segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
segunda-feira, 15 de dezembro de 2008
Beijo de despedida
sábado, 6 de dezembro de 2008
Let´s dance!
quinta-feira, 27 de novembro de 2008
Auxílio Luxuoso
terça-feira, 28 de outubro de 2008
Veja essa canção (2)
segunda-feira, 13 de outubro de 2008
domingo, 12 de outubro de 2008
Momento poético em tempos de dureza (7)

Que só tem o sol que a todos cobre
Como podes, mangueira, cantar?
Pois então saiba que não desejamos mais nada
A noite, a lua prateada
Silenciosa, ouve as nossas canções
Tem lá no alto um cruzeiro
Onde fazemos nossas orações
E temos orgulho de ser os primeiros campeões
Eu digo e afirmo que a felicidade aqui mora
E as outras escolas até choram
Invejando a tua posição
Minha mangueira essa sala de recepção
Aqui se abraça inimigo
Como se fosse irmão
(Cartola - Sala de recepção )sábado, 11 de outubro de 2008
Parabéns!
sábado, 27 de setembro de 2008
Ver e Ouvir (4)
sexta-feira, 26 de setembro de 2008
domingo, 21 de setembro de 2008
sexta-feira, 19 de setembro de 2008
Não fui eu quem disse, mas O Bonequinho de O Globo

Amizade é a essência estética do cinema de Carvana. O entendimento do ônus afetivo que a palavra “amigo” carrega é o esqueleto de seus filmes, subestimados nestes tempos em que lealdade virou artigo escasso. “Bar Esperança” (1982), que entra fácil em qualquer lista de filmes nacionais antológicos, já deixava claro esse traço investigativo da obra que Carvana vem depurando no diálogo com subgêneros do humor. Se “Apolônio Brasil” (2003) flertava com a chanchada ingênua dos anos 1950, “A casa...” revisita a comédia erótica da década de 1970.
Num humor malcomportado, a saga de como Montanha, PR e Juca resistem ao golpe dado pelo “171” Vavá (o Buster Keaton chamado Pedro Cardoso) retoma um cinema sensualmente abusado, na linha de “Amici miei — Meus caros amigos”, de Mario Monicelli. É um riso cru, indigesto para estômagos talhados a caviar cinéfilo, mas apetitoso para quem não teme prazeres. E que prazer dão Juliana Paes e Fernanda de Freitas:
(Rodrigo Fonseca, Revista Rio Show, O Globo, 19/09/2008 )
quarta-feira, 17 de setembro de 2008
Grandes personagens da (minha) história (3)

Sempre fui fã do Carvana. Era moleque e admirava seus trabalhos, fosse em cinema ou na televisão. Durante minha adolescência acompanhava um seriado que ele fazia na TV Globo, Plantão de Polícia. Ele interpretava Valdomiro Pena, jornalista veterano, boêmio, cínico, debochado porém, íntegro e humanista. Esse seriado, escrito por gente como Leopoldo Serran, Aguinaldo Silva ( àquela época um bom roteirista, ainda não tinha virado o noveleiro de sucesso de hoje, menos deslumbrado consigo mesmo e mais atento à qualidade de suas histórias ) e Doc Comparato, é das boas coisas que vi na televisão brasileira, muito superior ao que é feito hoje.
domingo, 14 de setembro de 2008
Veja essa canção (1)
quinta-feira, 11 de setembro de 2008
Ver e Ouvir (3)
domingo, 7 de setembro de 2008
Coisas que eu gosto (de ver) 8:

Os vivos e os mortos (1987), de John Huston

sábado, 6 de setembro de 2008
Deus e o diabo na terra do rock...
A volta dos que não foram
segunda-feira, 5 de maio de 2008
segunda-feira, 28 de abril de 2008
domingo, 27 de abril de 2008
Dicas
domingo, 30 de março de 2008
sábado, 29 de março de 2008
Agravo/Desagravo

Dos seus filmes gosto de Terra em Transe, na minha opinião um dos melhores filmes já realizados em todos os tempos, Deus e o diabo na terra do sol, Dragão da maldade contra o santo guerreiro ( apesar de achar que envelheceu mais rápido que os anteriores ) e do curta Di, pequena obra prima, um grande filme de curta duração. Barravento e Cabezas cortadas têm seus méritos, apesar de não falarem muito ao meu coração . Não gosto muito dos demais e acho mesmo alguns insuportáveis ( Das Leone have sept cabezas e Claro são osso duro de roer... ). Mas mesmo seus filmes menos interessantes ou mesmo desinteressantes possuem elementos que despertam minha curiosidade cinematográfica, tem sempre algo que chama atenção - Glauber é, queiram ou não seus detratores, um dos artistas brasileiros mais importantes e influentes de todos os tempos. Não me enquadro portanto no grupo de "viúvas" do Glauber, que veneram cada fotograma do cineasta como se fosse um relicário sagrado.
Agora, maior que meu apreço pelo Glauber é meu desapreço por essa figura abjeta chamada Marcelo Madureira. Esse sujeito combina desarmoniosamente sua repugnante figura com sua boçalidade. Como humorista, já teve seus tempos de glória e hoje parece marchar inexoravelmente para fazer quadros no Zorra Total - com a diferença que os comediantes daquele programa, Paulo Silvino, Agildo Ribeiro, Lúcio Mauro entre outros, independente do estilo de humor que pratiquem, bons comediantes, enquanto que o "casseta" não passa de sujeito sem graça, medíocre, que pratica o pior tipo de humor, com seus trocadilhos fáceis, seu homofobismo e sexismo, sua escatologia, seu preconceito social e seu reacionarismo político disfarçado em anarquismo. Em suma, no máximo seria um tipo contando piadas de salão no fundo de um bar "pé sujo" não tivesse parasitado o carisma do Bussunda, este sim, um bufão nato ( é só perceber como o Casseta e Planeta decaiu, depois da morte do palhaço gordo).
Mas se como comediante Madureira é sofrível, mais deploráveis são suas intervenções sérias. O "intelequitual" Madureira é um repetidor de factóides, falastrão sem nenhum embasamento ou qualquer idéia original. Chamado para participar de um debate sobre cinema num evento promovido pela revista Piauí ( quem teria sido o gênio que teve a brilhante idéia? ), saiu alardeando velhos preconceitos contra o cinema brasileiro, com uma originalidade de leitor da Veja. Na falta de argumentos com algum conteúdo, partiu para a grosseria, para a provocação, ganhando assim alguma notoriedade: "Glauber Rocha é uma merda", foi a coisa mais relevante que seu raciocínio tatibitate conseguiu elaborar. Lançou o factóide, ganhou algumas páginas no Globo ( jornal onde trabalha, registre-se, afinal é o redator da coluna do Agamenon Mendes Pedreira ) e correu para a galera. Deve estar se sentindo o máximo. Afinal, para um pseudo-artista cuja indigência intelectual só consegue superar a ignorância atávica dos BBBs, deve ser reconfortante ser assunto de discussão na mídia. Uma vez que o Casseta e Planeta não repercute mais como nos tempos do Bussunda, é preciso apelar para chamar um pouco de atenção.
Que Madureira não curta o Glauber e expresse sua opinião sobre o cineasta de forma tão sofisticada, é direito dele. Gosto é uma coisa pessoal, e o Madureira tem direito de gostar ou desgostar do que bem quiser. Me incomodou mais as patranhas que ele proferiu no tal debate da Piauí ( "o cinema brasileiro era uma droga", "cineasta brasileiro é tudo ladrão", frases muito similares àquelas difundidas à época do Collor, Ipojuca Ponte et caterva, quando acabaram com a Embrafilme, causando a maior crise da história do nosso cinema ) do que sua opinião pessoal contra o Glauber. E me incomodou ainda mais que ninguém, absolutamente ninguém na platéia, basicamente composta por estudantes de cinema, cinéfilos, intelectuais, etc, gente "bem nascida" e "bem informada", como suponho serem os leitores da Piauí, tenha manifestado qualquer reação à frase destemperada do Madureira. Me incomoda que o cineasta, perdão, o documentarista ( é ele que faz questão de frisar a diferença, não eu ) João Moreira Salles, ao lado de Madureira na mesa, não tenha tido sequer a gentileza de dizer que a opinião de Madureira não era partilhada por boa parte dos presentes. Me pergunto se a Piauí endossa a opinião do Madureira. Sobre Glauber e sobre o cinema brasileiro, em geral.
Dias depois, artistas e cineastas resolveram fazer um ato de desagravo a Glauber, exibindo Deus e o Diabo na terra do Sol, na reabertura do cineclube da ABI ( antigo templo de vivência cinematográfica nos anos cinzentos da ditadura, e que foi o responsável pela formação de toda uma geração de cinéfilos e cineastas, eu incluído ). Acho que a melhor resposta às provocações do "intelequitual" Madureira é mesmo essa: exibir os bons filmes do Glauber. Haverá os que gostarão, da mesma forma que haverá quem não goste ou, mesmo, quem ache uma merda. Só espero que não passem Claro nem O Leão das Sete Cabeças, porque aí a coisa degringola...
Da minha parte, faço aqui meu desagravo, usando um trecho de Deus e Diabo que considero, junto com a morte da cachorra Baleia em Vidas Secas ( do Nelson ), uma das mais fortes e belas sequencias do cinema novo ( e do cinema brasileiro, como um todo). O beijo entre Corisco e Rosa, com uma Yoná Magalhães linda, novinha e um Othon Bastos exuberante, embalados pela belíssima Bachiana Brasileira #2, de Villa-Lobos. Talvez o mais belo beijo da história do cinema.
quinta-feira, 27 de março de 2008
coisas que eu gosto (de ver) 7:

