sábado, 20 de outubro de 2007

coisas que eu gosto ( de ouvir) 5:



A bossa eterna de Elizeth e Ciro


Disco fundamental para quem deseja conhecer a boa música popular brasileira.
Dois pesos pesados da musica brasileira dando o melhor de si, para felicidade daqueles que apreciam um bom samba.
A divina Elizeth Cardoso, consagrada por interpretações sublimes e pungentes ( considero sua gravação de "Barracão", de Herivelto Martins, no disco ao vivo com Jacó do Bandolim a mais bela interpretação da MPB ) revela aqui seu lado mais descontraido, ao lado do sempre irreverente e malandro Ciro Monteiro.
Sou fã de carteirinha do "formigão", sem dúvida o mais carioca dos cantores da MPB. Apoiado num timbre de voz saboroso, dono de um estilo personalíssimo, Ciro esbanjava alegria.
Ao seu lado, a Elizeth dá um tempo à "diva" e incorpora uma cabrocha cheia de ginga e malandragem. É um disco que celebra a alegria, e que compartilha com os ouvintes o prazer de viver.
Na versão "bolachão", tanto o lado A quanto o B abriam com dois deliciosos "pout-porrys", com duelos entre Ciro e Elizeth, marcados pelo bom humor que contagia o ouvinte. São trechos de canções imortais, cuja letra imediatamente vem à lembrança e é irresistível não unir nossa voz à dos grandes cantores. É o caso de Taí, de Joubert de Carvalho, Adeus Batucada, de Ismael Silva ( por sinal, dois grandes sucessos de Carmen Miranda ), ou Mulher de Malandro, de Heitor dos Prazeres e Meu fraco é mulher, de Conde e Heitor de Barros.
Nestas e nas demais faixas do disco, Elizeth e Ciro são acompanhados pelo regional do Caçulinha ( sim, ele mesmo, o que hoje se apresenta no "circo de horrores" dominical do Faustão, triste aposentadoria para um grande músico ), em ótima forma.
Juntos também a dupla arrasa com "Quando eu penso na Bahia", de Ary Barroso, número cheio de deliciosa teatralidade, bem ao estilo do teatro de revistas - um aspecto da cultura e do show bizz brasileiros lamentavelmente perdidos. Ao ouvir essa faixa, quase é possível "ver" Elizeth e o formigão em um palco imaginário, tal a força visual da interpretação.
Nos momentos solos, o destaque é a emocionante Sei lá Mangueira, que Elizeth canta de forma sublime, talvez a mais bela canção sobre já feita sobre a verde-e-rosa, curiosamente composta pelo rival portelense Paulinho da Viola, com versos de Hermínio Belo de Carvalho: "visto aqui do baixo, mais parece o céu no chão". Que bela metáfora.
Outra boa interpretação de Elizeth é o samba "Louco", de Wilson Batista e Henrique Alves, que anos depois o saudoso João Nogueira iria gravar e associar inevitavelmente à sua carreira: "louco, pelas ruas ele andava, o coitado chorava/ transformou-se até num vagabundo/ Louco, para ele a vida não valia nada, para ele a mulher amada/ era seu mundo".
Já Ciro arrebenta com Certa Maria, composição sua com o poetinha Vinícius de Moraes.
É um disco que não parece ter sido gravado há quase 40 anos. O frescor e força dos intérpretes, a eternidade das canções, o clima de camaradagem que emana das gravações, sempre contagiante, afungentam qualquer sentimento nostálgico.
Um disco pra botar no "repeat" e deixar rolar. Recomenda-se ouvir acompanhado de uma boa cervejinha gelada. Ou melhor, várias.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Precisa dizer mais alguma coisa?


Capa da Veja desta semana.
"Pegou geral" - O filme Tropa de Elite é o maior sucesso do cinema brasileiro porque trata bandido como bandido e mostra usuários de droga como sócios dos traficantes".
Para uma revista sabidamente inimiga do cinema nacional, seria estranho uma capa e uma crítica tão elogiativas...
Seria estranho, não fosse a Veja a porta-voz da direita brasileira. A maior publicação conservadora da mídia brasileira não ia fazer essa publicidade de graça.
O Padilha pode se dizer "surpreso" com a reação empática dos expectadores que gritam "caveira" ou aplaudem o seu capitão Nascimento no escurinho do cinema. Pode tirar o corpo fora dizendo que "apenas retratou o ponto de vista de um policial" e jogar a culpa na platéia pela "leitura" fascistizante que fazem do seu filme. Mas será que ele vai escrever uma carta pra Veja criticando o ponto de vista ultra-direitista da revista sobre seu filme?
A pergunta que não quer calar: o Padilha não sabia o filme que estava fazendo?

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

momento gastronômico (1)


Falei que, vez em quando, ia publicar umas receitas. Pois é, adoro cozinhar. Saudades do tempo em que tinha um fogão de seis bocas. Foi logo que mudei pra Santa Teresa, 11 anos atrás. Quem frequentou o apartamento da Aarão Reis e partilhou das minhas "experiências" culinárias deve sentir saudades das verdadeiras orgias gastronômicas que volta e meia eu produzia lá.

Hoje em dia sou um cozinheiro preguiçoso. Só enfrento o fogão quando tem visitas. Sem contar que a Clarisse também cozinha bem. E que a Beth, a moça que trabalha aqui três vezes por semana, cozinha muito bem, de modo que enfrentar uma cozinha tem que ser por uma boa causa. Um puta almoço de domingo, com amigos, por exemplo. E sou daqueles cozinheiros pantagruélicos, gosto de cozinhar pra um batalhão. Minha feijoada é famosa. Dizem que dá de dez na do Mineiro, de Santa Teresa ( que a Angela não leia esse blog ). Mas não faço p´ra menos de 20 pessoas. Durante a Copa passada, a galera vinha ver o jogo ( aliás, ia, era ainda em Santa Teresa ) lá em casa, menos por conta do futebol insosso do timeco do Parreira, mas para "afogar" as mágoas na suculenta feijoada - que, modéstia a parte, é feita só com carnes nobres do porco.
O bacalhau ao zé do pipo, que eu prefiro chamar de "bacalhau dos amigos", que geralmente sirvo na época do Natal, também faz a alegria da moçada. A lula recheada também tem seus fãs, bem como o polvo a espanhola e, claro, o lombinho com puré de maças que durante um tempo, era a especialidade da casa.
Mas a intenção aqui é partilhar de receitas legais, não encher a minha bola.
A primeira que publico aqui é um prato maravilhoso, a Camoranga, ou mais simplesmente, camarão na moranga. Esse ainda não fiz, foi a Clarisse que cozinhou outro dia. Não é dificil, não. Prato ideal pra tres, quatro pessoas no máximo. Excelente pra um dia frio, se estiver chovendo então, melhor ainda. Com um vinhozinho, desce "redondo", mas também não cai mal com uma cerveja gelada e uma cachacinha. É comer e ficar "lagarteando" de barriga pro alto, o que pode não ser lá muito saudável, mas não tem nada melhor.


CAMORANGA


Ingredientes:

1 moranga média

3 colheres (sopa) de azeite de oliva

1 cebola picada

2 xícaras (chá) de molho de tomate

2 xícaras (chá) de requeijão cremoso

2 colheres (chá) de molho de pimenta

500 g de camarão limpo

1 xícara (chá) de salsinha picada

sal a gosto


Modo de Preparo:

Lave a moranga, faça uma tampa na parte superior e com uma colher retire as sementes e as fibras. Em seguida, embrulhe a moranga a moranga com papel-alumínio e coloque-a em uma panela grande. Junte 1 litro de água, sem cobrir a moranga, leve ao fogo e cozinhe por 30 minutos, ou até ficar macia. Aqueça em uma panela 2 colheres (sopa) de azeite de oliva, junte a cebola e refogue, mexendo de vez em quando, até dourar. Adicione o molho de tomate, o requeijão, o molho de pimenta e o sal. Misture bem e cozinhe por 5 minutos, mexendo de vez em quando. Por último, adicione os camarões e a salsinha e misture bem. Cozinhe, mexendo de vez em quando, por mais 5 minutos, ou até os camarões ficarem cozidos. Retire do fogo e despeje o creme de camarões dentro da abóbora. Pincele a casca de abóbora com o azeite restante e embrulhe-a em papel-alumínio. Disponha-a em uma fôrma de 30 cm de diâmetro e leve ao forno em temperatura média por 20 minutos, ou até a abóbora assar. Retire do forno e sirva em seguida.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

entranhas cinematográficas ( e ideológicas ) de Tropa de Elite (2)


Mississipi em Chamas, filme de Alan Parker.



