segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Nunca mais/ de novo

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Veja esta canção (3)

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Clip da cantora, compositora e instrumentista mexicana Julieta Venegas. Muito boa!


 

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Beijo de despedida

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um corajoso jornalista iraquiano fez aquilo que todo cidadão do planeta gostaria de fazer. Bem, alguns, muitos, gostariam de mandar bala ao invés dos sapatos... Faltou um pouco mais de pontaria... mas valeu a intenção.  

sábado, 6 de dezembro de 2008

Let´s dance!

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Eu danço mal e canto pior ainda. Mas estranha e patológicamente, insisto em dançar, e dependendo da quantidade de alcool em questão, sou capaz de dançar a noite inteira. Felizmente, para mim e para os ouvidos alheios, o alcool não "desperta" meu lado trovador. E se "no entanto é preciso cantar" me contento em no máximo participar e muito discretamente do coro. De qualquer forma, gosto muito de música - principalmente, gosto de "ver" música.
Não gosto muito de musicais, mas adoro cenas em que os personagens cantem ( de preferência, a capela e "mal", como nos documentários do Eduardo Coutinho ) e, principalmente, dancem. Em quase todos os meus filmes coloco uma cena em que os protagonistas dançam. 
Este trecho de "Band à part", de Jean-Luc Godard, é uma delícia, dá vontade de sair dançando também. A música e a dança são elementos frequentes nos filmes de Godard - ele inclusive filmou um "musical", ao seu jeito: "Uma mulher é uma mulher" é uma divertida paródia a "Guarda-chuvas do amor", de  Jacques Demy. Mas duvido que Godard seja um pé de valsa. Não tem cara. 
Hal Hartley citou ( eufemismo da minha parte, Hartley praticamente copia o enquadramento, a coreografia, repete inclusive a brincadeira do chapéu ) essa cena em Um Simples Desejo, que é um filme bacana  (lamentavelmente, nenhum dos dois filmes foi lançado em dvd por aqui... ). Citações unem obras e artistas como parceiros numa dança. Godard, sem dúvida, um dos cineastas mais citados e copiados de todos os tempos é talvez um dos que mais cita obras alheias ( não necessariamente apenas cinematográficas ) em seus filmes. Nessa cena mesmo, há uma rápida menção à Corrida do ouro, de Chaplin - mais especificamente, à dança dos pães . 
Hal Hartley é músico, tem uma banda, faz a trilha sonora dos seus filmes.
Meu amigo cineasta "candango" ZéEduardo Belmonte cita Hartley no seu divertido curta Cinco filmes estrangeiros, numa bem filmada e coreografada cena de dança ao som de I saw you saying (that you say that you saw ), dos Raimundos, que acaba se aproximando por tabela da cena original de Godard ( seu curta é em preto e branco, o que acentua ainda mais o parentesco visual e conceitual da citação). Assim como eu, Belmonte também adora cenas "musicais" em seus filmes. Mas excessivamente tímido, capaz de corar por qualquer coisa, Belmonte não leva o menor jeito pra dançar. Imagino que cante mal.   
E essa postagem acabou ficando como uma quadrilha: de marcha em contramarcha, de associação em associação, voltamos ao ponto de partida. 
Não gosto de musicais, mas esta cena de Band à part é espetacular.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Auxílio Luxuoso



Já tinha escrito aqui sobre a honra e o privilégio de ter trabalhado como roteirista do Carvana ( e logo no Casa da Mãe Joana, maior sucesso )... 

Agora a honra é em dobro: olha ele aí, fazendo uma participação como ator no meu filme...


terça-feira, 28 de outubro de 2008

Veja essa canção (2)

Video-clip de "When the deal goes down", de Bob Dylan ( do álbum Modern Times) ilustrado com belas imagens em S-8 de Scarlett Johansson.  Bem bacana, nostálgico.


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segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Os três vértices de um triangulo

Caio Blat, Maria Ribeiro e Luz Cipriota - superelenco do meu filme.

domingo, 12 de outubro de 2008

Momento poético em tempos de dureza (7)






Habitada por gente simples e tão pobre
Que só tem o sol que a todos cobre
Como podes, mangueira, cantar?


Pois então saiba que não desejamos mais nada
A noite, a lua prateada
Silenciosa, ouve as nossas canções

Tem lá no alto um cruzeiro
Onde fazemos nossas orações
E temos orgulho de ser os primeiros campeões

Eu digo e afirmo que a felicidade aqui mora
E as outras escolas até choram
Invejando a tua posição

Minha mangueira essa sala de recepção
Aqui se abraça inimigo
Como se fosse irmão

(Cartola - Sala de recepção )

sábado, 11 de outubro de 2008

Parabéns!

