quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Unidos venceremos (2)




O grande ator Danny Glover ( que, dizem, irá dirigir um filme no Brasil ) também apóia a greve da WGA.

sábado, 24 de novembro de 2007

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

entranhas cinematográficas ( e ideológicas ) de Tropa de Elite (final)


Acho que ninguém aguenta mais ouvir falar de Tropa de Elite, tampouco sinto vontade de insistir nesse assunto. Mas não poderia deixar de fechar a série de títulos referenciais para uma plena compreensão do filme do José Padilha sem falar daquele que, sem dúvida, é seu melhor espelho: Nascimento de uma Nação, de D.W. Griffith (1915).
Resguardadas a distância histórica e as diferenças técnicas e mesmo, estéticas de um filme e do outro, há uma clara semelhança na estrutura dramática de ambos os filmes. Nem tanto pela óbvia heroicização do abjeto ( uma tropa militar acima do bem e da constituição, que tortura e mata, em nome da "lei" no caso dos homens de preto de Padilha, e os Ku-Klus-Klans de Griffith ) mas principalmente pela construção do "vilão".

Em Nascimento de uma nação, Griffith, dentro de sua lógica sulista, portanto, com o olhar ressentido do derrotado, deforma a realidade e a história transformando em vilões os abolicionistas e em feras desumanas os ex-escravos libertos. Dentro de seu original e particular ponto de vista, as vítimas são os fazendeiros escravocratas brancos sulistas, derrotado por uma tropa de mestiços nortistas, que se vêem constantemente ameaçados e humilhados pelos cada vez mais arrogantes negros libertos. Há tres vilões no filme: o branco nortista e abolicionista Stoneman, seu braço direito Lynch, mulato ambicioso e, finalmente, a população negra desaforada e animalesca, que se vira contra seus antigos senhores com petulância e brutalidade.


Lógica muito semelhante à elaborada por Padilha no Tropa de Elite: o vilão do filme é a classe média que, segundo o filme, alimenta e sustenta o tráfico, a classe média que defende os direitos humanos dos bandidos e impede a ação erradicadora dos "homens de preto", em suma, a porção dita liberal da classe média, que seria a principal responsável pela força do narcotráfico em nosso país.
Sem muito esforço comparativo, em Tropa de Elite o papel de Stoneman ( o branco que por conta de seus ideais liberais trai a sua raça e favorece tibia e irresponsavelmente a ascensão dos ex-escravos brutos e rancorosos ) seria representado pela classe média liberal, pelos jovens de classe média que consomem drogas, pelas ONGs que mantém relações dúbias com o tráfico; Lynch, o mulato ambicioso que se aproveita do "liberalismo" do patrão branco para ampliar seu poder seria o Baiano, o traficante que cheira pó com os branquinhos de classe média da ONG mas que não reluta em fritá-los no "microondas" quando contrariado ( da mesma forma que Lynch sequestra e tenta possuir sexualmente a filha de Stoneman, seu protetor ); finalmente, a massa de ex-escravos brutais e animalescos seriam os anônimos soldados do tráfico, os favelados que "ameaçam" cada vez mais os moradores do asfalto, a classe média branca e indefesa.
Tanto Birth of a Nation quanto Tropa de Elite deixam claro quem são os heróis na medida em que estabelecem exemplarmente quem são os seus vilões. Os dois filmes demonstram didaticamente as condições que favorecem o surgimento ( e a necessidade ) de tropas paramilitares, com poderes ilimitados, como única forma de defesa da sociedade civil. E se os heróis cometem "excessos" ( a foto que ilustra esta postagem mostra o linchamento de um negro pelos KKK, num momento de violência muito semelhante às cenas de tortura cometidas pelos "caveiras" de Padilha ), a narrativa de ambos filmes justifica e/ou racionaliza o que poderia ser um deslize na conduta dos heróis: trata-se de uma guerra e o inimigo é muito pior, muito mais desumano e, principalmente, mais forte e mais numeroso. Os KKK lincham o negro que tentara estuprar uma inocente e adorável donzela branca, provocando o seu suicídio ( ela prefere se matar a ser possuída por um negro). Os "caveiras" brutalizam uma jovem moradora do morro ( não tão inocente assim, uma vez que era namorada do traficante Baiano ) e quase empalam um marginal com o cabo de uma vassoura, na cena mais brutal de Tropa de Elite, movidos pelo desejo de vingar seu companheiro covardemente assassinado pelos traficantes, com um tiro pelas costas.

Muito criticado, desde à epoca de seu lançamento ( considerado ao lado de O Judeu Süss, realizado na Alemanha Nazista, como um dos filmes mais racistas já realizados ), Birth of a Nation talvez pudesse ser defendido hoje em dia pelo mesmo argumento usado pelos defensores de TE: Griffith estaria apenas retratando o ponto de vista de um racista e, dentro de sua psicopatia, um racista enxergue realmente os negros como vilões e os antigos escravocratas como vítimas indefesas, que são defendidos pelos paladinos encapuzados da Ku-Klus-Klan. Da mesma forma que Padilha "apenas" retrata o ponto de vista de um policial linha dura, sem entretanto compartilhar ou defender este mesmo ponto de vista.
Comparando os filmes, e a reação das platéias de um e de outro, por que isentar Padilha e taxar Griffith de reacionário, ou, por outro lado, por que não "relativizar" o discurso de Nascimento de uma Nação, fingindo que não é racista e facistóide, argumentando que Griffith "apenas" filmou o ponto de vista dos escravocratas sulistas derrotados pela União, sem compartilhar de seus ideais ou tampouco ser um entusiasta dos KKK?

Difícil, não acham? Diria quase impossível.

Em tempo: ao final de Nascimento de uma nação, Stonema cai em si do perigo personificado pelos negros que até então defendia e se alia aos escravocratas, colocando-se sob a tutela dos paladinos encapuzados. Lynch é morto e os negros "petulantes" reconduzidos ( sob a mira das armas dos KKK ) no seu devido e submisso lugar. De certa forma, é essa a mensagem final que Tropa de Elite passa ao seu público: assim como Stoneman, cabe à parcela mais esclarecida da classe média renunciar ao seu liberalismo, parar de proteger os traficantes ( o que é a defesa dos direitos civis e humanos senão "fazer vista grossa" para a bandidagem? ), e deixar que os "caveiras" reestabeleçam a ordem.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Betty a feia também apóia a greve dos roteiristas americanos


A atriz America Ferrera, intérprete de "Betty a feia", em manifestação de apoio à greve dos roteiristas de Hollywood.

A propósito, o seriado Ugly Betty é muito divertido.

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

a praga chamada "politicamente correto" (1)

Não existe nada mais chato que a chamada postura "politicamente correta". Sinceramente, penso que isso é uma manifestação conservadora usada para perpetuar as chamadas "minorias" e demais segmentos explorados historica e cotidianamente numa posição de inferioridade porém, com a consciência tranquila. Crioulo passa a ser "afro-descendente", viado vira "homoerótico, homoaderente", e por aí vai. A terminologia dita agressiva, racista ou machista deve ser abolida e trocada por termos civilizados. O que é uma questão política vira uma questão semântica, ou de etiqueta.

Estranhamente, os defensores desse tipo de pensamento "polido" geralmente são os que mais protestam contra o sistema de cotas para a população negra ascender às universidades, aos empregos públicos, o que de fato criaria condições para uma equiparação econômica, cultural e social com a população branca. Para eles isso é populismo, da mesma forma que bolsa família e projetos sociais vizando reduzir a miséria ( isso então é chamado de esmola ou pior, compra de votos ). Os mais radicais chamam essa política afirmativa de verdadeiro racismo, porque essas medidas compensatórias no fundo seriam atitudes preconceituosas às avessas, descriminando a população branca.

Vejam só a que ponto chegamos: chamar um negro de crioulo é racismo, vetar-lhe o acesso às faculdades, garantir-lhe chances de ascensão profissional, ser contra a criação de cotas nos concursos públicos para uma população históricamente submetida à pobreza, isso não é racismo.

No tocante aos gays, é politicamente correto chamá-los de "homoadeptos", ou qualquer termo nesse gênero, semanticamente polido. Bem provavelmente os adeptos desta espécie de Socila (antiga escola de etiqueta, formadora de dondocas e misses ) vernáculo-liberal devem achar muito divertidas as passeatas gays, etc. Afinal de contas, os gays são tão alegres ( o trocadilho é intencional ). Agora a boa maioria dos adepto da correção política com certeza torce nariz para a extensão dos direitos dos casais heterosexuais aos casais gays ( planos de saúde, herança, adoção de filhos, etc ), pelo ingresso de gays nas forças militares, etc.

A postura "politicamente correta" acaba gerando monstruosidades, algumas tão ridículas que chegam a ser risíveis...

Olha a pérola que li na internet...


Risada de Papai Noel é proibida em Sydney

Os papais-noéis da maior cidade australiana foram orientados a não usar mais o tradicional "ho, ho, ho" devido a risada ser considerada ofensiva contra as mulheres. As autoridades instruíram os profissionais de Sydney a utilizar o "ha, ha, ha".

Um Papai Noel contou que foi aconselhado por uma empresa de recrutamentos a não usar a expressão porque poderia assustar as crianças e também por causa da gíria "ho", prostituta no inglês americano.

Julie Gale, que coordena uma campanha contra o contato precoce de menores com a sexualidade, chamada de Kids Free 2B Kids (crianças livres para serem crianças), é contra a orientação. "Estamos falando de quem ainda não entende 'ho, ho, ho' com outra conotação e nem precisariam", afirma ela. "Deixem Papai Noel em paz", pediu.

