ) do que com o próprio Carlitos, personagem que criou e que é tido como um alter-ego do cineasta. Isso não impediu que fosse perseguido pelo comitê do senado norte-americano por sua conduta anti-americana e expulso daquele país, na época do macartismo. Picasso, que nos legou o magistral Guernica, também é citado sempre como sujeito cheio de contradições e com um amor argentário não muito condizente com sua imagem de esquerdista (aliás, foi membro do PC francês ). Brecht, marxista de carteirinha, autor do teatro mais esquerdista de todos os tempos, volta e meia é mencionado como um sujeito, como dizer... extremamente pragmático, e não faltam os que detonam o documentarista Michael Moore por sensacionalista, picareta, anti-ético, manipulador ( vi num debate no cineclube do Odeon um rubicundo critico relativista questioná-lo por manipular os depoimentos de Charlton Heston em Tiros em Columbine, coitadinho, não se faz isso com aquele pobre senhor claudicante apenas por ele ser o porta-voz da NRA, National Riffle Association, braço ideológico da poderosa indústria armamentista e bélica americana ). Seja como for, Tempos Modernos ou O Grande Ditador, o já mencionado Guernica, Mãe Coragem ou Terror e Miséria no 3o Reich e Fahrenheit 9/11 ou Roger e eu, obras desses artistas, são obras que traduzem o inconformismo, o protesto, a denúncia contra o capitalismo e o imperialismo, em suma, obras sintonizadas com o ideário de esquerda. Então, o que vale é o discurso produzido pelo artista, e não tanto sua vida pessoal.

Neste sentido, aqui no Brasil, ainda que sem nunca afirmar serem conservadores ou de direita, muitos artistas produziram obras conservadoras, reacionárias, sejam pelo teor político, seja pela manipulação de valores éticos e sexuais. O conservadorismo dissimulado, geralmente mais eficaz ideologicamente do que a obra abertamente politizada, é ambundante nas nossas telenovelas, nos nossos programas de humor, principalmente, no telejornalismo.

Aliás, o pensamento relativista, esta praga que impregnou os meios pensantes e criativos brasileiros, gerou outro fruto podre: o imparcialismo, a suposta neutralização do ponto de vista do autor em favor de uma obra dita "aberta a interpretações". Não existe falácia maior do que esta. Nenhum artista é imparcial. A escolha das palavras, a posição da câmera em relação ao objeto filmado, o corte mais rápido ou mais demorado de um plano para outro, tudo isso implica num claro e definido posicionamento do autor em relação ao que é escrito, filmado, editado.

A pretensa "impacialidade" como forma de possibilitar ao público "completar" a obra é uma ilusão criada por aqueles que só conhecem a produção artítisca na teoria, sem nunca ter produzido um único filme, livro, poema, peça. Todo bom artista sabe manipular sua platéia. E a manipula, de acordo com seus interesses, sejam estéticos, ideológicos, ou meramente financeiros. Portanto, esse mito da imparcialidade do artista, essa lenga-lenga de "apenas mostrar, sem tomar partido, e deixar para os expectadores tomar a posição" é conversa edificante para boi dormir.

Portanto, se não posso afirmar que o José Padilha seja fascista, por outro lado posso perceber no Tropa de Elite um perigoso - por eficiente - discurso fascistizante, que trabalha metodica, cerebral e emocionalmente para disseminar no expectador mediano o seu conteúdo ideológico de ultra-direita. Daí não dá pra fazer como o excelente ator Wagner Moura ou como o cronista do Globo Artur Xexéu e querer tirar das costas do autor a responsabilidade pela reação da platéia ao vibrar e aplaudir as cenas de tortura e de execução de traficantes, numa catarse orgiástica digna dos espetáculos do Coliseu. Ninguém grita "Caveira" à toa, ninguém aplaude a tentativa de empalamento de uma pessoa à toa, ou, caso mais grave, ninguém sai dizendo, "à toa", como disse uma simpática e esclarecida aluna minha ontem (aliás, aluna da Puc, vejam só que coisa!) que "em tempos de exceção, e como ação preliminar, a curto prazo, ações como a do Bope são necessárias". É preciso entender, primeiro, como o filme dialoga com esta platéia e, principalmente, que platéia é essa com a qual o filme quer dialogar. Entendendo um e outro, dá para afirmar que o filme é, sem dúvida, um audacioso e bem sucedido discurso fascista.

Estou sendo severo? Vamos ao filme, que é o que interessa.

Como produto cinematográfico, o filme é uma prova de excelência. Os atores, a começar pelo excelente Wagner Moura e o novato André Ramiro, dão tudo de si, a fotografia do meu amigo Lula Carvalho é brilhante ( o Waltinho tá correndo o risco de entrar pra história do cinema como o pai do Lula, hehehe, piadinha ), a montagem, frenética como convém a um filme de ação, o roteiro, apesar de ou por causa de algum didatismo, eficiente e com as idas e vindas no assunto, como forma de criar a tensão, estendendo o tempo narrativo da ação presente, como é característica do também meu amigo Bráulio Mantovanni, vide Cidade de Deus, e com tiradas de humor ( às vezes negro ) que amortizam a violência em cena, e uma direção segura que alterna entre a emergência do documental com cenas de refinada carpintaria de mise-en-cene do José Padilha, todos os elementos do filme parecem convergir de forma a resultar num espetáculo realmente eletrizante.
Há os que têm dito que o filme é ruim, "não porque seja direitoso", mas por conta do excessivo didatismo da narração em voice over. Ora, o didatismo é necessário para o filme funcionar persuasivamente na platéia. Por um aspecto, dá ao filme um ar documental - o filme é sabidamente inspirado na experiência de um comandante do BOPE, aliás, co-roteirista do filme, então, colocar o discurso na boca do personagem diretamente inspirado nele cria uma "aura" de realidade, de documental, e todos sabemos o impacto que causa nos expectadores o fato de um filme ser "baseado em fatos, pessoas reais". O mimetismo ( a imitação da vida pela arte), que o cinema mais do que qualquer arte consegue estabelecer, fica ainda mais forte quando o expectador é informado que "aquilo tudo mesmo aconteceu". Por outro lado, ao colocar a narração na primeira pessoa, cria-se um tom confessional entre o personagem e o expectador, de certa forma, distanciando aquilo que se vê e se ouve do autor - quem fala e faz é o personagem, o autor apenas registra imparcialmente ( mais uma característica extraída do documentário, aliás, de onde o diretor é oriundo ). Aliás, o processo de narração em primeira pessoa, que sempre existiu na literatura, é uma técnica de aproximação entre narrador e leitor. Enquanto a narrativa impessoal da terceira pessoa afasta, o eu narrador aproxima, gera cumplicidade entre quem conta/mostra e quem ouve/vê.

Se a narrativa funciona como uma espécie de mantra ou conversa franca entre um homem/personagem e a platéia, a forma como os personagens são construídos é profundamente empática. Erra o Xexéu ao dizer que o personagem Nascimento não é mostrado com um comportamento exemplar de um herói de um filme de ação ( ele faz paralelo com o Jack Bauer da série 24 horas, que da mesma forma, mata e tortura, mas sem perder a aura de herói). Segundo Xexéu, " Nascimento não tem um comportamento exemplar com a família. Bate ( bate? pra mim ele apenas discute, de forma destemperada ) na mulher e mal conhece o filho. E comenta a piada de humor negro sobre um "acidente" que teria causado a surdez num soldado em treinamento comandado por Nascimento. Diante destas características negativas, conclui Xexeu, o capitão Nascimento jamais seria um herói. Portanto, isenta o diretor Padilha de tentar heroicizar o capitão do Bope, que bate, tortura e mata seus inimigos.

Bem, os argumentos de Xexéu são inferiores aos argumentos usados no filme para construir o personagem. Não é a toa que Padilha chamou um bom roteirista como o Mantovanni para trabalhar no roteiro. É um personagem construído na contradição: é um militar para quem missão dada é missão cumprida, mas ao mesmo tempo, consciente do trabalho "sujo" que foi treinado para fazer, sofre problemas emocionais, está estressado e quer desesperadamente deixar a tropa. Então é o clássico herói em crise de consciência. Se a fidelidade aos objetivos, digamos, "profissionais", o faz torturar e matar o "inimigo", isso não o impede de sofrer remorsos quando, por exemplo, vê o sofrimento de uma mãe que perdeu o filho por sua culpa ou omissão.

Discordo que ele mal conhece o filho. Se não tem oportunidades de conviver com o filho, é porque o trabalho o impede de ter uma vida normal. Aliás, poder desfrutar da companhia do filho é uma das razões alegadas por Nascimento para querer arrumar um substituto e largar o Bope.