Considero este filme um dos mais abjetos já realizados. O cineasta inglês foi mais feliz em filmes como Expresso da Meia-Noite, apesar da xenofobia anti-turca, em Asas da Liberdade, no ótimo Commitments, em Coração Satânico. Mas este seu filme me incomoda pelo descompasso entre o discurso progressista - a luta pelos direitos civis na América, no início dos anos 60 - e a metodologia típica dos filmes policiais mais fascistas, comum à cultura e ao cinema hollywoodiana. Recordemos a história do filme: Gene Hackman e Willian Dafoe são dois agentes do FBI que investigam o cruel assassinato de militantes dos direitos civis pela Ku-Klus-Klan, no Mississipi ainda dominado pelo racismo. Para desbaratar o grupo de extrema direita, e capturar os assassinos, o policial experiente e linha dura (interpretado por Hackman ) acaba convencendo o colega liberal e ético ( Dafoe ) que somente pelo mal poderão vencer o mal. E para combater os KKK terão que usar os métodos mais sujos - no caso a tortura. Eles capturam e torturam um dos membros do Klan que, como inevitavelmente acontece em casos de tortura, acaba delatando o resto do grupo. O que me incomoda é a lógica de que os fins nobres justificam os meios mais perversos. Tortura é crime hediondo, mas o fato dos "bons" torturarem os "maus" (ainda mais por uma causa nobre ) acaba sendo absorvida ( e absolvida ) pela platéia como um método necessário para o combate ao crime, ao racismo, etc.
A ética do filme é maniqueísta pois estabelece que o crime quando praticado pelos maus é errado, enquanto que o crime praticado pelos bons é justificavel, e em certas circunstâncias, aceitável e mesmo necessário. Esse discurso é adotado pelo filme do José Padilha, ainda que ele insista em dizer que o filme só faz reproduzir o ponto de vista do personagem policial, que pratica a tortura. No filme do Parker há um conflito entre o personagem ético ( "certinho e careta") de Dafoe e o personagem realista e pragmático ( "que conhece a realidade das ruas" ) de Hackman quanto a sujar as mãos em nome do exito da missão. Ao final do filme, os bons triunfam, o mal é derrotado e a sensação que o expectador vivencia é que para derrotar o mal é necessário renunciar ( como faz o personagem de Dafoe ) à sua consciência, aos seus princípios éticos e morais, e "sujar as mãos", usando de métodos tão hediondos como os praticados pelo inimigo.
O que me irrita particularmente no filme de Parker é o uso de uma causa nobre - a luta pelos direitos civis e humanos, o combate ao racismo - para justificar a prática da tortura (ou de qualquer expediente abominável ). Como, a exceção talvez de reacionários racistas, ninguém simpatiza mesmo com os membros da KKK, quem irá se importar que eles sejam torturados, mortos, who cares? O importante é punir o mal, seja lá sob qual a forma ele apareça. Sejam os racistas da KKK, os bandidos, os traficantes, os terroristas. Pela ótica do filme, se aceitamos que sejam usados métodos "não-ortodoxos" no combate ao crime, ao mal, como protestar contra a tortura que o governo americano pratica em Guantánamo contra os prisioneiros supostamente acusados de terrorismo?
No caso brasileiro, quem liga se o Bope tortura traficantes?
Talvez haja um exagero, como quando no filme, os bravos soldados da Tropa de Elite torturam uma moça da favela para que ela revele o paradeiro do "Baiano", afinal, ela não é bandida. Talvez a platéia se incomode com a exposição da violência - mas o filme, até por sua postura "independente", não julga a ação dos seus personagens, deixa para a platéia julgar. E qual o julgamento que se espera de uma platéia assustada pelos altos índices de violencia e criminalidade vivenciados hoje no Brasil? Ainda mais uma platéia que assiste a um filme que, ao renunciar a uma visão crítica, apenas mostra os "homens de preto" como seres humanos, passíveis de erros, capaz de exageros, porém profundamente dedicados ao combate ao crime e a corrupção.
Da mesma forma que a platéia se identifica com os nobres agentes do FBI na sua luta contra os racistas criminosos da KKK, e perdoa ou mesmo admite o uso de meios sujos nessa luta, penso que a platéia brasileira pode achar brutal algumas cenas de Tropa de Elite, mas sai do cinema com o sentimento reconfortante de que felizmente existe no país alguém que faça o "serviço sujo" para ela. E a visão acrítica ou, como prefere o Padilha, "independente" do filme "Tropa de Elite" acaba servindo para aplacar a consciência pesada do expectador, que no escurinho do cinema, considera que aquela tortura é incorreta porém necessária, afinal, como o filme também mostra, os maus, os traficantes, os corruptos, a classe média permissiva, precisam ser derrotados.
E no mais, por mais que o filme e seu diretor tenham adotado uma postura "independente", Tropa de Elite não consegue fugir ao maniqueísmo. Independente dos "excessos", independente da brutalidade de muitas cenas de tortura ( o da moça da favela e o quase empalamento de um vapor, devidamente interrompido pela vitima que se "dispõe" a delatar o esconderijo do traficante antes que os expectadores sejam violentados por uma cena realmente brutal, como bem observou Carlos Reichenbach, num artigo em o Globo ), o maniqueísmo domina o filme, até mesmo na escalação do elenco. Os "bons" tem cara boa. Os "homens de preto" são os boa-pintas Wagner Moura, Caio Junqueira e o André Ramiro enquanto que o "vilão", o traficante Baiano (Fábio Lago ) é feioso, barrigudo, despojado de qualquer atrativo. Será que ao pensar "visualmente" seus personagens, o Padilha teria tido uma postura "independente"?

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

O retorno do Jedi ou a volta do boêmio - Eduardo Coutinho reencontra seu melhor cinema





Jogo de cena, de Eduardo Coutinho.

Confesso que achava que o cineasta Eduardo Coutinho estava nos "devendo" um bom filme há tempos.

Autor dos magistrais Cabra Marcado pra Morrer ( sem dúvida, um dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos ), Santa Marta-duas semanas numa favela, Boca do Lixo, Santo Forte e Edifício Master, Coutinho tinha demonstrado uma certa "preguiça" no Babilônia 2000, que, apesar de simpático, era uma espécie do "mesmo do mesmo" do cinema que, desde "Boca do Lixo, o diretor vinha propondo. Uma sala de visitas para pessoas simples, gente do povo, anônimos, geralmente em condições adversas, falarem de suas vidas anônimas, se exporem, cantarem (desde Boca do Lixo todos os filmes de Coutinho têm um "número musical" ), em suma, brilharem. O cinema humanista de Coutinho parece ecoar os versos de Caetano ( na verdade, inpirado em Maiakovsky ) que dizem: "gente é pra brilhar, não pra morrer de fome". Mas se havia simpatia ( e todo carioca sabe que "simpatia é quase amor") em Babilônia 2000, a impressão que passava ( ao menos, para mim ) era de uma visível indolência, uma repetição, como se o diretor houvesse encontrado uma "fórmula" que, como sempre acontece, acaba por diluir a força expressiva de seus melhores filmes.

Depois veio "Peões", que considero um dos filmes mais reacionários já realizados no Brasil. Vou melhorar a frase: um dos filmes mais reacionários já realizados por um cineasta nitidamente identificado com os valores sociais e com as classes menos favorecidas. Um amigo em comum me disse que Coutinho não gostava do Lula. Gostar ou não do Lula é um direito do Coutinho, mas daí fazer um documentário impregnado com essa antipatia, disfarçando-o de forma a parecer "neutro", são outros quinhentos. Peões é um filme que busca o tempo todo "demonstrar" que, enquanto Lula se "deu bem", seus antigos e anônimos companheiros de fábrica e de greves tinham ficado para trás, tinham fracassado, como se fossem apenas uma massa de manobra para a ascensão do líder operário que viria tornar-se presidente do Brasil. Para defender a tese, Coutinho chega a cometer um dos "pecados capitais" do documentário: o falseamento da "verdade", através da omissão de fatos que, se expostos, revelariam o parcialismo de seu ponto de vista. Um exemplo: para mostrar que a maioria dos companheiros de Lula acabou no ostracismo, na pior, enquanto o atual presidente ascendia politica, social e mesmo economicamente, Coutinho "omite" que um daqueles anônimos, que desfilam pelo filme, na verdade é Djalma Bom, um dos fundadores do PT, ex-deputado federal e atualmente vice-prefeito de São Bernardo. No filme, ele é apresentado apenas como um ex-operário, que tocava violão ( olha aí o número musical ) nos comícios, reforçando a tese (reacionária ao extremo, digna de um Diogo Mainardi da vida ) de que só Lula teria obtido vantagens nas famosas greves do final da década de 70, enquanto que a massa, "aqueles anônimos que realmente fizeram a greve", no final das contas, apenas perderam. Questionável manipulação da verdade para defender uma tese, por si só lamentável.

Por muito menos, por editar "desfavoravelmente" o depoimento de Charlton Heston, porta voz da famigerada NRA, quase crucificaram o Michael Moore...


Depois veio "O Fim e o Princípio", que, sinceramente... é uma nulidade, uma chatice sem par, um filme que parece ter sido realizado apenas porque deram dinheiro para o diretor filmar "o que bem entendesse", como ele mesmo diz, na narração, no ínicio do documentário (?). Nem a famosa capacidade do Coutinho em extrair depoimentos sinceros e espontâneos de seus entrevistados, que torna seus filmes tão pessoais e interessantes, parece funcionar. Tudo soa meio forçado, ele chega ao ponto de perguntar a uma octogenária se ela tem medo da morte. Feito por um dos muitos imitadores do Coutinho ( aliás, uma praga na cinematografia brasileira recente, quase 80% dos estudantes de cinema fazem filmes pastichados dos filmes do Coutinho ), O Fim e o Princípio teria sido ignorado ou mesmo tratado como pueril. Mas os fãs de Coutinho, assim como seus imitadores ou discípulos, são complacentes, e o filme foi elevado à estratosfera das obras primas. Houve quem enxergasse naquela "conversa pra boi dormir" uma espécie de "prosa roseana" cinematográfica, seja lá o que isso venha significar... mas a maioria da crítica no Brasil é assim, mesmo. Ou totalmente bajuladora, ou de uma fúria sanguinolenta.

Por essa razão, há algum tempo considerava Coutinho no "vermelho", estava nos devendo um filme que fizesse juz à sua fama e ao seu talento. Eis que surge "Jogo de Cena". Talvez o filme do Coutinho mais rico, do ponto de vista da linguagem cinematográfica, desde Cabra Marcado. Ainda que seja um filme no formato "talking heads", cabeças falantes, planos próximos de rostos, closes, pouquissíma ou quase nenhuma mudança no enquadramento (afora uma ou outra inserção de planos dos entrevistados subindo uma escura escada em espiral, que leva ao palco do teatro onde ocorrem as entrevistas ), o filme cria um espetacular jogo metalinguístico, a partir do confronto entre realidade e ficção, com atores e personagens reais alternando depoimentos, criando uma rica dialética, na qual o expectador é apresentado aos mecanismos da criação artística. Como não lembrar de Brecht? Como não lembrar de Pirandello? O filme provoca diversas reflexões. O que é realidade? O que é simulação? O que é criação? O que é material dramático? O expectador é questionado o tempo todo, forçado a pensar, melhor: convidado a pensar, pois, mais do que em qualquer outro de seus filmes, Coutinho nos transporta da poltrona do cinema para um banquinho, ou, mais comum numa filmagem, para uma "três tabelas" colocada ao lado da câmera e diante do entrevistado, partilhando com o diretor o convívio direto com aquelas pessoas, aquelas mulheres, personagens reais ou interpretes, e mesmo essas, pessoas reais, despojadas da "máscara", desencarnadas dos seus personagens.
O que poderia ser apenas um "jogo de cena", aos moldes do quadro que o Jorge Furtado criou no Fantástico (onde atores e personagens reais contavam histórias, cabendo ao expectador advinhar quem era quem ), nas mãos habéis de Coutinho, com ajuda da montagem brilhante de Jordana Berg, vira um profundo estudo sobre o ser humano, mais especificamente, sobre a mulher.