Um representante da empresa afirma que é um equívoco dizer que a companhia baniu a risada tradicional do personagem e que a decisão foi deixada a cargo de cada Papai Noel.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

entranhas cinematográficas ( e ideológicas ) de Tropa de Elite (4)


Starship Troopers, de Paul Verhoven


Fantasia gay SA ( não confundir com Sociedade Anônima, e sim referente às SA, ou Sturmabteilung, grupo paramilitar comandado por Ernst Rhöm, que tinha como característica uma real afinidade ao conceito de "socialismo" nacional, dentro da concepção nacional-socialista que fundamentava o partido nazista e uma concepção homoerótica da virilidade, advinda dos gregos... em suma, era a facção esquerdista e gay do partido nazista, que foi devidamente "expurgada" na famosa "noite dos longos punhais", na qual foram quase todos mortos pelos membros das SS ) dirigida pelo até então esperto diretor holandês radicado em Hollywood.
O filme é uma caricatura, o que foi confundido pelos admiradores de Verhoven como um esculacho ao culto do herói, tão caro ao cinema ianque ( pelo menos o cinema ianque dos grandes estúdios, das famosas "majors" ).
Mas no geral, parece fascinado pelo fetiche das fardas, por uma visão de uma sociedade militarizada onde os civis são cidadãos de 2a classe, pelo culto à violência, reproduzida com um sentido quase sexual ( o ato de matar e morrer comparado a um orgasmo ), em suma, uma idealização do soldado como macho superior num mundo exclusivamente masculino, no qual as mulheres são seres inferiores ( só admitidas quando "masculinizadas" ) e onde sentimentos nobres como a lealdade, a fraternidade e o amor ( e claro, o sexo ) só podem ser aceitos entre os iguais. Entendendo igualdade aí restrita à elite da sociedade, ou seja, aos homens. A velha tese boiola que, dizem as más línguas, fazia a cabeça dos gregos ( ..."ou seria dos persas", como diria o personagem gay interpretado por Carlão Kroeber, no delicioso "Guerra Conjugal", filme de Joaquim Pedro de Andrade, sobre o qual um dia falaremos ).
A citação do filme do Verhoven ( que realizou grandes filmes como Turkish delight, Soldado Laranja, Conquista Sangrenta, Robocop, antes de entrar em decadência bem remunerada com Atração Fatal e Showgirls e finalmente, este Starship Troopers ) é pura provocação: não há exatamente pontos de referência entre Tropa de elite e essa tropa estrelar, além do fato do culto ao poder "regulador" das tropas de elite militar na vida social e do uso da tortura como forma eficaz de se vencer uma guerra. Lembremos o filme do Verhoven: ao final, o oficial da Gestapo futurista preconizada no filme tortura o inseto-cerebro ( e ânus ) para obter as informações necessárias para derrotar o exercito de baratas e grilos gigantescos que ameaça a Humanidade. E é através da tortura que a Humanidade triunfa. Ou seja, é um líbelo em defesa da tortura como forma legítima de se combater o "mal" e fazer o "bem" triunfar.
Pensando bem, há muitos pontos de convergência.
De certa forma, a caricatura até bem humorada de Verhoven foi levada a sério pelo Padilha, que faz dos seus "caveiras" um poder regulador dentro de uma "cidade partida", uma espécie de cruzados impolutos e incorruptíveis, e cujo uso da tortura como forma de defesa do bem contra o mal.

Note-se que, da mesma forma que em Full Metal Jacket, em Starship Troopers há o processo cruel de "educação" militar, que transforma homens supostamente civilizados em armas letais. Tudo em nome da defesa da "civilização" contra a "barbárie".

Mas o que em Starship troopers é caricato, debochado e, mesmo, paródico, em Tropa de elite é tratado como um ritual de purificação e depuração dos fracos e indesejáveis ( se bem que, como na cena da "aula de estratégia", com belas tiradas de humor ).

A ação de Tropa de Elite se passa em 1997, um passado recente. Já a de Starship Troppers ocorre num futuro distante.

Um filme mostra o passado recente para "justificar" a violência dos dias presentes. O outro mostra um futuro para "alertar" dos perigos que a ameaçam a humanidade que se deixa desarmar.

Cara e coroa de uma mesma moeda - diante de uma ameaça à civilização, é necessário recorrer às forças acima das leis, da moral, da ética, pois somente estas conseguirão derrotar o mal. Nas entrelinhas, a carta branca que a sociedade ( geralmente, os membros mais aquinhoados das sociedades, a elite ) dá aos fascistas para impôr a ordem e garantir sua sobrevivência.

Recomendo verem Starship Troopers e compararem com Tropa de Elite. Verão que as coincidências são muitas. O problema é que no filme do Verhoven dá pra rir... enquanto que Tropa de Elite provoca uma inevitável sensação de medo.

sábado, 10 de novembro de 2007

Adeus, Norman Mailer


Li na internet a notícia do falecimento de Norman Mailer, hoje, aos 84 anos.
Grande escritor e intelectual norte-americano, autor de livros fantásticos como "Os nus e os mortos", "Os degraus do Pentágono", "A canção do carrasco", entre mais de 40 romances ( entre esses, "A luta", um romance reportagem sobre a disputa entre Muhammad Ali e George Foreman, considerada a mais espetacular luta de boxe de todos os tempos, um romance erótico passado no Egito à época dos faraós, "Noites antigas", em nada semelhante a essa profusão de romances pseudo-históricos que proliferam hoje em dia, e de um "Evangelho segundo o filho" , narrado pelo próprio Jesus - o Saramago teve idéia semelhante, escrevendo O Evangelho segundo Jesus Cristo, mas com estilo totalmente diferente).
Polêmico, brigão, combativo, vaidoso, veterano da 2a guerra mundial, beberrão, mulherengo, meio fanfarrão, um autor ianque da estirpe de Ernest Hemingway, se bem que, literariamente falando, seu jeito de escrever diferisse diametralmente do estilo classudo e seco "hemingwayniano".
Já citado aqui neste blog, com um texto em que fala sobre a escritura de roteiros. Mailer entendia do riscado, alguns romances seus foram filmados, ele atuou em Ragtime de Milos Forman, colaborou no roteiro de Era Uma Vez na América, de Sergio Leone e dirigiu alguns filmes, inclusive o longa, Machões não dançam, adaptação de uma boa novela policial de sua autoria.
Crítico ferrenho da politica imperialista e militarista norte-americana, vai deixar uma lacuna na inteligência americana.
Enquanto isso, Bush engasga no pretzel, atola no Iraque, mas continua firme e forte.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Unidos venceremos




A atriz Julia Lois-Dreyfus, a Elaine do saudoso seriado Seinfeld, manifestando seu apoio à greve dos roteiristas de Hollywood.

domingo, 4 de novembro de 2007

ou esta...


Grateful Dead, mítica banda de rock.

Caveira por caveira, prefiro essas...




Caveiras de açucar do Dia dos Mortos, México.

Caveiras de Cristo


"Os novos cruzados" em pleno culto.
Assim como o capitão Nascimento do filme, os caveiras sofrem de remorsos. Mas ao mesmo tempo crêem que estão no meio da luta do Bem contra o Mal, e que o Bem, com ajuda de Deus e da tortura, irá finalmente triunfar.

domingo, 28 de outubro de 2007

entranhas cinematográficas ( e ideológicas ) de Tropa de Elite (3)


Full Metal Jacket - "Nascido para Matar", de Stanley Kubrick (1987)



Não sou dos maiores fãs do Kubrick, tampouco deste filme. Mas há de convir que há uma profunda semelhança entre o treinamento dos recrutas no filme de Kubrick e o dos "caveiras" de Padilha. Num e noutro, assistimos a cenas brutais, sádicas, um ritual extenuante através do qual o homem se transforma numa besta letal. Tanto em Full Metal Jacket quanto em TE há cenas engraçadas, sendo que a aula de "estratégia" de TE, em que o capitão Nascimento dá uma granada engatilhada para um sonolento aspira Matias segurar, enquanto segue com sua monotona peroração acerca das diferentes versões da palavra "estratégia", é , disparado, uma das sequências mais engraçadas que o cinema já produziu. As cenas são muito parecidas.
Mas ser parecido não quer dizer necessariamente ser igual. É aí que reside a grande diferença entre forma e conteúdo.
A semelhança formal das sequências são enormes, até mesmo no tom visivelmente "exagerado", que provoca risos. Quando analisamos o discurso dos filmes, a distância que surge entre um e outro é abissal. Quase antagônicas.

A diferença entre um e outro filmes é o ponto de vista do diretor - enquanto que Kubrick tem um evidente propósito em mostrar como o homem pode ser desumanizado e tornar-se uma eficaz e disciplinada máquina de matar, dando uma aula sobre o processo de alienação ( e o tom propositalmente caricatural das cenas remete ao distanciamento brechtiano ), em Tropa de Elite o que vemos é um processo de depuração. O treinamento é bruto, não para desumanizar seus participantes, mas para eliminar o mal inflitrado - os corruptos. A brutalidade dos exercícios é uma forma de desestimular que recrutas covardes, preguiçosos e, principalmente, os corruptos consigam penetrar no impoluto corpo de "caveiras".
Neste sentido a humilhação que sofre o capitão Fábio, o tíbio PM envolvido com prostituição e bicheiros, é exemplar: todos sabemos que ele é covarde, preguiçoso e principalmente, corrupto. Típico estereótipo do policial. O que vemos é que na Tropa de Elite não há lugar para tipos assim. E as cenas em que Fábio é achincalhado pelo Capitão Nascimento são sempre bem humoradas. Moral do filme: é assim que se deve tratar os maus policiais. Não é isso que a sociedade quer? Uma polícia honesta, séria, que cumpra seu necessário trabalho? Sem corruptos, sem moleirões, sem covardes e velhacos?


Neste sentido, é inóqua a crítica que o colunista do Globo Arthur Xexéu faz ao filme, ao mencionar o comentário sobre um "aspirante a caveira" que ficou surdo pelo rigoroso treinamento aplicado pelo capitão Nascimento. Vendo, depois, a tentativa do covardão e corrupto capitão Fábio em ingressar na Tropa incorruptível, conseguimos "ver" o que deve ter acontecido com o citado aspirante que ficou surdo. E como Nascimento alerta que "ele era safado", entendemos que ele teve o castigo merecido.


Sobram do treinamento apenas os bons, os mais fortes, os incorruptíveis. Como toda depuração é uma purificação, entendemos que os que sobrevivem para tornar-se "caveiras" são uma espécie de "eleitos", no sentido religioso mesmo da palavra. São imunes à dor, às privações, às tentações. Os "caveiras", antes de máquinas desumanas treinadas para matar, são uma espécie de "cruzados", homens superiores, acima do bem e do mal.


E o conceito de "homens acima do bem e do mal, acima do conceito de classes, disciplinadores da sociedade e mantenedores da ordem" não é exatamente um dos princípios do fascismo?

saudades do "bodódromo" (Petrolina, PE)




"Cabritada mal-sucedida"
(1953)


Samba de Geraldo Pereira e Jorge Gebara



Bento fez anos,
E para almoçar me convidou,
Me disse que ia matar um cabrito,
Onde tem cabrito eu tou,
E quando o "Comes e Bebe" começou,
No melhor da cabritada,
A Polícia e o dono do bicho chegou.
Puseram a gente sem culpa,
No carro de Radio Patrulha e levaram,
Levaram também o cabrito,
E toda a bebida que tinha, quebraram,
Seu Comissário, zangado,
Não tava querendo ninguém dispensar,
O patrão da Sebastiana,
É que foi ao distrito,
E mandou me soltar.


domingo, 21 de outubro de 2007

quadros que queria ter na parede aqui de casa (7)


Jogo de Bola, de Cândido Portinari.

coisas que eu gosto (de ver) 4:


Noite Escura, filme de João Canijo, Portugal 2004.