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Nascido em 1908, Cartola faria hoje cem anos... mas como é imortal, continua inteirão e cantando bem à beça...

Maternidade



Julie Gavras e sua genial atriz mirim Nina Kervel-Bey.

sábado, 27 de setembro de 2008

Ver e Ouvir (4)

Quase não há o que ouvir aqui, apenas deliciar-se com a beleza das imagens. Uma pintura "ao vivo". Trecho do belissimo filme iraniano O Silêncio, de Mohsen Makhmalbaf.

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Quadros que queria ter na parede aqui de casa (14)




As três graças, de Rafael.

cíclope ou circe?




Lucrécia Martel

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

A dama de negro




Samira Makhmalbaf.

domingo, 21 de setembro de 2008

Angelical


Ásia Argento

Encapetada



Sofia Coppola.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Não fui eu quem disse, mas O Bonequinho de O Globo

‘A casa da mãe Joana’ fica em Bonsucesso. Tem uma em Ramos também. E outras três na Penha. Na Baixada, na Zona Sul e na Barra existem outras. No Rio todo, há casas-da-mãe-joana iguais àquela onde vivem Montanha (Antônio Pedro, no tom), PR (Pauto Betti, inspirado) e Juca (José Wilker, hilário), protagonistas do novo filme de Hugo Carvana. Basta haver amizade.

Amizade é a essência estética do cinema de Carvana. O entendimento do ônus afetivo que a palavra “amigo” carrega é o esqueleto de seus filmes, subestimados nestes tempos em que lealdade virou artigo escasso. “Bar Esperança” (1982), que entra fácil em qualquer lista de filmes nacionais antológicos, já deixava claro esse traço investigativo da obra que Carvana vem depurando no diálogo com subgêneros do humor. Se “Apolônio Brasil” (2003) flertava com a chanchada ingênua dos anos 1950, “A casa...” revisita a comédia erótica da década de 1970.

Num humor malcomportado, a saga de como Montanha, PR e Juca resistem ao golpe dado pelo “171” Vavá (o Buster Keaton chamado Pedro Cardoso) retoma um cinema sensualmente abusado, na linha de “Amici miei — Meus caros amigos”, de Mario Monicelli. É um riso cru, indigesto para estômagos talhados a caviar cinéfilo, mas apetitoso para quem não teme prazeres. E que prazer dão Juliana Paes e Fernanda de Freitas:

(Rodrigo Fonseca, Revista Rio Show, O Globo, 19/09/2008 )

programa


Casa da Mãe Joana, comédia de Hugo Carvana, num cinema perto de vc...

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Grandes personagens da (minha) história (3)

Hugo Carvana

Sempre fui fã do Carvana. Era moleque e admirava seus trabalhos, fosse em cinema ou na televisão. Durante minha adolescência acompanhava um seriado que ele fazia na TV Globo, Plantão de Polícia. Ele interpretava Valdomiro Pena, jornalista veterano, boêmio, cínico, debochado porém, íntegro e humanista. Esse seriado, escrito por gente como Leopoldo Serran, Aguinaldo Silva ( àquela época um bom roteirista, ainda não tinha virado o noveleiro de sucesso de hoje, menos deslumbrado consigo mesmo e mais atento à qualidade de suas histórias ) e Doc Comparato, é das boas coisas que vi na televisão brasileira, muito superior ao que é feito hoje. 

No cinema, Carvana encarnava o carioca típico, malandro, indolente, mulherengo, sacana. De certa forma era o arquétipo do brasileiro macunaímico, numa versão urbana, o que pode ser constatado no simpático filme de Cacá Diegues, Quando o carnaval chegar (1972), que aliás foi o primeiro filme que vi com Carvana, nos meus tempos de cineclubista, na década de 70 . 