Vida de cigano, de Emir Kusturica (1989).
Terceiro longa-metragem do diretor ( o primeiro "Quem se lembra de Dolly Bell?" não foi lançado e o segundo, o espetacular Quando papai saiu em viagem de negócios fez muito sucesso aqui, ao ponto de ser "citado" no belo filme de Cao Hamburger, "o ano em que meus pais sairam de férias"), estabelece os elementos dramatúrgicos e estéticos do cinema de Kusturica, a saber, o equilíbrio entre a comédia rasgada e o melodrama, o surrealismo, o kitsch, a extrema musicalidade, o humor negro, o erotismo, a riqueza visual de seus planos, o sentimentalismo, o patético, o lirismo, o fabulismo de suas narrativas, a estranha e harmônica convivência de humanos com animais, as estranhas relações entre pais e filhos, sempre conflituosas e ao mesmo tempo, amorosas ao extremo, o enforcamento ( essa característica é quase um fetiche: em todo filme de Kusturica há uma tentativa bem ou mal sucedida de enforcamento por parte de um de seus personagens ), as festas - geralmente bodas - que se tornam cenários de batalhas, as gags circenses, a índole infantil de seus protagonistas, a celebração da morte.
Algumas dessas características são próprias da cultura eslava, da qual Kusturica, ex-iugoslavo, de origem sérvia, nascido e criado em Sarajevo, na Bósnia, é sem dúvida um dos maiores divulgadores ( tanto em seu trabalho como cineasta, quanto na sua produção como músico, com sua banda The No Smoking Orchestra ).
Há evidentes influências de Buñuel e Fellini em sua obra, da mesma forma que é evidente o seu apreço pelas comédias malucas do cinema mudo, particularmente, de Mack Sennet e mesmo Chaplin, dos primeiros filmes.
Todavia, em Vida de Cigano há uma nítida aproximação com um dos clássicos do neo-realismo, Milagre em Milão ( onde aliás, se passa boa parte da história ), de Vittório de Sica e Zavattini. Há uma grande semelhança entre os mendigos e desafortunados do filme de de Sica e os ciganos de Kusturica. E também um jeito de filmar que desglamouriza cenários, atores, a própria ação, que remete à estética do neorealismo, em particular a Milagre de Milão, que seria (digamos ) uma incursão do neorealismo num ambiente mágico das fábulas.
E se podemos entender Milagre em Milão como uma possível ruptura de de Sica ( e mesmo Zavattini ) aos cânones do neo-realismo, com sua proposta de fábula não-realista, Vida de Cigano é uma ruptura ao tom ainda realista presente em Quando papai saiu de viagem à negócios e um mergulho radical numa narrativa mais mágica, surrealista, onírica, fincada no fabulismo dos contos populares.
É da estrutura dos contos populares que Kusturica vai extrair seus elementos dramatúrgicos, seus personagens, a estrutura moral da história, a musicalidade e a magia da trama. Os rompantes de comédia pastelão e os momentos sentimentais, trágicos, até, do bom melodrama são também frutos dessa absorção do elemento popular que caracteriza as narrativas de Kusturica. Podemos dizer que, em princípio, Vida de Cigano é uma comédia dramática, como igualmente comédias dramáticas são Quando Papai saiu em viagem de negócios, Arizona Dream ( única incursão de Kusturica no cinema americano, com Johnny Deep, Jerry Lewis, Faye Danaway e Lili Taylor, pessoalmente o filme de Kusturica que gosto menos ), Underground e mais declaradamente cômicas Gato Preto, Gato Branco e A vida é um milagre. Digo em princípio porque, à excessão desses dois últimos, poderíamos definir igualmente os filmes de Kusturica como dramas com laivos de humor.
Em geral, as histórias que Kusturica conta parecem mais enredos de dramas: o pai de família que é delatado pela amante desprezada e que é enviado para um campo de trabalhos forçados, na Iugoslávia de Tito ( Quando papai etc ), um grupo de partizans que é se escondem dos nazistas no porão da casa de um compatriota que posteriormente decide mantê-los presos e trabalhando a seu favor, mentindo sobre o término da guerra (Underground ), surgimento de uma máfia que se estabelece no vácuo do fim do regime comunista (Gato preto, gato branco ),a guerra civil que pulverizou a Iugoslávia, despertando ódios étnicos entre sérvios, bósnios, croatas, kosovares ( A vida é um milagre ). Temas que não parecem mais adequados para provocar o riso. Mas da mesma forma que Kusturica faz piada com as tentativas de enforcamento de seus personagens ( a mais dramática ou patética em Quando papai saiu de viagem à negócios, a mais engraçada, sem duvida, a tentativa de Lily Taylor se suicidar com suas meiacalças, em Arizona Dream ), ele consegue extrair humor e poesia destes enredos "pesados". Em Vida de cigano, a miséria e a mercantilização da pobreza, em paralelo com o processo de corrupção do protagonista, é o assunto pesado em que Kusturica vai exercitar sua habilidosa capacidade de provocar risos e emocionar com um lirismo mágico, pungente.
Numa aldeia de ciganos, o jovem Perhan (Davor Dujmovic ) vive com sua avó Khaditza ( Ljubica Adzovic ), sua irmã caçula Danira, que tem um pequeno defeito numa das pernas e o tio fracassado Merdzan. Perhan possui poderes telecinéticos ( é uma espécie de Ury Geller - lembram-se dele? - capaz de mover talheres e outros objetos metálicos ), tem como melhor amigo um peru e é apaixonado pela jovem Azra, mas a família da moça o rejeita por ser pobre. O infortúnio amoroso será motivo para uma tentativa fracassada de suicídio de Perhan por enforcamento. A vida do rapaz muda com a chegada de tio Ahmed (Bora Todorovic ), irmão de Merdzan e ao contrário, rico e bem sucedido. Ahmed fica encantado com os poderes telecinéticos do rapaz e decide levá-lo com ele para a Itália, onde poderá ganhar muito dinheiro. O rapaz recusa-se, pois teria que separar-se da avó, do peru e de Azra ( nesta ordem de afeto ). Num jogo de cartas, Merdzan perde a casa para Ahmed, que propõe trocar a dívida pela tutela dos dois sobrinhos. Diante do problema, Khaditza arma um estratagema: propõe que Perhan siga com o tio para levar a irmã para ser operada, e assim, Perhan e Danira seguem com Ahmed para Milão. Lá descobrem que o tio na verdade é líder de uma gangue de ciganos, envolvido com todo tipo de contravenção, e que não tem escrúpulos em colocar Danira para esmolar nas ruas e forçar Perhan a usar seus poderes em roubos. A vida dos dois irmãos se torna um inferno digno das melhores narrativas de Charles Dickens ( há muito do judeu Fagin de Oliver Twist no inescrupuloso porém divertido Ahmed ). Boa parte desse momento da trama se passa aos pés da bela catedral de Milão ( por sinal, onde se passa também boa parte da ação de Milagre em Milão ).
Após muitos infortúnios e humilhações, a sorte de Perhan muda. Um derrame irá abater Ahmed e tornar Perhan em seu sucessor, no comando da gangue. Corrompido pelo dinheiro, Perhan irá paulatinamente a afastar-se de seus ideais de juventude e enveredar na decadência moral, afastando-se da avó, da irmã e mesmo, repudiando Azra, com quem acaba casando ( agora que fica rico, é plenamente aceito pela família dela ). O jovem Perhan torna-se um homem mau, talvez até mais inescrupuloso que seu tio Ahmed.
Ao final, uma sucessão de incidentes trágicos irão redimir o jovem, que consegue levar sua irmã de volta à aldeia natal. O enredo ( e mesmo o desfecho ) é trágico, mas Kusturica consegue fazer de Vida de cigano um belo ( e muitas vezes hilariante ) poema cinematográfico.
Vejam um belo trecho do filme (escolhi uma sequência em que se apresentam quase ou senão todas as características que enumerei na obra de Kusturica, e claro, por ser um momento belíssimo ):
Há outras cenas notáveis, como o momento em que o jovem Perhan vira homem, ou o comovente reencontro de Perhan con Danira, nas ruas de Milão, e a mágica morte de Azra, quando ela dá a luz ao filho de Perhan ( com direito a outro elemento chave na obra de Kusturica: a levitação como parte do ritual da morte, os moribundos flutuam nos filmes de Kusturica). Com este magnífico filme ("hipnotizante" como define o cartaz norte-americano, que ilustra esta postagem), Kusturica ganhou o prêmio de melhor diretor em Cannes, 89. Creio que é o filme do Kusturica que gosto mais - e minha incerteza se dá porque gosto muito dos filmes dele, mesmo do Arizona Dream, sabidamente o mais fraco (mas ainda assim, um filme bem interessante e divertido).
Minha sugestão é correrem às locadoras e tentarem encontrar uma cópia do filme em VHS, pois até o presente momento não foi lançado em dvd aqui no Brasil.
Não esmoreçam diante das dificuldades ( que antecipo serem muitas). A beleza da narrativa, a riqueza visual, o excelente trabalho dos atores, a belissima trilha sonora de Goran Bregovic, a mescla de drama e comédia, o registro carinhoso mas não complacente do povo cigano, em suma, o talento de Kusturica, sem duvida, um dos mais importantes e interessantes cineastas da atualidade, justifica qualquer trabalho.
sábado, 22 de março de 2008
ver e ouvir (2)
Cenas de Aprile, de Nanni Moretti.
Continuação de Caro Diário, Aprile mostra, entre outras coisas, o dilema do cineasta, dividido entre o dever moral e político de fazer um documentário sobre o momento político italiano do final dos anos 90 ( com a ascensão de Berlusconni ), sério, crítico, contundente, e seu desejo secreto e inconfessável de fazer um filme musical do tipo que se fazia nos anos 50... deste conflito criativo, surge uma síntese que reuniria as duas aparentemente antagônicas propostas: "Il pastelaria trotzkista", um dos filmes dentro do filme de Aprile.
Vendo O Crocodilo, filme mais recente de Moretti, percebe-se que este "conflito" criativo, na verdade, traduz a premissa artística do cineasta: discutir política, com humor e ao mesmo tempo, fazer uma releitura do cinema italiano, num jogo metalinguístico bastante inteligente. Aprile e O Crocodilo, no geral inferiores ao Caro Diário e o Quarto do filho, crescem - e muito - quando vistos em conjunto. Que o aperitivo acima desperte o apetite por este cineasta tão interessante e original.
domingo, 9 de março de 2008
coisas que eu gosto (de ouvir ) 8:
Blood on the tracks, Bob Dylan, 1974.Aproveitando a passagem de Bob Dylan no Rio, para mais uma "estação" de sua "Never Ending Tour", o jornal O Globo dedicou a capa e a matéria principal do RioShow ao velho bardo. A matéria procura fazer um inventário da carreira de Dylan, ao longo de quase cinco décadas, e, num paralelo ao lançamento do filme Não estou lá, de Todd Haynes, acaba definindo-o como um artista camaleônico, multi-facetado, uma espécie de Fernando Pessoa do rock´n´roll, com suas diferentes vozes poéticas, distintas entre si, e as multiplas "personas" encarnadas pelo músico.
A grosso modo, a matéria divide Dylan em quatro: o Dylan da época do folk rock, com sua gaitinha e violão e as canções de protesto, o pop star do meado dos anos 60, surrealista e empunhando guitarras elétricas, o Dylan irregular dos anos 70 e 80 e finalmente, o artista renascido, aos 66 anos ( 67 em maio próximo ). Bem, a divisão é arbitrária e superficial. Mas para uma revista de programação de fim de semana, com finalidade de divulgação de eventos e não de análise e crítica, digamos que categorizar a carreira de um artista tão importante e profílico como Dylan nestas quatro fases é até passável. O problema é quando o repórter resolve justificar as facetas de Dylan, classificando-as através dos discos lançados nos períodos abarcados em cada fase.
Ora, como todo artista, Dylan tem discos melhores do que outros, uns excepcionais, outros nem tanto, e claro, tem alguns discos sofríveis ( geralmente classificam seus discos da fase "cristã" como horríveis, mas é uma injustiça, afinal, Slow train coming e Shot of Love, a saber o álbum inicial e o final da trilogia cristã são discos muito bons, sendo que o primeiro contém uma das melhores músicas de Dylan de todos os tempos, a pulsante "You´ve gotta serve to somebody" e o último traz a belíssima "Every Grain of Sand", que sem nenhum exagero, podem fazer parte de qualquer boa antologia do músico ). Mas o que me incomodou na matéria foi, ao comentar a fase irregular da carreira de Dylan, ter citado o disco Blood on the tracks como um trabalho irregular, com "poucos belos momentos".
Tudo bem, o repórter pode ter se deixado trair pelo subjetivismo de seu gosto pessoal, mas classificar Blood on the Tracks como irregular é ir na contra-mão da maioria da crítica especializada, que considera este um dos melhores discos de Dylan de todos os tempos - comparado à Bringing It All Back Home, Highway 61 Revisited, Blonde on Blonde, John Wesley Harding, o recente Time Out the Mind e, claro, ao mítico Basement Tapes, álbum duplo que Dylan gravou com o The Band e manteve escondido por quase oito anos e que foi considerado uma lenda durante muito tempo.
Talvez pese contra Blood on the tracks o fato de ser um dos mais tristes e soturnos do artista, registro do fim do casamento de Dylan com sua primeira esposa, Sara Lowdes, e marcado pelo sofrimento, pelo rancor, pela desesperança e pela dor de cotovelo. É um disco denso, sofrido, amargo e amargurado. Afora a alegre quadrilha "Lily and Jack of Hearts", com sua letra quilométrica e brincalhona, as demais canções do disco são reflexões sobre a perda do ser amado. Um disco sobre perdas não é exatamente um disco agradável, porém Blood on the tracks é algo que se escuta da primeira a ultima faixa com prazer. Trata-se de uma pequena obra-prima musical, cheia de nuances, de poesia e com um Dylan inspirado como intérprete.
O disco abre com uma das melhores canções de Dylan, Tangled up Blue, que ele costuma cantar em quase todas as suas apresentações ao vivo, e dá o tom do disco: perda, culpa, solidão, melancolia, alguma auto-ironia. As canções cantam pequenas histórias de ajustes de contas de casais, reencontros frustrados, despedidas, saudades, nostalgia. Há um quê de Tcheckov nas letras e no clima do disco - da mesma forma que o escritor e teatrólogo russo, a dor e a tristeza de Dylan soam de forma acridoce, melancólica. É o tom de Simple Twist of fate, If you see her, say hello ( que aliás foi gravada por Renato Russo numa versão gay, mudando para If you see him, say hello, no disco Tributo a Stonewall, onde o cantor do Legião Urbana presta homenagem ao movimento homossexual ), de You´re a big girl now, Shelter from the storm e you´re gonna make me lonesome when you go ( recentemente regravada pela nova diva da musica cool, a francesinha Madeleine Peyroux, no seu também excelente disco Careless Love ). Esse tom acridoce é rompido pela raivosa e pungente Idiot Wind, uma das melhores ( e maiores, quase 9 minutos de duração ) músicas de Dylan de todos os tempos ( se bem que a melhor versão desta música está registrada num disco ao vivo, Hard Rain, lançado pouco depois. Ao vivo, toda raiva, mágoa e desesperança da letra, amplificada por guitarras elétricas distorcidas, soa inigualável ).
Como todo grande artista, Dylan fala de si e faz com que seus sentimentos mais íntimos ecoem em nossas próprias experiências pessoais. Blood on the Tracks, composto e gravado em meio ao turbulento processo de separação de Dylan e sua esposa, talvez seja um dos seus trabalhos mais confessionais - é o seu sangue que escorre das faixas.
Dolorido, melancólico, triste. Um disco essencial.
domingo, 2 de março de 2008
Shoah palestino
Matan Vilnai, vice-ministro da Defesa de Israel, 27/02/2008, anunciando a ofensiva militar na faixa de Gaza, em retaliação aos foguetes disparados por militantes palestinos à cidades israelenses.
Às vezes, uma frase vale mais do que mil imagens.
Mas são os números, ou mais claramente falando, as vítimas, a prova maior de que Vilnai não estaria usando a expressão judaica erroneamente, ou no sentido de dizer "desastre, catástrofe", outros sinônimos de Shoah. Aliás, Matan Vilnai é quase um anagrama: mata e é vil. Seria engraçadinho, não fosse trágico.
O placar do conflito, até agora, mostra a "goleada" israelense...
Vitimas israelenses: 1 morto, 3 feridos.
Vitimas palestinas: 90 mortos, dezenas de feridos.
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008
domingo, 17 de fevereiro de 2008
Momento poético em tempos de dureza (6)