"Jogo de cena" talvez seja o filme mais profundamente feminino já realizado por um homem, similar cinematográfico da poética de Chico Buarque ( reconhecidamente, um homem que consegue entender e traduzir como poucos a essência feminina ). Os depoimentos, tanto os reais, como os interpretados, são reveladores da "dor e a delícia de ser o que é”, como dizia aquela canção do Caetano ( outro que também entende e muito da anima feminina ). Por outro lado, o depoimento das atrizes sob o processo de composição das "personagens" que interpretam é uma aula de dramaturgia. Penso que, desde Nossa Música, de Godard, não via um filme tão imprescindivelmente didático, no sentido de ensinar cinema. Devia ser incluído nos currículos de todas as escolas de cinema, não na cadeira de documentário, mas na área de dramaturgia, especificamente em direção de ator.
"Jogo de Cena" consegue ser profundamente intelectual e ao mesmo tempo, emocional, sensível, comovente. Porque no fundo, o filme aponta a gênese de toda criação artística e intelectual : o ser humano, com suas qualidades e defeitos, com sua beleza e feiúra, com sua força e sua fragilidade. Seja numa atitude mimética, seja questionando os processos de simulação da realidade, a função da arte no fundo é do recompôr a nossa humanidade estilhaçada, e o artista, seja ele o ator, o poeta, o cineasta, é aquele que recolhe nossos fragmentos perdidos e nos devolve a unidade perdida. Nos reintegra. Nos totaliza. "Jogo de cena" não mostra "versões" diferentes de um mesmo ser. Ele completa cada uma daquelas mulheres, torna aquelas mulheres anônimas em seres humanos ímpares, únicos, cada qual ciente da " dor e da delícia de ser o que é". E no palco de Coutinho, tanto as atrizes famosas, como as menos conhecidas e aquelas mulheres anônimas, todos brilham com a mesma intensidade. "Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome" - é isso o que o filme nos mostra.
Há, entre muitos achados geniais e tocantes, um momento especialmente mágico. Uma das personagens canta uma canção ( não seria um filme do Coutinho sem um personagem cantando, não é mesmo?). Ouvimos, em off, Marília Pera, a atriz que "a interpreta", cantando em contraponto a mesma canção. Através do som, realidade e simulacro se unem, pessoa e intérprete se fundem, é um momento de rara poesia.
É gratificante testemunhar o reencontro de um grande cineasta com seu melhor cinema, após alguns trabalhos menos interessantes ou mesmo, decepcionantes. Eduardo Coutinho mostra que, como poucos, conhece o "segredo do polichinelo", sendo capaz de reinventar seu próprio cinema, quando muitos ( eu, inclusive ) consideravam-no exaurido. Aos 74 anos, o mestre faz um filme cheio de frescor, de vitalidade, de um humanismo contagiante e necessário, nestes tempos de cinismo e desencanto, profunda e verdadeiramente moderno. Perto de Jogo de Cena, os ditos filmes "moderninhos" parecem rançosos, natimortos.

Um grande filme. Imperdível. Mais: imprescindível.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

entranhas cinematográficas ( e ideológicas ) de Tropa de Elite (1)


Batalha de Argel, de Gillo Pontecorvo (1966)


Filme magistral sobre a luta pela independência da Argélia contra colonizador francês. O filme, que é totalmente ficcionado, passa, pela maestria de suas tomadas, a impressão que é um documentário. As cenas de conflitos são de um realismo cru e ao mesmo tempo, eletrizante.
Penso que o Padilha ou, com certeza, o diretor de fotografia do Trope de Elite, Lula Carvalho, deva ter se inspirado nas imagens de Batalha de Argel para compôr as cenas da ação do Bope nas favelas. Até porque, geograficamente, os bequinhos e vielas de nossas favelas lembram muito os tortuosos caminhos da Casbah argelina ( imagino que talvez eles também tenham usado o magnífico filme Terra e Liberdade, do Ken Loach, como modelo para filmagem das cenas de combate ).
Mas o que me fez lembrar mais do Batalha de Argel foi a atuação do pelotão de paraquedistas franceses, tropa de elite sanguinária enviada para Argel, num momento em que os guerrilheiros argelinos começam a ter sucessivas vitórias em sua luta. Da mesma forma que a nossa "tropa de elite", o esquadrão francês se utilizava da violência bruta e da tortura para derrotar seu inimigo. A cena em que o comandante paraquedista francês tortura um prisioneiro argelino com um maçarico é uma das mais brutais do cinema. De certa forma, a tática dos militares franceses foi incorporada pelo Bope - a tortura destrói o inimigo duplamente: fisicamente pela dor, e moralmente, pelo que é obtido pela dor - a delação, a traição.
E a concepção de que o "mal" só poderá ser derrotado por um "mal" pior e mais malévolo parece reger tanto a atuação dos paraquedistas franceses como a da "tropa de elite" tupiniquim.
A estratégia do terror como forma de intimidar e derrotar os inimigos não é nova. Os aviões nazistas da Legião Condor tocavam sirenes assustadoras quando se aproximavam de Guernica, anunciando o bombardeio e a matança, na Guerra Civil Espanhola. Copolla iria reproduzir essa sensação de pavor e atemorizamento na famosa cena em que helicópteros americanos atacam aldeias vietnamitas ao som ensurdecedor da Cavalgada das Valquírias, de Wagner, no magnífico Apocalipse Now ( filme que Carlão Reichenbach considera fascista, opinião com a qual não concordo, mas isso é outra história ). Cavalgada das Valquírias é também a música que acompanha as ações dos cavaleiros embuçados da Ku-klus-klan de Nascimento de uma nação, de Grifitth. A caveira, que o aspira Neto tatua no braço, a caveira que é o símbolo do Bope e "grito de guerra" dos ardorosos admiradores do filme do Padilha, por sua vez, era a insígnia da SS nazista. E o "Caveirão", blindado usado pela polícia carioca para invadir favelas, por sua vez, usa sirenes e gritos de guerra amedrontadores, da mesma forma que a Legião Condor nazista.

Recomendo assistirem ao Batalha de Argel. Além de ser um filmaço, nos ensina que o uso do mal contra o "mal" não surte efeitos duradouros. Da mesma forma que a violência da repressão francesa não conseguiu impedir a população argelina de obter sua independência, me parece que a repressão estúpida praticada pelo Bope, que viola os direitos humanos, que apenas reproduz de forma ampliada o mal produzido pelo "inimigo", está igualmente fadada ao fracasso.
Mas o filme do Padilha sequer aventa essa possibilidade.

domingo, 30 de setembro de 2007

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Pegadinha



Responda rápido, sem pensar: quem é esse belo tipo faceiro da foto ao lado:

(a) Cate Blanchet?
(b) Jude Quinn?
(c) Bob Dylan?
(d) Todas as opções acima?

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

O ovo da serpente

Sobre Tropa de Elite


O cinema é um excelente veículo para difusão ideológica. Tanto Leon Trotsky, um dos líderes da revolução russa, pela esquerda, como Goebblels, ministro da propaganda de Hitler, pela extrema-direita escreveram textos defendendo o uso do cinema como arma ideológica ( Goebblels sonhava com um "Encouraçado Potemkin" nazista, e tentou seduzir o mais renomado diretor alemão de então, Fritz Lang, a tornar-se o cineasta oficial do nazismo, mas Lang disse que ia ali comprar um cigarro e fugiu da Alemanha ). A indústria hollywoodiana sempre se serviu do cinema como forma propagandistica, seja dos ideais do "american way life", seja do anti-comunismo ( até filmes de ficção científica como "Vampiros de AlmaS", de Don Siegel, com seus alienígenas frios e coletivistas que se apossavam de corpos e almas dos indefesos americanos, metafora até divertida - pelo menos hoje, podemos rir com isso - da "lavagem cerebral" ou cooptação, promovidas pelos comunistas ), seja contra o inimigo da vez, fossem russos, chineses, cubanos, vietnamitas, narcotraficantes e agora os muçulmanos.
Da mesma forma, mas sem menos impacto ( por não dispôr de um poderoso sistema de distribuição e exibição, como Hollywood ), a esquerda soube usar a força das imagens como forma de denunciar o capitalismo, o imperialismo, os desmandos de Washington, ou simplesmente, propagando a idéia ou utopia de um mundo melhor, mais igualitário, em detrimento aos padrões determinados pelo consumismo - o "ser" em detrimento ao "ter".
Falar hoje em direita e esquerda pode soar como arcaísmo, nostalgia, anacronismo. Para muitos, a divergência entre as duas concepções de mundo deixou de existir com a queda do muro de Berlin ou, um pouco depois, a falência quase simultânea de todos os governos comunistas ou dito comunistas do leste europeu, a começar com a finada União Soviética. Ainda que se possa afirmar, sem dúvidas, que o regime político existente naqueles países havia se distanciado de tal forma de uma concepção de comunismo ou socialismo, por outro lado, não se pode negar que, com o derrocada daquele bloco, houve um triunfo, não das liberdades, não da democracia, mas da hegemônia americana sobre quase a totalidade do mundo. Não chega ser errado afirmar que, ao invés de acabar a divergência ideológica entre esquerda e direita, houve sim uma derrota da esquerda e uma acachapante vitória da direita na forma de compreender o mundo, a vida, alardeada em discursos pseudo-filosóficos que pregavam o "fim da História", e sistematizada naquilo que hoje em dia se convencionou chamar "pensamento único".

Obviamente, a esquerda não morreu, tampouco desapareceu. Talvez tenha recuado a um pragmatismo às vezes demasiado, por exigências dos novos tempos, e a valorização exarcerbada da tática, dos "meios", torne a utopia um pouco cínica ou macule os "fins" que se almejam.

Mas a verdade é que a cada dia se evidencia que, longe de ser um anacronismo, a disputa política e ideológica entre esquerda e direita se torna mais acirrada, ainda mais nesses tempos terríveis de "relativismo" - pensamento permissivo que grassa em boa parte dos intelectuais e formadores de opinião. A constatação correta que os valores absolutos não passam de discurso, e portanto, produto ideológico das classes dominantes, acabou gerando uma cultura de pensadores "desvertebrados", a tudo maleáveis, que se vergam de um lado para o outro, conforme a conveniência, lenientes e subservientes, que acabam reafirmando as posições mais reacionárias em nome de uma mal disfarçada aceitação do status quo e, em última instância, a uma defesa inconsciente (?) de seus valores de classe - no caso, a classe média dividida entre os sonhos de ascensão social e o pavor de um rebaixamento econômico sempre iminente, ainda mais em países pobres ou em desenvolvimento, como o nosso. Pela sua natureza, a classe média tende sempre ao conservadorismo, pois, se não pode ter os anéis, quer preservar os dedos. Por outro lado, a classe média, pela sua escolaridade, pelo acesso aos meios de comunicação, por ser, não formadora, mas disseminadora de opinião, acaba sempre sendo o alvo prioritário do discurso ideológico. E aqui, finalmente, chegamos ao ponto que quero discutir.

Tropa de Elite, filme do cineasta José Padilha ( que nos tinha brindado com um excelente documentário, Onibus 174 ) é ou não fascista?