Seu primeiro filme como diretor, "Vai trabalhar vagabundo" (1973) é uma pequena obra prima. Além das muitas qualidades cinematográficas, o filme poderia ser analisado como um tratado sociológico do caráter do povo brasileiro, ao lado do já citado Macunaíma, de Mário de Andrade, das Memórias de um sargento de milícias, de Manoel Antonio de Almeida, de Simão, o caolho, de Galeão Coutinho, no campo da ficção ou de Casa-Grande e Senzala, de Gilberto Freire, Raízes do Brasil, de Sergio Buarque de Hollanda, Carnavais, malandros e heróis, de Roberto da Matta e O Povo brasileiro, de Darcy Ribeiro, no campo teórico. A galeria de malandros, trambiqueiros, porra-loucas que desfila ao longo do filme, com um humor anárquico e uma insáciavel sede de alegria e liberdade, proporciona uma subversiva radiografia de nosso país - um Brasil torto, desengonçado, vagabundo e mestiço, em tudo oposto ao Brasil Grande propagandeado pelo governo militar. 

Já estudante de cinema, fui conhecer o Carvana ator de grandes filmes como Os Fuzis, de Ruy Guerra, Terra em Transe e Dragão da Maldade contra o santo guerreiro, do Glauber, de O Anjo Nasceu, do Julio Bressane,  entre outros. Nesses filmes, sua atuação revelava um outro Carvana, diametralmente oposto àquele malandro carioca arquetípico - um ator sério, politizado, completamente integrado à proposta estética e ideológica vanguardista do cinema novo ( ou do seu sucedâneo mais transgressor, o cinema marginal, "udigrudi", no caso de Bressane ). Carvana se revelava como um ator de recursos ilimitados, que transitava com maestria pela comédia e pelo drama,  e ao mesmo tempo, um artista comprometido e identificado com o ideário de sua geração, o que lhe valeu algumas prisões e um período no exílio ( sua esposa e companheira de todas as horas, Marta Alencar, foi inclusive guerrilheira ). 

De certa forma, Carvana encarnava essa "persona" formada pelos dois lados distintos de seus trabalhos: era ao mesmo tempo o malandro boa praça, trambiqueiro do "bem", sacana e camarada e o porta-voz de uma geração politizada, um homem de seu tempo, idealista e combativo. Era uma projeção do brasileiro que todos gostariam de ser: alegre e ao mesmo tempo consciente, bon-vivant e guerreiro. Seu único defeito para mim era ser torcedor do Fluminense ( assim como outro dos meus ídolos, Chico Buarque, aliás, seu primo e compadre ), mas ninguém é perfeito.

Como diretor, Carvana faria o filme ícone do processo de redemocratização brasileira, Bar Esperança, o último que fecha (1982) comédia dramática que é uma espécie de inventário de sonhos, frustrações, perdas e ganhos do Brasil pós golpe militar. Um dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos.

Seja como ator, diretor, ou simplesmente, na arte de viver, Hugo Carvana é um mestre.

Bem, toda essa apresentação talvez desnecessária, uma vez que o Carvana é uma figura pública bastante conhecida, é para balizar minha emoção ao ser convidado pra trabalhar com o Carvana no roteiro de seu filme Casa da Mãe Joana. Emoção e cagaço, tenho que confessar ( senti algo parecido quando fui trabalhar com o Ruy Guerra, mas disso eu falarei depois). Se já é assustador trabalhar com um artista do tope do Carvana, meu medo ainda foi maior pelo fato de ser seu admirador confesso. Várias coisas me assustavam: o temor de me deixar seduzir pelo fascínio do ídolo, de perder a capacidade crítica diante da admiração, o medo mesmo de não conseguir produzir nada à altura de seu talento. Por outro lado, tinha de enfrentar um grande fantasma: "substituir" ( se isso é possível ) Armando Costa, o grande parceiro de Carvana em seus melhores filmes (além dos já citados, roteirista também de Se segura malandro ). 

Mas para minha sorte, a idolatria subserviente foi imediatamente desmontada por uma camaradagem regada a alguns copos de cachaça e defumada por muita fumaça de charuto. E por muita piada infame, histórias do arco da velha, confissões de uma mente sacana. 

Ao longo do trabalho, percebi que o único risco que corria era mesmo não conseguir produzir nada de concreto,  porque perdíamos (?) tanto tempo falando besteiras que quase não dava para escrever. Marta, esposa e produtora do Carvana, suspirava dizendo que o Carvana não tinha saído da "fase anal", pois 99% das suas piadas eram referentes ao bom e velho cú - e a verdade é que, metaforicamente falando, o big bang do universo cômico do Carvana parece se originar justamente desta parte da nossa anatomia, o equivalente escatológico do buraco negro cósmico. 

