sábado, 27 de setembro de 2008

Ver e Ouvir (4)

Quase não há o que ouvir aqui, apenas deliciar-se com a beleza das imagens. Uma pintura "ao vivo". Trecho do belissimo filme iraniano O Silêncio, de Mohsen Makhmalbaf.

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Quadros que queria ter na parede aqui de casa (14)




As três graças, de Rafael.

cíclope ou circe?




Lucrécia Martel

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

domingo, 21 de setembro de 2008

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Não fui eu quem disse, mas O Bonequinho de O Globo

‘A casa da mãe Joana’ fica em Bonsucesso. Tem uma em Ramos também. E outras três na Penha. Na Baixada, na Zona Sul e na Barra existem outras. No Rio todo, há casas-da-mãe-joana iguais àquela onde vivem Montanha (Antônio Pedro, no tom), PR (Pauto Betti, inspirado) e Juca (José Wilker, hilário), protagonistas do novo filme de Hugo Carvana. Basta haver amizade.

Amizade é a essência estética do cinema de Carvana. O entendimento do ônus afetivo que a palavra “amigo” carrega é o esqueleto de seus filmes, subestimados nestes tempos em que lealdade virou artigo escasso. “Bar Esperança” (1982), que entra fácil em qualquer lista de filmes nacionais antológicos, já deixava claro esse traço investigativo da obra que Carvana vem depurando no diálogo com subgêneros do humor. Se “Apolônio Brasil” (2003) flertava com a chanchada ingênua dos anos 1950, “A casa...” revisita a comédia erótica da década de 1970.

Num humor malcomportado, a saga de como Montanha, PR e Juca resistem ao golpe dado pelo “171” Vavá (o Buster Keaton chamado Pedro Cardoso) retoma um cinema sensualmente abusado, na linha de “Amici miei — Meus caros amigos”, de Mario Monicelli. É um riso cru, indigesto para estômagos talhados a caviar cinéfilo, mas apetitoso para quem não teme prazeres. E que prazer dão Juliana Paes e Fernanda de Freitas:

(Rodrigo Fonseca, Revista Rio Show, O Globo, 19/09/2008 )

programa


Casa da Mãe Joana, comédia de Hugo Carvana, num cinema perto de vc...

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Grandes personagens da (minha) história (3)

Hugo Carvana

Sempre fui fã do Carvana. Era moleque e admirava seus trabalhos, fosse em cinema ou na televisão. Durante minha adolescência acompanhava um seriado que ele fazia na TV Globo, Plantão de Polícia. Ele interpretava Valdomiro Pena, jornalista veterano, boêmio, cínico, debochado porém, íntegro e humanista. Esse seriado, escrito por gente como Leopoldo Serran, Aguinaldo Silva ( àquela época um bom roteirista, ainda não tinha virado o noveleiro de sucesso de hoje, menos deslumbrado consigo mesmo e mais atento à qualidade de suas histórias ) e Doc Comparato, é das boas coisas que vi na televisão brasileira, muito superior ao que é feito hoje. 

No cinema, Carvana encarnava o carioca típico, malandro, indolente, mulherengo, sacana. De certa forma era o arquétipo do brasileiro macunaímico, numa versão urbana, o que pode ser constatado no simpático filme de Cacá Diegues, Quando o carnaval chegar (1972), que aliás foi o primeiro filme que vi com Carvana, nos meus tempos de cineclubista, na década de 70 . 

Seu primeiro filme como diretor, "Vai trabalhar vagabundo" (1973) é uma pequena obra prima. Além das muitas qualidades cinematográficas, o filme poderia ser analisado como um tratado sociológico do caráter do povo brasileiro, ao lado do já citado Macunaíma, de Mário de Andrade, das Memórias de um sargento de milícias, de Manoel Antonio de Almeida, de Simão, o caolho, de Galeão Coutinho, no campo da ficção ou de Casa-Grande e Senzala, de Gilberto Freire, Raízes do Brasil, de Sergio Buarque de Hollanda, Carnavais, malandros e heróis, de Roberto da Matta e O Povo brasileiro, de Darcy Ribeiro, no campo teórico. A galeria de malandros, trambiqueiros, porra-loucas que desfila ao longo do filme, com um humor anárquico e uma insáciavel sede de alegria e liberdade, proporciona uma subversiva radiografia de nosso país - um Brasil torto, desengonçado, vagabundo e mestiço, em tudo oposto ao Brasil Grande propagandeado pelo governo militar. 