Grande filme português, de um diretor pouco conhecido aqui no Brasil ( apesar de já ter feito um filme, A Filha da mãe, estrelado pelo José Wilker ). Conheci o João Canijo no Festival de Cinema Latino de Chicago, em 2002. Éramos quase que dois peixes fora d´água. Eu porque estava representando como roteirista o filme da Sandra Werneck, Amores Possíveis ( e em festivais de cinema, se você não é o diretor ou produtor do filme, ou então o ator principal, você fica ali, meio perdido, ninguém te dá muita atenção, roteirista então...). E o João, por ser português. Se no meio daquela multidão de cineastas hispânicos, latino-americanos, ser brasileiro já era motivo de estranheza ( apesar de uma estranheza carinhosa, afinal, nossos hermanos latinos simpatizam gratuitamente conosco ), um cineasta luso, com um filme totalmente rodado em Paris, era realmente uma espécie de ET. O filme que ele tinha em concurso era o belo Ganhar a vida, que retrata a migração portuguesa contemporânea para os países mais desenvolvidos na Europa "sem fronteiras". Nos encontramos numa festa promovida pelo sempre simpático Pepe Vargas, diretor do festival, um convescoste bem familiar, nada a ver com as festas nababescas do cinema brasileiro, uma coisa bem íntima, um churrasco no quintal de sua casa, num simpático subúrbio de Chicago. De modo que o brasileiro e o português acabamos por juntarmos nosso deslocamento e ficamos papeando sobre os cinemas de nossos países.

Papeando é uma licença poética. Meu inglês é, como naquela comunidade do orkut, "too bad", meu espanhol só funciona depois de algumas doses de birita, mas o maior problema linguístico é entender o português falado pelos portugueses. Às vezes parece russo. Realmente, é uma coisa que dificulta em muito a circulação do cinema português no Brasil. "Aquela língua" só consegue ser compreendida com legendas. E pra complicar, o Canijo fala com aquele acento gutural típico dos moradores do Porto, mais fechado e hermético que o português cantadinho dos alfacinhas, os lisboetas. O irônico é que o nosso português é plenamente compreendido pelos lusos, por ação e graça das telenovelas globais, que inundam a programação televisão portuguesa há mais de 20 anos - há casos de emissoras que passam novelas das duas as dez...

Mas não é pra falar dessa conversa de meio-surdos em Chicago que estou escrevendo, e sim para comentar um filme do Canijo, que acabei assistindo em 2004, por ocasião do Festival de cinema Luso-brasileiro de Santa Maria da Feira, onde ambos fomos jurados. Noite escura passou, fora de competição. A despeito da dificuldade de compreensão idiomática, o filme me impressionou sobremaneira. É um filme muito forte, brutal, com uma mis-en-cene elaboradérrima, um ritmo tenso, sempre crescente, uma fotografia cheia de movimentos de câmera que às vezes lembram a movimentação da câmera de um Altman, passando de assuntos e ambientes, criando uma espécie de labirinto visual, onde os personagens parecem aprisionados e sem saída. Ao mesmo tempo, o uso de câmera na mão, sempre tensa e angustiante, encurralada nos limites de um amabiente quase sempre fechado, remete ao cinema de Cassavetes É um filme bastante tenso, sufocante. A trama é inspirada na tragédia de Eurípedes, Ifigênia em Aulis, transmutada para um Portugal moderno, repleto de contradições, dividido entre a fartura dos investimentos da comunidade européia e a agonia de suas tradições e a corrupção de seus valores.

A peça de Eurípedes fala do drama do rei de Micenas, Agamemnon, que é obrigado a sacrificar a filha mais jovem, Ifigênia, a fim de aplacar aos deuses, que vinham castigando seu reino com a seca e a devastação. Agamenon tem outra filha, Electra, que nutre pelo pai uma espécie de amor incondicional. Já a esposa de Agamenon, Clitemnestra, ao descobrir que o marido sacrificara a filha caçula, acaba matando-o.

Na adaptação de Canijo, a ação se passa numa boate de prostituição. Pressionado por mafiosos russos, Nelson, o dono do bordel aceita oferecer sua filha mais jovem como pagamento de suas dívidas. A decisão do pai é questionada pela filha mais velha, que tenta salvar a irmã do destino cruel: tornar-se prostituta. É um filme dominado pelas mulheres, determinadas, enérgicas, enquanto os homens parecem rastejar na sua impotência ou covardia. Nelson ( em ótima interpretação de Fernando Luis) , é tíbio, pusilânime em sua covardia em aceitar o destino cruel que se lhe apresentam. Apesar de amar a filha, tem mais amor ao próprio pescoço. Ele é pressionado por todos os lados: pelos russos, pela filha mais velha ( interpretada por Isabel Batarda, belíssima atriz, aqui enfeiada, masculinizada ), pela esposa Celeste, aparentemente cínica e alienada ( numa interpretação cheia de nuances de Rita Blanco, espécie de atriz-fetiche de Canijo ), pelos próprios remorsos - sabe que é um patife covarde, mas isso não o impede de sofrer.

A trama de Canijo é narrada pelo ponto de vista de Carla, a filha mais velha e mais feia. E é o seu desespero em ver a família ser destruída pela covardia do pai, que no entanto ama desesperadamente. Ela tenta dissuadir o pai, sem sucesso, tenta pedir auxílio à mãe, que ignora seu desespero, tenta ajudar Sônia, a irmã caçula, que entretanto rechaça seu socorro. A percepção de sua incapacidade de mudar o destino, traçado por mãos mais fortes que a sua, vai enlouquecendo progressivamente a personagem.

Num momento intenso do filme, ao propôr que o pai lhe entregue aos russos, no lugar da irmã caçula, ela procura mostrar que, apesar de feia, é muito mais experiente que a outra. Ela seduz o pai, numa cena cheia de sensualidade doentia, incestuosa, que culmina numa felação nervosa a qual o pai não consegue resistir. Essa cena é talvez a melhor representação do "complexo de electra" em cinema ( em detrimento às diversas representações do mito do amor edipiano, que gerou filmes tão dispares quanto O sopro no coração, de Louis Malle, La Luna, de Bertollucci, Os imorais, de Sthephan Frears e, mesmo, os incompreendidos, de Truffault). Mas nem pelo sexo ela consegue demover o pai tíbio e covarde.

O filme é impregnado de violência. A abertura do filme mostra Carla lavando o assoalho sujo de sangue de uma prostituta russa, que aparece com a garganta dilacerada. Mais adiante, um sócio de Nelson será esfaqueado na jugular, em meio a uma discussão com o chefe dos mafiosos russos. Uma outra prostituta é enforcada - seu corpo despenca do teto pesado e inerte. No final, há um tiroteio, muitas mortes - enquanto isso, mulheres em trajes sumários, seminuas exibem-se monotonamente no palco da boate, num contraponto que remete à disputa entre Eros e Thanatos, com a predominância deste.

Numa tentativa final de salvar a imã, Carla parte para o sacrifício, pistola na mão, enfrentando os russos. Mas mais uma vez, ela falha. E morre. Sua morte não impede que Sônia seja levada pelos mafiosos russos, tampouco salva o pai. Nelson, causador e vítima de sua própria desgraça, é morto por Celeste. Ao final do filme, enquanto os corpos de Carla e Nelson abraçados e unidos pelo mesmo sangue derramado jazem no estacionamento, a noite segue na boate, onde clientes e prostitutas seguem seu cotidiano aviltante, sem perspectivas, mais monótono do que trágico.

Aliás, dentro do conceito de tragédia grega, as prostitutas e clientes da boate de Nelson funcionam como uma espécie de côro, que de certa forma comenta, num segundo plano, aspectos da história e, principalmente, a questão da prostituição - que seria uma metáfora da situação de Portugal, corrompido pelos euros que mudaram radicalmente o país, sem no entanto resolver nenhum de seus problemas estruturais ( tanto que é um dos países mais pobres da comunidade européia ).

O filme é tenso, duro, nervoso, de um colorido neurótico - há uma preponderância das cores vermelhas e verdes, por sinal, cores da bandeira portuguesa. Num dado momento da trama, a personagem Sônia, a irmã caçula, canta uma triste canção, uma espécie de fado - e o que é o fado se não uma junção entre a premissa fatalista da tragédia grega e a melancolia incurável dos portugueses? A canção funciona como uma espécie de comentário melódico ao filme, mas também é um contraponto - é um raro momento de doçura ( ainda que uma doçura agônica, acridoce ) em meio à nervosa movimentação da câmera e a cada vez mais tensa atuação dos atores.

É uma pena que a sonoridade do português de Portugal difira tanto do nosso português. Isso impede que um filme impressionante como Noite Escura possa vir ser exibido no Brasil. Pelo menos, não sem legendas. Tenho uma cópia em dvd que só dá pra assistir com auxílio das legendas em inglês.

É lamentável porque, além de privar o público brasileiro do cinema de Canijo, sem dúvida um dos cineastas portugueses mais interessantes, figura constante em Cannes - Noite Escura concorreu à Palma de Ouro e também foi o filme português indicado ao Oscar de filme estrangeiro - , essa dificuldade idiomática entre Brasil e Portugal acaba criando o mito de que o único cineasta português é Manoel de Oliveira, cujos filmes acabam passando no Brasil com mais frequência mas pelos quais eu não tenho a menor paciência (apesar de achar simpático o velhinho continuar filmando a "bordo" dos seus noventa e tantos anos, mas daí gostar de seus filmes, há uma grande distância ).

João Canijo e Pedro Costa ( O quarto de Vanda, Juventude em marcha ) são os melhores realizadores portugueses da atualidade, sendo que o cinema de Canijo me agrada mais, pela sua elaborada dramaturgia. Pena que falemos a "mesma" língua. Fossem cineastas espanhóis ou franceses, ou mesmo romenos, seus filmes teriam melhor aceitação aqui, no Brasil.

sábado, 20 de outubro de 2007

coisas que eu gosto ( de ouvir) 5:



A bossa eterna de Elizeth e Ciro


Disco fundamental para quem deseja conhecer a boa música popular brasileira.
Dois pesos pesados da musica brasileira dando o melhor de si, para felicidade daqueles que apreciam um bom samba.
A divina Elizeth Cardoso, consagrada por interpretações sublimes e pungentes ( considero sua gravação de "Barracão", de Herivelto Martins, no disco ao vivo com Jacó do Bandolim a mais bela interpretação da MPB ) revela aqui seu lado mais descontraido, ao lado do sempre irreverente e malandro Ciro Monteiro.
Sou fã de carteirinha do "formigão", sem dúvida o mais carioca dos cantores da MPB. Apoiado num timbre de voz saboroso, dono de um estilo personalíssimo, Ciro esbanjava alegria.
Ao seu lado, a Elizeth dá um tempo à "diva" e incorpora uma cabrocha cheia de ginga e malandragem. É um disco que celebra a alegria, e que compartilha com os ouvintes o prazer de viver.
Na versão "bolachão", tanto o lado A quanto o B abriam com dois deliciosos "pout-porrys", com duelos entre Ciro e Elizeth, marcados pelo bom humor que contagia o ouvinte. São trechos de canções imortais, cuja letra imediatamente vem à lembrança e é irresistível não unir nossa voz à dos grandes cantores. É o caso de Taí, de Joubert de Carvalho, Adeus Batucada, de Ismael Silva ( por sinal, dois grandes sucessos de Carmen Miranda ), ou Mulher de Malandro, de Heitor dos Prazeres e Meu fraco é mulher, de Conde e Heitor de Barros.
Nestas e nas demais faixas do disco, Elizeth e Ciro são acompanhados pelo regional do Caçulinha ( sim, ele mesmo, o que hoje se apresenta no "circo de horrores" dominical do Faustão, triste aposentadoria para um grande músico ), em ótima forma.
Juntos também a dupla arrasa com "Quando eu penso na Bahia", de Ary Barroso, número cheio de deliciosa teatralidade, bem ao estilo do teatro de revistas - um aspecto da cultura e do show bizz brasileiros lamentavelmente perdidos. Ao ouvir essa faixa, quase é possível "ver" Elizeth e o formigão em um palco imaginário, tal a força visual da interpretação.
Nos momentos solos, o destaque é a emocionante Sei lá Mangueira, que Elizeth canta de forma sublime, talvez a mais bela canção sobre já feita sobre a verde-e-rosa, curiosamente composta pelo rival portelense Paulinho da Viola, com versos de Hermínio Belo de Carvalho: "visto aqui do baixo, mais parece o céu no chão". Que bela metáfora.
Outra boa interpretação de Elizeth é o samba "Louco", de Wilson Batista e Henrique Alves, que anos depois o saudoso João Nogueira iria gravar e associar inevitavelmente à sua carreira: "louco, pelas ruas ele andava, o coitado chorava/ transformou-se até num vagabundo/ Louco, para ele a vida não valia nada, para ele a mulher amada/ era seu mundo".
Já Ciro arrebenta com Certa Maria, composição sua com o poetinha Vinícius de Moraes.
É um disco que não parece ter sido gravado há quase 40 anos. O frescor e força dos intérpretes, a eternidade das canções, o clima de camaradagem que emana das gravações, sempre contagiante, afungentam qualquer sentimento nostálgico.
Um disco pra botar no "repeat" e deixar rolar. Recomenda-se ouvir acompanhado de uma boa cervejinha gelada. Ou melhor, várias.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Precisa dizer mais alguma coisa?


Capa da Veja desta semana.
"Pegou geral" - O filme Tropa de Elite é o maior sucesso do cinema brasileiro porque trata bandido como bandido e mostra usuários de droga como sócios dos traficantes".
Para uma revista sabidamente inimiga do cinema nacional, seria estranho uma capa e uma crítica tão elogiativas...
Seria estranho, não fosse a Veja a porta-voz da direita brasileira. A maior publicação conservadora da mídia brasileira não ia fazer essa publicidade de graça.
O Padilha pode se dizer "surpreso" com a reação empática dos expectadores que gritam "caveira" ou aplaudem o seu capitão Nascimento no escurinho do cinema. Pode tirar o corpo fora dizendo que "apenas retratou o ponto de vista de um policial" e jogar a culpa na platéia pela "leitura" fascistizante que fazem do seu filme. Mas será que ele vai escrever uma carta pra Veja criticando o ponto de vista ultra-direitista da revista sobre seu filme?
A pergunta que não quer calar: o Padilha não sabia o filme que estava fazendo?

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

momento gastronômico (1)


Falei que, vez em quando, ia publicar umas receitas. Pois é, adoro cozinhar. Saudades do tempo em que tinha um fogão de seis bocas. Foi logo que mudei pra Santa Teresa, 11 anos atrás. Quem frequentou o apartamento da Aarão Reis e partilhou das minhas "experiências" culinárias deve sentir saudades das verdadeiras orgias gastronômicas que volta e meia eu produzia lá.

Hoje em dia sou um cozinheiro preguiçoso. Só enfrento o fogão quando tem visitas. Sem contar que a Clarisse também cozinha bem. E que a Beth, a moça que trabalha aqui três vezes por semana, cozinha muito bem, de modo que enfrentar uma cozinha tem que ser por uma boa causa. Um puta almoço de domingo, com amigos, por exemplo. E sou daqueles cozinheiros pantagruélicos, gosto de cozinhar pra um batalhão. Minha feijoada é famosa. Dizem que dá de dez na do Mineiro, de Santa Teresa ( que a Angela não leia esse blog ). Mas não faço p´ra menos de 20 pessoas. Durante a Copa passada, a galera vinha ver o jogo ( aliás, ia, era ainda em Santa Teresa ) lá em casa, menos por conta do futebol insosso do timeco do Parreira, mas para "afogar" as mágoas na suculenta feijoada - que, modéstia a parte, é feita só com carnes nobres do porco.
O bacalhau ao zé do pipo, que eu prefiro chamar de "bacalhau dos amigos", que geralmente sirvo na época do Natal, também faz a alegria da moçada. A lula recheada também tem seus fãs, bem como o polvo a espanhola e, claro, o lombinho com puré de maças que durante um tempo, era a especialidade da casa.
Mas a intenção aqui é partilhar de receitas legais, não encher a minha bola.
A primeira que publico aqui é um prato maravilhoso, a Camoranga, ou mais simplesmente, camarão na moranga. Esse ainda não fiz, foi a Clarisse que cozinhou outro dia. Não é dificil, não. Prato ideal pra tres, quatro pessoas no máximo. Excelente pra um dia frio, se estiver chovendo então, melhor ainda. Com um vinhozinho, desce "redondo", mas também não cai mal com uma cerveja gelada e uma cachacinha. É comer e ficar "lagarteando" de barriga pro alto, o que pode não ser lá muito saudável, mas não tem nada melhor.


CAMORANGA


Ingredientes:

1 moranga média

3 colheres (sopa) de azeite de oliva

1 cebola picada

2 xícaras (chá) de molho de tomate

2 xícaras (chá) de requeijão cremoso

2 colheres (chá) de molho de pimenta

500 g de camarão limpo

1 xícara (chá) de salsinha picada

sal a gosto


Modo de Preparo:

Lave a moranga, faça uma tampa na parte superior e com uma colher retire as sementes e as fibras. Em seguida, embrulhe a moranga a moranga com papel-alumínio e coloque-a em uma panela grande. Junte 1 litro de água, sem cobrir a moranga, leve ao fogo e cozinhe por 30 minutos, ou até ficar macia. Aqueça em uma panela 2 colheres (sopa) de azeite de oliva, junte a cebola e refogue, mexendo de vez em quando, até dourar. Adicione o molho de tomate, o requeijão, o molho de pimenta e o sal. Misture bem e cozinhe por 5 minutos, mexendo de vez em quando. Por último, adicione os camarões e a salsinha e misture bem. Cozinhe, mexendo de vez em quando, por mais 5 minutos, ou até os camarões ficarem cozidos. Retire do fogo e despeje o creme de camarões dentro da abóbora. Pincele a casca de abóbora com o azeite restante e embrulhe-a em papel-alumínio. Disponha-a em uma fôrma de 30 cm de diâmetro e leve ao forno em temperatura média por 20 minutos, ou até a abóbora assar. Retire do forno e sirva em seguida.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

entranhas cinematográficas ( e ideológicas ) de Tropa de Elite (2)


Mississipi em Chamas, filme de Alan Parker.



Considero este filme um dos mais abjetos já realizados. O cineasta inglês foi mais feliz em filmes como Expresso da Meia-Noite, apesar da xenofobia anti-turca, em Asas da Liberdade, no ótimo Commitments, em Coração Satânico. Mas este seu filme me incomoda pelo descompasso entre o discurso progressista - a luta pelos direitos civis na América, no início dos anos 60 - e a metodologia típica dos filmes policiais mais fascistas, comum à cultura e ao cinema hollywoodiana. Recordemos a história do filme: Gene Hackman e Willian Dafoe são dois agentes do FBI que investigam o cruel assassinato de militantes dos direitos civis pela Ku-Klus-Klan, no Mississipi ainda dominado pelo racismo. Para desbaratar o grupo de extrema direita, e capturar os assassinos, o policial experiente e linha dura (interpretado por Hackman ) acaba convencendo o colega liberal e ético ( Dafoe ) que somente pelo mal poderão vencer o mal. E para combater os KKK terão que usar os métodos mais sujos - no caso a tortura. Eles capturam e torturam um dos membros do Klan que, como inevitavelmente acontece em casos de tortura, acaba delatando o resto do grupo. O que me incomoda é a lógica de que os fins nobres justificam os meios mais perversos. Tortura é crime hediondo, mas o fato dos "bons" torturarem os "maus" (ainda mais por uma causa nobre ) acaba sendo absorvida ( e absolvida ) pela platéia como um método necessário para o combate ao crime, ao racismo, etc.
A ética do filme é maniqueísta pois estabelece que o crime quando praticado pelos maus é errado, enquanto que o crime praticado pelos bons é justificavel, e em certas circunstâncias, aceitável e mesmo necessário. Esse discurso é adotado pelo filme do José Padilha, ainda que ele insista em dizer que o filme só faz reproduzir o ponto de vista do personagem policial, que pratica a tortura. No filme do Parker há um conflito entre o personagem ético ( "certinho e careta") de Dafoe e o personagem realista e pragmático ( "que conhece a realidade das ruas" ) de Hackman quanto a sujar as mãos em nome do exito da missão. Ao final do filme, os bons triunfam, o mal é derrotado e a sensação que o expectador vivencia é que para derrotar o mal é necessário renunciar ( como faz o personagem de Dafoe ) à sua consciência, aos seus princípios éticos e morais, e "sujar as mãos", usando de métodos tão hediondos como os praticados pelo inimigo.
O que me irrita particularmente no filme de Parker é o uso de uma causa nobre - a luta pelos direitos civis e humanos, o combate ao racismo - para justificar a prática da tortura (ou de qualquer expediente abominável ). Como, a exceção talvez de reacionários racistas, ninguém simpatiza mesmo com os membros da KKK, quem irá se importar que eles sejam torturados, mortos, who cares? O importante é punir o mal, seja lá sob qual a forma ele apareça. Sejam os racistas da KKK, os bandidos, os traficantes, os terroristas. Pela ótica do filme, se aceitamos que sejam usados métodos "não-ortodoxos" no combate ao crime, ao mal, como protestar contra a tortura que o governo americano pratica em Guantánamo contra os prisioneiros supostamente acusados de terrorismo?
No caso brasileiro, quem liga se o Bope tortura traficantes?
Talvez haja um exagero, como quando no filme, os bravos soldados da Tropa de Elite torturam uma moça da favela para que ela revele o paradeiro do "Baiano", afinal, ela não é bandida. Talvez a platéia se incomode com a exposição da violência - mas o filme, até por sua postura "independente", não julga a ação dos seus personagens, deixa para a platéia julgar. E qual o julgamento que se espera de uma platéia assustada pelos altos índices de violencia e criminalidade vivenciados hoje no Brasil? Ainda mais uma platéia que assiste a um filme que, ao renunciar a uma visão crítica, apenas mostra os "homens de preto" como seres humanos, passíveis de erros, capaz de exageros, porém profundamente dedicados ao combate ao crime e a corrupção.
Da mesma forma que a platéia se identifica com os nobres agentes do FBI na sua luta contra os racistas criminosos da KKK, e perdoa ou mesmo admite o uso de meios sujos nessa luta, penso que a platéia brasileira pode achar brutal algumas cenas de Tropa de Elite, mas sai do cinema com o sentimento reconfortante de que felizmente existe no país alguém que faça o "serviço sujo" para ela. E a visão acrítica ou, como prefere o Padilha, "independente" do filme "Tropa de Elite" acaba servindo para aplacar a consciência pesada do expectador, que no escurinho do cinema, considera que aquela tortura é incorreta porém necessária, afinal, como o filme também mostra, os maus, os traficantes, os corruptos, a classe média permissiva, precisam ser derrotados.
E no mais, por mais que o filme e seu diretor tenham adotado uma postura "independente", Tropa de Elite não consegue fugir ao maniqueísmo. Independente dos "excessos", independente da brutalidade de muitas cenas de tortura ( o da moça da favela e o quase empalamento de um vapor, devidamente interrompido pela vitima que se "dispõe" a delatar o esconderijo do traficante antes que os expectadores sejam violentados por uma cena realmente brutal, como bem observou Carlos Reichenbach, num artigo em o Globo ), o maniqueísmo domina o filme, até mesmo na escalação do elenco. Os "bons" tem cara boa. Os "homens de preto" são os boa-pintas Wagner Moura, Caio Junqueira e o André Ramiro enquanto que o "vilão", o traficante Baiano (Fábio Lago ) é feioso, barrigudo, despojado de qualquer atrativo. Será que ao pensar "visualmente" seus personagens, o Padilha teria tido uma postura "independente"?