É por isso que eu moro na areia
Eu nasci pequenininho
Como todo mundo nasceu
Todo mundo mora direito
Quem mora torto sou eu
Eu não tenho onde morar
É por isso que eu moro na areia
Vivo na beira da praia
Com a sorte que Deus me deu
Maria mora com as outras
Quem paga o quarto sou eu
Eu não tenho onde morar
É por isso que eu moro na areia
Eu não tenho onde morar, de Dorival Caymmi.
A pergunta que não quer calar
Que diabo de touquinha é aquela que o Padilha estava usando na premiação de Berlim???
Direita, volver!
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008
sábado, 9 de fevereiro de 2008
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008
ontem/hoje (8)
terça-feira, 5 de fevereiro de 2008
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008
ontem/hoje (5)



sábado, 2 de fevereiro de 2008
Fotogramas (6)
quarta-feira, 30 de janeiro de 2008
Quem são nossos ídolos? - a lista - final (10)
O primeiro nome não dá para ser chamado de "promissor" pois já é um veterano: Marçal Aquino.Jornalista, escritor e roteirista, com vários romances e livros de contos publicados, o paulista Marçal Aquino tem seu nome imediatamente ligado ao do igualmente jovem e talentoso diretor Beto Brant.
São parceiros constantes desde "Os matadores". A este seguiram-se Ação entre Amigos e O Invasor, que talvez seja o melhor trabalho da dupla.
Eis que ocorre uma reviravolta no trabalho da dupla e a partir de Crime Delicado, começa uma nova fase no trabalho da dupla. Agora o olhar volta-se para o interior, para pequenos dramas individuais e intimistas. E, de certa forma, num novo formato: são filmes que discutem o relacionamento humano, mais especificamente, o amor.
Além do trabalho com Brant, Marçal desevolveu uma parceria com Heitor Dhalia, com quem escreveu Nina, uma adaptação bastante livre de Crime e Castigo, de Dostoievski e o excelente O cheiro do ralo, baseado no romance homônimo do desenhista underground Lourenço Muttareli e que considero um dos melhores filmes nacionais dos últimos anos.
Também escritor, com vários romances publicados, o segundo nome "promissor" é o mexicano Guillermo Arriaga, parceiro do excelente diretor Alejandro Gonzalez Iñarritú, e com o qual escreveu três filmes: Amores brutos, ainda no México, e 21 Gramas e Babel, já na fase hollywoodiana de Iñarritu.
Particularmente, considero o melhor roteiro de Arriaga o belo filme de Tom Lee Jones, Os três enterros de Melchiades Estrada, onde o esquema é abandonado e sua vigorosa capacidade narrativa e seus personagens cheios de ambigua humanidade são devidamente aproveitados. Não à toa, o roteiro foi premiado no Festival de Cannes. Mais recentemente, escreveu, a partir de seu próprio romance, Búfalo da noite, ainda inédito no Brasil ( passou no Festival do Rio, mas não há data para seu lançamento comercial ).
Por fim, o terceiro nome que considero importante ressaltar é de um roteirista que pessoalmente nem me agrada tanto assim, mas que com certeza é importante e cuja carreira ainda iniciante, tem tudo para tornar-se referencial para os jovens e futuros roteiristas.
Malkovich, estréia do então diretor de video-clipes Spike Jonze no cinema, um filme independente, que seduziu o Establishment e acabou sendo indicado ao Oscar de melhor roteiro original.
Em seguinda, e novamente com Gondry, Kaufman escreve Brilho Eterno de uma mente sem lembranças, com o qual ganha finalmente o Oscar. Nitidamente inspirado em Je t´aime, Je t´aime, de Allan Resnais, o filme é interessante, sem dúvida o melhor roteiro de Kaufman até então. Mas persiste a sensação de que, como nos anteriores, o roteiro começa bem e instigante, partindo de uma idéia original, mas que degringola do meio do segundo ato em diante, se esticando demasiada e enfadonhamente, e apelando para uma solução insatisfatória e meio postiça no final.
O melhor roteiro de Kaufman para mim é Confissões de uma mente perigosa, que ele escreveu para George Clooney. Neste, os problemas narrativos recorrentes de Kaufman parecem bem resolvidos, sem prejuizo à originalidade da trama. Mas li numa reportagem que Kaufman repudiou o trabalho, ficando revoltado com as mudanças que Clooney teria feito no roteiro, sem sua autorização. Então penso que os acertos foram cometidos pelo diretor, e que possivelmente o roteiro original possuísse os mesmos e já citados problemas dos outros trabalhos de Kaufman. domingo, 27 de janeiro de 2008
Quem são nossos ídolos? - A lista (9)
Não poderia fechar a lista dos grandes roteiristas sem mencionar Gerard Brach.Esse grande roteirista francês está indissociavelmente ligado a um dos maiores cineastas de todos os tempos, Roman Polanski.
Quase toda a obra do genial diretor polonês foi escrita por Brach, numa das parcerias mais longevas e profílicas da história do cinema, competindo talvez com a dupla Buñuel e Carriére em matéria de clássicos.
A parceria de Brach com Polanski começa no primeiro filme que o diretor realizou, fora da Polônia: um dos episódios do longa "As mais belas trapaceiras do mundo", que contava com a participação de outros cineastas, como Godard, Chabrol, etc.
Logo em seguida, Brach escreveria Repulsa ao sexo, um dos melhores filmes de Polanski, estrelado por uma fria e belíssima Catherine Deneuve.Repulsa ao sexo é um filme perverso, que fala sobre loucura, morte e sexo - temas caros a Polanski, que ele revisitaria em filmes posteriores, como O inquilino e Lua de Fel (os dois escritos por Brach ). De certa forma, pode ser entendido também como uma espécie de filme de terror - gênero que Polanski domina como poucos e que também é frequente em sua obra.
Depois viria Armadilha do destino, mais conhecido pelo título original Cul-de-sac. Essa pequena obra prima surrealista, com toques de Samuel Beckett é uma mistura de filme noir com comédia de humor negro. Personagens estranhos que se cruzam, encurralados dentro de um pequeno labirinto, se envolvendo em situações cada vez mais absurdas, num tom que beira o non-sense.
Quando Polanski atravessa o oceano e vai filmar em Hollywood, Brach segue com ele. Juntos, fariam A dança dos Vampiros, uma comédia divertidissíma, que seria o primeiro dos grandes sucessos de Polanski na América.A dança dos vampiros tem gags antológicas, como a do vampiro gay, talvez a melhor de todas piadas sobre vampiro já feitas ( depois, Neil Jordan faria uma versão séria dessa gag, Entrevista com vampiro, com sua coleção de vampiros gays ou bissexuais, mas convenhamos que como piada a situação é muito mais interessante ).
Brach não acompanhou as seguintes produções de Polanski na América, voltando a trabalhar com o amigo somente no pequeno, pouco conhecido e estranho "Que?" um filme que Polaski faria, num intervalo entre suas grandes produções hollywoodianas como O bebê de Rosemary e Chinatown. "Que?" é uma espécie de Alice no país das maravilhas erótico e o clima de labirinto surrealista mais uma vez se repete aqui.
Em 1976, de volta de sua longa temporada nos EUA, Polanski e Brach se reunem para criar mais uma obra-prima: O inquilino.
O filme é um híbrido de comédia de humor negro e filme de terror, e narra o progressivo enlouquecimento de um jovem tímido ( interpretado pelo próprio Polanski ) que começa a absorver a identidade da antiga moradora do apartamento em que mora, e que havia se suicidado pouco tempo antes. Os vizinhos do prédio formam uma coleção de personagens bizarros, em muito semelhantes aos vizinhos de Rosemary, no edifício Dakota, só que mais aterradores e muito mais engraçados. O inquilino fecharia uma trilogia bolada por Polanski, chamada a trilogia do apartamento, composta por Repulsa ao sexo e Bebê de Rosemary - de fato, os tres filmes têm em comum o cenário principal ser um apartamento, além da temática do enlouquecimento dos personagens e sua filiação ao gênero do terror.
Sempre com Polanski, Brach escreveria também "Tess" ( estrelado por Natassja Kinski no explendor de seus 18 anos, belíssima ), o fracasso "Piratas", uma tentativa de reviver os clássicos de capa e espada, estrelado por Walter Mattaw, seguido pelo hitchcockiano Busca Frenética, estrelado por Harison Ford e que marcaria a estréia de Emmanuelle Seigner, estonteante atriz de formas quase brasileiras, então esposa do diretor, e que se tornaria sua musa, fazendo com ele outros dois filmes, entre eles, o genial Lua de Fel.
Lua de fel é, sem dúvida, o melhor trabalho da dupla Polanski e Brach desde O inquilino.Novamente em cena os temas recorrentes de sexo, morte e loucura.
O humor negro que é marca da dupla, assim como os personagens pervertidos, amorais, estão presentes numa narrativa cheia de flash-backs e mudanças de narrador e de ponto de vista, gerando um instigante jogo de quebra-cabeças, onde verdade e mentira se sucedem e se confundem. Além de Seigner, estão no elenco Peter Coyote, Hugh Grant e Kristin Scoth-Thomas. Lua de fel seria o último trabalho de Brach com Polanski. O fim da parceria com fecho de ouro. Um grande filme, e um roteiro impecável.
Mas a carreira de Brach não está de modo nenhum subordinada à de Polanski.
Paralelamente aos trabalhos realizados com o genial cineasta, Brach escreveu para outros renomados diretores, sendo que o mais recorrente deles foi o francês Jean Jacques Annaud, formando uma parceria tão notável e profíqua como a que mantinha com Polanski.
A nova parceria começa com um dos filmes mais originais já realizados até hoje, o fascinante A Guerra do Fogo. A trama do filme é genial: como forma de se defender de uma tribo mais forte e violenta, um grupo de homens da caverna sai em procura do fogo. Nessa busca, eles cruzam com tribos que vivem diferentes e simultâneos estágios de desenvolvimento, tanto os mais primitivos, presos ainda à uma fase animalesca, e portanto, já em vias de extinção, e os que atingiram precocemente uma fase mais próxima ao que poderíamos chamar de civilização, e que também caminham para a extinção, por conta da decadência em que se encontram. Deste modo, o homem se confronta com seu passado e o seu futuro, e através disso, consegue encontrar os meios de sobreviver. Se historica ou antropologicamente essa trama possa ser questionada, como fantasia, é brilhante.
Em seguida, Brach adaptaria para Annaud o romance de Umberto Eco, O nome da rosa. O filme, que fez uma carreira brilhante, tornando-se um dos maiores sucessos comerciais da carreira de Annaud, é bem inferior ao livro, como entretenimento, mesmo, e a adaptação de certa forma é subserviente ao cinema hollywoodiano, abusando de clichês e do maniqueísmo que de certa forma caracteriza os filmes de ação norte-americanos. Mas nem de longe é um filme ruim, ao contrário, tem grandes méritos. Centrando basicamente na trama investigativa da história de Eco, uma bela homenagem a Sherlock Holmes, o filme se desenrola como um belo filme de detetive, com mistérios, reviravoltas surpreendentes, tipos misteriosos, mulher sedutora e, óbvio, assassinatos. Tudo isso passado dentro de um mosteiro. É um filme divertido, com excelentes atuações de Sean Connery, F. Murray Abraham e de Christian Slater.O filme seguinte de Annaud é "O Urso", estranha e bela fábula cujo protagonista é um urso. Fique bem claro que não é um filme para crianças. É um belo filme, com toques de Jean-Jacques Rousseau em sua reflexão sobre a vida selvagem. Um momento genial do filme é quando o Urso ainda filhote, come cogumelos e vive uma experiência lisérgica.
Em 1992, Brach e Annaud adaptariam o famoso romance de Marguerite Duras, O Amante, de cunho profundamente auto-biográfico, realizando um belo filme, ao mesmo tempo poético e pontuado por um forte erotismo, pleno de cenas de sexo ousadas, protagonizadas por Jane March e Tony Leung. É um filme melancólico, triste até ( como de resto, é a literatura de Duras). O filme conta também com uma bela narração, a cabo de Jeanne Moreau. Este seria o último trabalho da parceria Annaud-Brach.Outro diretor com quem Brach faria bons trabalhos é o russo Andrey Konchalovsky, para quem escreveu o belo "Os amantes de Maria", drama protagonizado por Natassja Kinski, o sumido John Savage e o veterano Robert Mitchum, e que marcou a estréia de Konchalovsky em Hollywood.
Depois, Brach escreveria o roteiro de Shy People, Gente diferente, talvez o melhor trabalho de Konchalovsky no cinema americano, um drama passado nos pantanais da Louisiana, totalmente narrado sob a ótica profundamente feminina, mostrando o conflito entre uma burguesa de Nova York, esclarecida, sofisticada ( vivida por Jill Clayburgh ) e sua prima caipira, obtusa, arcaica, magistralmente interpretada por Barbara Hershey ( premiada em Cannes pela sua performance ) e, num terceiro ponto de vista, a testemunha desse confronto de personalidades e, principalmente, de mundos tão diferentes, ainda que simultâneos, a filha adolescente da mulher da cidade, uma irritante patricinha interpretada por Martha Plimpton ( uma talentosa atriz mirim que desapareceu, depois de adulta).Outro diretor com quem Brach trabalhou bastante é o francês Claude
Berri, para quem, entre outros trabalhos, escreveu a bela saga Jean de Florette, baseado na obra de Marcel Pagnol - drama realizado em duas partes, distintas, Jean de Florette, com Gerárd Depardieu e Yves Montand e a continuação, A vingança de Manon, com Yves Montand e Emanuelle Beart.Brach chegou a dirigir alguns filmes, como Le Bateau sur l´herbe, cujo roteiro foi escrito por Polanski, numa memorável troca de papéis.
Brach morreu em 2006.
(continua).
sábado, 26 de janeiro de 2008
Quem são nossos ídolos ? - a lista (8)