Se ele briga com a mulher, é no auge de seu desespero, porque se sente culpado pela morte do aspirante Neto, a quem estava forçando a barra para tornar seu "sucessor", mesmo sabendo que o rapaz era visivelmente despreparado emocionalmente para a responsabilidade, por voluntarista e mesmo, porra-louca. Ele agride a mulher no auge de seu descontrole, no momento em que sua consciência está mais pesada: é ao mesmo tempo responsável pela morte do vapor que forçou a delatar os traficantes ( sabendo que ele seria justiçado ) e pela morte do seu discípulo e amigo. Não que isso lhe dê razão para agredir a esposa, mas nós "entendemos" o seu sofrimento, sabemos que ele perdeu a cabeça e que ele acabará punido ( como aliás, acontece, a esposa o abandona ) por conta desse desatino.
Em suma, é um homem que sofre ( ele chora! ), que sente remorsos, que vê sua vida pessoal ser destruída por conta da dura missão que tem para cumprir. Ou, como diz o Wagner Moura, na sua carta ao jornal o Globo, ontem, é um homem que arrisca a vida diariamente, sem nenhum reconhecimento sequer. Se esse homem fiel, ao mesmo tempo crítico ( sabe que está indo para uma operação arriscada não para proteger alguém, mas para os políticos fazerem média com o Papa ), sente remorsos por suas vítimas involuntárias, arrisca a vida até para salvar um bando de policiais corruptos, vive de forma modesta - o apartamento do capitão Nascimento é bem modesto, a geladeira dele é menor até do que a daqui de casa -, se o Nascimento que o filme constrói habilmente não é um herói, o que será um herói? Quanto à piada do "acidente", desculpe-me o Xexéu, mas a piada é boa, e desde sempre, o humor é a forma mais eficaz de humanizar os personagens. Sem contar que a "vítima" ( e teremos provas visuais disto, mais adiante, na parte do filme que mostra o treinamento ) era um "escroto, um corrupto". Por que se sensibilizar por um corrupto que finalmente é punido? Aliás, como já havia feito em Cidade de Deus, dosar humor em momentos de tensão, é um bom truque de roteiro, e o Bráulio faz isso bem.

Outro personagem que merece destaque é o aspirante Matias. Primeiro, ele é negro. Mas não um negro qualquer, é um negro "ProUni", de origem pobre, mas que está em ascensão social, virando classe média. Estuda na PUC, namora a branquinha riquinha, é integro, justo, bem intencionado, mas humano demais. Para poder pertencer ao Bope, ele precisa perder sua humanidade. Da mesma forma como Nascimento deve ter perdido a sua. E que, agora, precisa desesperadamente recuperar. Perder a humanidade é condição essencial para fazer o trabalho sujo que precisa ser feito ( lembrando minha aluna, "ações a curto prazo são necessárias"). O mal tem que ser combatido pelo mal. Ou, melhor, é preciso estar acima do bem e do mal. O batismo de fogo de Matias, movido pela vingança do amigo que morreu por sua causa, não é tratado como uma bestialização, e sim como uma necessária catarse.
Aí eu me pergunto: a construção dos personagens é feita de modo imparcial? A humanização dos personagens, a compreensão de seus conflitos, o choro de Nascimento, a revolta de Matias - se isso não justifica a tortura e as mortes, pelo menos torna os personagens mais críveis, entendemos as razões dos seus atos, ainda que não concordemos com ele. Citando a carta de Wagner Moura, "discordo de quase tudo que o Nascimento faz, mas... " O "mas" é uma espécie de salva-guarda para os erros dos personagens.

Convém ressaltar outro aspecto: os dois traficantes que aparecem no filme, o Baiano e o que é morto na operação de resgate, não são negros. Um é um caboclo nordestino, o outro é louro (!). Talvez a intenção do Padilha tenha sido politicamente correta, por não querer estigmatizar o negro como bandido de sempre, e mostrar que numa sociedade totalmente miscigenada como a nossa, bandido e pobre não tem cor. O estranho é que todo os figurantes do tráfico são negros, mulatos ou pardos. Mas os chefes do tráfico são brancos. Já o "mocinho" Matias é negro.

Portanto, há uma nítida orientação para humanizar os soldados do Bope, dando-lhes caractertísticas positivas, contrabalançando o lado negativo: se Nascimento é brutal, às vezes, ao mesmo tempo ele chora, tem remorsos, está estressado, quer sair daquele trabalho por desumano, tem sua vida pessoal destrúida; Matias, o seu sucessor, além de ser refinado, inteligente, tem a cor do "inimigo", é um homem do povo, veio de baixo, e Neto, ainda que sobre ele pese uma adesão ao Bope que beira quase ao fanatismo, é perdoado pela sua juventude, pela sua honestidade quase pura e, finalmente, é redimido pelo assassinato covarde - é morto pelas costas.

Não ver nisso a mão e o cérebro do diretor é fazer pouco da sua inteligência e da sua autoralidade. Não ver que ele constrói o seu filme com um discurso inteligente ainda que didático, eficiente justamente por didático, que demonstra, meticulosamente, o "sistema" corrupto e corruptor que domina a polícia convencional, que constrói de forma empática seus personagens, que justifica a necessidade de uma força "acima do bem e do mal", a única força capaz de vencer a guerra, uma elite incorruptível, heróis de uniforme negro que sacrificam a vida pessoal ( Nascimento ), uma carreira bem sucedida como advogado ( Matias ), a própria vida ( Neto) para defender a civilização da barbárie.

Citando Brecht, "infeliz uma terra que precisa de heróis". Mas, se precisamos de heróis, é preciso que definamos quem são os vilões.

Numa primeira instância, parece que os vilões do filme são, óbvio, os traficantes. Depois,de forma didática, quase doutrinária, é mostrado que os vilões são a polícia militar e civil, corruptas e coniventes com o crime organizado. Porém, não são esses os verdadeiros inimigos. Tanto os traficantes quanto os policiais corruptos são apenas a ponta do iceberg, a parte visível do problema. É então que o filme aponta finalmente quem são os verdadeiros "vilões": a classe média alta, branca, universitária, com "consciência social". Os filhinhos de papai que fumam maconha, os branquinhos riquinhos bem intencionados que sobem os morros para cuidar dos pobres, as ONGs que atuam nas favelas e que acabam se tornando uma espécie de embaixada para o tráfico ( da mesma forma que as embaixadas eram refúgio para os esquerdistas, na época da ditadura militar ). Nascimento diz, num dado momento: "que um pobre fudido sem nada, sem escola, sem trabalho, entre no tráfico, eu até aceito, mas um filhinho de papai que teve todas as oportunidades, ah..." Vemos o pessoal da ONG confraternizando com o traficante, cheirando pó. Um dos colegas de sala de Matias, membro da ONG faz tráfico na faculdade. Aliás, os personagens da ONG são o que de mais grotesco e pusilânime é apresentado no filme. São piores até do que os PMs corruptos. Além de fazerem um péssimo trabalho didático ( ao ponto de não perceberem que um de seus alunos é ruim nas aulas porque tem problemas de visão ), quando não estão confraternizando com os traficantes, cheirando pó com eles, estão sempre fornicando. Nesse sentido, a cena em que eles são brutalizados, a moça morta e o diretor da ONG fritado no "microondas", perde muito da eficácia, porque os personagens são tão desprezíveis que, ainda que as imagens sejam brutais, não despertam no expectador nenhuma solidariedade ou empatia, sequer pena. No fundo, é bem feito para eles, "quem dorme com cães amanhece com pulgas"- imagino que o expectador mediano deva pensar, no escurinho do cinema.

Mas ao determinar que é a classe média a verdadeira vilã do filme, por consumir drogas, por "passar a mão na cabeça da bandidagem" com seus projetos sociais, por torcer o nariz para as cenas de violência e tortura, Padilha na verdade está apontando seu fuzil com mira laser para um alvo mais específico: não é a classe média em si, mas uma parte dela. Aquela parcela da classe média chamada liberal, aquela que partilha pontos de vista progressistas, mas que no filme são apresentados da forma mais abjeta possível, quase caricaturas: os que defendem a discriminilização ou mesmo a liberação das drogas, no fundo são viciados ou mesmo traficantes. Os que tem consciência social são proxenetas de pobres, promíscuos e acumpliciados com o crime organizado. Os que defendem os direitos humanos, e torcem nariz para a tortura, são os primeiros a pedir penico para a polícia, quando se sentem ameaçados.

E é nesse sentido que o discurso fascistizante do filme se completa. O problema a ser resolvido não são os traficantes. Desses, as cenas que mostram a eficácia dos soldados de preto em matarem os traficantes demonstram que o Bope dá conta. Tampouco é a corrupção policial, a própria criação de uma polícia de elite, incorruptível e sem lugar para a "escória" também demonstra que, em pouco tempo, isso pode ser contornado. Resta o problema maior. Livrar da classe média a sua parcela liberal, no filme definida como promíscua, permissiva, pusilânime.

É sabido que o cinema hoje em dia é frequentado apenas por pessoas da classe média. O povo tem que se contentar com as cópias piratas dos camelôs ( afinal, um ingresso custa 12, 15 reais, por pessoa, enquanto que uma cópia em dvd no camelódromo da Uruguaiana sai por dez pratas, com algum choro, por oito, até cinco e pode ser assistida por várias pessoas). É sabido também que, por sua natureza ideológica, a classe média tende ao conservadorismo, a exceção de uma parcela, mais esclarecida, mais liberal. O filme Tropa de Elite retira a guerra das telas e joga para as platéias: é naquela sala escura do cinema que está o verdadeiro inimigo. Aquele garotão sentado na terceira fileira pode ser um maconheiro. É sabido também que, pressionada entre o sonho de ascensão social e economônica, e o pesadelo do empobrecimento, a classe média é paranóica por natureza.

As imagens do filme funcionam como um doutrinamento. O perigo na verdade não está nas favelas, está no nosso próprio meio. Nossos filhos consomem drogas e financiam os traficantes. Nossas filhas namoram negros... serão eles bons moços como o Matias ou um traficante? Mais provavelmente, pelo número ainda reduzido de negros de classe média ou nas universidades, é bem capaz de ser um traficante. Afinal, ela também deve "fumar" seu pozinho ou "cheirar" sua maconhinha... esse pessoal que defende diretos humanos, no fundo defende assassinos e ladrões, ninguém defende os direitos humanos das vítimas. E o que fazem essas ONGs? A do filme é um antro de viciados lascivos e que mal se importam para a sorte dos pobres ( quem dá o óculos pro menino é o herói do Bope ).