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

O retorno do Jedi ou a volta do boêmio - Eduardo Coutinho reencontra seu melhor cinema





Jogo de cena, de Eduardo Coutinho.

Confesso que achava que o cineasta Eduardo Coutinho estava nos "devendo" um bom filme há tempos.

Autor dos magistrais Cabra Marcado pra Morrer ( sem dúvida, um dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos ), Santa Marta-duas semanas numa favela, Boca do Lixo, Santo Forte e Edifício Master, Coutinho tinha demonstrado uma certa "preguiça" no Babilônia 2000, que, apesar de simpático, era uma espécie do "mesmo do mesmo" do cinema que, desde "Boca do Lixo, o diretor vinha propondo. Uma sala de visitas para pessoas simples, gente do povo, anônimos, geralmente em condições adversas, falarem de suas vidas anônimas, se exporem, cantarem (desde Boca do Lixo todos os filmes de Coutinho têm um "número musical" ), em suma, brilharem. O cinema humanista de Coutinho parece ecoar os versos de Caetano ( na verdade, inpirado em Maiakovsky ) que dizem: "gente é pra brilhar, não pra morrer de fome". Mas se havia simpatia ( e todo carioca sabe que "simpatia é quase amor") em Babilônia 2000, a impressão que passava ( ao menos, para mim ) era de uma visível indolência, uma repetição, como se o diretor houvesse encontrado uma "fórmula" que, como sempre acontece, acaba por diluir a força expressiva de seus melhores filmes.

Depois veio "Peões", que considero um dos filmes mais reacionários já realizados no Brasil. Vou melhorar a frase: um dos filmes mais reacionários já realizados por um cineasta nitidamente identificado com os valores sociais e com as classes menos favorecidas. Um amigo em comum me disse que Coutinho não gostava do Lula. Gostar ou não do Lula é um direito do Coutinho, mas daí fazer um documentário impregnado com essa antipatia, disfarçando-o de forma a parecer "neutro", são outros quinhentos. Peões é um filme que busca o tempo todo "demonstrar" que, enquanto Lula se "deu bem", seus antigos e anônimos companheiros de fábrica e de greves tinham ficado para trás, tinham fracassado, como se fossem apenas uma massa de manobra para a ascensão do líder operário que viria tornar-se presidente do Brasil. Para defender a tese, Coutinho chega a cometer um dos "pecados capitais" do documentário: o falseamento da "verdade", através da omissão de fatos que, se expostos, revelariam o parcialismo de seu ponto de vista. Um exemplo: para mostrar que a maioria dos companheiros de Lula acabou no ostracismo, na pior, enquanto o atual presidente ascendia politica, social e mesmo economicamente, Coutinho "omite" que um daqueles anônimos, que desfilam pelo filme, na verdade é Djalma Bom, um dos fundadores do PT, ex-deputado federal e atualmente vice-prefeito de São Bernardo. No filme, ele é apresentado apenas como um ex-operário, que tocava violão ( olha aí o número musical ) nos comícios, reforçando a tese (reacionária ao extremo, digna de um Diogo Mainardi da vida ) de que só Lula teria obtido vantagens nas famosas greves do final da década de 70, enquanto que a massa, "aqueles anônimos que realmente fizeram a greve", no final das contas, apenas perderam. Questionável manipulação da verdade para defender uma tese, por si só lamentável.

Por muito menos, por editar "desfavoravelmente" o depoimento de Charlton Heston, porta voz da famigerada NRA, quase crucificaram o Michael Moore...


Depois veio "O Fim e o Princípio", que, sinceramente... é uma nulidade, uma chatice sem par, um filme que parece ter sido realizado apenas porque deram dinheiro para o diretor filmar "o que bem entendesse", como ele mesmo diz, na narração, no ínicio do documentário (?). Nem a famosa capacidade do Coutinho em extrair depoimentos sinceros e espontâneos de seus entrevistados, que torna seus filmes tão pessoais e interessantes, parece funcionar. Tudo soa meio forçado, ele chega ao ponto de perguntar a uma octogenária se ela tem medo da morte. Feito por um dos muitos imitadores do Coutinho ( aliás, uma praga na cinematografia brasileira recente, quase 80% dos estudantes de cinema fazem filmes pastichados dos filmes do Coutinho ), O Fim e o Princípio teria sido ignorado ou mesmo tratado como pueril. Mas os fãs de Coutinho, assim como seus imitadores ou discípulos, são complacentes, e o filme foi elevado à estratosfera das obras primas. Houve quem enxergasse naquela "conversa pra boi dormir" uma espécie de "prosa roseana" cinematográfica, seja lá o que isso venha significar... mas a maioria da crítica no Brasil é assim, mesmo. Ou totalmente bajuladora, ou de uma fúria sanguinolenta.

Por essa razão, há algum tempo considerava Coutinho no "vermelho", estava nos devendo um filme que fizesse juz à sua fama e ao seu talento. Eis que surge "Jogo de Cena". Talvez o filme do Coutinho mais rico, do ponto de vista da linguagem cinematográfica, desde Cabra Marcado. Ainda que seja um filme no formato "talking heads", cabeças falantes, planos próximos de rostos, closes, pouquissíma ou quase nenhuma mudança no enquadramento (afora uma ou outra inserção de planos dos entrevistados subindo uma escura escada em espiral, que leva ao palco do teatro onde ocorrem as entrevistas ), o filme cria um espetacular jogo metalinguístico, a partir do confronto entre realidade e ficção, com atores e personagens reais alternando depoimentos, criando uma rica dialética, na qual o expectador é apresentado aos mecanismos da criação artística. Como não lembrar de Brecht? Como não lembrar de Pirandello? O filme provoca diversas reflexões. O que é realidade? O que é simulação? O que é criação? O que é material dramático? O expectador é questionado o tempo todo, forçado a pensar, melhor: convidado a pensar, pois, mais do que em qualquer outro de seus filmes, Coutinho nos transporta da poltrona do cinema para um banquinho, ou, mais comum numa filmagem, para uma "três tabelas" colocada ao lado da câmera e diante do entrevistado, partilhando com o diretor o convívio direto com aquelas pessoas, aquelas mulheres, personagens reais ou interpretes, e mesmo essas, pessoas reais, despojadas da "máscara", desencarnadas dos seus personagens.
O que poderia ser apenas um "jogo de cena", aos moldes do quadro que o Jorge Furtado criou no Fantástico (onde atores e personagens reais contavam histórias, cabendo ao expectador advinhar quem era quem ), nas mãos habéis de Coutinho, com ajuda da montagem brilhante de Jordana Berg, vira um profundo estudo sobre o ser humano, mais especificamente, sobre a mulher.

"Jogo de cena" talvez seja o filme mais profundamente feminino já realizado por um homem, similar cinematográfico da poética de Chico Buarque ( reconhecidamente, um homem que consegue entender e traduzir como poucos a essência feminina ). Os depoimentos, tanto os reais, como os interpretados, são reveladores da "dor e a delícia de ser o que é”, como dizia aquela canção do Caetano ( outro que também entende e muito da anima feminina ). Por outro lado, o depoimento das atrizes sob o processo de composição das "personagens" que interpretam é uma aula de dramaturgia. Penso que, desde Nossa Música, de Godard, não via um filme tão imprescindivelmente didático, no sentido de ensinar cinema. Devia ser incluído nos currículos de todas as escolas de cinema, não na cadeira de documentário, mas na área de dramaturgia, especificamente em direção de ator.
"Jogo de Cena" consegue ser profundamente intelectual e ao mesmo tempo, emocional, sensível, comovente. Porque no fundo, o filme aponta a gênese de toda criação artística e intelectual : o ser humano, com suas qualidades e defeitos, com sua beleza e feiúra, com sua força e sua fragilidade. Seja numa atitude mimética, seja questionando os processos de simulação da realidade, a função da arte no fundo é do recompôr a nossa humanidade estilhaçada, e o artista, seja ele o ator, o poeta, o cineasta, é aquele que recolhe nossos fragmentos perdidos e nos devolve a unidade perdida. Nos reintegra. Nos totaliza. "Jogo de cena" não mostra "versões" diferentes de um mesmo ser. Ele completa cada uma daquelas mulheres, torna aquelas mulheres anônimas em seres humanos ímpares, únicos, cada qual ciente da " dor e da delícia de ser o que é". E no palco de Coutinho, tanto as atrizes famosas, como as menos conhecidas e aquelas mulheres anônimas, todos brilham com a mesma intensidade. "Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome" - é isso o que o filme nos mostra.
Há, entre muitos achados geniais e tocantes, um momento especialmente mágico. Uma das personagens canta uma canção ( não seria um filme do Coutinho sem um personagem cantando, não é mesmo?). Ouvimos, em off, Marília Pera, a atriz que "a interpreta", cantando em contraponto a mesma canção. Através do som, realidade e simulacro se unem, pessoa e intérprete se fundem, é um momento de rara poesia.
É gratificante testemunhar o reencontro de um grande cineasta com seu melhor cinema, após alguns trabalhos menos interessantes ou mesmo, decepcionantes. Eduardo Coutinho mostra que, como poucos, conhece o "segredo do polichinelo", sendo capaz de reinventar seu próprio cinema, quando muitos ( eu, inclusive ) consideravam-no exaurido. Aos 74 anos, o mestre faz um filme cheio de frescor, de vitalidade, de um humanismo contagiante e necessário, nestes tempos de cinismo e desencanto, profunda e verdadeiramente moderno. Perto de Jogo de Cena, os ditos filmes "moderninhos" parecem rançosos, natimortos.