Não conheço o Padilha ( parece frase de Nelson Rodrigues ), participei de um debate com ele uma vez na Darcy Ribeiro, e ele me pareceu um provocador, do tipo que adora uma polêmica, que perde o amigo mas não a provocação, a frase de efeito. Então, afora esse lado mais propenso à polêmica, não saberia dizer qual sua posição política, nem sequer se tem alguma posição política. Onibus 174 passa a idéia de uma pessoa com preocupações sociais. Já Tropa de Elite é um filme que, em última instância, defende a existência de uma força militar, com poderes e recursos ilimitados, acima do bem e do mau, que combata o narcotráfico com força total, uma mistura de Swat com os Intocáveis de Elliot Ness, mas também com semelhanças com a SS nazista que não se restringem apenas aos uniformes negros e o emblema da caveira. Nunca vi nenhum pronunciamento político do José Padilha, de modo que não posso afirmar que ele seja fascista ou tenha tendências fascistizantes, seria leviano da minha parte afirmar isso.
Agora, posso analisar o filme que ele fez. Partindo do pressuposto que toda obra artística possui um inseparável teor confessional, às vezes até inconsciente, posso afirmar, sem medo, que o diretor compartiha com o discurso apresentado em sua obra. Neste sentido, Padilha seria o primeiro cineasta que, corajosamente, se apresenta como um pensador de direita e realiza o primeiro e mais eficiente filme de direita no Brasil.

Quando digo corajosamente é porque no Brasil ninguém se diz de direita. Os políticos, mesmo os oriundos da ditadura, se definem sempre como de centro. Ou, liberais - na acepção econômica, liberalismo economico, livre mercado, do estado mínimo, defensores do capitalismo, da economia transnacionalizada etc. No meio artístisco ou intelectual então, pouquissímos aqueles que assumem publicamente sua opção política e ideológica alinhada à direita. Tradicionalmente, os artistas se apresentam como contestadores, transformadores, críticos, e isso lhes aproxima quase sempre de um perfil de esquerda. Se formos contar, vão sobrar dedos na mão para listar os artistas que sempre se definiram como de direita ou conservadores: Nelson Rodrigues, talvez o mais notório e sem dúvida, o mais talentoso entre eles, Gustavo Corção, Diogo Mainardi ( nem sei se podemos chamá-lo de artista, mas vá lá... ), o "saudoso" Ipojuca Pontes, Paulo Francis, o compositor Ary Barroso ( foi inclusive vereador pela UDN ), o ator e duble de cafajeste Jece Valadão, quem mais...? Não consigo lembrar mais nenhum. Uma vez ouvi num debate o decano dos roteiristas brasileiros, o talentoso e engraçadissimo rabugento Leopoldo Serran afirmar textualmente que era de direita, mas penso que era uma blague. Portanto, poucos aqueles que têm ou tiveram coragem de se expôr como sendo de direita.

Claro que isso não impediu que livros, filmes, peças possuissem um discurso conservador, reacionário, mas como manda o "relativismo", não se pode condenar o livro pela capa, nem confundir a obra com seu autor. Tudo é relativo. Aliás, é moda dizer, dentro do conceito relativista, que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Costuma-se lembrar que Chaplin, talvez o mais humanista dos cineastas, era um sujeito com muito pouco escrúpulos, mais parecido com o milionário bêbado do grande filme "Luzes da cidade" ( quando bêbado gentil, quando sóbrio um capitalista frio e desumano ) do que com o próprio Carlitos, personagem que criou e que é tido como um alter-ego do cineasta. Isso não impediu que fosse perseguido pelo comitê do senado norte-americano por sua conduta anti-americana e expulso daquele país, na época do macartismo. Picasso, que nos legou o magistral Guernica, também é citado sempre como sujeito cheio de contradições e com um amor argentário não muito condizente com sua imagem de esquerdista (aliás, foi membro do PC francês ). Brecht, marxista de carteirinha, autor do teatro mais esquerdista de todos os tempos, volta e meia é mencionado como um sujeito, como dizer... extremamente pragmático, e não faltam os que detonam o documentarista Michael Moore por sensacionalista, picareta, anti-ético, manipulador ( vi num debate no cineclube do Odeon um rubicundo critico relativista questioná-lo por manipular os depoimentos de Charlton Heston em Tiros em Columbine, coitadinho, não se faz isso com aquele pobre senhor claudicante apenas por ele ser o porta-voz da NRA, National Riffle Association, braço ideológico da poderosa indústria armamentista e bélica americana ). Seja como for, Tempos Modernos ou O Grande Ditador, o já mencionado Guernica, Mãe Coragem ou Terror e Miséria no 3o Reich e Fahrenheit 9/11 ou Roger e eu, obras desses artistas, são obras que traduzem o inconformismo, o protesto, a denúncia contra o capitalismo e o imperialismo, em suma, obras sintonizadas com o ideário de esquerda. Então, o que vale é o discurso produzido pelo artista, e não tanto sua vida pessoal.

Neste sentido, aqui no Brasil, ainda que sem nunca afirmar serem conservadores ou de direita, muitos artistas produziram obras conservadoras, reacionárias, sejam pelo teor político, seja pela manipulação de valores éticos e sexuais. O conservadorismo dissimulado, geralmente mais eficaz ideologicamente do que a obra abertamente politizada, é ambundante nas nossas telenovelas, nos nossos programas de humor, principalmente, no telejornalismo.

Aliás, o pensamento relativista, esta praga que impregnou os meios pensantes e criativos brasileiros, gerou outro fruto podre: o imparcialismo, a suposta neutralização do ponto de vista do autor em favor de uma obra dita "aberta a interpretações". Não existe falácia maior do que esta. Nenhum artista é imparcial. A escolha das palavras, a posição da câmera em relação ao objeto filmado, o corte mais rápido ou mais demorado de um plano para outro, tudo isso implica num claro e definido posicionamento do autor em relação ao que é escrito, filmado, editado.

A pretensa "impacialidade" como forma de possibilitar ao público "completar" a obra é uma ilusão criada por aqueles que só conhecem a produção artítisca na teoria, sem nunca ter produzido um único filme, livro, poema, peça. Todo bom artista sabe manipular sua platéia. E a manipula, de acordo com seus interesses, sejam estéticos, ideológicos, ou meramente financeiros. Portanto, esse mito da imparcialidade do artista, essa lenga-lenga de "apenas mostrar, sem tomar partido, e deixar para os expectadores tomar a posição" é conversa edificante para boi dormir.

Portanto, se não posso afirmar que o José Padilha seja fascista, por outro lado posso perceber no Tropa de Elite um perigoso - por eficiente - discurso fascistizante, que trabalha metodica, cerebral e emocionalmente para disseminar no expectador mediano o seu conteúdo ideológico de ultra-direita. Daí não dá pra fazer como o excelente ator Wagner Moura ou como o cronista do Globo Artur Xexéu e querer tirar das costas do autor a responsabilidade pela reação da platéia ao vibrar e aplaudir as cenas de tortura e de execução de traficantes, numa catarse orgiástica digna dos espetáculos do Coliseu. Ninguém grita "Caveira" à toa, ninguém aplaude a tentativa de empalamento de uma pessoa à toa, ou, caso mais grave, ninguém sai dizendo, "à toa", como disse uma simpática e esclarecida aluna minha ontem (aliás, aluna da Puc, vejam só que coisa!) que "em tempos de exceção, e como ação preliminar, a curto prazo, ações como a do Bope são necessárias". É preciso entender, primeiro, como o filme dialoga com esta platéia e, principalmente, que platéia é essa com a qual o filme quer dialogar. Entendendo um e outro, dá para afirmar que o filme é, sem dúvida, um audacioso e bem sucedido discurso fascista.

Estou sendo severo? Vamos ao filme, que é o que interessa.

Como produto cinematográfico, o filme é uma prova de excelência. Os atores, a começar pelo excelente Wagner Moura e o novato André Ramiro, dão tudo de si, a fotografia do meu amigo Lula Carvalho é brilhante ( o Waltinho tá correndo o risco de entrar pra história do cinema como o pai do Lula, hehehe, piadinha ), a montagem, frenética como convém a um filme de ação, o roteiro, apesar de ou por causa de algum didatismo, eficiente e com as idas e vindas no assunto, como forma de criar a tensão, estendendo o tempo narrativo da ação presente, como é característica do também meu amigo Bráulio Mantovanni, vide Cidade de Deus, e com tiradas de humor ( às vezes negro ) que amortizam a violência em cena, e uma direção segura que alterna entre a emergência do documental com cenas de refinada carpintaria de mise-en-cene do José Padilha, todos os elementos do filme parecem convergir de forma a resultar num espetáculo realmente eletrizante.
Há os que têm dito que o filme é ruim, "não porque seja direitoso", mas por conta do excessivo didatismo da narração em voice over. Ora, o didatismo é necessário para o filme funcionar persuasivamente na platéia. Por um aspecto, dá ao filme um ar documental - o filme é sabidamente inspirado na experiência de um comandante do BOPE, aliás, co-roteirista do filme, então, colocar o discurso na boca do personagem diretamente inspirado nele cria uma "aura" de realidade, de documental, e todos sabemos o impacto que causa nos expectadores o fato de um filme ser "baseado em fatos, pessoas reais". O mimetismo ( a imitação da vida pela arte), que o cinema mais do que qualquer arte consegue estabelecer, fica ainda mais forte quando o expectador é informado que "aquilo tudo mesmo aconteceu". Por outro lado, ao colocar a narração na primeira pessoa, cria-se um tom confessional entre o personagem e o expectador, de certa forma, distanciando aquilo que se vê e se ouve do autor - quem fala e faz é o personagem, o autor apenas registra imparcialmente ( mais uma característica extraída do documentário, aliás, de onde o diretor é oriundo ). Aliás, o processo de narração em primeira pessoa, que sempre existiu na literatura, é uma técnica de aproximação entre narrador e leitor. Enquanto a narrativa impessoal da terceira pessoa afasta, o eu narrador aproxima, gera cumplicidade entre quem conta/mostra e quem ouve/vê.

Se a narrativa funciona como uma espécie de mantra ou conversa franca entre um homem/personagem e a platéia, a forma como os personagens são construídos é profundamente empática. Erra o Xexéu ao dizer que o personagem Nascimento não é mostrado com um comportamento exemplar de um herói de um filme de ação ( ele faz paralelo com o Jack Bauer da série 24 horas, que da mesma forma, mata e tortura, mas sem perder a aura de herói). Segundo Xexéu, " Nascimento não tem um comportamento exemplar com a família. Bate ( bate? pra mim ele apenas discute, de forma destemperada ) na mulher e mal conhece o filho. E comenta a piada de humor negro sobre um "acidente" que teria causado a surdez num soldado em treinamento comandado por Nascimento. Diante destas características negativas, conclui Xexeu, o capitão Nascimento jamais seria um herói. Portanto, isenta o diretor Padilha de tentar heroicizar o capitão do Bope, que bate, tortura e mata seus inimigos.