Estarei forçando a barra para criticar um filme? Alguém poderia dizer, mas se o filme é fascistizante, como teria feito o sucesso todo com as classes populares, ao ponto de ser o filme pirata mais assistido de todos os tempos. Não seria contraditório um filme que defende a elite ser tão consumido pelas classes menos favorecidas? Não acho. Primeiro, porque o filme, em sua forma, é bom um filme de ação. Tiros, violência, com uma tensão crescente, vários momentos de ação vertiginosa, um tipo de filme popular por essência. Segundo, qualidade mais sutil, ao colocar um dos protagonistas negro, o filme cria uma clara empatia com o expectador mais pobre, que se identifica com o seu semelhante. Com a vantagem que o personagem é um cara bacana, boa pinta, honesto, traça a branquinha bonitinha da novela das oito, em suma, é "o cara" ( ouvi essa definição do Matias, outro dia, na rua ). O povo gosta de se ver retratado nas telas - diga-se de passagem, quando o ingresso de cinema era barato, na década de setenta até meados dos anos 80, os filmes brasileiros tinham nas classes populares suas maiores platéias ( a classe média sempre foi refratária ao cinema nacional ). E terceiro, porque a população mais pobre no fundo compartilha da visão anti-classe média do filme, como consumidora de drogas, permissiva sexualmente, paternalista e conivente com a marginalidade. E, finalmente, porque boa parcela dessa população mais pobre defende ações autoritárias e repressivas, como pena de morte, tortura, sem perceber que no final estas ações acabam se voltando contra ela próprias.

Basta lembrar que no recente plebiscito sobre o desarmamento, mais de 60% da população votou a favor das armas.

Fácil botar na platéia a culpa dos aplausos toda a vez que o Capitão Nascimento manda colocar seus prisioneiros "de volta pro saco". Mas é ingênuo ou hipócrita fingir que Tropa de Elite não joga e habilmente para a sua platéia.

Tem gente que critica Tropa de Elite dizendo que o filme é ruim. Não é. O filme é bom, muito eficiente, e por isso passa tão bem a sua mensagem fascistizante. Aí que mora o perigo.

Vou parar por aqui. Mais adiante farei um paralelo do TE com alguns filmes que, ao meu ver, são chaves para entender a construção dramática e o discurso ideológico do filme do José Padilha. A saber, Batalha de Argel, de Gillo Pontercorvo, Nascido para matar, de Stanley Kubrick, Mississipi em Chamas, de Allan Parker, Starship Troopers, de Paul Verhoven e, é claro, O Nascimento de uma Nação, de Griffith - aquele que transforma os escravos negros em vilões, os escravocratas brancos em vítimas e os ku-klus-klans em heróis.

Só para que não esqueçam: tortura é crime hediondo.

Fascismo sem máscara ( mas com saco)


"Tropa de Elite", filme de José Padilha (2007)

Fascismo com máscara


"O nascimento de uma nação", filme de D.W. Griffith (1915)

sábado, 1 de setembro de 2007

Deus, o ex-presidente e o filósofo francês


Muito comentada a entrevista do ex-presidente FHC à revista Piauí, onde ele disse que "o Brasil é isso aí mesmo que está, não tem muito jeito". Inúmeras vozes, desde o porta-voz do tucanato Arnaldo Jabor, passando por João Ubaldo Ribeiro ( que um dia escreveu um romance chamado "Viva o Povo Brasileiro", ora vejam como as pessoas mudam), e outros menos ilustres, se uniram em coro ao ceticismo do "Mestre das Trevas" ( não é ironia, afinal o governo FCH foi marcado, entre outras coisas, pelo triste e inesquecível "apagão", que deixou as cidades às escuras e forçou o país a um racionamento compulsório de energia elétrica e um escandaloso aumento nas contas de luz ) para condenar o país a uma triste e imutável incapacidade de mudar, como se fossemos uma nação atavicamente errada, corrupta, atrasada, sem perspectivas, em suma, um país sem jeito.

A reflexão do douto ex-presidente me fez lembrar aquela piadinha em que Deus fala, orgulhoso, que tinha criado um país na Terra que era uma maravilha. Que era dotado de uma rica natureza "em que se plantando tudo dá", com lindas praias, clima ameno, sem nenhum grande problema natural, tipo furacões ou terremotos, etc. Ao que o diabo retorquia: "mas isso é o paraíso". E Deus, mau que nem o picapau, acrescentava: "mas espera pra ver o povinho de merda que vou botar pra viver lá".

Esse tipo de piada grosseira e o raciocínio cético do dublé de sociólogo e político se entrelaçam como raiz e fruto de uma mesma ideologia: o Brasil é um país condenado a não dar certo.

A piada aponta o responsável sem maiores rodeios: é o povo brasileiro o único culpado pelo nosso eterno desacerto como país e nação.

Mais sutil, mas apontando na mesma direção, o ex-professor de Sorbonne, insinua que a responsabilidade do país ser "isso que aí está", que não tem jeito, que é atavicamente atrasado e corrupto, seriam do governo Lula e do PT.
O Brasil seria isso daí. Um povinho de merda, governado pela primeira vez na sua história por um presidente oriundo desta mesma merda de povo. Substancia da qual, obviamente, não foi moldado o ilustre sociólogo, sabidamente feito de outro barro, segundo alguns criado por Deus "à sua imagem e semelhança".
Seja por conta do "povinho de merda" ou por culpa do governo Lula, o Brasil é "isso que aí está, não tem jeito".

Nas entrelinhas, o ex-presidente parece nos dizer: já que o país não muda, já que é eternamente corrupto e incompetente, já que é impossível mudar as estruturas sociais, políticas e econômicas que nos impedem de romper o atraso, porque pensar em mudanças? Melhor deixar como está, de preferência mantendo-o sob a tutela de "profissionais" e não de "amadores". No caso, profissionais seriam eles, a elite que, sob diferentes aspectos e plumagens (desde o corvo Lacerda passando pelo abutre Collor e finalmente o PSDB tucano) sempre governou o país. Amadores seriam Lula e a esquerda, neófitos em governar um país que sempre foi propriedade privada de uma classe.

FHC deixa claro que somente a elite, por conservadora, austera e em sintonia com o capitalismo moderno seria preparada a administrar a "grande massa falida" que seria o Brasil. Enquanto que qualquer projeto reformista ou transformador seria inevitavelmente fadado ao fracasso, à decepção, a meter os pés pelas mãos e no máximo, apenas conseguiria repetir de forma tosca o que eles, FCH e demais governantes da elite brasileira, faziam e fazem com competência.

O que é estranho ( aliás, nem um pouco estranho, uma vez que já está em pleno curso a corrida eleitoral ) é que o discurso do Príncipe dos Sociólogos ( agora sim, é ironia ) vaticine que o Brasil é "isso aí, mesmo, não tem jeito", como se essa condição de erro existisse por si só, pelo atavismo nacional, por um quase determinismo histórico que nos condena ao atraso, e não por consequencia de ações, governos, projetos políticos que se sucederam, numa marcha progressiva, pensada, arquitetada, para preservação e perpetuação de uma elite política e econômica da qual o governo FCH foi talvez uma de suas manifestações mais sofisticadas.

É estranho ( de novo, nem um pouco estranho ) que Jabor, Ubaldo, e boa parte da mídia tenham alardeado a "surpreendente e reveladora" declaração do ex-presidente, como atestado de óbito moral e político da nossa nação, sem em um único momento se perguntar se o "isso que aí está" não seria minimamente consequência daquilo "que veio antes", de tudo aquilo que veio antes, de muito antes, mas que podemos ver claramente, não tão "antes assim", mas bem perto, aquilo que era há pouco tempo atrás, cinco anos atrás, se não quiseremos voltar tanto assim na história.

Não seriam a destruição progressiva, consciente e ordenada de nossa economia pela venda a preço de banana, e ainda assim, através do financiamento do BNDES, das nossas estatais para empresas estrangeiras ou em parceria com o alto capital nacional, verdadeiros cartéis transnacionais, o desmonte do serviço público e do próprio estado através de uma política de terceirização e pela filosofia do "estado mínimo", e a compra de políticos para a aprovação da reeleição do FCH, algumas causas desta condição de sermos "isso que aí está"?

O "fim da história" preconizado pelo neoliberalismo alardeava a imutabilidade do predomínio do capital sobre as nações, os povos, a história em si - o mundo estaria condenado a girar eternamente, cavalinhos de pau presos a um carrossel que roda ao som do realejo de Wall Street.

A sentença apocalíptica de FHC reproduz, com ar blasé dos céticos, o que na década de 90 dizia o igualmente apocalíptico Francis Fukiama, "filósofo" do fim da história, apóstolo do neoliberalismo, arauto da vitória "inconteste" do capitalismo: o ciclo de mudanças se encerrou, o comunismo foi sepultado nos escombros do muro de Berlin, a civilização chegou a seu ápice, personificado nos Estados Unidos, no capital transnacional, da globalização, com a dissolução dos nacionalismos, das culturas populares, a eliminação das diferenças, com o estabelecimento do pensamento único - o pensamento de Washington.
Neste sentido, não existe perspectiva de mudança, somos "isso que aí está".