Já estudante de cinema, fui conhecer o Carvana ator de grandes filmes como Os Fuzis, de Ruy Guerra, Terra em Transe e Dragão da Maldade contra o santo guerreiro, do Glauber, de O Anjo Nasceu, do Julio Bressane,  entre outros. Nesses filmes, sua atuação revelava um outro Carvana, diametralmente oposto àquele malandro carioca arquetípico - um ator sério, politizado, completamente integrado à proposta estética e ideológica vanguardista do cinema novo ( ou do seu sucedâneo mais transgressor, o cinema marginal, "udigrudi", no caso de Bressane ). Carvana se revelava como um ator de recursos ilimitados, que transitava com maestria pela comédia e pelo drama,  e ao mesmo tempo, um artista comprometido e identificado com o ideário de sua geração, o que lhe valeu algumas prisões e um período no exílio ( sua esposa e companheira de todas as horas, Marta Alencar, foi inclusive guerrilheira ). 

De certa forma, Carvana encarnava essa "persona" formada pelos dois lados distintos de seus trabalhos: era ao mesmo tempo o malandro boa praça, trambiqueiro do "bem", sacana e camarada e o porta-voz de uma geração politizada, um homem de seu tempo, idealista e combativo. Era uma projeção do brasileiro que todos gostariam de ser: alegre e ao mesmo tempo consciente, bon-vivant e guerreiro. Seu único defeito para mim era ser torcedor do Fluminense ( assim como outro dos meus ídolos, Chico Buarque, aliás, seu primo e compadre ), mas ninguém é perfeito.

Como diretor, Carvana faria o filme ícone do processo de redemocratização brasileira, Bar Esperança, o último que fecha (1982) comédia dramática que é uma espécie de inventário de sonhos, frustrações, perdas e ganhos do Brasil pós golpe militar. Um dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos.

Seja como ator, diretor, ou simplesmente, na arte de viver, Hugo Carvana é um mestre.

Bem, toda essa apresentação talvez desnecessária, uma vez que o Carvana é uma figura pública bastante conhecida, é para balizar minha emoção ao ser convidado pra trabalhar com o Carvana no roteiro de seu filme Casa da Mãe Joana. Emoção e cagaço, tenho que confessar ( senti algo parecido quando fui trabalhar com o Ruy Guerra, mas disso eu falarei depois). Se já é assustador trabalhar com um artista do tope do Carvana, meu medo ainda foi maior pelo fato de ser seu admirador confesso. Várias coisas me assustavam: o temor de me deixar seduzir pelo fascínio do ídolo, de perder a capacidade crítica diante da admiração, o medo mesmo de não conseguir produzir nada à altura de seu talento. Por outro lado, tinha de enfrentar um grande fantasma: "substituir" ( se isso é possível ) Armando Costa, o grande parceiro de Carvana em seus melhores filmes (além dos já citados, roteirista também de Se segura malandro ). 

Mas para minha sorte, a idolatria subserviente foi imediatamente desmontada por uma camaradagem regada a alguns copos de cachaça e defumada por muita fumaça de charuto. E por muita piada infame, histórias do arco da velha, confissões de uma mente sacana. 

Ao longo do trabalho, percebi que o único risco que corria era mesmo não conseguir produzir nada de concreto,  porque perdíamos (?) tanto tempo falando besteiras que quase não dava para escrever. Marta, esposa e produtora do Carvana, suspirava dizendo que o Carvana não tinha saído da "fase anal", pois 99% das suas piadas eram referentes ao bom e velho cú - e a verdade é que, metaforicamente falando, o big bang do universo cômico do Carvana parece se originar justamente desta parte da nossa anatomia, o equivalente escatológico do buraco negro cósmico. 

Um parentêsis: recentemente, quando estava trabalhando no seriado Dicas de um sedutor, "baixou" em mim um "encosto carvaniano", e para desespero da Rosane Svartman, e de outros colegas de equipe, passei a maior parte do tempo do trabalho contando piadas infames, quase todas referentes à fase anal e seus derivados eróto-escatológicos ( o que era agravado por ter entre parceiros do trabalho dois outros quarentões com mentalidade e humor adolescente, Gustavo Cascon e Chico Soares ). Do que posso deduzir que bobeira é extremamente contagiosa.

Contagiosa e causa sequelas. E sequências. Foi tão prazeroso trabalhar com o Carvana que nem tinhamos terminado o Casa da Mãe Joana, e ele me chamou pra escrever um novo roteiro, Não se preocupe, nada vai dar certo, que está começando a produzir. E outro dia ele me chamou pra conversar sobre um novo projeto... Carvana tem esse "defeito",  nem acabou um trabalho já está pensando no próximo filme. O "Mestre" tem pressa: aos 71 anos de uma vida marcada por farras, porres, noitadas, prisões, exílio, dureza, alcool, drogas, loucuras, fumando horrores, com apenas um pulmão, um câncer vencido, e agora diabético ( e proibido de beber seu whisky, muito menos sua "branquinha" ), Carvana tem muita histórias e piadas pra contar e sabe que o tempo urge, ainda mais no Brasil, onde fazer cinema é uma atividade de risco, marcada por contratempos e imprevistos... 