Um parentêsis: recentemente, quando estava trabalhando no seriado Dicas de um sedutor, "baixou" em mim um "encosto carvaniano", e para desespero da Rosane Svartman, e de outros colegas de equipe, passei a maior parte do tempo do trabalho contando piadas infames, quase todas referentes à fase anal e seus derivados eróto-escatológicos ( o que era agravado por ter entre parceiros do trabalho dois outros quarentões com mentalidade e humor adolescente, Gustavo Cascon e Chico Soares ). Do que posso deduzir que bobeira é extremamente contagiosa.

Contagiosa e causa sequelas. E sequências. Foi tão prazeroso trabalhar com o Carvana que nem tinhamos terminado o Casa da Mãe Joana, e ele me chamou pra escrever um novo roteiro, Não se preocupe, nada vai dar certo, que está começando a produzir. E outro dia ele me chamou pra conversar sobre um novo projeto... Carvana tem esse "defeito",  nem acabou um trabalho já está pensando no próximo filme. O "Mestre" tem pressa: aos 71 anos de uma vida marcada por farras, porres, noitadas, prisões, exílio, dureza, alcool, drogas, loucuras, fumando horrores, com apenas um pulmão, um câncer vencido, e agora diabético ( e proibido de beber seu whisky, muito menos sua "branquinha" ), Carvana tem muita histórias e piadas pra contar e sabe que o tempo urge, ainda mais no Brasil, onde fazer cinema é uma atividade de risco, marcada por contratempos e imprevistos... 

Carvana está lançando essa semana ( dia 19 de setembro, sexta agora ) o Casa da Mãe Joana. Não vou dizer que é altamente recomendável, porque seria cabotino. Mas vejam o filme, é muito divertido. Pra quem gosta de bobagem, é um prato cheio.  

domingo, 14 de setembro de 2008

Veja essa canção (1)


"Smells like teen spirit", por Tori Amos.

A versão do hit do Nirvana pela magnífica voz e pelo piano de Tori Amos, registrada num disquinho ( Crucify, cinco músicas apenas) que contém também uma bela versão de Angie, dos Stones. 

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quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Ver e Ouvir (3)

Abertura do filme "Caindo no Ridículo", de Patrice Lecomte. Na minha modesta opinião, uma das melhores cenas de abertura da história do cinema, deste que é um dos melhores ( talvez o melhor ) filmes do grande diretor francês. É um momento de crueldade ímpar - violento, grotesco e, não dá para disfarçar, engraçado.  Nada a ver com as baboseiras sanguinolentas metidas a intelequituais dos Tarantinos da moda ( Tarantino ainda está na moda? ).  No mais, é um excelente prólogo - uma cena avulsa, que parece independente do resto da narrativa, mas que introduz de forma precisa e contundente o assunto do filme. No mais, é um aperitivo em tanto ( se não me engano, essa cena foi usada como avant-trailler do filme, à epoca do seu lançamento, no início dos anos 90 ). 
Não sei se já saiu em dvd. Pra quem mora no Rio, uma dica: o videoclube do Estação Botafogo tem ( ou tinha, não sei ) uma cópia em VHS. Vale a pena dar uma procurada. Filmaço. Falarei dele, mais adiante. Por enquanto, curtam essa bela sequência.

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domingo, 7 de setembro de 2008

Coisas que eu gosto (de ver) 8:


Os vivos e os mortos (1987),  de John Huston

Este foi o último filme do grande diretor norte-americano John Huston, cuja obra é quase uma coletânea de clássicos do cinema, como O falcão maltês, O tesouro de Sierra Madre, Uma aventura na África, Moby Dick, O Homem que queria ser rei, O Pecado de todos nós,  À Sombra do Vulcão, cuja maior parte, por sinal,  ( e os títulos mencionados são prova disso ), é inspirada em obras literárias. 

Adaptação quase literal de um conto de James Joyce, O morto (com roteiro de Tony Huston, filho do diretor), "Os vivos e os mortos" é uma pequena obra-prima, o réquiem de um grande artista, uma reflexão ao mesmo tempo cética e carinhosa sobre a vida. Com mais de 80 anos, Huston dirigiu boa parte do filme numa cadeira de rodas, com um tanque de oxigênio do lado, interrompendo as filmagens vez por outra para "respirar" um pouco. Huston morreria um ano depois de lançar o filme. 