O roteiro, que foi indicado ao Oscar, retrata com perfeição as ambiguidades de Lawrence, inclusive seu discutido homossexualismo, e sua dedicação à emancipação dos povos árabes, em detrimento inclusive dos interesses britânicos, a quem deveria responder, primeiramente. O filme conta com atuações memoráveis do já citado O´Toole, de Omar Sharif ( que depois iria estrelar Dr. Jivago ), Anthony Quinn e Alec Guinness.
A parceria de Bolt com Lean rendeu também o não menos grandioso Dr. Jivago, adaptação do famoso romance de Boris Pasternak, pelo qual ganhou seu primeiro Oscar como roteirista.
Bolt escreveu também A filha de Ryan, um belo filme de Lean, mas meio subestimado ( talvez por ser menos grandioso que os anteriores, em termos de produção ). Novamente presente aqui a temática do drama indivídual em meio a um conturbado processo histórico, no caso, um romance adúltero que ocorre em meio à revolução irlandesa. Sendo que a esposa trai o marido irlandês com um oficial britânico, o que acirra ainda mais o conflito, pois ela não só está traindo o esposo, mas toda a causa revolucionária e patriótica. O filme traz excelentes atuações de Sarah Miles, Robert Mitchum e Trevor Howard.
Bolt ganharia seu segundo Oscar por O homem que não vendeu sua alma, adaptado de sua própria e prestigiada peça teatral, The man for all seasons, dirigida pelo grande diretor Fred Zinnemann. Baseado na história real de sir Thomas Moore, que era o conselheiro e preferido do rei Henrique VIII mas que acabou decapitado por se recusar a renunciar ao catolicismo e endossar o divórcio do rei, que queria se casar com Ana Bolena ( que depois, já casada e rainha, seria decapitada, também, para permitir um novo casamento de Henrique, mas isso é outra história e outro filme, "Ana dos mil dias"), o filme ganhou, além do já citado Oscar de roteiro, outros cinco Oscars. É um belo drama histórico, que de vez em quando passa de madrugada na televisão.
Seu último trabalho como roteirista foi A Missão,dirigido por Rolland Joffé, belo drama ambientado nas "missões" jesuíticas no sudoeste brasileiro - e que de certa forma busca repetir a fórmula de Lean, grandes produções baseadas em fatos históricos que na verdade não passam de filmes intimistas, sobre o drama de consciência de homens em meio a importantes processos históricos. E deu certo pois, além de ser um belo filme, foi premiado com a Palma de Ouro, em Cannes.
O outro nome indispensável numa lista de grandes roteiristas é o norte-americano Robert Towne, também diretor.
roteiro, Chinatown, dirigido por Roman Polansky, magistral homenagem ao cinema noir e que lhe rendeu o Oscar de roteiro original.
Tendo participado do roteiro do clássico de Arthur Penn, Uma rajada de balas - Bonnie e Clyde, sem entretanto ser creditado por este trabalho ( o roteiro é oficialmente atribuido a Robert Benton e David Newman), Towne começa a ser reconhecido como um roteirista "sério" e promissor.
É quando escreve o roteiro do filme de Hal Ashby, A Última missão, comédia dramática estrelada por seu chapa Nicholson. A Última Missão lhe valeu uma indicação para o Oscar e com isso, uma valorização imediata de seu trabalho. (Aliás, abrindo um parentesis, Hal Ashby é um grande diretor norte-americano que anda esquecido, atualmente, apesar de ter feito grandes sucessos como este A última missão, Harold e Maude, Essa terra é minha terra, Amargo Regresso e Muito Além do Jardim. Vou falar dele, numa próxima postagem ).
Depois de Chinatown, Towne escreveria a comédia romântica Shampoo, nova parceria com Hal Ashby, que estrelada e produzida por Warren Beatty, que também assina o roteiro. Novamente, Towne foi indicado ao Oscar, por este trabalho.
O sucesso como roteirista levou Towne para a direção. Seu primeiro filme é As parceiras, drama baseado em fatos reais, sobre a equipe de atletismo feminino norte-americano nas olímpiadas de 1980, em Los Angeles, envolvendo lesbianismo, cenas de sexo soft, etc. O filme foi estrelado por Mariel Hemingway, então estrela em ascensão em Hollywood.
Em 1990, escreve a esperada sequência de Chinatown, chamada A chave do enigma ( the Two jakes ), que almeja dirigir.
Towne segue escrevendo e dirigindo. Trabalha mais uma vez com seu parceiro de Chinatown, Pollansky, no triller "Busca Frenética", mas mais uma vez seu nome não entra nos créditos. Ao mesmo tempo que estabelece uma parceria com Tom Cruise, escrevendo os roteiros de Dias de trovão, A firma, Missão Impossível I e II, dirige os filmes Prova de Fogo, mais um drama ambientado no mundo do atletismo e mais uma vez mal recebido pela crítica, voltando a escrever com seu amigo Waren Beatty o filme "Amor sem limites", refilmagem de Tarde Demais para esquecer, estrelado por Beatty e sua esposa, Annette Bening.
Sua mais recente obra como diretor foi a adaptação da obra de John Fante, Pergunte ao Pó, estrelado por Salma Hayek e Collin Farrell, que dividiu opinões: alguns adoraram o filme, enquanto outros, talvez leitores do romance de Fante, odiaram.sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