Somos isso que aí está, não temos jeito, não adianta mudar, tudo continuará como dantes no quartel de abrantes, profetiza FHC, com um fatalismo que lembra Lombroso, ou, mais acertadamente, o Conde Gobineau, cuja foto ilustra esse texto. Pra quem não associa o nome à figura, explico: Joseph Arthur de Gobineau, o conde Gobineau, foi um filósofo francês, expoente da ideologia da superioridade racial branca, que serviu como embaixador no Brasil, durante o reinado de Pedro II, no séc XIX. Chocado com a formação racial brasileira, dizia que a miscigenação formaria uma população degenerada que irremediavelmente condenaria o Brasil ao fracasso.

"Não tenham ilusões, o Brasil é isso que aí está, não tem jeito" - proclama o ex-presidente. Talvez por culpa do "povinho de merda" que Deus, grande sacana, colocou aqui. Talvez por culpa da miscigenação de raças inferiores que criou uma população degenerada, estéril, fadada ao fracasso e à miséria, como vaticinava o racista Gobineau, para quem o Brasil não tinha futuro.

Um país maravilhoso habitado por um povinho de merda. Um país fadado ao fracasso, por conta da miscigenação de raças inferiores. Um país que é "isso que aí está, sem jeito, não tenham ilusões". Como isso soa tão parecido... Estranha convergência de pensamentos.
Aliás, nem tão estranha assim.

sábado, 25 de agosto de 2007

domingo, 19 de agosto de 2007

Chomsky



O único modo de lidar com o fanatismo ideológico é ignorá-lo e concentrar a atenção em pessoas que têm a mente suficientemente aberta para dar importância a evidências e argumentos. Há dois aspectos no que eu escrevi sobre o terrorismo desde 1981, quando o governo Reagan ocupou o poder declarando que uma "guerra ao terror" seria o foco da política externa dos Estados Unidos, uma "guerra" que foi redeclarada por George Bush em 11 de setembro de 2001.

O primeiro é que eu uso a definição oficial de terrorismo dos governos dos Estados Unidos e do Reino Unido. Isso é considerado um escândalo, porque se usamos essas definições, significa diretamente que os Estados Unidos são um poderoso Estado terrorista, e o Reino Unido não fica muito atrás. A conclusão, claro, é inaceitável. Como a lógica é impecável, e a base factual não está em dúvida, a reação-padrão dos que fazem a apologia do terror do Ocidente é de pura irracionalidade. Uma das reações é a que você descreveu: fingir que a condenação consistente de todos os tipos de terror é uma apologia para o terror deles contra nós, o único tipo que pode ser discutido dentro do sistema doutrinário.

O segundo aspecto do que escrevo sobre o assunto é que, ao discutir o terror deles, eu acompanho de perto as análises dos principais especialistas em terrorismo islâmico do mundo acadêmico, da inteligência dos Estados Unidos e do jornalismo, como Fawaz Gerges, Michael Scheuer e Jason Burke. Isso também é considerado um escândalo, porque eles fazem análises sérias, e é muito mais conveniente fazer poses heróicas diante das câmeras e falar de "fascismo islâmico", "guerra de civilizações" etc.

Quanto ao discurso ideológico conservador, vale a pena ter em mente que algumas das mais extremas e irracionais defesas da agenda política nesses pontos é produzida por pessoas que se definem como liberais e social-democratas.

Independente de sua origem, há alguma maneira de confrontar o discurso ideológico? Sim, há uma maneira muito simples: tentar dizer a verdade. Não arranca aplausos da elite intelectual, mas é assim que ela reage normalmente às revelações sobre a natureza e o exercício do poder.

O que importa é o público em geral, que é capaz de se libertar das doutrinas e buscar compreensão.

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Não fui eu quem disse, mas Alberto Moravia


" (...) Como se sabe, o argumentista é aquele que escreve, em colaboração com outro argumentista e com o realizador, o desenvolvimento das cenas de que se compõe o filme. No guião, um por um, segundo o desenrolar da ação, são minuciosamente indicados os gestos e as palavras dos actores e os diversos movimentos da máquina. O guião é portanto ao mesmo tempo drama, mímica e técnica cinematográfica. Ora, se bem que a acção do argumentista seja de primeira importância e venha imediatamente depois da do realizador, por motivos inerentes ao progresso da arte do cinema ele fica sempre irremediavelmente subordinada e obscura. Se de facto se julgam as artes do ponto de vista de expressão directa, e não se vê de outro modo como na verdade poderiam julgar, o argumentista é um artista que, apesar de dar o melhor de si ao filme, não tem a consolação de ver reflectida nele a sua personalidade. Assim, com todo o seu trabalho criador, ele não pode ser então um fornecedor de achados, de invenções, de expedientes técnicos, psicológicos, literários; pertence então ao realizador usar esta matéria segundo o seu gênio e, em suma, de se exprimir. O argumentista, portanto, é o homem que fica sempre na sombra, que sua seu melhor sangue para o sucesso de outros; e que, embora o exito do filme dependa dois terços dele, nunca verá seu nome nos cartazes publicitários, onde são, pelo contrário, indicados os do realizador, dos actores e do produtor. Ele pode, é verdade, como acontece frequentemente, alcançar nome neste seu mister subalterno, e ser pago muito bem; mas nunca pode dizer: "este filme fi-lo eu." Isso pode dizê-lo somente o realizador, que, com efeito, é o único a assinar o filme. O argumentista, pelo contrário, deve contentar-se com trabalhar pelo dinheiro que recebe, o qual, queira-o ou não, acaba por transformar no verdadeiro e único fim de seu trabalho. Assim, ao argumentista não cabe senão gozar a vida, se é capaz disso, com aquele dinheiro que é o único resultado do seu trabalho, passando dum argumento para outro, duma comédia a um drama, dum filme de aventuras a um sentimental, sem interrupção, sem pausas, um pouco como em certas governantas que passam duma família para outra sem terem de se afeiçoar a qualquer criança, indo os frutos dos seus esforços todo para as mães, pois só essas têm o direito de chamar à criança seu filho. (...)"

In: O desprezo, pp. 49-50. Editora Ulisséia. 1972. Tradução de Maria Tereza de Barros Brito.

PS. mantive os termos em português de Portugal, pois é lusa a minha edição de "O Desprezo". Não sei se o livro foi publicado no Brasil, mas de qualquer forma, entenda-se por argumentista o que chamamos por roteirista, máquina é a câmera e guião, é como os portugueses chamam ao roteiro.

PS2: "O desprezo" foi filmado por Godard, em 1963. É um dos seus melhores filmes. Mas sobre "Le Mepris", falaremos depois.

terça-feira, 31 de julho de 2007

quadros que queria ter na parede aqui de casa (4)


O grito, de Munch

fotogramas (3)


Minha super-produtora Helô Rezende e eu, na Academia Brasileira de Letras, após receber o Prêmio ABL de Roteiro Adaptado, por Achados e Perdidos.

Adeus, Antonioni



Literalmente esbarrei em Antonioni, quando ele esteve no Brasil, por ocasião de uma homenagem no Festival de Gramado. Foi em 93 ou 94, não me lembro bem. Ele já havia sofrido o derrame que o havia deixado bastante debilitado, semi-paralisado e quase mudo ( se comunicava com pequenos gestos e através de sussurros, que sua esposa traduzia ).

Eu estava no saguão do Palácio dos Festivais, fumando um charuto, quando ele entrou, apoiado em sua esposa. No que ele entrou, uma turba de fotógrafos e cinegrafistas avançou sobre ele, empurrando tudo o que estivesse pela frente. Eu, inclusive.

Arrastado por esse tsunami de paparazzi, acabei ficando, por uns breves minutos lado a lado com o mestre. Acho que até pisei no pé dele, olha que mico. Arranhei um "pardon", e ele sorriu, generoso. Rapidamente me afastei dele, antes que fosse alvejado por algum fotógrafo mais impaciente com aquele involuntário "papagaio de pirata".

Fiquei ali no canto, olhando aquele homem frágil, debilitado, trêmulo pela doença, mas que irradiava uma altivez de gigante. Ele acenou para os fotógrafos e cinegrafistas, a mão erguida tremia. Vi essa foto ( deve ser das filmagens de Passageiro:profissão repórter, ali ao lado dele está a sumida Maria Schneider, que fim levou essa linda atriz? ), sua mão igualmente erguida, e me lembrei dessa história.

Ficam seus belos filmes. Qualquer dia falo sobre algum deles. Talvez do "Passageiro", talvez "Blow Up".

a bruxa tá solta...