Um grande filme. Imperdível. Mais: imprescindível.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

entranhas cinematográficas ( e ideológicas ) de Tropa de Elite (1)


Batalha de Argel, de Gillo Pontecorvo (1966)


Filme magistral sobre a luta pela independência da Argélia contra colonizador francês. O filme, que é totalmente ficcionado, passa, pela maestria de suas tomadas, a impressão que é um documentário. As cenas de conflitos são de um realismo cru e ao mesmo tempo, eletrizante.
Penso que o Padilha ou, com certeza, o diretor de fotografia do Trope de Elite, Lula Carvalho, deva ter se inspirado nas imagens de Batalha de Argel para compôr as cenas da ação do Bope nas favelas. Até porque, geograficamente, os bequinhos e vielas de nossas favelas lembram muito os tortuosos caminhos da Casbah argelina ( imagino que talvez eles também tenham usado o magnífico filme Terra e Liberdade, do Ken Loach, como modelo para filmagem das cenas de combate ).
Mas o que me fez lembrar mais do Batalha de Argel foi a atuação do pelotão de paraquedistas franceses, tropa de elite sanguinária enviada para Argel, num momento em que os guerrilheiros argelinos começam a ter sucessivas vitórias em sua luta. Da mesma forma que a nossa "tropa de elite", o esquadrão francês se utilizava da violência bruta e da tortura para derrotar seu inimigo. A cena em que o comandante paraquedista francês tortura um prisioneiro argelino com um maçarico é uma das mais brutais do cinema. De certa forma, a tática dos militares franceses foi incorporada pelo Bope - a tortura destrói o inimigo duplamente: fisicamente pela dor, e moralmente, pelo que é obtido pela dor - a delação, a traição.
E a concepção de que o "mal" só poderá ser derrotado por um "mal" pior e mais malévolo parece reger tanto a atuação dos paraquedistas franceses como a da "tropa de elite" tupiniquim.
A estratégia do terror como forma de intimidar e derrotar os inimigos não é nova. Os aviões nazistas da Legião Condor tocavam sirenes assustadoras quando se aproximavam de Guernica, anunciando o bombardeio e a matança, na Guerra Civil Espanhola. Copolla iria reproduzir essa sensação de pavor e atemorizamento na famosa cena em que helicópteros americanos atacam aldeias vietnamitas ao som ensurdecedor da Cavalgada das Valquírias, de Wagner, no magnífico Apocalipse Now ( filme que Carlão Reichenbach considera fascista, opinião com a qual não concordo, mas isso é outra história ). Cavalgada das Valquírias é também a música que acompanha as ações dos cavaleiros embuçados da Ku-klus-klan de Nascimento de uma nação, de Grifitth. A caveira, que o aspira Neto tatua no braço, a caveira que é o símbolo do Bope e "grito de guerra" dos ardorosos admiradores do filme do Padilha, por sua vez, era a insígnia da SS nazista. E o "Caveirão", blindado usado pela polícia carioca para invadir favelas, por sua vez, usa sirenes e gritos de guerra amedrontadores, da mesma forma que a Legião Condor nazista.

Recomendo assistirem ao Batalha de Argel. Além de ser um filmaço, nos ensina que o uso do mal contra o "mal" não surte efeitos duradouros. Da mesma forma que a violência da repressão francesa não conseguiu impedir a população argelina de obter sua independência, me parece que a repressão estúpida praticada pelo Bope, que viola os direitos humanos, que apenas reproduz de forma ampliada o mal produzido pelo "inimigo", está igualmente fadada ao fracasso.
Mas o filme do Padilha sequer aventa essa possibilidade.

domingo, 30 de setembro de 2007

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Pegadinha



Responda rápido, sem pensar: quem é esse belo tipo faceiro da foto ao lado:

(a) Cate Blanchet?
(b) Jude Quinn?
(c) Bob Dylan?
(d) Todas as opções acima?

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

O ovo da serpente

Sobre Tropa de Elite


O cinema é um excelente veículo para difusão ideológica. Tanto Leon Trotsky, um dos líderes da revolução russa, pela esquerda, como Goebblels, ministro da propaganda de Hitler, pela extrema-direita escreveram textos defendendo o uso do cinema como arma ideológica ( Goebblels sonhava com um "Encouraçado Potemkin" nazista, e tentou seduzir o mais renomado diretor alemão de então, Fritz Lang, a tornar-se o cineasta oficial do nazismo, mas Lang disse que ia ali comprar um cigarro e fugiu da Alemanha ). A indústria hollywoodiana sempre se serviu do cinema como forma propagandistica, seja dos ideais do "american way life", seja do anti-comunismo ( até filmes de ficção científica como "Vampiros de AlmaS", de Don Siegel, com seus alienígenas frios e coletivistas que se apossavam de corpos e almas dos indefesos americanos, metafora até divertida - pelo menos hoje, podemos rir com isso - da "lavagem cerebral" ou cooptação, promovidas pelos comunistas ), seja contra o inimigo da vez, fossem russos, chineses, cubanos, vietnamitas, narcotraficantes e agora os muçulmanos.
Da mesma forma, mas sem menos impacto ( por não dispôr de um poderoso sistema de distribuição e exibição, como Hollywood ), a esquerda soube usar a força das imagens como forma de denunciar o capitalismo, o imperialismo, os desmandos de Washington, ou simplesmente, propagando a idéia ou utopia de um mundo melhor, mais igualitário, em detrimento aos padrões determinados pelo consumismo - o "ser" em detrimento ao "ter".
Falar hoje em direita e esquerda pode soar como arcaísmo, nostalgia, anacronismo. Para muitos, a divergência entre as duas concepções de mundo deixou de existir com a queda do muro de Berlin ou, um pouco depois, a falência quase simultânea de todos os governos comunistas ou dito comunistas do leste europeu, a começar com a finada União Soviética. Ainda que se possa afirmar, sem dúvidas, que o regime político existente naqueles países havia se distanciado de tal forma de uma concepção de comunismo ou socialismo, por outro lado, não se pode negar que, com o derrocada daquele bloco, houve um triunfo, não das liberdades, não da democracia, mas da hegemônia americana sobre quase a totalidade do mundo. Não chega ser errado afirmar que, ao invés de acabar a divergência ideológica entre esquerda e direita, houve sim uma derrota da esquerda e uma acachapante vitória da direita na forma de compreender o mundo, a vida, alardeada em discursos pseudo-filosóficos que pregavam o "fim da História", e sistematizada naquilo que hoje em dia se convencionou chamar "pensamento único".

Obviamente, a esquerda não morreu, tampouco desapareceu. Talvez tenha recuado a um pragmatismo às vezes demasiado, por exigências dos novos tempos, e a valorização exarcerbada da tática, dos "meios", torne a utopia um pouco cínica ou macule os "fins" que se almejam.

Mas a verdade é que a cada dia se evidencia que, longe de ser um anacronismo, a disputa política e ideológica entre esquerda e direita se torna mais acirrada, ainda mais nesses tempos terríveis de "relativismo" - pensamento permissivo que grassa em boa parte dos intelectuais e formadores de opinião. A constatação correta que os valores absolutos não passam de discurso, e portanto, produto ideológico das classes dominantes, acabou gerando uma cultura de pensadores "desvertebrados", a tudo maleáveis, que se vergam de um lado para o outro, conforme a conveniência, lenientes e subservientes, que acabam reafirmando as posições mais reacionárias em nome de uma mal disfarçada aceitação do status quo e, em última instância, a uma defesa inconsciente (?) de seus valores de classe - no caso, a classe média dividida entre os sonhos de ascensão social e o pavor de um rebaixamento econômico sempre iminente, ainda mais em países pobres ou em desenvolvimento, como o nosso. Pela sua natureza, a classe média tende sempre ao conservadorismo, pois, se não pode ter os anéis, quer preservar os dedos. Por outro lado, a classe média, pela sua escolaridade, pelo acesso aos meios de comunicação, por ser, não formadora, mas disseminadora de opinião, acaba sempre sendo o alvo prioritário do discurso ideológico. E aqui, finalmente, chegamos ao ponto que quero discutir.

Tropa de Elite, filme do cineasta José Padilha ( que nos tinha brindado com um excelente documentário, Onibus 174 ) é ou não fascista?

Não conheço o Padilha ( parece frase de Nelson Rodrigues ), participei de um debate com ele uma vez na Darcy Ribeiro, e ele me pareceu um provocador, do tipo que adora uma polêmica, que perde o amigo mas não a provocação, a frase de efeito. Então, afora esse lado mais propenso à polêmica, não saberia dizer qual sua posição política, nem sequer se tem alguma posição política. Onibus 174 passa a idéia de uma pessoa com preocupações sociais. Já Tropa de Elite é um filme que, em última instância, defende a existência de uma força militar, com poderes e recursos ilimitados, acima do bem e do mau, que combata o narcotráfico com força total, uma mistura de Swat com os Intocáveis de Elliot Ness, mas também com semelhanças com a SS nazista que não se restringem apenas aos uniformes negros e o emblema da caveira. Nunca vi nenhum pronunciamento político do José Padilha, de modo que não posso afirmar que ele seja fascista ou tenha tendências fascistizantes, seria leviano da minha parte afirmar isso.
Agora, posso analisar o filme que ele fez. Partindo do pressuposto que toda obra artística possui um inseparável teor confessional, às vezes até inconsciente, posso afirmar, sem medo, que o diretor compartiha com o discurso apresentado em sua obra. Neste sentido, Padilha seria o primeiro cineasta que, corajosamente, se apresenta como um pensador de direita e realiza o primeiro e mais eficiente filme de direita no Brasil.

Quando digo corajosamente é porque no Brasil ninguém se diz de direita. Os políticos, mesmo os oriundos da ditadura, se definem sempre como de centro. Ou, liberais - na acepção econômica, liberalismo economico, livre mercado, do estado mínimo, defensores do capitalismo, da economia transnacionalizada etc. No meio artístisco ou intelectual então, pouquissímos aqueles que assumem publicamente sua opção política e ideológica alinhada à direita. Tradicionalmente, os artistas se apresentam como contestadores, transformadores, críticos, e isso lhes aproxima quase sempre de um perfil de esquerda. Se formos contar, vão sobrar dedos na mão para listar os artistas que sempre se definiram como de direita ou conservadores: Nelson Rodrigues, talvez o mais notório e sem dúvida, o mais talentoso entre eles, Gustavo Corção, Diogo Mainardi ( nem sei se podemos chamá-lo de artista, mas vá lá... ), o "saudoso" Ipojuca Pontes, Paulo Francis, o compositor Ary Barroso ( foi inclusive vereador pela UDN ), o ator e duble de cafajeste Jece Valadão, quem mais...? Não consigo lembrar mais nenhum. Uma vez ouvi num debate o decano dos roteiristas brasileiros, o talentoso e engraçadissimo rabugento Leopoldo Serran afirmar textualmente que era de direita, mas penso que era uma blague. Portanto, poucos aqueles que têm ou tiveram coragem de se expôr como sendo de direita.