Bem, os argumentos de Xexéu são inferiores aos argumentos usados no filme para construir o personagem. Não é a toa que Padilha chamou um bom roteirista como o Mantovanni para trabalhar no roteiro. É um personagem construído na contradição: é um militar para quem missão dada é missão cumprida, mas ao mesmo tempo, consciente do trabalho "sujo" que foi treinado para fazer, sofre problemas emocionais, está estressado e quer desesperadamente deixar a tropa. Então é o clássico herói em crise de consciência. Se a fidelidade aos objetivos, digamos, "profissionais", o faz torturar e matar o "inimigo", isso não o impede de sofrer remorsos quando, por exemplo, vê o sofrimento de uma mãe que perdeu o filho por sua culpa ou omissão.

Discordo que ele mal conhece o filho. Se não tem oportunidades de conviver com o filho, é porque o trabalho o impede de ter uma vida normal. Aliás, poder desfrutar da companhia do filho é uma das razões alegadas por Nascimento para querer arrumar um substituto e largar o Bope.

Se ele briga com a mulher, é no auge de seu desespero, porque se sente culpado pela morte do aspirante Neto, a quem estava forçando a barra para tornar seu "sucessor", mesmo sabendo que o rapaz era visivelmente despreparado emocionalmente para a responsabilidade, por voluntarista e mesmo, porra-louca. Ele agride a mulher no auge de seu descontrole, no momento em que sua consciência está mais pesada: é ao mesmo tempo responsável pela morte do vapor que forçou a delatar os traficantes ( sabendo que ele seria justiçado ) e pela morte do seu discípulo e amigo. Não que isso lhe dê razão para agredir a esposa, mas nós "entendemos" o seu sofrimento, sabemos que ele perdeu a cabeça e que ele acabará punido ( como aliás, acontece, a esposa o abandona ) por conta desse desatino.
Em suma, é um homem que sofre ( ele chora! ), que sente remorsos, que vê sua vida pessoal ser destruída por conta da dura missão que tem para cumprir. Ou, como diz o Wagner Moura, na sua carta ao jornal o Globo, ontem, é um homem que arrisca a vida diariamente, sem nenhum reconhecimento sequer. Se esse homem fiel, ao mesmo tempo crítico ( sabe que está indo para uma operação arriscada não para proteger alguém, mas para os políticos fazerem média com o Papa ), sente remorsos por suas vítimas involuntárias, arrisca a vida até para salvar um bando de policiais corruptos, vive de forma modesta - o apartamento do capitão Nascimento é bem modesto, a geladeira dele é menor até do que a daqui de casa -, se o Nascimento que o filme constrói habilmente não é um herói, o que será um herói? Quanto à piada do "acidente", desculpe-me o Xexéu, mas a piada é boa, e desde sempre, o humor é a forma mais eficaz de humanizar os personagens. Sem contar que a "vítima" ( e teremos provas visuais disto, mais adiante, na parte do filme que mostra o treinamento ) era um "escroto, um corrupto". Por que se sensibilizar por um corrupto que finalmente é punido? Aliás, como já havia feito em Cidade de Deus, dosar humor em momentos de tensão, é um bom truque de roteiro, e o Bráulio faz isso bem.

Outro personagem que merece destaque é o aspirante Matias. Primeiro, ele é negro. Mas não um negro qualquer, é um negro "ProUni", de origem pobre, mas que está em ascensão social, virando classe média. Estuda na PUC, namora a branquinha riquinha, é integro, justo, bem intencionado, mas humano demais. Para poder pertencer ao Bope, ele precisa perder sua humanidade. Da mesma forma como Nascimento deve ter perdido a sua. E que, agora, precisa desesperadamente recuperar. Perder a humanidade é condição essencial para fazer o trabalho sujo que precisa ser feito ( lembrando minha aluna, "ações a curto prazo são necessárias"). O mal tem que ser combatido pelo mal. Ou, melhor, é preciso estar acima do bem e do mal. O batismo de fogo de Matias, movido pela vingança do amigo que morreu por sua causa, não é tratado como uma bestialização, e sim como uma necessária catarse.
Aí eu me pergunto: a construção dos personagens é feita de modo imparcial? A humanização dos personagens, a compreensão de seus conflitos, o choro de Nascimento, a revolta de Matias - se isso não justifica a tortura e as mortes, pelo menos torna os personagens mais críveis, entendemos as razões dos seus atos, ainda que não concordemos com ele. Citando a carta de Wagner Moura, "discordo de quase tudo que o Nascimento faz, mas... " O "mas" é uma espécie de salva-guarda para os erros dos personagens.

Convém ressaltar outro aspecto: os dois traficantes que aparecem no filme, o Baiano e o que é morto na operação de resgate, não são negros. Um é um caboclo nordestino, o outro é louro (!). Talvez a intenção do Padilha tenha sido politicamente correta, por não querer estigmatizar o negro como bandido de sempre, e mostrar que numa sociedade totalmente miscigenada como a nossa, bandido e pobre não tem cor. O estranho é que todo os figurantes do tráfico são negros, mulatos ou pardos. Mas os chefes do tráfico são brancos. Já o "mocinho" Matias é negro.

Portanto, há uma nítida orientação para humanizar os soldados do Bope, dando-lhes caractertísticas positivas, contrabalançando o lado negativo: se Nascimento é brutal, às vezes, ao mesmo tempo ele chora, tem remorsos, está estressado, quer sair daquele trabalho por desumano, tem sua vida pessoal destrúida; Matias, o seu sucessor, além de ser refinado, inteligente, tem a cor do "inimigo", é um homem do povo, veio de baixo, e Neto, ainda que sobre ele pese uma adesão ao Bope que beira quase ao fanatismo, é perdoado pela sua juventude, pela sua honestidade quase pura e, finalmente, é redimido pelo assassinato covarde - é morto pelas costas.

Não ver nisso a mão e o cérebro do diretor é fazer pouco da sua inteligência e da sua autoralidade. Não ver que ele constrói o seu filme com um discurso inteligente ainda que didático, eficiente justamente por didático, que demonstra, meticulosamente, o "sistema" corrupto e corruptor que domina a polícia convencional, que constrói de forma empática seus personagens, que justifica a necessidade de uma força "acima do bem e do mal", a única força capaz de vencer a guerra, uma elite incorruptível, heróis de uniforme negro que sacrificam a vida pessoal ( Nascimento ), uma carreira bem sucedida como advogado ( Matias ), a própria vida ( Neto) para defender a civilização da barbárie.

Citando Brecht, "infeliz uma terra que precisa de heróis". Mas, se precisamos de heróis, é preciso que definamos quem são os vilões.

Numa primeira instância, parece que os vilões do filme são, óbvio, os traficantes. Depois,de forma didática, quase doutrinária, é mostrado que os vilões são a polícia militar e civil, corruptas e coniventes com o crime organizado. Porém, não são esses os verdadeiros inimigos. Tanto os traficantes quanto os policiais corruptos são apenas a ponta do iceberg, a parte visível do problema. É então que o filme aponta finalmente quem são os verdadeiros "vilões": a classe média alta, branca, universitária, com "consciência social". Os filhinhos de papai que fumam maconha, os branquinhos riquinhos bem intencionados que sobem os morros para cuidar dos pobres, as ONGs que atuam nas favelas e que acabam se tornando uma espécie de embaixada para o tráfico ( da mesma forma que as embaixadas eram refúgio para os esquerdistas, na época da ditadura militar ). Nascimento diz, num dado momento: "que um pobre fudido sem nada, sem escola, sem trabalho, entre no tráfico, eu até aceito, mas um filhinho de papai que teve todas as oportunidades, ah..." Vemos o pessoal da ONG confraternizando com o traficante, cheirando pó. Um dos colegas de sala de Matias, membro da ONG faz tráfico na faculdade. Aliás, os personagens da ONG são o que de mais grotesco e pusilânime é apresentado no filme. São piores até do que os PMs corruptos. Além de fazerem um péssimo trabalho didático ( ao ponto de não perceberem que um de seus alunos é ruim nas aulas porque tem problemas de visão ), quando não estão confraternizando com os traficantes, cheirando pó com eles, estão sempre fornicando. Nesse sentido, a cena em que eles são brutalizados, a moça morta e o diretor da ONG fritado no "microondas", perde muito da eficácia, porque os personagens são tão desprezíveis que, ainda que as imagens sejam brutais, não despertam no expectador nenhuma solidariedade ou empatia, sequer pena. No fundo, é bem feito para eles, "quem dorme com cães amanhece com pulgas"- imagino que o expectador mediano deva pensar, no escurinho do cinema.

Mas ao determinar que é a classe média a verdadeira vilã do filme, por consumir drogas, por "passar a mão na cabeça da bandidagem" com seus projetos sociais, por torcer o nariz para as cenas de violência e tortura, Padilha na verdade está apontando seu fuzil com mira laser para um alvo mais específico: não é a classe média em si, mas uma parte dela. Aquela parcela da classe média chamada liberal, aquela que partilha pontos de vista progressistas, mas que no filme são apresentados da forma mais abjeta possível, quase caricaturas: os que defendem a discriminilização ou mesmo a liberação das drogas, no fundo são viciados ou mesmo traficantes. Os que tem consciência social são proxenetas de pobres, promíscuos e acumpliciados com o crime organizado. Os que defendem os direitos humanos, e torcem nariz para a tortura, são os primeiros a pedir penico para a polícia, quando se sentem ameaçados.

E é nesse sentido que o discurso fascistizante do filme se completa. O problema a ser resolvido não são os traficantes. Desses, as cenas que mostram a eficácia dos soldados de preto em matarem os traficantes demonstram que o Bope dá conta. Tampouco é a corrupção policial, a própria criação de uma polícia de elite, incorruptível e sem lugar para a "escória" também demonstra que, em pouco tempo, isso pode ser contornado. Resta o problema maior. Livrar da classe média a sua parcela liberal, no filme definida como promíscua, permissiva, pusilânime.

É sabido que o cinema hoje em dia é frequentado apenas por pessoas da classe média. O povo tem que se contentar com as cópias piratas dos camelôs ( afinal, um ingresso custa 12, 15 reais, por pessoa, enquanto que uma cópia em dvd no camelódromo da Uruguaiana sai por dez pratas, com algum choro, por oito, até cinco e pode ser assistida por várias pessoas). É sabido também que, por sua natureza ideológica, a classe média tende ao conservadorismo, a exceção de uma parcela, mais esclarecida, mais liberal. O filme Tropa de Elite retira a guerra das telas e joga para as platéias: é naquela sala escura do cinema que está o verdadeiro inimigo. Aquele garotão sentado na terceira fileira pode ser um maconheiro. É sabido também que, pressionada entre o sonho de ascensão social e economônica, e o pesadelo do empobrecimento, a classe média é paranóica por natureza.