She took his dinner in to him once. Me mum, in the pub, and plonked it in front of him on a tray. Knife and fork, salt and pepper. He said, "What's that?" She said, "It's your dinner. I thought you might be hungry. You ain't eaten for three fucking days. You live in here, you might as well fucking eat in here." It's funny. He didn't like that, did he? Mugged him up in front of his mates. Thought more of them cunts than he did us. Lovely. Yeah. She got a clump over that. Well, she would, wouldn't she? He was always pissed in there, weren't he? You know? We go in the pub to get our living, you know? That's where we do our business. He'd be there spunking out while we're sitting at home without a dinar, you know, thank you. And he'd promise things. You know? Promise to take us places, you know? Never did. Never took us anywhere. And when he did bother to come home he'd sit in that fucking chair, doss off with his tray in his lap. And I'd just stand there looking at him. I'd look in his face, and my mother'd go upstairs, and I'd say, "Say, Mum, ain't Daddy coming to bed?" And she'd say, "No. No, he's all right, son. He'll come up when he wakes up." He's gotta wake up to go to bed! Now, I'd stand there looking at this fucking old man, you know, my dad, you know, in that chair, that horrible fucking chair with the shiny, worn-out arms. I should've burnt the fucking thing. By the end he was hemorrhaging from both ends, you know? I used to hear him in the morning hanging on to the kharzi. It was lovely. Never stopped him going to the pub, though. No, he was well enough to do that. Now, one day, right, he's staggering across the pub pissed from the night before. He's gone over, crunch, right on his mooey, like a fucking ironing board. His hooter's around here, his railings all over the fucking place. Me and me mum had to go the hospital to see him. We walked in. He's laying in bed. He's got tubes up his arms, fucking up his nose, down the back of his Gregory. He didn't look well. Fucking vodka was keeping him alive. Well, I ain't that interested, so I'm having a little mooch about, you know. I looked above his bed, and there's this sign, right, with some weird writing on it. I couldn't read too well at the time. I said to my mum, "Mum, what's that say? You know, that sign above Daddy's head." All right? She said, "Nil by mouth." "What's that, a football score?" One-nil, three-nil, two-nil, a geezer called fucking Nil. Yeah. I said, "Well, what's it mean?" She said, "It means...”
Mark
It means nothing to eat.
Ray
Yeah, nothing down the... [points into his mouth]
Mark
Nothing down the... Yeah.
Ray
Yeah, all right. I remembered that day, because I could've put that on his fucking tombstone, you know? Because I don't remember one kiss, you know, one cuddle. Nothing. I mean, plenty went down, not a lot came out, you know, nothing that was any fucking good. And I'd look at this man that I call Dad, you know? My father, I knew him as Dad. He was my fucking dad but he weren't like other kids' dads, you know? It was as if the word itself were enough, and it ain't.
Mark
That ain't when he died though, is it?
Ray
No. He lived another ten years, slippery old cunt. He died one afternoon in that fucking armchair. About right. I went around to see him, you know, when he was plotted up at me mother's.
Mark
Hatcham Road?
Ray
Yeah, Hatcham Road. He was upstairs in that front bedroom. Laid out.
Mark
Free.
Ray
Yeah. Yeah. I've gone up there, gone in. I'm sitting on the bed looking at him. He's laying there like... Mullered. And it was like he'd shrunk, you know? He was a big man.
Mark
He was a lump.
Ray
Yeah. You should know. You got enough clumps off the cunt. (sighs) And I just touched him, you know? He was fucking freezing cold. It frightened the life out of me. I was looking at him, you know? For the first time in my life, I talked to him. I said, "Why didn't you ever love me?"
quinta-feira, 24 de janeiro de 2008
Quem são nossos ídolos? - A lista (7)
Mas, quem me obriga a ser objetivo? Aqui é apenas e tão somente um espaço onde expresso meu particular ponto de vista - ou simplesmente, onde jogo conversa fora. No mais, a opinião que tenho sobre o Durán é partilhada por quase a totalidade dos roteiristas. É um verdadeiro mestre.Penso que devemos sempre ter a obra do Durán como referência ao encarar nosso trabalho. Não que ele acerte sempre. Pelo contrário, às vezes ele erra e feio. Mas é justamente essa experiência, que acumula títulos históricos e fundamentais entre os acertos, e alguns deslizes em filmes no todo infelizes, que faz de Duran o grande roteirista que é.
Chileno, Durán estudou teatro, tendo começado a vida como ator. Depois começou
a trabalhar em cinema, como assistente de direção. Trabalhou com o famoso diretor greco-francês Costa-Gravas, em "Estado de Sítio", filmado no Chile. Parece que eles se deram super-bem. Tanto que o Durán ganhou de Costa-Gravas dois presentes: um visor de diretor ( view-finder ) com uma carinhosa dedicatória, impressa no aparelho e o plano final do filme ( é quase uma aparição, Duran surge como um guerrilheiro tupamaro remanescente, após a repressão, de modo a dizer que a luta continuaria ). Nessa época, Durán começa a escrever seus primeiros roteiros, que no entanto, não conseguirá ver filmados. Em 1973, o presidente socialista Salvador Allende seria derrubado por um golpe militar, com a intalação de uma das mais cruéis e sangrentas ( e longevas ) ditaduras do continente, comandada pelo famigerado Pinochet. Como a vida sob a ditadura ficou intolerável, Duran veio ganhar a vida no Brasil. A fama de ter sido assistente do Costa-Gravas lhe abriu as portas, e ele trabalhou com Jabor, Cacá Diegues, Bruno Barreto, Ruy Guerra, ou seja, como a nata do cinema brasileiro dos anos 70. Mas seu encontro com Hector Babenco, com quem trabalhou em "O rei da noite" ( primeiro longa de Babenco), iria marcar sua transição de assistente de direção para roteirista. Com e para Babenco escreve o roteiro de "Lúcio Flávio, o passageiro da agonia", a partir do romance reportagem do escritor, jornalista e também roteirista José Louzeiro ( que co-assina o roteiro ). Seria seu primeiro sucesso.
Os convites começaram a aparecer.Ele escreve para Tizuka Yamazaki o roteiro de Gaijin, os caminhos da liberdade, com o qual a diretora estrearia.
Saga da imigração japonesa para o Brasil, no começo do século, inspirado na história pessoal de Tizuka, Gaijin é um belo filme, e o roteiro do Durán é sem dúvida um dos grandes responsáveis pela qualidade do filme. Um dos grandes momentos do filme é quando o peão nordestino ( interpretado com o talento de sempre por Zé Dumont), igualmente migrante, tenta ensinar o português ( ou seria mais apropriado, o "brasileiro" ) aos japoneses. Cena em que humor e lirismo se conjugam, com maestria.
Em seguida, e de novo com Babenco, a partir de um romance-reportagem de José Louzeiro, Duran faria aquele que seria considerado o seu melhor roteiro ( ou pelo menos, o trabalho com o qual até hoje é conhecido ) Pixote, a lei do mais fraco.
Em Pixote, estão delineadas todas as características dos trabalhos de Duran: a sua aguçada sensibilidade social, seus personagens duros, agressivos, provocadores, uma simpatia evidente pelos outsiders, pelo marginal, pelo errado ( como contraponto do que a sociedade, ou mais corretamente, o status quo considera correto ), o realismo que não abre brechas para nenhuma possibilidade melodramática ou piegas, e, ao mesmo tempo, uma capacidade de fazer poesia com situações e personagens tão avessos ao lirismo. E claro, dentro da medida do possível, o humor, com o qual Duran sempre pincela seus trabalhos. O filme foi um dos maiores sucessos do cinema brasileiro, e alavancou a carreira de Babenco no cinema hollywoodiano. E obviamente consolidou o nome do Durán como roteirista.
É desse período tambem que escreve, e novamente para Babenco, a adaptação da famosa peça do escritor argentino Manuel Puig, O beijo da Mulher-Aranha. Mas depois o filme tornou-se uma co-produção internacional, o o roteiro foi reescrito e assinado unicamente por Leonard Schrader ( irmão do Paul, já falamos nele em outra postagem).Se não me engano, Durán foi creditado como "adaptação literária", seja lá o que isso signifique.
Paralelamente ao trabalho como roteirista, começou a fazer também produção de filmes, visando a direção. Dirigiu um filme, O Escolhido de Yemanjá, para Jece Valadão, que acabou não sendo lançado comercialmente ( creio que recentemente foi exibido na televisão )
Até que em 1986 consegue dirigir seu primeiro longa-metragem, A cor do seu destino, que amealhou uma infinidade de prêmios e teve uma recepção muito boa da crítica, e uma razoável carreira comercial ( razoável para as bases do cinema brasileiro nos anos 80, os 150 mil expectadores que fez podia ser pouco naquela época, hoje seria uma das maiores bilheterias nacionais, pra se ter uma idéia de quanto perdemos, do Collor para cá... ). Mas o sucesso de "A cor do seu destino", ao contrário do que se esperava, não alavancou sua carreira como diretor. Os tempos estavam mudando, naquele final da década de 80, e para pior. A eleição do Collor e o subsequente desmonte de toda estrutura que subsidiava a produção nacional literalmente acabaram com o cinema brasileiro. Para se ter uma idéia da crise, basta pensar que a média de 100 filmes produzidos anualmente no Brasil, nos anos 70 e 80, caiu para tres títulos, em 1991.
As carreiras refluiram, os profissionais tiveram que buscar outros meios de sobrevivência. As coisas começaram a melhorar, na metade da década de 90. Mas Durán teve que adiar seu retorno à direção, seguindo escrevendo, tendo feito entre outros, o roteiro do polêmico Como Nascem os anjos, novamente para Murilo Salles, "Fica Comigo" ( uma bomba, certamente o pior filme da Tizuka Yamazaki e o momento mais infeliz da carreira do Duran ), "Uma onda no ar"( para Helvécio Ratton), além de escrever roteiros para dois jovens diretores latinos, "Last Call", da chilena Christine Lucas e "Mi mejor enemigo", do argentino Alex Bowen.Finalmente, em 2007, exatamente 20 anos depois de "A cor de seu destino",
retorna com o emocionante Proibido Proibir, que como o primeiro, falava de jovens, seus sonhos, ansiedades, perplexidades. Ao mesmo tempo, com uma forte crítica social e um poderoso discurso político e moral, que ademais, é marca dos roteiros do Durán.O fato de ser chileno o faz ver o Brasil melhor do que muito brasileiro. Melhor, de forma mais crítica, mas ao mesmo tempo, sempre apaixonada.
Da mesma forma que A cor..., Proibido Proibir amealhou dezenas de prêmios em diversos festivais, obteve uma excelente resposta da crítica, mas não fez uma carreira comercial tão boa. Mas felizmente, o sucesso agora obteve uma resposta mais rápida: Durán já prepara seu novo longa como diretor, "Gabriel".
Mas Duran continua escrevendo, e entre seus trabalhos como roteirista mais recentes, está a boa adaptação do conto de Cortazar, Jogo Subterrâneo, dirigido por Roberto Gervitz. Também é muito solicitado como "script doctor", participando de diversos work-shops de roteiro no Brasil e no exterior.E paralelamente às suas atividades como roteirista e diretor, Durán segue dando aulas.
Tenho certeza de que, dos alunos que passaram e passarão por suas mãos ( "a mão do mestre", piada que corre à boca miúda entre nós, demais roteristas ) sairão futuros grandes roteiristas.
terça-feira, 22 de janeiro de 2008
Quem são nossos ídolos? - a lista (6)