Claro que isso não impediu que livros, filmes, peças possuissem um discurso conservador, reacionário, mas como manda o "relativismo", não se pode condenar o livro pela capa, nem confundir a obra com seu autor. Tudo é relativo. Aliás, é moda dizer, dentro do conceito relativista, que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Costuma-se lembrar que Chaplin, talvez o mais humanista dos cineastas, era um sujeito com muito pouco escrúpulos, mais parecido com o milionário bêbado do grande filme "Luzes da cidade" ( quando bêbado gentil, quando sóbrio um capitalista frio e desumano ) do que com o próprio Carlitos, personagem que criou e que é tido como um alter-ego do cineasta. Isso não impediu que fosse perseguido pelo comitê do senado norte-americano por sua conduta anti-americana e expulso daquele país, na época do macartismo. Picasso, que nos legou o magistral Guernica, também é citado sempre como sujeito cheio de contradições e com um amor argentário não muito condizente com sua imagem de esquerdista (aliás, foi membro do PC francês ). Brecht, marxista de carteirinha, autor do teatro mais esquerdista de todos os tempos, volta e meia é mencionado como um sujeito, como dizer... extremamente pragmático, e não faltam os que detonam o documentarista Michael Moore por sensacionalista, picareta, anti-ético, manipulador ( vi num debate no cineclube do Odeon um rubicundo critico relativista questioná-lo por manipular os depoimentos de Charlton Heston em Tiros em Columbine, coitadinho, não se faz isso com aquele pobre senhor claudicante apenas por ele ser o porta-voz da NRA, National Riffle Association, braço ideológico da poderosa indústria armamentista e bélica americana ). Seja como for, Tempos Modernos ou O Grande Ditador, o já mencionado Guernica, Mãe Coragem ou Terror e Miséria no 3o Reich e Fahrenheit 9/11 ou Roger e eu, obras desses artistas, são obras que traduzem o inconformismo, o protesto, a denúncia contra o capitalismo e o imperialismo, em suma, obras sintonizadas com o ideário de esquerda. Então, o que vale é o discurso produzido pelo artista, e não tanto sua vida pessoal.

Neste sentido, aqui no Brasil, ainda que sem nunca afirmar serem conservadores ou de direita, muitos artistas produziram obras conservadoras, reacionárias, sejam pelo teor político, seja pela manipulação de valores éticos e sexuais. O conservadorismo dissimulado, geralmente mais eficaz ideologicamente do que a obra abertamente politizada, é ambundante nas nossas telenovelas, nos nossos programas de humor, principalmente, no telejornalismo.

Aliás, o pensamento relativista, esta praga que impregnou os meios pensantes e criativos brasileiros, gerou outro fruto podre: o imparcialismo, a suposta neutralização do ponto de vista do autor em favor de uma obra dita "aberta a interpretações". Não existe falácia maior do que esta. Nenhum artista é imparcial. A escolha das palavras, a posição da câmera em relação ao objeto filmado, o corte mais rápido ou mais demorado de um plano para outro, tudo isso implica num claro e definido posicionamento do autor em relação ao que é escrito, filmado, editado.

A pretensa "impacialidade" como forma de possibilitar ao público "completar" a obra é uma ilusão criada por aqueles que só conhecem a produção artítisca na teoria, sem nunca ter produzido um único filme, livro, poema, peça. Todo bom artista sabe manipular sua platéia. E a manipula, de acordo com seus interesses, sejam estéticos, ideológicos, ou meramente financeiros. Portanto, esse mito da imparcialidade do artista, essa lenga-lenga de "apenas mostrar, sem tomar partido, e deixar para os expectadores tomar a posição" é conversa edificante para boi dormir.

Portanto, se não posso afirmar que o José Padilha seja fascista, por outro lado posso perceber no Tropa de Elite um perigoso - por eficiente - discurso fascistizante, que trabalha metodica, cerebral e emocionalmente para disseminar no expectador mediano o seu conteúdo ideológico de ultra-direita. Daí não dá pra fazer como o excelente ator Wagner Moura ou como o cronista do Globo Artur Xexéu e querer tirar das costas do autor a responsabilidade pela reação da platéia ao vibrar e aplaudir as cenas de tortura e de execução de traficantes, numa catarse orgiástica digna dos espetáculos do Coliseu. Ninguém grita "Caveira" à toa, ninguém aplaude a tentativa de empalamento de uma pessoa à toa, ou, caso mais grave, ninguém sai dizendo, "à toa", como disse uma simpática e esclarecida aluna minha ontem (aliás, aluna da Puc, vejam só que coisa!) que "em tempos de exceção, e como ação preliminar, a curto prazo, ações como a do Bope são necessárias". É preciso entender, primeiro, como o filme dialoga com esta platéia e, principalmente, que platéia é essa com a qual o filme quer dialogar. Entendendo um e outro, dá para afirmar que o filme é, sem dúvida, um audacioso e bem sucedido discurso fascista.

Estou sendo severo? Vamos ao filme, que é o que interessa.

Como produto cinematográfico, o filme é uma prova de excelência. Os atores, a começar pelo excelente Wagner Moura e o novato André Ramiro, dão tudo de si, a fotografia do meu amigo Lula Carvalho é brilhante ( o Waltinho tá correndo o risco de entrar pra história do cinema como o pai do Lula, hehehe, piadinha ), a montagem, frenética como convém a um filme de ação, o roteiro, apesar de ou por causa de algum didatismo, eficiente e com as idas e vindas no assunto, como forma de criar a tensão, estendendo o tempo narrativo da ação presente, como é característica do também meu amigo Bráulio Mantovanni, vide Cidade de Deus, e com tiradas de humor ( às vezes negro ) que amortizam a violência em cena, e uma direção segura que alterna entre a emergência do documental com cenas de refinada carpintaria de mise-en-cene do José Padilha, todos os elementos do filme parecem convergir de forma a resultar num espetáculo realmente eletrizante.
Há os que têm dito que o filme é ruim, "não porque seja direitoso", mas por conta do excessivo didatismo da narração em voice over. Ora, o didatismo é necessário para o filme funcionar persuasivamente na platéia. Por um aspecto, dá ao filme um ar documental - o filme é sabidamente inspirado na experiência de um comandante do BOPE, aliás, co-roteirista do filme, então, colocar o discurso na boca do personagem diretamente inspirado nele cria uma "aura" de realidade, de documental, e todos sabemos o impacto que causa nos expectadores o fato de um filme ser "baseado em fatos, pessoas reais". O mimetismo ( a imitação da vida pela arte), que o cinema mais do que qualquer arte consegue estabelecer, fica ainda mais forte quando o expectador é informado que "aquilo tudo mesmo aconteceu". Por outro lado, ao colocar a narração na primeira pessoa, cria-se um tom confessional entre o personagem e o expectador, de certa forma, distanciando aquilo que se vê e se ouve do autor - quem fala e faz é o personagem, o autor apenas registra imparcialmente ( mais uma característica extraída do documentário, aliás, de onde o diretor é oriundo ). Aliás, o processo de narração em primeira pessoa, que sempre existiu na literatura, é uma técnica de aproximação entre narrador e leitor. Enquanto a narrativa impessoal da terceira pessoa afasta, o eu narrador aproxima, gera cumplicidade entre quem conta/mostra e quem ouve/vê.

Se a narrativa funciona como uma espécie de mantra ou conversa franca entre um homem/personagem e a platéia, a forma como os personagens são construídos é profundamente empática. Erra o Xexéu ao dizer que o personagem Nascimento não é mostrado com um comportamento exemplar de um herói de um filme de ação ( ele faz paralelo com o Jack Bauer da série 24 horas, que da mesma forma, mata e tortura, mas sem perder a aura de herói). Segundo Xexéu, " Nascimento não tem um comportamento exemplar com a família. Bate ( bate? pra mim ele apenas discute, de forma destemperada ) na mulher e mal conhece o filho. E comenta a piada de humor negro sobre um "acidente" que teria causado a surdez num soldado em treinamento comandado por Nascimento. Diante destas características negativas, conclui Xexeu, o capitão Nascimento jamais seria um herói. Portanto, isenta o diretor Padilha de tentar heroicizar o capitão do Bope, que bate, tortura e mata seus inimigos.

Bem, os argumentos de Xexéu são inferiores aos argumentos usados no filme para construir o personagem. Não é a toa que Padilha chamou um bom roteirista como o Mantovanni para trabalhar no roteiro. É um personagem construído na contradição: é um militar para quem missão dada é missão cumprida, mas ao mesmo tempo, consciente do trabalho "sujo" que foi treinado para fazer, sofre problemas emocionais, está estressado e quer desesperadamente deixar a tropa. Então é o clássico herói em crise de consciência. Se a fidelidade aos objetivos, digamos, "profissionais", o faz torturar e matar o "inimigo", isso não o impede de sofrer remorsos quando, por exemplo, vê o sofrimento de uma mãe que perdeu o filho por sua culpa ou omissão.

Discordo que ele mal conhece o filho. Se não tem oportunidades de conviver com o filho, é porque o trabalho o impede de ter uma vida normal. Aliás, poder desfrutar da companhia do filho é uma das razões alegadas por Nascimento para querer arrumar um substituto e largar o Bope.

Se ele briga com a mulher, é no auge de seu desespero, porque se sente culpado pela morte do aspirante Neto, a quem estava forçando a barra para tornar seu "sucessor", mesmo sabendo que o rapaz era visivelmente despreparado emocionalmente para a responsabilidade, por voluntarista e mesmo, porra-louca. Ele agride a mulher no auge de seu descontrole, no momento em que sua consciência está mais pesada: é ao mesmo tempo responsável pela morte do vapor que forçou a delatar os traficantes ( sabendo que ele seria justiçado ) e pela morte do seu discípulo e amigo. Não que isso lhe dê razão para agredir a esposa, mas nós "entendemos" o seu sofrimento, sabemos que ele perdeu a cabeça e que ele acabará punido ( como aliás, acontece, a esposa o abandona ) por conta desse desatino.
Em suma, é um homem que sofre ( ele chora! ), que sente remorsos, que vê sua vida pessoal ser destruída por conta da dura missão que tem para cumprir. Ou, como diz o Wagner Moura, na sua carta ao jornal o Globo, ontem, é um homem que arrisca a vida diariamente, sem nenhum reconhecimento sequer. Se esse homem fiel, ao mesmo tempo crítico ( sabe que está indo para uma operação arriscada não para proteger alguém, mas para os políticos fazerem média com o Papa ), sente remorsos por suas vítimas involuntárias, arrisca a vida até para salvar um bando de policiais corruptos, vive de forma modesta - o apartamento do capitão Nascimento é bem modesto, a geladeira dele é menor até do que a daqui de casa -, se o Nascimento que o filme constrói habilmente não é um herói, o que será um herói? Quanto à piada do "acidente", desculpe-me o Xexéu, mas a piada é boa, e desde sempre, o humor é a forma mais eficaz de humanizar os personagens. Sem contar que a "vítima" ( e teremos provas visuais disto, mais adiante, na parte do filme que mostra o treinamento ) era um "escroto, um corrupto". Por que se sensibilizar por um corrupto que finalmente é punido? Aliás, como já havia feito em Cidade de Deus, dosar humor em momentos de tensão, é um bom truque de roteiro, e o Bráulio faz isso bem.