As imagens do filme funcionam como um doutrinamento. O perigo na verdade não está nas favelas, está no nosso próprio meio. Nossos filhos consomem drogas e financiam os traficantes. Nossas filhas namoram negros... serão eles bons moços como o Matias ou um traficante? Mais provavelmente, pelo número ainda reduzido de negros de classe média ou nas universidades, é bem capaz de ser um traficante. Afinal, ela também deve "fumar" seu pozinho ou "cheirar" sua maconhinha... esse pessoal que defende diretos humanos, no fundo defende assassinos e ladrões, ninguém defende os direitos humanos das vítimas. E o que fazem essas ONGs? A do filme é um antro de viciados lascivos e que mal se importam para a sorte dos pobres ( quem dá o óculos pro menino é o herói do Bope ).

Estarei forçando a barra para criticar um filme? Alguém poderia dizer, mas se o filme é fascistizante, como teria feito o sucesso todo com as classes populares, ao ponto de ser o filme pirata mais assistido de todos os tempos. Não seria contraditório um filme que defende a elite ser tão consumido pelas classes menos favorecidas? Não acho. Primeiro, porque o filme, em sua forma, é bom um filme de ação. Tiros, violência, com uma tensão crescente, vários momentos de ação vertiginosa, um tipo de filme popular por essência. Segundo, qualidade mais sutil, ao colocar um dos protagonistas negro, o filme cria uma clara empatia com o expectador mais pobre, que se identifica com o seu semelhante. Com a vantagem que o personagem é um cara bacana, boa pinta, honesto, traça a branquinha bonitinha da novela das oito, em suma, é "o cara" ( ouvi essa definição do Matias, outro dia, na rua ). O povo gosta de se ver retratado nas telas - diga-se de passagem, quando o ingresso de cinema era barato, na década de setenta até meados dos anos 80, os filmes brasileiros tinham nas classes populares suas maiores platéias ( a classe média sempre foi refratária ao cinema nacional ). E terceiro, porque a população mais pobre no fundo compartilha da visão anti-classe média do filme, como consumidora de drogas, permissiva sexualmente, paternalista e conivente com a marginalidade. E, finalmente, porque boa parcela dessa população mais pobre defende ações autoritárias e repressivas, como pena de morte, tortura, sem perceber que no final estas ações acabam se voltando contra ela próprias.

Basta lembrar que no recente plebiscito sobre o desarmamento, mais de 60% da população votou a favor das armas.

Fácil botar na platéia a culpa dos aplausos toda a vez que o Capitão Nascimento manda colocar seus prisioneiros "de volta pro saco". Mas é ingênuo ou hipócrita fingir que Tropa de Elite não joga e habilmente para a sua platéia.

Tem gente que critica Tropa de Elite dizendo que o filme é ruim. Não é. O filme é bom, muito eficiente, e por isso passa tão bem a sua mensagem fascistizante. Aí que mora o perigo.

Vou parar por aqui. Mais adiante farei um paralelo do TE com alguns filmes que, ao meu ver, são chaves para entender a construção dramática e o discurso ideológico do filme do José Padilha. A saber, Batalha de Argel, de Gillo Pontercorvo, Nascido para matar, de Stanley Kubrick, Mississipi em Chamas, de Allan Parker, Starship Troopers, de Paul Verhoven e, é claro, O Nascimento de uma Nação, de Griffith - aquele que transforma os escravos negros em vilões, os escravocratas brancos em vítimas e os ku-klus-klans em heróis.

Só para que não esqueçam: tortura é crime hediondo.

Fascismo sem máscara ( mas com saco)


"Tropa de Elite", filme de José Padilha (2007)

Fascismo com máscara


"O nascimento de uma nação", filme de D.W. Griffith (1915)

sábado, 1 de setembro de 2007

Deus, o ex-presidente e o filósofo francês


Muito comentada a entrevista do ex-presidente FHC à revista Piauí, onde ele disse que "o Brasil é isso aí mesmo que está, não tem muito jeito". Inúmeras vozes, desde o porta-voz do tucanato Arnaldo Jabor, passando por João Ubaldo Ribeiro ( que um dia escreveu um romance chamado "Viva o Povo Brasileiro", ora vejam como as pessoas mudam), e outros menos ilustres, se uniram em coro ao ceticismo do "Mestre das Trevas" ( não é ironia, afinal o governo FCH foi marcado, entre outras coisas, pelo triste e inesquecível "apagão", que deixou as cidades às escuras e forçou o país a um racionamento compulsório de energia elétrica e um escandaloso aumento nas contas de luz ) para condenar o país a uma triste e imutável incapacidade de mudar, como se fossemos uma nação atavicamente errada, corrupta, atrasada, sem perspectivas, em suma, um país sem jeito.

A reflexão do douto ex-presidente me fez lembrar aquela piadinha em que Deus fala, orgulhoso, que tinha criado um país na Terra que era uma maravilha. Que era dotado de uma rica natureza "em que se plantando tudo dá", com lindas praias, clima ameno, sem nenhum grande problema natural, tipo furacões ou terremotos, etc. Ao que o diabo retorquia: "mas isso é o paraíso". E Deus, mau que nem o picapau, acrescentava: "mas espera pra ver o povinho de merda que vou botar pra viver lá".

Esse tipo de piada grosseira e o raciocínio cético do dublé de sociólogo e político se entrelaçam como raiz e fruto de uma mesma ideologia: o Brasil é um país condenado a não dar certo.

A piada aponta o responsável sem maiores rodeios: é o povo brasileiro o único culpado pelo nosso eterno desacerto como país e nação.

Mais sutil, mas apontando na mesma direção, o ex-professor de Sorbonne, insinua que a responsabilidade do país ser "isso que aí está", que não tem jeito, que é atavicamente atrasado e corrupto, seriam do governo Lula e do PT.
O Brasil seria isso daí. Um povinho de merda, governado pela primeira vez na sua história por um presidente oriundo desta mesma merda de povo. Substancia da qual, obviamente, não foi moldado o ilustre sociólogo, sabidamente feito de outro barro, segundo alguns criado por Deus "à sua imagem e semelhança".
Seja por conta do "povinho de merda" ou por culpa do governo Lula, o Brasil é "isso que aí está, não tem jeito".

Nas entrelinhas, o ex-presidente parece nos dizer: já que o país não muda, já que é eternamente corrupto e incompetente, já que é impossível mudar as estruturas sociais, políticas e econômicas que nos impedem de romper o atraso, porque pensar em mudanças? Melhor deixar como está, de preferência mantendo-o sob a tutela de "profissionais" e não de "amadores". No caso, profissionais seriam eles, a elite que, sob diferentes aspectos e plumagens (desde o corvo Lacerda passando pelo abutre Collor e finalmente o PSDB tucano) sempre governou o país. Amadores seriam Lula e a esquerda, neófitos em governar um país que sempre foi propriedade privada de uma classe.

FHC deixa claro que somente a elite, por conservadora, austera e em sintonia com o capitalismo moderno seria preparada a administrar a "grande massa falida" que seria o Brasil. Enquanto que qualquer projeto reformista ou transformador seria inevitavelmente fadado ao fracasso, à decepção, a meter os pés pelas mãos e no máximo, apenas conseguiria repetir de forma tosca o que eles, FCH e demais governantes da elite brasileira, faziam e fazem com competência.

O que é estranho ( aliás, nem um pouco estranho, uma vez que já está em pleno curso a corrida eleitoral ) é que o discurso do Príncipe dos Sociólogos ( agora sim, é ironia ) vaticine que o Brasil é "isso aí, mesmo, não tem jeito", como se essa condição de erro existisse por si só, pelo atavismo nacional, por um quase determinismo histórico que nos condena ao atraso, e não por consequencia de ações, governos, projetos políticos que se sucederam, numa marcha progressiva, pensada, arquitetada, para preservação e perpetuação de uma elite política e econômica da qual o governo FCH foi talvez uma de suas manifestações mais sofisticadas.

É estranho ( de novo, nem um pouco estranho ) que Jabor, Ubaldo, e boa parte da mídia tenham alardeado a "surpreendente e reveladora" declaração do ex-presidente, como atestado de óbito moral e político da nossa nação, sem em um único momento se perguntar se o "isso que aí está" não seria minimamente consequência daquilo "que veio antes", de tudo aquilo que veio antes, de muito antes, mas que podemos ver claramente, não tão "antes assim", mas bem perto, aquilo que era há pouco tempo atrás, cinco anos atrás, se não quiseremos voltar tanto assim na história.

Não seriam a destruição progressiva, consciente e ordenada de nossa economia pela venda a preço de banana, e ainda assim, através do financiamento do BNDES, das nossas estatais para empresas estrangeiras ou em parceria com o alto capital nacional, verdadeiros cartéis transnacionais, o desmonte do serviço público e do próprio estado através de uma política de terceirização e pela filosofia do "estado mínimo", e a compra de políticos para a aprovação da reeleição do FCH, algumas causas desta condição de sermos "isso que aí está"?

O "fim da história" preconizado pelo neoliberalismo alardeava a imutabilidade do predomínio do capital sobre as nações, os povos, a história em si - o mundo estaria condenado a girar eternamente, cavalinhos de pau presos a um carrossel que roda ao som do realejo de Wall Street.

A sentença apocalíptica de FHC reproduz, com ar blasé dos céticos, o que na década de 90 dizia o igualmente apocalíptico Francis Fukiama, "filósofo" do fim da história, apóstolo do neoliberalismo, arauto da vitória "inconteste" do capitalismo: o ciclo de mudanças se encerrou, o comunismo foi sepultado nos escombros do muro de Berlin, a civilização chegou a seu ápice, personificado nos Estados Unidos, no capital transnacional, da globalização, com a dissolução dos nacionalismos, das culturas populares, a eliminação das diferenças, com o estabelecimento do pensamento único - o pensamento de Washington.
Neste sentido, não existe perspectiva de mudança, somos "isso que aí está".

Somos isso que aí está, não temos jeito, não adianta mudar, tudo continuará como dantes no quartel de abrantes, profetiza FHC, com um fatalismo que lembra Lombroso, ou, mais acertadamente, o Conde Gobineau, cuja foto ilustra esse texto. Pra quem não associa o nome à figura, explico: Joseph Arthur de Gobineau, o conde Gobineau, foi um filósofo francês, expoente da ideologia da superioridade racial branca, que serviu como embaixador no Brasil, durante o reinado de Pedro II, no séc XIX. Chocado com a formação racial brasileira, dizia que a miscigenação formaria uma população degenerada que irremediavelmente condenaria o Brasil ao fracasso.