Poxa, não deu nem pra prantear o Bergman, e morre também o Antonioni...
Semana péssima para o cinema.
Li uma vez, em algum lugar que quando morre um artista, o mundo fica irreparavelmente fracionado, amputado, todos nós perdemos um pouco de nossa humanidade. Lembro também aquele verso do Chico, "ó pedaço amputado de mim".
Muito triste.

segunda-feira, 30 de julho de 2007

Bergman


Acabo de ver na internet a notícia da morte de Bergman. Mais do que um grande cineasta, Bergman foi um dos maiores e mais importantes artistas contemporâneos.
Confesso humildemente que é um dos cineastas que mais me inspirou, se bem que - devo confessar também, mas agora com alguma vergonha - que demorei a compreender e admirar seu cinema. Não que fossem filmes difíceis - e são, se bem que nem todos, a suposta "dificuldade do cinema de Bergman" é mais um clichê do que realidade.
Mas porque sou de uma geração, ou do resto de uma geração que, por ideologia, rechaçava os filmes de Bergman, por seu suposto desvio "pequeno-burguês". Seus filmes seriam o "canto do cisne da burguesia", dramas existenciais do homem europeu bem nutrido, com dentição perfeita, branco e culto, porém estéril, conformista, niilista. Preso aos seus problemas pessoais, incapaz de uma atitude de mudança, de transformação. O discurso da impotência.
Durante muito tempo rejeitei seus filmes por alienados, vejam só o que uma má formação de esquerda pode causar numa pessoa. Seu eu tivesse nascido na China, na década de sessenta, teria sido um "guarda revolucionário" da Revolução Cultural impecável e implacável. Polpot puro, zhadanovista emperdenido.

Culpa da leitura apressada da Marta Hannecker, que justiça seja feita, nunca fez uma crítica sequer de cinema, tampouco sobre os filmes de Bergman. Mas foi através do livrinho dela, Princípios Elementares del Marxismo, assim mesmo, em espanhol, uma versão condensada e diga-se de passagem, bastante simplista, do marxismo, que eu e outros colegas de 15, 16 anos fomos "catequizados" pela esquerda, isso nos distantes e cinzentos 76 ou 77, ainda na ditadura militar.

Mas falava sobre Bergman.

Por conta desse patrulhamento ideológico, Bergman era um "artista decadente". Os únicos filmes que nos permitíamos gostar eram O sétimo selo e O ovo da serpente, que eram considerados "progressistas".

O mais patético dessa coisa toda era assistir aos filmes do Bergman, ficar estupefato, perplexo, embasbacado mesmo com a potência de suas imagens, a força de seus dramas, e ter que negar pra si mesmo que aqueles filmes eram obras de arte inquestionáveis. Morangos Silvestres, Gritos e Sussurros, cada filme que eu via do Bergman era uma porrada nas minhas convicções ideológicas supostamente "de esquerda". E o mais ridículo nisso tudo era disfarçar essa atitude obliterada que não passava de preconceito e burrice, mesmo, com uma atitude blasé ainda pior: tachar os filmes do Bergman de "chatos". Tudo bem, dêem um desconto. Eu era jovem, e os jovens em geral e os "jovens artistas" em particular são divertidamente boçais.

Ver Persona foi minha epifania. Impossível não me render àquele cinema, tão forte, tão belo, tão profundo. E sim, dificil, complexo, hermético até. Mas sempre fascinante, impressionante.

A partir de então mergulhei na obra de Bergman como se fosse um oásis no meio do deserto. Fui descobrindo os vários Bergmans, de fases distintas como Monika e o Desejo, Noites de Circo, Face a Face, Sorrisos de uma noite de verão, Cenas de um casamento sueco ( este na verdade foi o primeiro Bergman que vi), O silêncio, Sonata de Outono, a Hora do Amor, etc.

Fazendo um retrospecto acho que, entre tantas obras primas, o que gosto mais é "A Hora do Lobo". Fiz um curta chamado Retrato do Artista com um 38 na mão que é cheio de referências à Hora do Lobo, mas ninguém identificou - acharam que eu estava citando Bela e Intrigante, do Jacques Rivette.

Impossível falar sobre Bergman numa única postagem, e ainda por cima sob o efeito da notícia de sua morte. Como de praxe, voltarei a falar dele mais adiante.

Fica aqui minha homenagem em tom de mea culpa.

sábado, 28 de julho de 2007

Primeira social da casa nova.

Começou com almoço "de negócios" e terminou tocando iê-iê-iê dos beatles...

É nessa hora que este blog se torna a minha tábua de salvação...

( se ainda tocassem os Byrds... mas Beatles... ninguém merece!)

sexta-feira, 27 de julho de 2007

fotogramas (2)


Fla x Flu:
Eu e Eduardo Nunes, amigo, parceiro e sócio, comentando alhures (certamente não era sobre futebol... )
Finalmente, conseguimos mudar. Depois de 11 anos morando em Santa Teresa, respirando novos ares, agora em Laranjeiras. Já instalados na casa nova, com algumas caixas ainda para esvaziar. Vivendo há uma semana entre caixas, pincéis e furadeira. E pra complicar a vida, sem internet - o que explica o período sem atualizações aqui. Mas também isso está sendo resolvido. Mudança é um transtorno, mas depois que passa, vem uma agradável bonança. Curtindo a casa nova, o novo bairro, a sensação gostosa de um recomeço.
Desculpem-me a brevidade deste, mas tenho duas estantes pra instalar e duas caixas enormes de livros para esvaziar ( já sabendo de antemão que ou as estantes são pequenas demais ou então os livros que são demasiados... ).

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Aritmética da morte



Foram precisos 187 (até agora) vítimas inocentes no acidente da TAM para a morte finalmente levar o ACM.


É uma conta injusta, porém, se esse foi o preço, helás...


O Brasil - e a humanidade vão respirar bem melhor amanhã, depois que o ACM for sepultado.


A humanidade tava levando de goleada, ultimamente.


As atrizes Yolanda Cardoso e Nair Bello, D. Ivo Lorscheider, o escritor Zé Agripino de Paula, o poeta Bruno Tolentino, o amigo Serginho Kodak... todos se foram.


Mas finalmente agora foi um deles.


Um dos mais escrotos. Um dos piores.

Antonio Carlos Magalhães. Toninho Malvadeza, pros íntimos. Um dos mais cruéis "coronéis" da politica brasileira. Refugo da ditadura militar, queridinho da Rede Globo, representante do atraso e responsável direto pela miséria do povo brasileiro.


A aritmética da morte é cruel. Para cada canalha que ela leva, é preciso que morra um monte de gente bacana.

A morte de ACM custou 187 vidas, até o presente momento. A morte, além de fria, é avarenta.

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Vivendo num mundo de caixas...
(mudança é muito chato!)

segunda-feira, 16 de julho de 2007

coisas que eu gosto ( de ouvir ) 4:

Desire - Bob Dylan - 1976

Enfim, chegamos a Bob Dylan. Sou fã incondicional de Dylan, daqueles que possuem (quase) todos os discos, livros, até posters: tenho um belo quadro da capa ampliada do disco The Times They´re Changing que é belissímo, mesmo para quem não conhece sua música.
Mas não peguei a fase de ouro de Dylan, os anos 60. Na verdade, vim conhecê-lo já adolescente. O primeiro disco que comprei de Dylan foi justamente este Desire, de 1976.
Já conhecia muitas musicas dele, sucessos dos anos 60, e tinha aquela idéia de Dylan "banquinho e violão" ( e claro, gaitinha presa ao pescoço ) dos primeiros discos, na sua época folk e de canções de protesto. Coisas tipo Blowin´in the Wind ( que tinha até uma versão "católica", cantada pelos grupos jovens das igrejas nos anos 70, com uma letrinha chinfrim que dizia " se a gente compreendesse o amor que deus nos dá, o inferno poderia se acabar" substituindo o "the answer my friend is blowin´in the wind, the answer is blowin´in the wind" - seria coisa de Sulivan & Massadas?), The Times They´re changing, etc. Linhas melódicas simples porém vigorosas, letras quilométricas, gaitinha cortante, a voz meio "taquara-rachada" ( como definiu um dia meu pai ). E claro, Lay Lady Lay, canção romântica de um Dylan de voz aveludada, mais grave, que certamente deve ser sua canção que mais toca em rádios.

Escutar um disco pulsante, musicalmente diversificado, com arranjos sofisticados, com uma banda numerosa, com violino rascante de Scarlett Rivera e mesmo congas e bongôs, ou seja, um disco cheio de nuances rítmicas, dançante até como Desire foi um susto. Claro que o susto durou até a compra do segundo, o volume 1 do Greatest Hits, que trazia um apanhado mais diversificado da música de Dylan, desde as canções folk, às guitarras elétricas, passando pelo blues e pelo rock´n´roll clássico, mostrou-me que não deveria me surpreender com os diferentes Dylans, e sim aprofundar-me naquela obra que é una e vária.

Já tinha escutado que Dylan era uma espécie de Caetano Veloso de voz fanha, o que parecia uma comparação estranha aos meus ouvidos mais acostumados à musica do nosso baiano. No tocante à poesia, às letras, tudo bem, mas musicalmente falando, achava que não tinha nada a ver. Naquele momento, me parecia que nada soava mais diferente da exuberante musicalidade de Caetano do que o Dylan "banquinho, violão e gaitinha" etc. Desire serviu para fazer a ponte entre as duas obras ( em boa parte pelas "congas e bongô" que criavam uma gostosa "cozinha rítmica" ). Depois fui perceber que era preciso ouvir Blonde on Blonde ou Bringing It All Back Home para reconhecer num e noutro as tão decantadas e reais afinidades - e obviamente, ressaltar as diferenças.

Mas é sobre Desire que estou falando. Escutá-lo, 31 anos depois, é uma experiência nostálgica - me vem obviamente à lembrança aquele eu de 14, 15 anos - e ao mesmo tempo surpreendente.