Carvana está lançando essa semana ( dia 19 de setembro, sexta agora ) o Casa da Mãe Joana. Não vou dizer que é altamente recomendável, porque seria cabotino. Mas vejam o filme, é muito divertido. Pra quem gosta de bobagem, é um prato cheio.  

domingo, 14 de setembro de 2008

Veja essa canção (1)


"Smells like teen spirit", por Tori Amos.

A versão do hit do Nirvana pela magnífica voz e pelo piano de Tori Amos, registrada num disquinho ( Crucify, cinco músicas apenas) que contém também uma bela versão de Angie, dos Stones. 

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quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Ver e Ouvir (3)

Abertura do filme "Caindo no Ridículo", de Patrice Lecomte. Na minha modesta opinião, uma das melhores cenas de abertura da história do cinema, deste que é um dos melhores ( talvez o melhor ) filmes do grande diretor francês. É um momento de crueldade ímpar - violento, grotesco e, não dá para disfarçar, engraçado.  Nada a ver com as baboseiras sanguinolentas metidas a intelequituais dos Tarantinos da moda ( Tarantino ainda está na moda? ).  No mais, é um excelente prólogo - uma cena avulsa, que parece independente do resto da narrativa, mas que introduz de forma precisa e contundente o assunto do filme. No mais, é um aperitivo em tanto ( se não me engano, essa cena foi usada como avant-trailler do filme, à epoca do seu lançamento, no início dos anos 90 ). 
Não sei se já saiu em dvd. Pra quem mora no Rio, uma dica: o videoclube do Estação Botafogo tem ( ou tinha, não sei ) uma cópia em VHS. Vale a pena dar uma procurada. Filmaço. Falarei dele, mais adiante. Por enquanto, curtam essa bela sequência.

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domingo, 7 de setembro de 2008

Coisas que eu gosto (de ver) 8:


Os vivos e os mortos (1987),  de John Huston

Este foi o último filme do grande diretor norte-americano John Huston, cuja obra é quase uma coletânea de clássicos do cinema, como O falcão maltês, O tesouro de Sierra Madre, Uma aventura na África, Moby Dick, O Homem que queria ser rei, O Pecado de todos nós,  À Sombra do Vulcão, cuja maior parte, por sinal,  ( e os títulos mencionados são prova disso ), é inspirada em obras literárias. 

Adaptação quase literal de um conto de James Joyce, O morto (com roteiro de Tony Huston, filho do diretor), "Os vivos e os mortos" é uma pequena obra-prima, o réquiem de um grande artista, uma reflexão ao mesmo tempo cética e carinhosa sobre a vida. Com mais de 80 anos, Huston dirigiu boa parte do filme numa cadeira de rodas, com um tanque de oxigênio do lado, interrompendo as filmagens vez por outra para "respirar" um pouco. Huston morreria um ano depois de lançar o filme. 

Dramaturgicamente falando, "Os vivos e os mortos" é aparentemente muito simples - reproduz quase que integralmente a estrutura do conto e quase reproduz o tempo de sua fruição: o conto, um pouco longo, é quase uma pequena novela; o filme, bem enxuto, dura apenas 80 minutos.  O filme parece durar o mesmo tempo que se leva para ler, sem pressa, o texto de Joyce.  Quase não há história ou trama no filme. A maior parte da ação se passa durante os festejos natainos na casa das tias de Gabriel Conroy, o protagonista do filme ( numa admirável interpretação do ator irlandês Donald McCann ) e o que vemos é quase um "super 8" ou vídeo doméstico, o registro de uma festa familiar, com velhinhas solteironas fofinhas falando reminiscências, danças de salão, cantorias, comentários maliciosos à socapa, um flerte dissimulado, o inevitável tio alcoolatra, até o aparecimento dos inevitáveis ressentimentos, de feridas antigas mal cicatrizadas, frustrações sufocadas em meio à ceia natalina. Ou seja, uma típica reunião familiar aparentemente festiva, mas permeada por uma tristeza ora disfarçada em nostalgia, ora explicitamente marcada pelas perdas. É um filme de sutilezas, de entrelinhas. A câmera nos convida a entrar naquela festa, assistimos às conversas sentados numa das cadeiras em volta da mesa onde os personagens ceam e se expõem. Tornamo-nos nós próprios convidados da festa, cada um de nós com um histórico de lembranças, perdas e mágoas semelhantes ao dos personagens. 