"Não tenham ilusões, o Brasil é isso que aí está, não tem jeito" - proclama o ex-presidente. Talvez por culpa do "povinho de merda" que Deus, grande sacana, colocou aqui. Talvez por culpa da miscigenação de raças inferiores que criou uma população degenerada, estéril, fadada ao fracasso e à miséria, como vaticinava o racista Gobineau, para quem o Brasil não tinha futuro.

Um país maravilhoso habitado por um povinho de merda. Um país fadado ao fracasso, por conta da miscigenação de raças inferiores. Um país que é "isso que aí está, sem jeito, não tenham ilusões". Como isso soa tão parecido... Estranha convergência de pensamentos.
Aliás, nem tão estranha assim.

sábado, 25 de agosto de 2007

domingo, 19 de agosto de 2007

Chomsky



O único modo de lidar com o fanatismo ideológico é ignorá-lo e concentrar a atenção em pessoas que têm a mente suficientemente aberta para dar importância a evidências e argumentos. Há dois aspectos no que eu escrevi sobre o terrorismo desde 1981, quando o governo Reagan ocupou o poder declarando que uma "guerra ao terror" seria o foco da política externa dos Estados Unidos, uma "guerra" que foi redeclarada por George Bush em 11 de setembro de 2001.

O primeiro é que eu uso a definição oficial de terrorismo dos governos dos Estados Unidos e do Reino Unido. Isso é considerado um escândalo, porque se usamos essas definições, significa diretamente que os Estados Unidos são um poderoso Estado terrorista, e o Reino Unido não fica muito atrás. A conclusão, claro, é inaceitável. Como a lógica é impecável, e a base factual não está em dúvida, a reação-padrão dos que fazem a apologia do terror do Ocidente é de pura irracionalidade. Uma das reações é a que você descreveu: fingir que a condenação consistente de todos os tipos de terror é uma apologia para o terror deles contra nós, o único tipo que pode ser discutido dentro do sistema doutrinário.

O segundo aspecto do que escrevo sobre o assunto é que, ao discutir o terror deles, eu acompanho de perto as análises dos principais especialistas em terrorismo islâmico do mundo acadêmico, da inteligência dos Estados Unidos e do jornalismo, como Fawaz Gerges, Michael Scheuer e Jason Burke. Isso também é considerado um escândalo, porque eles fazem análises sérias, e é muito mais conveniente fazer poses heróicas diante das câmeras e falar de "fascismo islâmico", "guerra de civilizações" etc.

Quanto ao discurso ideológico conservador, vale a pena ter em mente que algumas das mais extremas e irracionais defesas da agenda política nesses pontos é produzida por pessoas que se definem como liberais e social-democratas.

Independente de sua origem, há alguma maneira de confrontar o discurso ideológico? Sim, há uma maneira muito simples: tentar dizer a verdade. Não arranca aplausos da elite intelectual, mas é assim que ela reage normalmente às revelações sobre a natureza e o exercício do poder.

O que importa é o público em geral, que é capaz de se libertar das doutrinas e buscar compreensão.

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Não fui eu quem disse, mas Alberto Moravia


" (...) Como se sabe, o argumentista é aquele que escreve, em colaboração com outro argumentista e com o realizador, o desenvolvimento das cenas de que se compõe o filme. No guião, um por um, segundo o desenrolar da ação, são minuciosamente indicados os gestos e as palavras dos actores e os diversos movimentos da máquina. O guião é portanto ao mesmo tempo drama, mímica e técnica cinematográfica. Ora, se bem que a acção do argumentista seja de primeira importância e venha imediatamente depois da do realizador, por motivos inerentes ao progresso da arte do cinema ele fica sempre irremediavelmente subordinada e obscura. Se de facto se julgam as artes do ponto de vista de expressão directa, e não se vê de outro modo como na verdade poderiam julgar, o argumentista é um artista que, apesar de dar o melhor de si ao filme, não tem a consolação de ver reflectida nele a sua personalidade. Assim, com todo o seu trabalho criador, ele não pode ser então um fornecedor de achados, de invenções, de expedientes técnicos, psicológicos, literários; pertence então ao realizador usar esta matéria segundo o seu gênio e, em suma, de se exprimir. O argumentista, portanto, é o homem que fica sempre na sombra, que sua seu melhor sangue para o sucesso de outros; e que, embora o exito do filme dependa dois terços dele, nunca verá seu nome nos cartazes publicitários, onde são, pelo contrário, indicados os do realizador, dos actores e do produtor. Ele pode, é verdade, como acontece frequentemente, alcançar nome neste seu mister subalterno, e ser pago muito bem; mas nunca pode dizer: "este filme fi-lo eu." Isso pode dizê-lo somente o realizador, que, com efeito, é o único a assinar o filme. O argumentista, pelo contrário, deve contentar-se com trabalhar pelo dinheiro que recebe, o qual, queira-o ou não, acaba por transformar no verdadeiro e único fim de seu trabalho. Assim, ao argumentista não cabe senão gozar a vida, se é capaz disso, com aquele dinheiro que é o único resultado do seu trabalho, passando dum argumento para outro, duma comédia a um drama, dum filme de aventuras a um sentimental, sem interrupção, sem pausas, um pouco como em certas governantas que passam duma família para outra sem terem de se afeiçoar a qualquer criança, indo os frutos dos seus esforços todo para as mães, pois só essas têm o direito de chamar à criança seu filho. (...)"

In: O desprezo, pp. 49-50. Editora Ulisséia. 1972. Tradução de Maria Tereza de Barros Brito.

PS. mantive os termos em português de Portugal, pois é lusa a minha edição de "O Desprezo". Não sei se o livro foi publicado no Brasil, mas de qualquer forma, entenda-se por argumentista o que chamamos por roteirista, máquina é a câmera e guião, é como os portugueses chamam ao roteiro.

PS2: "O desprezo" foi filmado por Godard, em 1963. É um dos seus melhores filmes. Mas sobre "Le Mepris", falaremos depois.

terça-feira, 31 de julho de 2007

quadros que queria ter na parede aqui de casa (4)


O grito, de Munch

fotogramas (3)


Minha super-produtora Helô Rezende e eu, na Academia Brasileira de Letras, após receber o Prêmio ABL de Roteiro Adaptado, por Achados e Perdidos.

Adeus, Antonioni



Literalmente esbarrei em Antonioni, quando ele esteve no Brasil, por ocasião de uma homenagem no Festival de Gramado. Foi em 93 ou 94, não me lembro bem. Ele já havia sofrido o derrame que o havia deixado bastante debilitado, semi-paralisado e quase mudo ( se comunicava com pequenos gestos e através de sussurros, que sua esposa traduzia ).

Eu estava no saguão do Palácio dos Festivais, fumando um charuto, quando ele entrou, apoiado em sua esposa. No que ele entrou, uma turba de fotógrafos e cinegrafistas avançou sobre ele, empurrando tudo o que estivesse pela frente. Eu, inclusive.

Arrastado por esse tsunami de paparazzi, acabei ficando, por uns breves minutos lado a lado com o mestre. Acho que até pisei no pé dele, olha que mico. Arranhei um "pardon", e ele sorriu, generoso. Rapidamente me afastei dele, antes que fosse alvejado por algum fotógrafo mais impaciente com aquele involuntário "papagaio de pirata".

Fiquei ali no canto, olhando aquele homem frágil, debilitado, trêmulo pela doença, mas que irradiava uma altivez de gigante. Ele acenou para os fotógrafos e cinegrafistas, a mão erguida tremia. Vi essa foto ( deve ser das filmagens de Passageiro:profissão repórter, ali ao lado dele está a sumida Maria Schneider, que fim levou essa linda atriz? ), sua mão igualmente erguida, e me lembrei dessa história.

Ficam seus belos filmes. Qualquer dia falo sobre algum deles. Talvez do "Passageiro", talvez "Blow Up".

a bruxa tá solta...

Poxa, não deu nem pra prantear o Bergman, e morre também o Antonioni...
Semana péssima para o cinema.
Li uma vez, em algum lugar que quando morre um artista, o mundo fica irreparavelmente fracionado, amputado, todos nós perdemos um pouco de nossa humanidade. Lembro também aquele verso do Chico, "ó pedaço amputado de mim".
Muito triste.

segunda-feira, 30 de julho de 2007

Bergman


Acabo de ver na internet a notícia da morte de Bergman. Mais do que um grande cineasta, Bergman foi um dos maiores e mais importantes artistas contemporâneos.
Confesso humildemente que é um dos cineastas que mais me inspirou, se bem que - devo confessar também, mas agora com alguma vergonha - que demorei a compreender e admirar seu cinema. Não que fossem filmes difíceis - e são, se bem que nem todos, a suposta "dificuldade do cinema de Bergman" é mais um clichê do que realidade.
Mas porque sou de uma geração, ou do resto de uma geração que, por ideologia, rechaçava os filmes de Bergman, por seu suposto desvio "pequeno-burguês". Seus filmes seriam o "canto do cisne da burguesia", dramas existenciais do homem europeu bem nutrido, com dentição perfeita, branco e culto, porém estéril, conformista, niilista. Preso aos seus problemas pessoais, incapaz de uma atitude de mudança, de transformação. O discurso da impotência.
Durante muito tempo rejeitei seus filmes por alienados, vejam só o que uma má formação de esquerda pode causar numa pessoa. Seu eu tivesse nascido na China, na década de sessenta, teria sido um "guarda revolucionário" da Revolução Cultural impecável e implacável. Polpot puro, zhadanovista emperdenido.

Culpa da leitura apressada da Marta Hannecker, que justiça seja feita, nunca fez uma crítica sequer de cinema, tampouco sobre os filmes de Bergman. Mas foi através do livrinho dela, Princípios Elementares del Marxismo, assim mesmo, em espanhol, uma versão condensada e diga-se de passagem, bastante simplista, do marxismo, que eu e outros colegas de 15, 16 anos fomos "catequizados" pela esquerda, isso nos distantes e cinzentos 76 ou 77, ainda na ditadura militar.

Mas falava sobre Bergman.

Por conta desse patrulhamento ideológico, Bergman era um "artista decadente". Os únicos filmes que nos permitíamos gostar eram O sétimo selo e O ovo da serpente, que eram considerados "progressistas".

O mais patético dessa coisa toda era assistir aos filmes do Bergman, ficar estupefato, perplexo, embasbacado mesmo com a potência de suas imagens, a força de seus dramas, e ter que negar pra si mesmo que aqueles filmes eram obras de arte inquestionáveis. Morangos Silvestres, Gritos e Sussurros, cada filme que eu via do Bergman era uma porrada nas minhas convicções ideológicas supostamente "de esquerda". E o mais ridículo nisso tudo era disfarçar essa atitude obliterada que não passava de preconceito e burrice, mesmo, com uma atitude blasé ainda pior: tachar os filmes do Bergman de "chatos". Tudo bem, dêem um desconto. Eu era jovem, e os jovens em geral e os "jovens artistas" em particular são divertidamente boçais.