Desire é um excelente disco, sua sonoridade vigorosa, sua multiplicidade de estilos, boas canções e, principalmente, a empolgação de Dylan em cantá-las faz crer que estamos escutando mesmo uma obra prima. Justiça seja feita, apesar de ser um disco muito bom, não é o melhor de Dylan, não é sequer o melhor disco de Dylan da década de 70 ( Blood on the tracks, de 74 é muito superior, mas deste falaremos mais adiante, paciência ), apesar da maior parte das pessoas que não curtem Dylan acharem disparado o melhor.
O disco abre com a vigorosa, contundente e quilométrica "Hurricane" que, junto com Blowin´in the Wind e Lay Lady Lay, deve ser a canção de Dylan mais executada nas rádios, a despeito dos seus quase oito minutos de duração.
Hurricane é uma canção de protesto, daquelas que ele costumava compôr no começo de carreira, se bem que musicalmente seja completamente distante daquelas canções folk quase minimalistas. A letra ( em parceria com o dramaturgo Jacques Levy, como quase todas as músicas do disco ) tem a estrutura de uma canção de teatro, permeada de diálogos, manchetes de jornais, comentários, discussões entre corifeu e coro ( na essência do teatro grego ), é totalmente visual e cênica - poderia muito bem ser parte de uma opereta. Li nas Crônicas, livro de memórias de Dylan, que no começo de sua longa carreira ele buscou em Brecht e Kurt Weil e na pintura e no cinema expressionista a inspiração para criar um tipo de música "visual", cuja letra criasse ambientes e cenas cheios de "som e de fúria". Hurricane é bem isso. E o violino de Scarlett Rivera, cigana que participava da banda de Dylan na época de Desire, faz solos maravilhosos, aumentando ainda mais a potência dramática da canção. Neste sentido é bom lembrar a regravação que a sumida Cida Moreira fez de Hurricane ( literalmente "Furacão" ) , onde a teatralidade da música, acentuada pelo estilo "cantora de café concerto" de Cida, é brilhantemente destacada.

O disco é repleto de excelentes canções, a começar pela minha preferida, One More Cup of Coffee, que é de uma beleza pungente, com Dylan cantando como um kantor, emprestando um tom quase litúrgico à canção (ouvi dizer que o Zeca Baleiro gravou uma versão dessa musica, mas não conheço, mas estou curioso para ouvir, já que acho Baleiro um musico muito interessante ). Oh Sister! que lembra vagamente ( na letra) a Maninha de Caetano ( composta para o primeiro disco de Marina Lima ). Isis é puro Dylan dos anos 60, parece mesmo uma faixa composta à epoca de Blonde on Blonde, talvez pelo jeito como Dylan a toca ao piano e, é claro, pela letra non-sense tipica da poética de Dylan. Boas também Joey - talvez a maior canção de Dylan, 12 minutos! -, Moçambique ( alegre e dançante, não faria feio numa festinha tipo Casa da Matriz da vida ) e Sara, bela e triste canção de amor ( ou desamor, já que é um réquiem para o casamento desfeito de Dylan com Sara Lowndes ) que fecha o album.

É um disco gostoso de se ouvir de cabo a rabo, talvez o disco de Dylan mais palatável. O que para Dylan, ou para seus fãs, eu incluso, não é um bom adjetivo. Dylan, a começar por sua voz, não é exatamente uma experiência "palatável".

De qualquer forma, é um disco vigoroso e recomendado para quem deseja conhecer a música deste que é, sem dúvida, o maior compositor pop de todos os tempos. Foi por ele que comecei. 30 anos e mais de 30 discos depois, continua sendo meu músico estrangeiro predileto.

serginho

Mal tinha acendido o cachimbo e ligado o computador, quando soube da notícia: Serginho "Kodak" Vilella morreu hoje, de madrugada.

Serginho foi meu professor na UFF e fotografou um filme meu, PSW - uma crônica subversiva (87). Baixinho, precocemente grisalho, parecia um maestro de desenho animado. Tinha alma de poeta e physique du role de passarinho. Falava pouco mas dizia tudo.

Nos últimos tempos, estava trocando a fotografia que nunca chegara a exercer com regularidade ( em detrimento do enorme talento que possuía ) e voltando-se mais para o roteiro. Numa das últimas vezes que eu o encontrei, ele me contou que havia finalmente encontrado a sua vocação no cinema: escrever. Perguntou-me se eu não lhe daria aulas. Eu ri, dizendo: como vou dar aulas a quem me ensinou?

Só teve um roteiro filmado, o Corpo em Delito, de Nuno Cezar Abreu, no final dos anos 80. Recentemente havia recebido um prêmio do MinC para escrever um novo longa. Nem sei se terminou. Sabia que ele estava bastante doente. Problemas de coração, me contaram.

Vai deixar saudades.

fotogramas (1)


Papo de cinema:
eu e JJ.

domingo, 15 de julho de 2007

quadros que queria ter na parede aqui de casa (3):






Nighthawks de Edward Hoopper
.

coisas que eu gosto (de ver) 3:



Caro Diário, filme de Nanni Moretti, 1993.


Com esse filme "descobri" um dos grandes cineastas contemporâneos.
Premiado como melhor diretor em Cannes, o italiano Nanni Moretti é um narrador original e pessoal que, com muito humor e poesia, traça um inventário humano, político e afetivo da Itália e dos tempos modernos. Esse "Caro diário" é uma reflexão pessoal em que tudo conduz à primeira pessoa: além de dirigir, Moretti narra o filme e interpreta a si mesmo, comentando coisas que dizem respeito à sua vida, num auto-retrato cheio de ironia.
Há um teórico do cinema ( a memória anda falha, penso que seja Bela Balaz - não, Astruc, sim deve ser Astruc ) que fala do "cinema-caneta", aludindo a uma "escritura" pessoal do diretor ao realizar um filme, um cinema que remeteria à subjetividade dos poetas, à autoralidade, um cinema do "eu". Caro Diário é um cinema do "Eu", que leva à premissa do diário ( um caderno onde escrevemos nossas sensações e reflexões mais íntimas ) ao pé da letra: aliás, o filme começa com uma caneta escrevendo breves observações numa folha de papel em branco. O que vem a seguir é uma representação audio-visual dessas observações pessoais, subjetivas, confessionais. Um cinema de idéias próprias, de personalidade, um cinema de autor. Parece coisa antiga, mas é moderno.
Dividido em episódios independentes, unidos pelo tom confessional, tece pequenas porém sensíveis observações, num tom que oscila entre poesia ( a referência a Pasolini, feito num delicado passeio com sua vespa no terreno baldio onde o cineasta foi assassinado, ao som de Kholn Concert, de Keith Jarret) ora à mais pura indignação ( o delicioso momento em que Moretti "tortura" a consciência culpada de um crítico cinematográfico, lendo as baboseiras escritas por ele no jornal, antológico ), numa espécie de crônica memorialista que, longe de ser nostálgica, é sempre pautada por uma reflexão da atualidade.
Moretti não tem medo de se expôr ao ridículo, pois como bom comediante sabe rir se si mesmo e através do seu desnudamento revelar o ridículo de todos nós. O episódio que encerra o filme, "Médicos", é uma primorosa reflexão sobre o maior de nossos medos - a inevitabilidade da morte. Ao mesmo tempo, é um ácido panfleto contra o mito da infabilidade da ciência, personificado na figura do(s) médico(s). Todos têm uma opinião para o mal que aflige Moretti. As opiniões divergem, os tratamentos variam. Moretti entra numa espécie de labirinto criado pelas opiniões "abalizadas" dos senhores do saber, que aos poucos vai se tornando um pesadelo kafkiano. No final, ele não tem nada, e a impressão que se tem dos médicos é que sua ciência não passa de discurso.
Para um hipocondríaco incurável, porém cético, como eu, a esculhambação que Moretti faz dos médicos é um alento.
Da mesma forma como ridiculariza a infabilidade da ciência ( centrado na medicina ), Moretti avacalha os críticos cinematográficos, no episódio (já citado ) da "tortura moral" de um critico de cinema. Diz Moretti ao crítico: "você escreveu isso? Não tem vergonha?" No fundo, os petardos de Moretti, petardos divertidos, risíveis, mas letais, se dirigem a um unico alvo: os donos da verdade. Seja a crítica, a ciência, a mídia, a pedagogia "moderna" ( no episódio "Ilhas" mostra uma comunidade onde o liberalismo de pais "modernos" acaba criando uma ditadura cruel de crianças ), o poder estabelecido.
Por ser diretor e protagonista de seus filmes, e pelo humor, Moretti é às vezes comparado à Woody Allen. Mas diria que os dois diretores são completamente diferentes, até antagônicos. Allen não consegue ir além da crítica pequeno-burguesa em que vivem seus personagens e ele próprio. Ainda que consiga, com maestria, em vários momentos, expor a alma e as neuroses da classe média, o cinema de Allen tem um inevitável tom conformista ( ainda que sempre divertido ) de quem não consegue ir além das suas próprias fronteiras morais, políticas e psicológicas de pequeno-burguês judeu nova-iorquino. É um cinema enquadrado dentro dos limites da classe a que pertence. O máximo que consegue chegar é ao niilismo, que por si só é uma atitude típica do radicalismo pequeno-burguês, quase uma confissão da impossibilidade de se mudar o status quo.
Já Moretti é um homem de esquerda e seu cinema, ainda que mostre a mesma pequena-burguesia, a classe média italiana, tem o inconformismo de quem sabe que os limites de classe podem e devem ser abolidos, desmontados, destruídos. Seus filmes são, em maior ou menor escala, discursos políticos. Ele usa o humor como instrumento político. O que se pode verificar com mais precisão num dos primeiros filmes de Moretti, "Ecce Bombo" ( que vi na tv a cabo, divertidissímo, principalmente para quem, em algum momento da vida, participou do movimento estudantil ), em "Aprile" ( continuação direta de Caro Diário, mas não tão bom quanto este ) e, particularmente, no recente "Crocodilo", um poderoso líbelo contra a era-Berlusconni.
Se você não viu Caro Diário, convido-o a pegar carona na garupa da lambreta de Nanni Moretti e seguir com o diretor pelas ruas de Roma, a viajar com ele pelas ilhas do Adriático, a fazer uma via-crucis pelos consultórios de alopatas, homeopatas, acupunturistas, medicina alternativa, em uníssono equivocados e ignorantes, será um passeio inesquecível e revelador. Na maioria das vezes, sempre divertido e até hilariante. Mas sempre muito poético.
Depois de rir com Caro Diário, veja "O quarto do Filho", pungente drama familiar que ganhou a Palma de Ouro em Cannes, em 2001. Mas sobre este falaremos mais adiante.

sábado, 14 de julho de 2007


Cada coisa que a gente lê na internet...