Em meio à essa festa, vai-se delineando um conflito envolvendo Gabriel e sua esposa, Gretta (interpretada de forma sublime por Angélica Huston, filha do diretor ). O conflito do conto e do filme refere-se à revelação de um grande amor do passado de Gretta, que emerge em meio às evocações nostálgicas e ao clima melancólico tipicos dessas festas familiares. Gretta tivera um amor na adolescência. Um amor casto, pueril, triste - porém verdadeiro e único. Ao dar conta de que Gretta ainda ama aquele rapazinho pobretão, que morrera de pneumonia décadas atrás, Gabriel percebe o vazio de sua vida, o fracasso de seu casamento aparentemente bem sucedido, a distância que o separa de sua mulher, de seus ideais, da suposta felicidade e do conforto pequeno-burguês em que crer viver. 

A segunda parte do filme se dá num quarto de hotel, onde o casal Conroy pernoita após a festa natalina. A neve cai e a esposa dorme. Insône, Gabriel olha a neve que cai "indistintamente, sobre os vivos e os mortos". A neve que cai leve, como a terra que se atira aos mortos, nos sepultamentos.  A cena é basicamente o monólogo em voice over de Gabriel, no qual ele rumina seu inventário de frustrações e constata a sua fragilidade diante da força esmagadora dos mortos, concluindo de forma melancólica sobre a insignificância da ( e não somente da sua ) vida.

Realizado por um homem no auge de seus 80 anos, um aventureiro, um "bom-vivant", caçador, hedonista, pugilista, mulherengo, beberrão, uma espécie de Hemmingway cinematográfico,  "Os vivos e os mortos" soa uma reflexão acridoce sobre a existência, é - em suma - uma despedida. O testamento cinematográfico de um autor cujos filmes sempre revelaram uma atração pelos derrotados, pelos grandes fracassos, pelos sonhadores frustrados. 

Dono de uma grande e variada filmografia, Huston nunca escondeu seu fascínio pelos out-siders, pelos ambiciosos derrotados, e se há uma unidade em sua diversa filmografia, ela se dá na compreensão filosófica do fracasso como fim único da experiência humana, o que se pode constatar em filmes tão diferentes em estilo como O tesouro de Sierra Madre, Os desajustados, Fat City, Moby Dick, Raízes do céu, O homem que queria ser rei, etc. Huston se definia como um "existencialista" e seus filmes, ainda que muitos possam ser definidos  como ( e são ) fantasia de aventura, inevitavelmente concluem de forma amarga, marcados pela derrota ou pela "meia vitória" , frustrante até, porém inevitável. "Os vivos e os mortos" parece refletir sobre a própria carreira de Huston, por ser um filme de pequenas proporções dentro de uma obra marcada por grandes produções. É um filme de baixo orçamento, com atores basicamente desconhecidos, realizado à margem de Hollywood ( não a toa, ganhou o prêmio de Melhor diretor no renomado Independent Spirit Awards, equivalente ao Oscar do cinema independente americano ). 

É um pequeno grande filme. Simples, comovente, filosófico. Altamente recomendável.

Os vivos e os mortos

O monólogo completo de Gabriel Conroy, aqui numa versão em espanhol... belíssimo.

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da série "Grandes diálogos do cinema" (para estudantes de roteiro)


Gabriel Conroy: [voice over] "One by one, we're all becoming shades. Better to pas
s boldly into that other world, in the full glory of some passion,
 than fade and wither dismally with age. How long you locked away in your heart the image of your lover's eyes when he told you he did not wish to live. I've never felt that way myself towards any woman but I know that such a feeling must be love. Think of all those who ever were, back to the start of time. And. me transient as they, flickering out as well into their grey world. Like everything around me, this solid world itself which they reared and lived in, is dwindling and dissolving. Snow is falling. Falling in that lonely churchyard where Michael Furey lies buried. Falling faintly through the universe and faintly falling, like the descent of their last end, upon all the living, and the dead."


parte do monólogo de Gabriel Conroy (Donald McCann ) no filme Os vivos e os mortos ( The Dead ) de John Huston (1987). Roteiro de Tony Huston, a partir do conto de James Joyce.

Quadros que queria ter na parede aqui de casa (13)



"Os noivos", de Gustav Klimt

sábado, 6 de setembro de 2008

Deus e o diabo na terra do rock...


Essa é a sequência final do filme Simão do Deserto, de Buñuel. Um dos melhores filmes do mestre espanhol, e sem dúvida, um dos mais divertidos.  Let´s rock! 

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A volta dos que não foram

Depois de um longo período parado, volto a escrever aqui... espero que alguém tenha sentido falta.