Dentre seus primeiros trabalhos, chama destaque a adaptação para cinema do romance noir de James M. Cain, "O destino bate a sua porta" ( que já havia sido adaptado algumas vezes antes, uma dirigida por Luchino Visconti, com o nome de Ossessione, em 1943 e outra, na década de 50, com a bomb-shell Lana Turner e John Garfield). Esta versão é famosa pela tórrida cena de amor na mesa, entre Jack Nicholson e a então estonteante Jessica Lange. O filme foi dirigido por Bob Rafelson, e fez grande sucesso. Depois escreveu o drama de tribunal, O Veredicto, de Sidney Lumet, com Paul Newman e que lhe valeu sua primeira indicação ao Oscar como roteirista.
Mas talvez o grande trabalho de Mamet como roteirista seja Os Intocáveis, de Brian de Palma. O filme grandioso, tem um roteiro a àltura das elucubrações cinematográficas de de Palma, com suas famosas citações ( a cena do tiroteio na Estação de trem citando o Encouraçado Potemkin é brilhante ) e ao mesmo tempo, com rigor narrativo e dramatúrgico pouco visto nos demais filmes de de Palma ( sabidamente um cineasta que usa as tramas como pretexto para criar climas e exercícios estilísticos, num virtuosismo genial ). Partindo do antigo seriado de televisão de mesmo nome, que por sua vez, era inspirado na real força-tareda policial que botou Al Capone atrás das grades, Mamet habilmente soube dosar o protagonismo de Ness com seus companheiros, criando personagens diferentes, humanos, distintos, cada um a sua maneira possuindo um grande momento solo. Eliott Ness seria o idealista, puro e deslocado da realidade ( papel sob medida pro jeitão de bom moço de Kevin Costner ), Jim Malone ( brilhantemente interpretado por Sean Connery, justamente premiado com o Oscar de melhor ator coadjuvante ), o policial irlandês durão, que não reluta em meter a mão na podridão representaria o senso comum, que transforma em prática o que a teoria de Ness não consegue materializar, George Stone ( Andy Garcia), seria a juventude, com seu voluntarismo e alguma irresponsabilidade, cujo processo no final irá amadurecer e Oscar Wallace (interpretado pelo dublé de ator e escritor Charles Martin-Smith, autor de vários romances policiais, como O Assassinato na rua Gorki ) seria o homem comum, destituído de músculos, pontaria ou qualquer outro atributo especial, mas por isso mesmo, tão ou mais heróico quanto os demais. Mais que personagens, são arquétipos- mas não de heróis, e sim de homens, de gente como a gente ( pelo menos, como a gente americana).
Entre os roteiros que escreveu profissionalmente estão "Hoffa - o homem, a lenda", de Danny de Vito, "Ronin", de John Frankenheimer, "Mera Coincidência", de Barry Levinson ( nova indicação ao Oscar ). Mas mesmo um roteirista de talento como Mamet não conseguiu escapar do fiasco na adaptação da "bomba" Hannibal, sequência estúpida e desnecessária do grande triller de Jonathan Demme, O Silêncio dos Inocentes, produzida e dirigida pelo cada vez mais mão pesada Ridley Scoth. Estranhamente, este filme Mamet assinou, ao contrário de Ronin, onde utilizou um pseudônimo. Será que ele não considera o roteiro tão ruim? Nem a constrangedora sequência de Ray Liotta comendo os próprios miolos ( de um humor involuntário, parece até um pastiche de Tarantino ).
Alguns de seus textos teatrais foram levados para as telas, por outros diretores, como Sobre ontem à noite, adaptação de Perversidades sexuais de Chicago ( montada aqui no Brasil com Paulo Betti e José Mayer no elenco ), que fez grande sucesso nos anos 80, principalmente pelo público mais jovem, pois contava com dois jovens astros então em plena ascensão, o hoje sumido Rob Lowe e a ainda não siliconada Demi Moore.
Outros filmes de Mamet que merecem ser vistos e estudados: A trapaça, O cadete Winslow, Spartan, a comédia sobre o fazer filmes State & Main, estupidamente batizada no Brasil como "Deu a louca nos astros" ( há uma irritante preguiça mental nos distribuidores brasileiros, que vem abusando da expressão "deu a louca", roubada de uma velha comédia pastelão dos anos 60, "Deu a louca no mundo", para renomear os filmes, gerando uma enxurrada de comédias iniciadas como a já batida expressão, como "Deu a louca no chapeuzinho vermelho", "Deu a louca na cinderela", etc, não havendo nada em comum entre os filmes, além de serem comédias ) e principalmente, o triller O assalto, pouco badalado mas excelente exercício de Mamet no gênero do suspense ( mais especificamente, no subgênero 'filme de assalto', modalidade de filme de suspense iniciada com o Segredo das Jóias, de John Huston, e que tem como um dos paradigmas o Grande Golpe, de Kubrick ) contando com atuações espetaculares de Gene Hackman, Delroy Lindo, Danny de Vito, Sam Rockwell e pela senhora Mamet, a atriz Rebecca Pigeon.
Outro nome que devemos ter em mente, e que é egresso do teatro, é o grande dramaturgo Paddy Chayefsky. Curiosamente, sua obra no cinema é relativamente pequena, uma vez que sua produção áudio-visual majoritariamente se concentraria na televisão americana, na qual trabalhou grande parte de sua vida.
Tanto que seu primeiro roteiro é uma adaptação para o cinema de uma telepeça sua, chamada Marty, que falava das agruras de um açougueiro italo-americano desajeitado e tímido, feio mesmo, solteirão que ainda vive com a mãe superprotetora, interpretado por Ernest Borgnine ( que merecidamente ganhou o Oscar de melhor ator ). Um personagem e uma temática que nada tinha a ver com o cinema americano até então.Marty, um melodrama com algum humor, ainda que amargo, foi dirigido por Delbert Mann ( também oriundo da televisão, e que dirigiria outros dois roteiros de Paddy, Despedida de solteiro e Crepúsculo de uma paixão, com Kim Novak ), e Chayefsky foi premiado com o Oscar de melhor roteiro( Marty ganhou também o Oscar de melhor filme e também a Palma de Ouro em Cannes).
O terceiro viria com Rede de Intrigas. Dirigido Sidney Lumet, grande diretor americano também egresso da televisão, e parceiro de Paddy em diversas ocasiões, Rede de Intrigas é um dos melhores filmes americanos de todos os tempos. Ganhador de vários Oscars, além do já citado de melhor roteiro, é uma espécie de raio X amargurado e devastador das entranhas podres das grandes redes de televisão, e seria posteriormente muito imitado, tanto no cinema como em filmes como Nos bastidores da Notícia ( James L. Brooks ), Quarto Poder (Costa Gravas), ou em seriados como the 3rd rock, etc.
O último trabalho de Chayefsky é o estranho Viagens Alucinantes, dirigido por Ken Russel, e estrelado por William Hurt no comecinho de carreira. Baseado num romance de sua autoria, Viagens Alucinantes em tese é um filme de ficção-científica, mas pode ser muito bem interpretado como uma crônica sobre os efeitos das drogas alucínogenas na mente humana. Aliás, é este o enfoque dado ao roteiro pelo diretor inglês Russel, outrora famoso por seus ensadecidos musicais como as óperas rock Tommy, Liztomania ou os barrocos Os demônios (refilmagem do clássico polonês, Madre Joana dos Anjos ) ou Delírio de Amor ( cinebiografia sobre Tchaikovski ) e que neste Viagens Alucinantes fez seu último filme interessante. segunda-feira, 21 de janeiro de 2008
Gil (1)

Leio alhures, na internet:
"(...) Na SPFW, a mais importante semana de moda do País, Gilberto Gil fez uma palestra/coletiva sobre a moda e a economia da cultura. Comparou a indústria brasileira da moda à Amazônia e seu "potencial não completamente realizado".(...)
Perto de terminar a sessão de perguntas, uma repórter pediu ao ministro para definir a moda. Gil ponderou: "Não defino, a moda é plural". Para ilustrar, recordou sua roupa na passagem de som, três dias antes, no Festival de Verão de Salvador.
- Fui para o ensaio com uma calça muito usada pelos meninos do Ilê Aiyê, na Bahia. É a calça do dia de minha iniciação no Opô Afonjá (terreiro de Candomblé em Salvador). Me sinto bem com ela, e tenho outras duas. Minha moda é assim: da calça do Ilê a esse terno Prada aqui...
A bancada dos jornalistas abandonou a sobriedade e se entusiasmou ao ouvir a palavra "Prada". Gritos e aplausos. "Uh-hu, uh-hu!". Gil voltou ao microfone:
- Ah, é? Vocês só gritam "uh-hu" quando eu falo no terno Prada? Não vi a mesma reação com a minha calça. Essa é uma mentalidade colonizada que precisamos superar. Prada não é mais elegante que um turbante do Ilê Aiyê!" (...)
É por essas e outras que eu admiro sinceramente o ministro da cultura Gilberto Gil.
Não à toa um dos mais atuantes do governo Lula.
tourinho
sábado, 19 de janeiro de 2008
Quem são nossos ídolos? - a lista (5)
Este incrível diretor e roteirista ( ao centro, na foto, ao lado de seu irmão, também roteirista, Leonard, de bigode ) é um personagem fascinante: até os 18 anos de idade, nunca tinha posto os pés num cinema ou sequer visto um filme ( o primeiro que viu foi "Anatomia de um crime", de Otto Premminger, que certamente deve ter sido sua epifania, se bem que Schrader cita como suas referências o escritor Dostoievski e o cineasta francês Robert Bresson).
Basta pegarmos dois de seus principais roteiros: Taxi Driver e Touro Indomável, ambos com o diretor Martin Scorsese, de quem Schrader foi parceiro durante muito tempo. Em ambos vemos personagens transitando numa espécie de limbo moral, na fronteira tênue da loucura e da sanidade, homens que progressiva e conscientemente se transformam em monstros.
Aliás, esta metamorfose de homens em bestas, que poderíamos considerar a premissa básica de seu trabalho, seria trabalhada de forma explícita num dos primeiros filmes de Schrader como diretor, A Marca da Pantera, refilmagem mais sexista e violenta de "Sangue da Pantera", um clássico do cinema B de Jacques Tourneur , onde a bela Natassja Kinski sofre de uma maldição que a transforma literalmente numa pantera.
Além da parceria com Scorsese, Schrader escreveu também "Trágica Obsessão", um bom de Brian de Palma pouco conhecido ou lembrado, "Operação Yakuza", de Sidney Pollack, "A outra face da violência", de John Flynn ( um dos filmes prediletos de Quentin Tarantino e,possivelmente, do qual ele mais copia, ops, cita em suas "originais" produções ), escreveu um dos tratamentos de "Contatos Imediatos de Terceiro Grau", de Spielberg ( recusado pelo diretor por conta do acentuado viés religioso que Schrader imprimiu à trama ), "A costa do Mosquito", talvez o melhor filme de Peter Weir, com atuações magníficas e surpreendentes de Harrison Ford, Helen Mirren e do precocemente falecido River Phoenix, e "Cith Hall - bastidores do poder", de Harold Becker, com Al Pacino e John Cusak.
Em 1984, Schrader viria a realizar um dos mais inteligentes filmes da década, e com certeza seu melhor filme, Mishima - uma vida em quatro tempos, baseado na vida e obra do escritor japonês Yukio Mishima, em que mais uma vez a premissa da transformação de homem em monstro está presente, além dos temas recorrentes rigidez moral, vida pecaminosa, redenção e sacrifício. Mishima, escritor sensível e homossexual atormentado com sua própria sexualidade, acaba superando os preconceitos e a rejeição, transformando-se de homem franzino num musculoso "samurai", moldado em academias de malhação e adotando uma ideologia militarizada e fascistizante, em detrimento aos seus primeiros anos de esquerdista, formando uma espécie de milícia cujo objetivo era resgatar a glória do Japão pré-guerra mundial e que acabou praticando haraquiri após um fracassado ataque ao parlamento japonês. É um belo, forte e mágico filme, com um roteiro ousado e moderno, cheio de flash-backs e alternando a vida real de Mishima com a encenação de trechos de suas obras, um verdadeiro mosaico narrativo, com a(s) história(s) sendo contada(s) em camadas alternadas, paralelas, em diferentes perspectivas.
Ainda nos anos 80, seu período mais inspirado como diretor, Schrader faria o provocador "O Sequestro de Patty Hearst", que registra a transformação da herdeira do magnata da imprensa Willian Hearst ( em quem Orson Welles se inspirou para criar seu Cidadão Kane ) em guerrilheira e assaltante de bancos, sob o comando do Exército Simbionês de Libertação, justamente por quem fora sequestrada ( mais uma vez presente a temática da transformação de homem em fera ).
É neste período que realiza também o ótimo "O dono da noite", história de um traficante viciado em heroína, que é um angustiante mergulho no mundo das drogas. Schrader considera este seu melhor filme. É um filme sufocante, neurótico, com interpretações eletrizantes de Willen Dafoe e Susan Sarandon. Altamente recomendado, nesses tempos de "Meu nome não é Johnny".
Recentemente, parece ter retomado as rédeas da própria carreira, realizando filmes interessantes "Temporada de caça" ( que concorreu a vários Oscars, ganhando o de melhor coadjuvante para James Corburn ) e, principalmente, em "Auto-focus", cinebiografia do ator Bob Crane, famoso pelo seriado cômico Guerra, Sombra e Água Fresca, deliciosa sátira aos campos de concentração ( inspirado em "Inferno 17" de Billy Wilder que, por sua vez, era inspirado em "A Grande Ilusão", de Jean Renoir - de ambos falaremos mais tarde), que depois enveredou pela indústria de vídeos pornôs, filmando suas próprias experiências sexuais. Isso numa época em que o home video ainda era uma novidade, sendo um dos pioneiros (podemos chamá-lo assim ) da exploração do sexo para exibição privada e doméstica. Crane era viciado em sexo, levava uma vida dividida: em casa era excelente marido e pai de família, mas fora era um sátiro sedento por sexo, de preferência o mais pervertido. No final da vida, solitário, falido, fracassado, foi encontrado morto ( suicídio? assassinato? ) num quarto de um hotel vagabundo do Arizona. Temática e personagem típicos de Schrader.Momento poético em tempos de dureza (5)
Não está moleza não
E quem não fica dormindo de touca
Já sabe da situação
Eu sei que dói no coração
Falar do jeito que falei
Dizer que o pior aconteceu
Pode guardar as panelas
Que hoje o dinheiro não deu