É inesgotável a capacidade do ser humano perder tempo e dinheiro com bobices...

Olha só a seguinte "pérola", encontrada há pouco:



O inventor Arthur Humphries de Atlanta, Georgia, nos Estados Unidos, criou uma máquina para combater a disfunção erétil. O engenhoso americano leu em algum lugar uma pesquisa que dizia que "ejaculação e três orgasmos por semana é saudável". Portanto, nada mais óbvio para suprir essa falta de clímax do que um aparelho eletrônico para criar ereções.


A patente, registrada nos EUA, diz: "uma vez que o usuário coloca o aparelho na cintura, ele está em uma posição na qual pode começar as carícias mentais (que são sugeridas e devem ser feitas antes de colocar o membro na bomba de sucção)."


Depois de ligar o aparelho com o pé, é só deixar a bomba chupar todo o sangue - o que vai lhe deixar com algo mais do que os cabelos em pé. Agora é só chamar a Xantipa ou usar a auto-estimulação.Não sei como a humanidade viveu sem isso até hoje. E aí, vai encarar?

quinta-feira, 12 de julho de 2007

biscoito chinês

A "sorte do dia" no Orkut de hoje:

"Você subirá de posição social sem nenhum esforço especial"

sem comentários...

terça-feira, 10 de julho de 2007

coisas que eu gosto (de ler ) 2:


"(...) - Tenho meditado muito sobre Dostoievski ultimamente - disse eu. - Como é possível alguém escrever tão mal, tão incrivelmente mal, e ainda assim comunicar tanta emoção a quem o lê?

- Não creio que seja culpa da tradutora - respondeu Evan. - Constance Garnett nos dá um Tolstói bem legível.

- É verdade. Tentei ler Guerra e Paz não sei quantas vezes, até encontrar uma tradução de Constance.

- Há quem diga que ainda poderia ser melhor - disse Evan - e acredito que sim, embora não conheça russo, para opinar com segurança. Mas nós dois conhecemos muito bem esse negócio de traduções, e não há duvida de que ela trabalhou direito. É um romance fenomenal, talvez o melhor de todos os romances, penso eu. Tão bom que é possível relê-lo várias vezes.

- Exatamente. Mas ninguém consegue reler Dostoievski nesse ritmo. Numa de minhas férias em Schruns já havia lido todos os livros que levara e então descobri num canto o Crime e Castigo. Fiz força, mas foi impossível relê-lo. Passei a ler jornais austríacos e estudar alemão, até que fui salvo por algumas obras de Trollope, em edição Tauchnitz.

- Que deus abençoe as edições Tauchnitz - continuou Evan.

O uísque já perdera sua qualidade estimulante do início e agora, quando se lhe acrescentava um pouco de soda, era apenas uma bebida forte.

- Dostoievski era um merda, Hem - continuou Evan. - Os melhores heróis de sua literatura são os santos e uns merdas como ele. Não há dúvida de que conseguiu criar uns santos admiráveis. É pena que a gente não consiga reler seus livros.

- Tentarei de novo reler "Os Irmãos ( Karamazov )". Talvez a culpa seja minha.

- É claro que se consegue reler algumas partes. Uma boa parte, aliás. Mas logo começa a irritar-nos, apesar de sua qualidade"


Esse trecho do capítulo "Evan Shipman no Lilas", do livro "Paris é uma festa", de Ernest Hemingway ( em tradução de Ênio Silveira ) bem que merecia estar no tópico "não fui eu quem disse, mas... " mas preferi usá-lo para abrir o comentário sobre o Crime e Castigo. Primeiro livro que li de Dostoievski, quando tinha 15 anos. Foi uma experiência avassaladora ( talvez semelhante a que tive ao ler Grandes Sertões: Veredas, de Guimarães Rosa, mas este eu li depois dos 30 ). Todo o sentimento de humanidade, talvez o pior e o melhor do ser humano reunidos num único personagem, Raskolnikoff, descritos com uma fúria intensa e um amor de igual volume que pareciam provir de um escritor em pleno surto, meio alcoolizado, meio enlouquecido, ou ambos.

Discordo totalmente de Hemingway quando ele diz que Dostoievski "escrevia mal, incrivelmente mal", mas entendo seu estupor diante da verborrágica e atordoante escrita que parece brotar aos jorros, como cuspe, como vômito, como sangue de uma veia aberta.

Discordo também quando ele diz que é impossível reler Dostoievski - mas também em parte. Reli o Crime e Castigo aos 25 anos. A emoção permaneceu intacta nesses dez anos. Mas foi uma leitura mais acurada. Não dá pra ler como entretenimento. É uma literatura pesada, dura, as vezes confusa - parece mesmo que Dostoievski não revisou seus originais, mandou publicar diretamente aquilo que saiu de sua cabeça e passou pro papel. Talvez seja isso que incomode tanto o Hemingway, sabidamente um lapidador de frases, inimigo visceral dos adjetivos, seco e direto como um telegrama.
Dostoievski tinha fôlego de oceanos, e um ritmo desordenado como um mar revolto. Mas duvido que ele não burilasse seu texto. Era um escritor, e mesmo um escritor de segunda revisa e copidesca seus textos.
O que Hemingway não entendia - ou fingia não entender, afinal, para um jovem escritor de 25 anos, que era o Hemingway retratado nessas memórias, um jovem escritor que se considerava algo cabotinamente o "maior escritor do mundo", era estiloso marcar diferença com um dos maiores escritores de todos os tempos, dizendo que escrevia mal, "incrivelmente mal", enquanto ele, aos vinte e pouquinhos, já era o maior, etc... ao mesmo tempo, há uma visível pontinha de inveja e reverência explícita na constatação de que apesar de escrever "incrivelmente mal", Dostoievski comunicava tanta emoção aos seus leitores -, como eu dizia, o que Hemingway não entendia que o tom atabalhoado de Dostoievski era o seu estilo.
Como falar de demência, compulsão, vícios, culpa, paixões irrefreáveis, ódios e rancores irreprimíveis, fé absurda e ceticismo completo, sem que a forma reproduzisse tão perfeitamente o seu conteúdo? Dostoievski não era um fingidor, ele sentia real e tão desesperadamente a dor que seu texto reproduzia.

Crime e Castigo ( como os demais romances e mesmo contos de Dostoiveski ) não é uma leitura de entretenimento, é uma aula de sobrevivência. Descobrir novos e nem tão belos aspectos da condição humana. Se reconhecer naquilo que se tem de simultâneamente bom e pérfido. Um mergulho de cabeça e sem rede no mais profundo da alma humana. Não é a toa que muitos definem Dostoievski como um precursor da psicanálise. Eu diria que melhor do que perder seu tempo num divã ( ainda se usa isso?) de analista ( e muito mais barato ) é ler Crime e Castigo ou Irmãos Karamazov ou, principalmente, Notas do Subsolo - sobre esse, especialmente, falarei mais adiante, em outra postagem. Disse isso uma vez pra uma aluna minha, de 24 anos, 14 destes passados num consultório (???) de analista. Ela fez cara feia, ou ficou vermelha, não lembro. Mas espero que ela tenha -se não largado a análise - pelo menos comprado num sebo uma boa e velha edição do Crime e Castigo.

Da mesma forma que se considera Dostoievski um precursor da psicanálise, é também um "existencialista" antes do existencialismo. E Raskolnikoff, com todos os seus anseios, defeitos, cheio de soberba e rancor, capaz dos sentimentos paradoxalmente mais abjetos e sublimes, talvez seja um dos personagens mais modernos da literatura, com certeza há muito de Raskolnikoff nos personagens dos existencialistas, como também nos personagens da contra-cultura, nos escritos dos beatniks, em muito de Henry Miller, em quase tudo de Bukovski.

E se Raskolnikoff é o mais conflituado e perturbado(r) personagem já criado pela literatura ( ao lado de Édipo e Hamlet), o que dizer de Sônia, a jovem prostituta que é o caminho de sua redenção? É um dos mais belos personagens femininos de todos os tempos. Um anjo - um daqueles "santos admiráveis" a quem Hemingway, ou melhor, o seu amigo Evan Shipman se refere - mas um anjo torto, como aliás, quase todos personagens "bons" do escritor russo são: anjos tortos, anjos cheios de uma putrefata humanidade, anjos de asas carcomidas pela miséria, pela loucura, pela prostituição, porém com a doçura e a bondade que nos fazem suportar mais alguns anos nesse vale de lágrimas e trevas que é nossa trajetória errática na terra.