Ver Persona foi minha epifania. Impossível não me render àquele cinema, tão forte, tão belo, tão profundo. E sim, dificil, complexo, hermético até. Mas sempre fascinante, impressionante.

A partir de então mergulhei na obra de Bergman como se fosse um oásis no meio do deserto. Fui descobrindo os vários Bergmans, de fases distintas como Monika e o Desejo, Noites de Circo, Face a Face, Sorrisos de uma noite de verão, Cenas de um casamento sueco ( este na verdade foi o primeiro Bergman que vi), O silêncio, Sonata de Outono, a Hora do Amor, etc.

Fazendo um retrospecto acho que, entre tantas obras primas, o que gosto mais é "A Hora do Lobo". Fiz um curta chamado Retrato do Artista com um 38 na mão que é cheio de referências à Hora do Lobo, mas ninguém identificou - acharam que eu estava citando Bela e Intrigante, do Jacques Rivette.

Impossível falar sobre Bergman numa única postagem, e ainda por cima sob o efeito da notícia de sua morte. Como de praxe, voltarei a falar dele mais adiante.

Fica aqui minha homenagem em tom de mea culpa.

sábado, 28 de julho de 2007

Primeira social da casa nova.

Começou com almoço "de negócios" e terminou tocando iê-iê-iê dos beatles...

É nessa hora que este blog se torna a minha tábua de salvação...

( se ainda tocassem os Byrds... mas Beatles... ninguém merece!)

sexta-feira, 27 de julho de 2007

fotogramas (2)


Fla x Flu:
Eu e Eduardo Nunes, amigo, parceiro e sócio, comentando alhures (certamente não era sobre futebol... )
Finalmente, conseguimos mudar. Depois de 11 anos morando em Santa Teresa, respirando novos ares, agora em Laranjeiras. Já instalados na casa nova, com algumas caixas ainda para esvaziar. Vivendo há uma semana entre caixas, pincéis e furadeira. E pra complicar a vida, sem internet - o que explica o período sem atualizações aqui. Mas também isso está sendo resolvido. Mudança é um transtorno, mas depois que passa, vem uma agradável bonança. Curtindo a casa nova, o novo bairro, a sensação gostosa de um recomeço.
Desculpem-me a brevidade deste, mas tenho duas estantes pra instalar e duas caixas enormes de livros para esvaziar ( já sabendo de antemão que ou as estantes são pequenas demais ou então os livros que são demasiados... ).

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Aritmética da morte



Foram precisos 187 (até agora) vítimas inocentes no acidente da TAM para a morte finalmente levar o ACM.


É uma conta injusta, porém, se esse foi o preço, helás...


O Brasil - e a humanidade vão respirar bem melhor amanhã, depois que o ACM for sepultado.


A humanidade tava levando de goleada, ultimamente.


As atrizes Yolanda Cardoso e Nair Bello, D. Ivo Lorscheider, o escritor Zé Agripino de Paula, o poeta Bruno Tolentino, o amigo Serginho Kodak... todos se foram.


Mas finalmente agora foi um deles.


Um dos mais escrotos. Um dos piores.

Antonio Carlos Magalhães. Toninho Malvadeza, pros íntimos. Um dos mais cruéis "coronéis" da politica brasileira. Refugo da ditadura militar, queridinho da Rede Globo, representante do atraso e responsável direto pela miséria do povo brasileiro.


A aritmética da morte é cruel. Para cada canalha que ela leva, é preciso que morra um monte de gente bacana.

A morte de ACM custou 187 vidas, até o presente momento. A morte, além de fria, é avarenta.

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Vivendo num mundo de caixas...
(mudança é muito chato!)

segunda-feira, 16 de julho de 2007

coisas que eu gosto ( de ouvir ) 4:

Desire - Bob Dylan - 1976

Enfim, chegamos a Bob Dylan. Sou fã incondicional de Dylan, daqueles que possuem (quase) todos os discos, livros, até posters: tenho um belo quadro da capa ampliada do disco The Times They´re Changing que é belissímo, mesmo para quem não conhece sua música.
Mas não peguei a fase de ouro de Dylan, os anos 60. Na verdade, vim conhecê-lo já adolescente. O primeiro disco que comprei de Dylan foi justamente este Desire, de 1976.
Já conhecia muitas musicas dele, sucessos dos anos 60, e tinha aquela idéia de Dylan "banquinho e violão" ( e claro, gaitinha presa ao pescoço ) dos primeiros discos, na sua época folk e de canções de protesto. Coisas tipo Blowin´in the Wind ( que tinha até uma versão "católica", cantada pelos grupos jovens das igrejas nos anos 70, com uma letrinha chinfrim que dizia " se a gente compreendesse o amor que deus nos dá, o inferno poderia se acabar" substituindo o "the answer my friend is blowin´in the wind, the answer is blowin´in the wind" - seria coisa de Sulivan & Massadas?), The Times They´re changing, etc. Linhas melódicas simples porém vigorosas, letras quilométricas, gaitinha cortante, a voz meio "taquara-rachada" ( como definiu um dia meu pai ). E claro, Lay Lady Lay, canção romântica de um Dylan de voz aveludada, mais grave, que certamente deve ser sua canção que mais toca em rádios.

Escutar um disco pulsante, musicalmente diversificado, com arranjos sofisticados, com uma banda numerosa, com violino rascante de Scarlett Rivera e mesmo congas e bongôs, ou seja, um disco cheio de nuances rítmicas, dançante até como Desire foi um susto. Claro que o susto durou até a compra do segundo, o volume 1 do Greatest Hits, que trazia um apanhado mais diversificado da música de Dylan, desde as canções folk, às guitarras elétricas, passando pelo blues e pelo rock´n´roll clássico, mostrou-me que não deveria me surpreender com os diferentes Dylans, e sim aprofundar-me naquela obra que é una e vária.

Já tinha escutado que Dylan era uma espécie de Caetano Veloso de voz fanha, o que parecia uma comparação estranha aos meus ouvidos mais acostumados à musica do nosso baiano. No tocante à poesia, às letras, tudo bem, mas musicalmente falando, achava que não tinha nada a ver. Naquele momento, me parecia que nada soava mais diferente da exuberante musicalidade de Caetano do que o Dylan "banquinho, violão e gaitinha" etc. Desire serviu para fazer a ponte entre as duas obras ( em boa parte pelas "congas e bongô" que criavam uma gostosa "cozinha rítmica" ). Depois fui perceber que era preciso ouvir Blonde on Blonde ou Bringing It All Back Home para reconhecer num e noutro as tão decantadas e reais afinidades - e obviamente, ressaltar as diferenças.

Mas é sobre Desire que estou falando. Escutá-lo, 31 anos depois, é uma experiência nostálgica - me vem obviamente à lembrança aquele eu de 14, 15 anos - e ao mesmo tempo surpreendente.

Desire é um excelente disco, sua sonoridade vigorosa, sua multiplicidade de estilos, boas canções e, principalmente, a empolgação de Dylan em cantá-las faz crer que estamos escutando mesmo uma obra prima. Justiça seja feita, apesar de ser um disco muito bom, não é o melhor de Dylan, não é sequer o melhor disco de Dylan da década de 70 ( Blood on the tracks, de 74 é muito superior, mas deste falaremos mais adiante, paciência ), apesar da maior parte das pessoas que não curtem Dylan acharem disparado o melhor.
O disco abre com a vigorosa, contundente e quilométrica "Hurricane" que, junto com Blowin´in the Wind e Lay Lady Lay, deve ser a canção de Dylan mais executada nas rádios, a despeito dos seus quase oito minutos de duração.
Hurricane é uma canção de protesto, daquelas que ele costumava compôr no começo de carreira, se bem que musicalmente seja completamente distante daquelas canções folk quase minimalistas. A letra ( em parceria com o dramaturgo Jacques Levy, como quase todas as músicas do disco ) tem a estrutura de uma canção de teatro, permeada de diálogos, manchetes de jornais, comentários, discussões entre corifeu e coro ( na essência do teatro grego ), é totalmente visual e cênica - poderia muito bem ser parte de uma opereta. Li nas Crônicas, livro de memórias de Dylan, que no começo de sua longa carreira ele buscou em Brecht e Kurt Weil e na pintura e no cinema expressionista a inspiração para criar um tipo de música "visual", cuja letra criasse ambientes e cenas cheios de "som e de fúria". Hurricane é bem isso. E o violino de Scarlett Rivera, cigana que participava da banda de Dylan na época de Desire, faz solos maravilhosos, aumentando ainda mais a potência dramática da canção. Neste sentido é bom lembrar a regravação que a sumida Cida Moreira fez de Hurricane ( literalmente "Furacão" ) , onde a teatralidade da música, acentuada pelo estilo "cantora de café concerto" de Cida, é brilhantemente destacada.

O disco é repleto de excelentes canções, a começar pela minha preferida, One More Cup of Coffee, que é de uma beleza pungente, com Dylan cantando como um kantor, emprestando um tom quase litúrgico à canção (ouvi dizer que o Zeca Baleiro gravou uma versão dessa musica, mas não conheço, mas estou curioso para ouvir, já que acho Baleiro um musico muito interessante ). Oh Sister! que lembra vagamente ( na letra) a Maninha de Caetano ( composta para o primeiro disco de Marina Lima ). Isis é puro Dylan dos anos 60, parece mesmo uma faixa composta à epoca de Blonde on Blonde, talvez pelo jeito como Dylan a toca ao piano e, é claro, pela letra non-sense tipica da poética de Dylan. Boas também Joey - talvez a maior canção de Dylan, 12 minutos! -, Moçambique ( alegre e dançante, não faria feio numa festinha tipo Casa da Matriz da vida ) e Sara, bela e triste canção de amor ( ou desamor, já que é um réquiem para o casamento desfeito de Dylan com Sara Lowndes ) que fecha o album.

É um disco gostoso de se ouvir de cabo a rabo, talvez o disco de Dylan mais palatável. O que para Dylan, ou para seus fãs, eu incluso, não é um bom adjetivo. Dylan, a começar por sua voz, não é exatamente uma experiência "palatável".

De qualquer forma, é um disco vigoroso e recomendado para quem deseja conhecer a música deste que é, sem dúvida, o maior compositor pop de todos os tempos. Foi por ele que comecei. 30 anos e mais de 30 discos depois, continua sendo meu músico estrangeiro predileto.