Dei pinote adoidado
Pedindo emprestado e ninguém emprestou
Fui no seu Malaquias
Querendo fiado mas ele negou
Meu ordenado apertado, coitado, engraçado
Desapareceu
Fui apelar pro cavalo, joguei na cabeça
Mas ele não deu
Você sabe que a maré
Não está moleza não
E quem não fica dormindo de touca
Já sabe da situação
Eu sei que dói no coração
Falar do jeito que falei
Dizer que o pior aconteceu
Pode guardar as panelas
Que hoje o dinheiro não deu
Para encher a nossa panela, comadre
Eu não sei como vai ser
Já corri ora todo lado
Fiz aquilo que deu pra fazer
Esperar por um milagre
Pra ver se resolve essa situação
Minha fé já balançou
Eu não quero sofrer outra decepção"
Pode guardar as panelas, de Paulinho da Viola (1979)
quinta-feira, 17 de janeiro de 2008
Coisas que eu gosto ( de ver ) 6:

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008
Quem são nossos ídolos? - a lista (4)
Não somente uma mulher que escreve mas, sem exageros, se formos analisar sua obra, talvez a melhor de todos ( vejam bem, de todos, e não de todas ) roteiristas: Suso Cechi d´Amico.
Parceira constante e preferida de Luchino Visconti ( com ela, à esquerda na foto ) e também de Mario Monicelli , tendo trabalhado também com Vittorio de Sica, Francesco Rosi, Zeffirelli e Antonionni, Suso d´Amico é roteirista de alguns dos maiores filmes da história do cinema mundial.E com certeza uma das mais profílicas, estando em atividade há seis décadas.
Suso d´Amico colaborou com o grande Cesare Zavattini em
Ladrões de bicicleta e Milagre em Milão, ambos de de Sica e também em Belissíma, de Visconti.A partir desse filme, trava uma longa parceria com Visconti, escrevendo alguns de mais importantes filmes do grande mestre do cinema italiano, como Senso, Noites Brancas, O Estrangeiro, Rocco e seus irmãos, Vagas estrelas da Ursa Maior, O Leopardo, Ludwig, O inocente.
É também parceira frequente do grande Mario Monicelli com e para quem escreveu alguma de suas mais deliciosas comédias, como Os eternos desconhecidos, que uso frquentemente nas minhas aulas como modelo brilhante para a escritura de uma comédia ( foi recentemente filmada uma versão hollywoodiana desse filme, com Sam Rockwell no papel que fora de Vittorio Gassman, Willian H. Macy no de Marcelo Mastroianni, George Clooney etc ), Mortadela, Tomara que seja mulher, As duas vidas de Mattia Pascal ( baseado na obra de Pirandello ), Caros e F... amigos, Parente é serpente, A rosa do deserto, entre outros.Sendo parceira de Visconti, acabou trabalhando também com aqueles que foram assistentes de direção do grande mestre, Frascesco Rosi e Franco Zeffirelli.
Com Rosi escreveu, entre outros, o clássico O bandido Giuliano.
Já com Zeffirelli sua parceria é mais extensa, tendo escrito boa parte de seus filmes mais conhecidos, como A megera domada ( adaptação hollywoodiana da peça de Shakespeare, com Richard Burton e Elizabeth Taylor ), Irmão Sol, irmã Lua ( baseado nas vidas de São Francisco de Assis e Santa Clara, sem dúvida o melhor filme do Zeffirelli, ou, segundo as más línguas, o único que presta ) e Jesus de Nazaré.Para Antonioni escreveu, entre outros, As Amigas.
Além destes, colaborou no roteiro de A princesa e o plebeu, de Willian Wyller, de Caravaggio de Derek Jarman e trabalhou no delicado filme de Nikita Mikhalkov, Olhos Negros, inspirado no conto de Tchecov, "A dama do cachorrinho". Mais recentemente, ela escreveu o roteiro do maravilhoso documentário de Martin Scorsese, "Minha viagem à Itália".
Aos 93 anos, Suso d´Amico continua atuando no cinema, escrevendo e dando aulas de roteiro.É um nome que todo roteirista ou aspirante deve ter em mente, como referência ( e como "estojo de primeiros socorros", toda vez que se deparar com um roteiro que não funciona ).
(continua)
domingo, 6 de janeiro de 2008
coisas que eu gosto ( de ouvir ) 7:

sábado, 5 de janeiro de 2008
Quem são nossos ídolos? - a lista (3)

Mas o principal roteiro de Milius é, sem dúvida, Apocalipse Now, de Coppola. Adaptação livre de romance de Joseph Conrad, transposto das selvas da Africa no período de colonialismo inglês para a Guerra do Vietnã, é um roteiro inteligente e exemplo do que considero uma boa "adaptação literária" - onde deve valer menos o que foi escrito e mais o que se lê. O roteiro de Milius contém o essencial do romance de Conrad, mas ao mesmo tempo, é uma obra original.
O vento e o leão, espetacular mistura de filme de aventura com drama político ( em tempos de guerra do Iraque e de histeria anti-muçulmana, é um filme que merecia ser revisto por mostrar como, há mais de cem anos, os EUA não mede esforços para impôr ao mundo seus interesses politicos e economicos) e, claro, Conan, o bárbaro ( este em parceria com o então roteirista Oliver Stone), adaptação da saga do brucutu cimério criado por Robert E. Howard e popularizado pelos quadrinhos da Marvel -filme que alavancou a carreira do hoje governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger. Milius também é produtor da série Roma.
Não sei se em tom de blague, ou se por opção política verdadeira.
não só pela qualidade que distância um filme do outro, mas pela visão do Brasil que os dois filmes apresentam. Enquanto que em Bye-bye Brasil há um olhar crítico e mesmo desencantado com o Brasil real, o Brasil profundo, não tocado pelo progresso, pela assim chamada "civilização", em Beladona o tom é folclorizante, condescendente, o que vai as telas é uma sucessão de cartões postais turísticos de beleza edulcorada. Claro que o roteirista não é culpado pelo filme que o diretor faz, muito menos do que gostaria de fazer. Muita coisa se perde no processo de transposição do que está no papel para a pelicula. Obviamente, no caso de Bye-bye Brasil, Serran estava trabalhando com um Cacá Diegues no melhor momento de sua carreira, enquanto que em Beladona, o que se buscava era evidentemente um produto de linha comercial menos criteriosa de Luis Carlos Barreto, já numa fase decadente de sua exultosa carreira de produtor ( lembrando que Bye-bye Brasil também foi produzido pelo Barretão ). 
quinta-feira, 3 de janeiro de 2008
terça-feira, 1 de janeiro de 2008
Quem são nossos ídolos? - a lista (2)
Dos grandes roteiristas que devemos tomar como referência há um que durante muito tempo foi uma espécie de "meu guru": Cesare Zavattini.Escritor, poeta, teórico do cinema, professor, diretor e um dos ideólogos do "neo-realismo italiano". Sua parceria com Vittorio de Sica ( à direita, na foto ) produziu alguns dos melhores e mais tocantes filmes de todos os tempos. Ladrões de bicicleta, Umberto D, Milagre em Milão, ícones do movimento cinematográfico italiano que inverteu a lógica do cinema-espetáculo e que até hoje inspira cineastas do mundo inteiro.
Zavattini era um humanista e seu cinema visava trazer para as telas o homem comum, o operário, pessoas simples das quais os pequenos sofrimentos e alegrias eram a matéria-prima para uma nova dramaturgia.
Para ele, o grande filme seria aquele que registrasse, sem alardes ou truques narrativos, o dia na vida de um homem comum, insignificante até.