Outro personagem que merece destaque é o aspirante Matias. Primeiro, ele é negro. Mas não um negro qualquer, é um negro "ProUni", de origem pobre, mas que está em ascensão social, virando classe média. Estuda na PUC, namora a branquinha riquinha, é integro, justo, bem intencionado, mas humano demais. Para poder pertencer ao Bope, ele precisa perder sua humanidade. Da mesma forma como Nascimento deve ter perdido a sua. E que, agora, precisa desesperadamente recuperar. Perder a humanidade é condição essencial para fazer o trabalho sujo que precisa ser feito ( lembrando minha aluna, "ações a curto prazo são necessárias"). O mal tem que ser combatido pelo mal. Ou, melhor, é preciso estar acima do bem e do mal. O batismo de fogo de Matias, movido pela vingança do amigo que morreu por sua causa, não é tratado como uma bestialização, e sim como uma necessária catarse.
Aí eu me pergunto: a construção dos personagens é feita de modo imparcial? A humanização dos personagens, a compreensão de seus conflitos, o choro de Nascimento, a revolta de Matias - se isso não justifica a tortura e as mortes, pelo menos torna os personagens mais críveis, entendemos as razões dos seus atos, ainda que não concordemos com ele. Citando a carta de Wagner Moura, "discordo de quase tudo que o Nascimento faz, mas... " O "mas" é uma espécie de salva-guarda para os erros dos personagens.

Convém ressaltar outro aspecto: os dois traficantes que aparecem no filme, o Baiano e o que é morto na operação de resgate, não são negros. Um é um caboclo nordestino, o outro é louro (!). Talvez a intenção do Padilha tenha sido politicamente correta, por não querer estigmatizar o negro como bandido de sempre, e mostrar que numa sociedade totalmente miscigenada como a nossa, bandido e pobre não tem cor. O estranho é que todo os figurantes do tráfico são negros, mulatos ou pardos. Mas os chefes do tráfico são brancos. Já o "mocinho" Matias é negro.

Portanto, há uma nítida orientação para humanizar os soldados do Bope, dando-lhes caractertísticas positivas, contrabalançando o lado negativo: se Nascimento é brutal, às vezes, ao mesmo tempo ele chora, tem remorsos, está estressado, quer sair daquele trabalho por desumano, tem sua vida pessoal destrúida; Matias, o seu sucessor, além de ser refinado, inteligente, tem a cor do "inimigo", é um homem do povo, veio de baixo, e Neto, ainda que sobre ele pese uma adesão ao Bope que beira quase ao fanatismo, é perdoado pela sua juventude, pela sua honestidade quase pura e, finalmente, é redimido pelo assassinato covarde - é morto pelas costas.

Não ver nisso a mão e o cérebro do diretor é fazer pouco da sua inteligência e da sua autoralidade. Não ver que ele constrói o seu filme com um discurso inteligente ainda que didático, eficiente justamente por didático, que demonstra, meticulosamente, o "sistema" corrupto e corruptor que domina a polícia convencional, que constrói de forma empática seus personagens, que justifica a necessidade de uma força "acima do bem e do mal", a única força capaz de vencer a guerra, uma elite incorruptível, heróis de uniforme negro que sacrificam a vida pessoal ( Nascimento ), uma carreira bem sucedida como advogado ( Matias ), a própria vida ( Neto) para defender a civilização da barbárie.

Citando Brecht, "infeliz uma terra que precisa de heróis". Mas, se precisamos de heróis, é preciso que definamos quem são os vilões.

Numa primeira instância, parece que os vilões do filme são, óbvio, os traficantes. Depois,de forma didática, quase doutrinária, é mostrado que os vilões são a polícia militar e civil, corruptas e coniventes com o crime organizado. Porém, não são esses os verdadeiros inimigos. Tanto os traficantes quanto os policiais corruptos são apenas a ponta do iceberg, a parte visível do problema. É então que o filme aponta finalmente quem são os verdadeiros "vilões": a classe média alta, branca, universitária, com "consciência social". Os filhinhos de papai que fumam maconha, os branquinhos riquinhos bem intencionados que sobem os morros para cuidar dos pobres, as ONGs que atuam nas favelas e que acabam se tornando uma espécie de embaixada para o tráfico ( da mesma forma que as embaixadas eram refúgio para os esquerdistas, na época da ditadura militar ). Nascimento diz, num dado momento: "que um pobre fudido sem nada, sem escola, sem trabalho, entre no tráfico, eu até aceito, mas um filhinho de papai que teve todas as oportunidades, ah..." Vemos o pessoal da ONG confraternizando com o traficante, cheirando pó. Um dos colegas de sala de Matias, membro da ONG faz tráfico na faculdade. Aliás, os personagens da ONG são o que de mais grotesco e pusilânime é apresentado no filme. São piores até do que os PMs corruptos. Além de fazerem um péssimo trabalho didático ( ao ponto de não perceberem que um de seus alunos é ruim nas aulas porque tem problemas de visão ), quando não estão confraternizando com os traficantes, cheirando pó com eles, estão sempre fornicando. Nesse sentido, a cena em que eles são brutalizados, a moça morta e o diretor da ONG fritado no "microondas", perde muito da eficácia, porque os personagens são tão desprezíveis que, ainda que as imagens sejam brutais, não despertam no expectador nenhuma solidariedade ou empatia, sequer pena. No fundo, é bem feito para eles, "quem dorme com cães amanhece com pulgas"- imagino que o expectador mediano deva pensar, no escurinho do cinema.

Mas ao determinar que é a classe média a verdadeira vilã do filme, por consumir drogas, por "passar a mão na cabeça da bandidagem" com seus projetos sociais, por torcer o nariz para as cenas de violência e tortura, Padilha na verdade está apontando seu fuzil com mira laser para um alvo mais específico: não é a classe média em si, mas uma parte dela. Aquela parcela da classe média chamada liberal, aquela que partilha pontos de vista progressistas, mas que no filme são apresentados da forma mais abjeta possível, quase caricaturas: os que defendem a discriminilização ou mesmo a liberação das drogas, no fundo são viciados ou mesmo traficantes. Os que tem consciência social são proxenetas de pobres, promíscuos e acumpliciados com o crime organizado. Os que defendem os direitos humanos, e torcem nariz para a tortura, são os primeiros a pedir penico para a polícia, quando se sentem ameaçados.

E é nesse sentido que o discurso fascistizante do filme se completa. O problema a ser resolvido não são os traficantes. Desses, as cenas que mostram a eficácia dos soldados de preto em matarem os traficantes demonstram que o Bope dá conta. Tampouco é a corrupção policial, a própria criação de uma polícia de elite, incorruptível e sem lugar para a "escória" também demonstra que, em pouco tempo, isso pode ser contornado. Resta o problema maior. Livrar da classe média a sua parcela liberal, no filme definida como promíscua, permissiva, pusilânime.

É sabido que o cinema hoje em dia é frequentado apenas por pessoas da classe média. O povo tem que se contentar com as cópias piratas dos camelôs ( afinal, um ingresso custa 12, 15 reais, por pessoa, enquanto que uma cópia em dvd no camelódromo da Uruguaiana sai por dez pratas, com algum choro, por oito, até cinco e pode ser assistida por várias pessoas). É sabido também que, por sua natureza ideológica, a classe média tende ao conservadorismo, a exceção de uma parcela, mais esclarecida, mais liberal. O filme Tropa de Elite retira a guerra das telas e joga para as platéias: é naquela sala escura do cinema que está o verdadeiro inimigo. Aquele garotão sentado na terceira fileira pode ser um maconheiro. É sabido também que, pressionada entre o sonho de ascensão social e economônica, e o pesadelo do empobrecimento, a classe média é paranóica por natureza.

As imagens do filme funcionam como um doutrinamento. O perigo na verdade não está nas favelas, está no nosso próprio meio. Nossos filhos consomem drogas e financiam os traficantes. Nossas filhas namoram negros... serão eles bons moços como o Matias ou um traficante? Mais provavelmente, pelo número ainda reduzido de negros de classe média ou nas universidades, é bem capaz de ser um traficante. Afinal, ela também deve "fumar" seu pozinho ou "cheirar" sua maconhinha... esse pessoal que defende diretos humanos, no fundo defende assassinos e ladrões, ninguém defende os direitos humanos das vítimas. E o que fazem essas ONGs? A do filme é um antro de viciados lascivos e que mal se importam para a sorte dos pobres ( quem dá o óculos pro menino é o herói do Bope ).

Estarei forçando a barra para criticar um filme? Alguém poderia dizer, mas se o filme é fascistizante, como teria feito o sucesso todo com as classes populares, ao ponto de ser o filme pirata mais assistido de todos os tempos. Não seria contraditório um filme que defende a elite ser tão consumido pelas classes menos favorecidas? Não acho. Primeiro, porque o filme, em sua forma, é bom um filme de ação. Tiros, violência, com uma tensão crescente, vários momentos de ação vertiginosa, um tipo de filme popular por essência. Segundo, qualidade mais sutil, ao colocar um dos protagonistas negro, o filme cria uma clara empatia com o expectador mais pobre, que se identifica com o seu semelhante. Com a vantagem que o personagem é um cara bacana, boa pinta, honesto, traça a branquinha bonitinha da novela das oito, em suma, é "o cara" ( ouvi essa definição do Matias, outro dia, na rua ). O povo gosta de se ver retratado nas telas - diga-se de passagem, quando o ingresso de cinema era barato, na década de setenta até meados dos anos 80, os filmes brasileiros tinham nas classes populares suas maiores platéias ( a classe média sempre foi refratária ao cinema nacional ). E terceiro, porque a população mais pobre no fundo compartilha da visão anti-classe média do filme, como consumidora de drogas, permissiva sexualmente, paternalista e conivente com a marginalidade. E, finalmente, porque boa parcela dessa população mais pobre defende ações autoritárias e repressivas, como pena de morte, tortura, sem perceber que no final estas ações acabam se voltando contra ela próprias.

Basta lembrar que no recente plebiscito sobre o desarmamento, mais de 60% da população votou a favor das armas.

Fácil botar na platéia a culpa dos aplausos toda a vez que o Capitão Nascimento manda colocar seus prisioneiros "de volta pro saco". Mas é ingênuo ou hipócrita fingir que Tropa de Elite não joga e habilmente para a sua platéia.

Tem gente que critica Tropa de Elite dizendo que o filme é ruim. Não é. O filme é bom, muito eficiente, e por isso passa tão bem a sua mensagem fascistizante. Aí que mora o perigo.

Vou parar por aqui. Mais adiante farei um paralelo do TE com alguns filmes que, ao meu ver, são chaves para entender a construção dramática e o discurso ideológico do filme do José Padilha. A saber, Batalha de Argel, de Gillo Pontercorvo, Nascido para matar, de Stanley Kubrick, Mississipi em Chamas, de Allan Parker, Starship Troopers, de Paul Verhoven e, é claro, O Nascimento de uma Nação, de Griffith - aquele que transforma os escravos negros em vilões, os escravocratas brancos em vítimas e os ku-klus-klans em heróis.

Só para que não esqueçam: tortura é crime hediondo.