Crime e Castigo rendeu algumas adaptações para o cinema. Conheço uma versão fiel, um filme russo, lamentavelmente muito contido e portanto, muito aquém ao texto. Há algumas versões livres, a melhor delas Pickpocket, de Robert Bresson - a mais fiel em essência ao romance de Dostoievski, se bem que, em estilo, nada mais distante dos arroubos dostoievskianos que a "frieza" do cineasta francês, embora nenhum ator conseguiu chegar mais perto do olhar de brilho quase sempre doentio de Raskolnikoff do que Martin LaSelle, que interpretou (?) Michel e nada mais semelhante à Sonia do que o semblante de "santa" de Jeanne, interpretada(?) por Marika Green (sobre Pickpocket falarei outro dia) - e a mais fraca, Nina, de Heitor Dhalia ( se bem que exista alguma semelhança entre a estética digamos "neo-expressionista" do filme e o clima do livro )

Em suma - leitura mais do que obrigatória.

mudança de vida ( e de endereço)

descendo do morro e indo pro asfalto...

domingo, 8 de julho de 2007

A proximidade da mudança é apavorante...
É nessas horas que a gente percebe a quantidade de lixo que acumulou, ao longo dos anos.
E pior, um lixo cheio de valor sentimental...

quadros que queria ter na parede aqui de casa (2)





La niña y la paloma, Picasso.

Coisas que eu gosto ( de ouvir) 3:


Cartola 2, 1976.
( também conhecido como "O mundo é um moinho" ou, mais popularmente, o "disco do Cartola na janela").
Esse foi o primeiro disco do Cartola que eu comprei, quando os discos ainda eram de vinil, editado pela saudosa gravadora Marcus Pereira Discos.
Hoje eu tenho em cd, como os seus demais discos - lamentavelmente poucos.
Desnecessário falar alguma coisa sobre o Cartola, é talvez o maior poeta popular brasileiro.
Neste disco estão registrados algumas de suas melhores canções que, sem exagero, podem ser consideradas algumas das melhores músicas de todos os tempos. "O mundo é um moinho", "As rosas não falam", "Minha", "Preciso me encontrar", "Cordas de aço", só tem obras-primas.
E que voz tinha o Cartola... ao mesmo tempo imponente e tão tranquila, suave.
É emocionante ouvir o Ney Matogrosso cantando Cartola, a gravação de Beth Carvalho para "As rosas não falam" é magistral, tem até aquele disco, "Bate outra vez", onde vários cantores interpretam seus grandes sucessos ( no geral, boas interpretações, a despeito das lamentáveis participações do indiscritível Paulo Ricardo, da chatonilda da Leila Pinheiro e do limitado mas até bem intencioando Cazuza, mas o inferno das boas intenções está lotado ), mas gostoso mesmo é ouvir Cartola cantando suas próprias músicas.
No geral, eu sempre prefiro ouvir as músicas cantadas pelos seus autores, ainda que nenhum deles seja lá um grande cantor, no sentido mais estrito da palavra.
Chico Buarque, Nelson Cavaquinho, Bob Dylan não poderiam ser considerados "bons cantores" mas no entanto, são os melhores intérpretes de suas canções - e são bons de se ouvir mesmo quando cantam canções de outros. O disco Sinal Fechado é um dos melhores do Chico, apesar de só contar com uma música sua ( Acorda Amor, que é creditada ao seu "alter ego" Julinho da Adelaide, solução malandra em tempos duros de ditadura e censura ) - sobre esse disco falaremos depois.
Mas Cartola tem a vantagem de cantar muito bem, além de ser um vigoroso intérprete não só da sua própria obra, como a de outros compositores - a gravação de "Senhora Tentação", de Silas de Oliveira, presente neste disco é empolgante.
Você tem esse disco? O que está esperando, rapaz? Compra logo e bota pra tocar.
Fundamental.

Momento poético em tempos de dureza (3)


Ai.. ai.. meu Deus! Tenha pena de mim
Todos vivem muito bem só eu que vivo assim.
Trabalho e não tenho nada, não saio do "miserê"
Ai.. ai.. meu Deus! Isso é pra lá de sofrer.
Sem nunca ter, nem conhecer felicidade,
Sem um afeto, um carinho ou amizade
Eu vivo tão tristonho fingindo-me contente
Tenho feito força pra viver honestamente
O dia inteiro eu trabalho com afinco
E à noite volto pro meu barracão de zinco
E pra matar o tempo e não falar sozinho
Amarro essa tristeza com as cordas do meu pinho.

Tenha pena de Mim - Babaú da Mangueira 1914-1993

sábado, 7 de julho de 2007

Coisas que eu gosto (de ver) 2:


Vidas Secas, filme de Nelson Pereira dos Santos de 1963.



Para mim, o melhor filme brasileiro de todos os tempos. A recriação cinematográfica da obra prima de Graciliano Ramos é tão perfeita que parece que o texto foi escrito realmente para virar filme. Aliás, Nelson disse que o roteiro de Vidas Secas foi escrito recortando páginas do livro e colando, em sequências. Não foi preciso acrescentar nada, já estava tudo ali, descrito na linguagem seca e totalmente visual do velho Graça. E o filme recria a secura e dureza das palavras do grande escritor alagoano com imagens igualmente secas e duras, mas de uma beleza incomparáveis.

Talvez a primeira fotografia ( de Luiz Carlos Barreto e João Rosa ) verdadeiramente brasileira do nosso cinema. É a poesia áspera do sertão, em sua mais perfeita tradução. A atuação dos atores é impressionante. Estranha combinação de atores profissionais - Átila Iório, grande ator da velha escola, está memorável, apesar dos relatos dos constantes atritos travados com Nelson nas filmagens, ele simplesmente não compreendia o que Nelson estava fazendo, e era compreensível, era um cinema moderno, diferente do êmulo hollywoodiano que dava(?) os parâmetros para a atuação, para a fotografia, para o cinema em geral - com não atores - Maria Ribeiro era funcionária do laboratório cinematográfico onde os filmes eram processados -, com crianças e, capítulo à parte, com animais - a cadela que interpreta "Baleia" é filmada de forma tão expressiva que sua "morte" no filme gerou protestos de grupos protetores de animais, que acreditaram que o cachorro fora mesmo morto, em cena.

Há um curta maravilhoso chamado "Como se morre no cinema", da Luêlane Correa, que relata este episódio. Para provar que Baleia vivia, tiveram que levar o cachorrinho à Cannes, onde o filme estava concorrendo e acabou recebendo o Prêmio Especial do Juri.

A cena da morte de "Baleia" foi descrita pelos escritores Leif Furhammar e Folke Izaksson no seu livro "Cinema e política" ( ed. Paz e Terra) como uma "sequência de uma tristeza quase insuportável" . Realmente, a cena é capaz de rachar mesmo o mais duro coração, mesmo o de emperdenidos maoístas como Furhammar e Izaksson, linha-durésimos, imunes a qualquer concessão melodramática que não se enquadrassem no seu crivo materialista-dialético de análise cinematográfica ( que, justiça seja feita, comparada ao relativismo, ao pedantismo delleuziano e à subjetividade do gosto pessoal que hoje impera na crítica cinematográfica, a linha dura maoísta dos escritores suecos era muito mais, digamos, inteligente e inteligível ).

"Vidas Secas" é um filme que não envelhece, suas imagens fortes e poéticas parecem se eternizar no tempo e ao mesmo tempo, parece um filme tão recente, urgente, vigoroso, moderno. E vai sempre influenciar novas gerações de cineastas ( basta compará-lo com o belo filme de Marcelo Gomes, Cinema, Urubus e Aspirina, herdeiro legítimo das imagens de Vidas Secas).

Lembro que no curso de cinema da UFF, naqueles primeiros anos da década de 80, nós os alunos dividiamo-nos ( mais por farra do que por uma verdadeira filiação cinematográfica ) em dois grupos bem distintos: os "glauberianos" e os "nelsistas". Eu sempre fui "Nelsista", de carteirinha. Não quer dizer que eu fosse anti-Glauber, da mesma forma que duvido que qualquer um do "time do Glauber" desprezasse os filmes do Nelson - que diga-se de passagem, era nosso professor. Mais ou menos professor, porque estava sempre filmando e quase nunca aparecia lá na UFF. Mas com certeza eu tinha - e tenho, até hoje - mais afinidade com o cinema do Nelson Pereira dos Santos.

Sobre o Nelson costuma-se dizer, de modo pejorativo, que ele "dá uma no prego e outra na estopa", alternando grandes filmes como fiascos. Não que essa alternância ou inconsistência seja privilégio ou defeito unicamente do NPS, mas talvez a discrepância entre os seus grandes filmes e os filmes menores seja tão notada porque os grandes são verdadeiramente colossais.
Além de Vidas Secas, considero - e são - grandes filmes brasileiros o Rio 40 graus, Boca de Ouro, Fome de Amor, El Justiceiro (um pequeno grande filme, tão menosprezado como pouco visto), Como era gostoso o meu francês, Amuleto de Ogum e, claro, Memórias do Cárcere.

A pergunta que não quer calar: já lançaram os devedês de Deus e O Diabo e Terra em Transe, do Glauber, Macunaíma, do Joaquim Pedro, Assalto ao trem pagador, do Roberto Farias. Quando vão lançar "Vidas Secas"?