Quando o neo-realismo começa a perder sua força, ao final dos anos 50, Zavattini escreveu roteiros mais convencionais, e sempre com seu parceiro de Sica fez Duas Mulheres ( La Ciociara, baseado em romance de Alberto Moravia ), Ontem, Hoje e Amanhã ( onde há a famosa cena do streap-tease de Sophia Loren para um aparvalhado Marcelo Mastroianni, cena que seria repetida quase na integra, pelos mesmos atores, 40 anos, por Robert Altman em Pret-à-porter ), o Jardim dos Finzi-Contini, Os girassóis da Rússia.
Além de de Sica, Zavattini trabalhou com Visconti em "Belissíma" e com Antonioni, para quem escreveu um dos episódios do filme O Amor na cidade.
Nos últimos anos de vida, Zavattini deu aulas de cinema em Cuba.
Já falei muito sobre ele, em postagens recentes, mas sempre é bom citar Dalton Trumbo.O roteirista, romancista e cineasta americano, que foi colocado na lista negra por conta do maccartismo e que foi obrigado a escrever sob pseudônimos e, mesmo, com "testas de ferro", é um dos maiores roteiristas de todos os tempos.
São de sua autoria roteiros de Spartacus ( de Stanley Kubrick ), A princesa e o plebeu ( de Willian Wyller ), The Fixer ( creio que em português o filme se chama "O homem de Kiev", de John Frankenheimer ), "O último pôr do sol"( western de Robert Aldrich ), Pappillon (de Franklin Schaffner), Exodus ( de Otto Preminger ), Adeus às ilusões ( de Vicent Minelli ).Recebeu dois Oscars ( por The brave one e por A princesa e o plebeu), porém como estava na lista negra, não pode recebê-los. O oscar por The Brave One lhe foi entregue, pouco meses antes de sua morte, em 1976. O segundo foi entregue póstumamente, já nos anos 90.
Citei dois roteiristas que eram homens de esquerda. Mudando radicalmente o espectro político e também, de sexo, nenhuma lista de grandes roteiristas estaria completa sem o nome de Thea Von Harbou.

Atriz, romancista, roteirista, também diretora, foi esposa e parceira do grande Fritz Lang. Juntos escreveram A morte cansada, Dr. Mabuse - O império do crime, Os Nibelungos, Dr. Mabuse- o jogador, Metrópolis, M - o vampiro de Dusseldorf, Espiões, O testamento do Dr. Mabuse.
Também escreveu roteiros para Murnau e para Carl T. Dreyer.
Thea era filiada ao Partido Nazista. Quando Hitler ascendeu ao poder ( por voto direto e democrático, nunca esqueçam isso ), Goebbels, ministro de Propaganda do governo nazista, admirador do cinema de Lang, quis torná-lo o cineasta oficial do nazismo. Lang que, ao contrário da esposa, não nutria nenhuma simpatia pelos nazistas, fugiu da Alemanha e depois de uma breve temporada na França, foi para os Estados Unidos, onde seguiu sua carreira fazendo filmes em Hollywood. Thea ficou na Alemanha, onde continuou escrevendo e mesmo, dirigindo filmes. Ao final da guerra, foi presa e já na democratização pós guerra, voltou a trabalhar em cinema, até morrer, no final dos anos 50.
Independente da sua posição política, é uma grande roteirista. Considero M, O vampiro de Dusseldorf um dos mais perfeitos roteiros já escritos. Uma aula de narrativa cinematográfica (ver postagem referente ao filme ).Thea merece figurar numa lista dos melhores. E justiça seja feita, não é a única roteirista "de direita" - talvez a única sabidamente de extrema direita. Mas seu trabalho é exemplar.
(continua)
segunda-feira, 31 de dezembro de 2007
domingo, 30 de dezembro de 2007
Quem são nossos ídolos? - a lista (1)
O segundo nome que me veio à mente foi o italiano Tonino Guerra. Parceiro mais do que constante de Antonionni, com quem escreveu filmes como A noite, A Aventura, O Eclipse, Deserto Vermelho, Blow-Up, Zabrisky Point, entre outros, Guerra também trabalhou com Fellini, sendo roteirista de Amacord, La Nave Va, Ginger e Fred e A Entrevista. É roteirista frequente dos Irmãos Tavianni, com os quais fez A Noite de São Lourenço, Good Morning Babilônia, Noites sem sol, Kaos. Para Francesco Rosi, escreveu Crônica de uma morte anunciada, baseado em Garcia Marques e A trégua, baseado no relato de Primo Levi. Trabalhou ainda com o grego Theo Angeopoulos ( Paisagem na Neblina )e com o russo Tarkovsky ( Nostalgia ). Tonino Guerra é também escritor e poeta ( o que talvez explique sua parceria com diversos cineastas poetas ).
O terceiro nome que me lembrei foi Charles Brackett. Na verdade, o nome que me veio à mente foi de Billy Wilder. O grande diretor também era roteirista, e entendia como poucos do riscado. Wilder sempre trabalhou com grandes parceiros. Brackett foi um deles.
Para e com Wilder, Brackett escreveu clássicos como Cinco covas do Cairo, Farrapo Humano e, claro, Crepúsculo dos Deuses. Falando em Wilder e no divertido A primeira página, o nome que imediatamente vem à tona é de Ben Hetch, que vem ser o autor da peça que inspirou o filme. Na verdade, a comédia de Wilder é a terceira ou quarta versão da peça de Hetch, que antes foi filmado por Howard Hawks como Núpcias de Escândalo ( com uma diferença fundamental - na peça e no filme de Wilder, os protagonistas são dois homens, enquanto a versão de Hawks transforma um dos protagonistas em mulher e o filme em comédia romântica ).
sábado, 29 de dezembro de 2007
Quem são nossos ídolos?
"- Quem são os ídolos de um roteirista? Os alunos de direção geralmente têm seus cineastas prediletos, são fãs de Bergman, de Buñuel, do Glauber, de Woody Allen, do Godard, do Orson Welles, do Tarantino, etc. Um roteirista ou um aspirante à roteirista também tem seus ídolos?"
Outra coisa importante a ser considerada. Da mesma forma que o filme, o roteiro também é uma obra coletiva. Muitos dos melhores roteiros foram escritos por dois, três autores, às vezes por uma equipe inteira. E isso não se aplica apenas a filmes chamados "comerciais". Crime delicado, filme de Beto Brant, uma obra extremamente autoral, foi escrito por quase um time de futebol de salão. Roteiristas de diferentes personalidades e estilos as vezes colaboram num mesmo roteiro, e nem por isso ele perde a sua unidade, a sua força dramatúrgica, o seu papel no filme.Então, antes de elegermos ídolos a quem reverenciar, o importante é ter alguns roteiristas como referências para cotejar seu trabalho, de forma a nos ajudar a escrever melhor. Apresento aqui uma lista de roteiristas notáveis. São artistas de diferentes épocas, origens e estilos, cujo trabalho deve ser fruto de estudo e análise, nunca de cópia.
quinta-feira, 27 de dezembro de 2007
Momento poético em tempos de dureza (4)

"As I was out walking on a corner one day,
I spied an old hobo, in a doorway he lay.
His face was all grounded in the cold sidewalk floor
And I guess he'd been there for the whole night or more.
Only a hobo, but one more is gone
Leavin' nobody to sing his sad song
Leavin' nobody to carry him home
Only a hobo, but one more is gone
A blanket of newspaper covered his head,
As the curb was his pillow, the street was his bed.
One look at his face showed the hard road he'd come
And a fistful of coins showed the money he bummed.
Only a hobo, but one more is gone
Leavin' nobody to sing his sad song
Leavin' nobody to carry him home
Only a hobo, but one more is gone
Does it take much of a man to see his whole life go down,
To look up on the world from a hole in the ground,
To wait for your future like a horse that's gone lame,
To lie in the gutter and die with no name?
Only a hobo, but one more is gone
Leavin' nobody to sing his sad song
Leavin' nobody to carry him home
Only a hobo, but one more is gone"
Only a Hobo, de Bob Dylan
quarta-feira, 26 de dezembro de 2007
momento gastronômico (2)

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007
coisas que eu gosto (de ver ) 5 - Especial de Natal

Testemunhar na CPI, digo, na comissão era um eufemismo para delatar possiveis comunistas ou simpatizantes. Muitos fizeram isso. O grande cineasta Elia Kazan, entre eles. Para salvar a pele, muitos entregavam qualquer um. Havia até uma lista com os nomes manjados que a comissão oferecia aos depoentes. O que importava era, como em qualquer processo inquisitório, que as vítimas capitulassem, e abdicassem de sua dignidade através do processo mais torpe: a delação, a traição. Nada mais prazeroso ao algoz do que transformar suas vítimas em algozes de novas vítimas. É a legitimação da opressão.
Abrindo um parenteses: Junto com Trumbo estava John Howard Lawson, também roteirista e, pelo que penso, talvez o único que fosse realmente comunista no grupo. Lawson era ativista dos direitos civis, foi criador e presidente da WGA ( Writers Guild of America, o sindicato dos roteiristas, o mesmo que hoje está deixando os executivos de Hollywood de cabelos em pé, com essa greve histórica que já dura tres meses... ), escreveu o roteiro de "Bloqueio", um filme que defendia os republicanos espanhóis contra as forças fascistas de Franco, visitou a antiga União Soviética diversas vezes, era sem dúvida um militante de esquerda. Lawson terminaria sua vida dando aulas, escrevendo um excelente livro sobre dramaturgia chamado O processo da criação cinematográfica, que recomendo a quem quiser entender um pouco de roteiro e de direção. Os demais, como Trumbo, eram apenas humanistas, progressistas, coisa que na América equivale a ser "vermelho". Ainda mais nos anos cinzentos da guerra fria. Ou, nos dias atuais, da doutrina Bush.
Trumbo passou anos escrevendo com pseudônimos ou através de amigos que lhe emprestavam o nome. Os dois Oscars que recebeu foram entregues aos seus testas-de-ferro, só sendo devidamente creditado como o verdadeiro premiado e recebido as estatuetas carecas nos anos setenta ( só um, o outro lhe foi "entregue" postumamente, pois morreu em 1976). Trumbo escreveu o romance Johnny got his gun em 1938, já prevendo os horrores da 2a guerra mundial que se aproximava. O romance, como o filme, conta a história de um jovem idealista que se alista para lutar no exército americano durante a primeira guerra mundial. Atingido por uma bomba, perde os braços, as pernas, tem o rosto destruído, ficando cego, surdo e mudo. Todo o romance se passa na mente de Johnny que, apesar de tudo, se mantém intacta e ativa. A narrativa é mesclada pelas sensações vividas pelo "pedaço de carne viva" e seus sonhos, lembranças, devaneios, que se misturam à realidade de tal forma, que aos poucos, vamos perdendo a noção do que é real ou imaginário. Levando em conta a capacidade inesgotável de fazer o mal do ser humano, com suas armas, suas guerras, com a frieza dos cientistas, o oportunismo dos políticos, a mentalidade tacanha e autoritária dos militares, a ganância desenfreada dos capitalistas ( os únicos que ganham com as guerras, seja qual forem elas ), qualquer pesadelo parece insignificante diante da realidade. Neste sentido, o livro tem uma perspectiva de humor negro, apropriada para quem deseja denunciar a hipocrisia dos sentimentos patrióticos. Totalmente despojado de qualquer membro ou sentido que o faça interagir com os outros homens, aquele "pedaço de carne viva" é o único ser humano em toda a história.
Diversas vezes provoquei meus alunos nas aulas de roteiro, oferecendo este desafio: como fazer um filme onde o personagem não fala, não vê, não escuta, não tem rosto, não tem braços, nem pernas ( porém, tem sexo - isso é um detalhe fundamental. "Quando sentem a aproximação de uma bomba, instintivamente os soldados se colocam em posição fetal, protegendo seu sexo¨, diz um dos médicos-militares que "cuida" de Johnny ). Diante dessa provocação, a maioria dos alunos acaba desistindo do desafio, por considerá-lo insolúvel. Ao que eu respondo: mas ele pode pensar. E o pensamento é talvez a matéria mais cinematográfica existente.(atenção: a partir daqui falo sobre o desfecho do filme. Quem preferir ver o filme antes de saber como ele termina, é bom parar por aqui. )



































































































































































































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