Dramaturgicamente falando, "Os vivos e os mortos" é aparentemente muito simples - reproduz quase que integralmente a estrutura do conto e quase reproduz o tempo de sua fruição: o conto, um pouco longo, é quase uma pequena novela; o filme, bem enxuto, dura apenas 80 minutos.  O filme parece durar o mesmo tempo que se leva para ler, sem pressa, o texto de Joyce.  Quase não há história ou trama no filme. A maior parte da ação se passa durante os festejos natainos na casa das tias de Gabriel Conroy, o protagonista do filme ( numa admirável interpretação do ator irlandês Donald McCann ) e o que vemos é quase um "super 8" ou vídeo doméstico, o registro de uma festa familiar, com velhinhas solteironas fofinhas falando reminiscências, danças de salão, cantorias, comentários maliciosos à socapa, um flerte dissimulado, o inevitável tio alcoolatra, até o aparecimento dos inevitáveis ressentimentos, de feridas antigas mal cicatrizadas, frustrações sufocadas em meio à ceia natalina. Ou seja, uma típica reunião familiar aparentemente festiva, mas permeada por uma tristeza ora disfarçada em nostalgia, ora explicitamente marcada pelas perdas. É um filme de sutilezas, de entrelinhas. A câmera nos convida a entrar naquela festa, assistimos às conversas sentados numa das cadeiras em volta da mesa onde os personagens ceam e se expõem. Tornamo-nos nós próprios convidados da festa, cada um de nós com um histórico de lembranças, perdas e mágoas semelhantes ao dos personagens. 

Em meio à essa festa, vai-se delineando um conflito envolvendo Gabriel e sua esposa, Gretta (interpretada de forma sublime por Angélica Huston, filha do diretor ). O conflito do conto e do filme refere-se à revelação de um grande amor do passado de Gretta, que emerge em meio às evocações nostálgicas e ao clima melancólico tipicos dessas festas familiares. Gretta tivera um amor na adolescência. Um amor casto, pueril, triste - porém verdadeiro e único. Ao dar conta de que Gretta ainda ama aquele rapazinho pobretão, que morrera de pneumonia décadas atrás, Gabriel percebe o vazio de sua vida, o fracasso de seu casamento aparentemente bem sucedido, a distância que o separa de sua mulher, de seus ideais, da suposta felicidade e do conforto pequeno-burguês em que crer viver. 

A segunda parte do filme se dá num quarto de hotel, onde o casal Conroy pernoita após a festa natalina. A neve cai e a esposa dorme. Insône, Gabriel olha a neve que cai "indistintamente, sobre os vivos e os mortos". A neve que cai leve, como a terra que se atira aos mortos, nos sepultamentos.  A cena é basicamente o monólogo em voice over de Gabriel, no qual ele rumina seu inventário de frustrações e constata a sua fragilidade diante da força esmagadora dos mortos, concluindo de forma melancólica sobre a insignificância da ( e não somente da sua ) vida.

Realizado por um homem no auge de seus 80 anos, um aventureiro, um "bom-vivant", caçador, hedonista, pugilista, mulherengo, beberrão, uma espécie de Hemmingway cinematográfico,  "Os vivos e os mortos" soa uma reflexão acridoce sobre a existência, é - em suma - uma despedida. O testamento cinematográfico de um autor cujos filmes sempre revelaram uma atração pelos derrotados, pelos grandes fracassos, pelos sonhadores frustrados. 

Dono de uma grande e variada filmografia, Huston nunca escondeu seu fascínio pelos out-siders, pelos ambiciosos derrotados, e se há uma unidade em sua diversa filmografia, ela se dá na compreensão filosófica do fracasso como fim único da experiência humana, o que se pode constatar em filmes tão diferentes em estilo como O tesouro de Sierra Madre, Os desajustados, Fat City, Moby Dick, Raízes do céu, O homem que queria ser rei, etc. Huston se definia como um "existencialista" e seus filmes, ainda que muitos possam ser definidos  como ( e são ) fantasia de aventura, inevitavelmente concluem de forma amarga, marcados pela derrota ou pela "meia vitória" , frustrante até, porém inevitável. "Os vivos e os mortos" parece refletir sobre a própria carreira de Huston, por ser um filme de pequenas proporções dentro de uma obra marcada por grandes produções. É um filme de baixo orçamento, com atores basicamente desconhecidos, realizado à margem de Hollywood ( não a toa, ganhou o prêmio de Melhor diretor no renomado Independent Spirit Awards, equivalente ao Oscar do cinema independente americano ). 

É um pequeno grande filme. Simples, comovente, filosófico. Altamente recomendável.

Os vivos e os mortos

O monólogo completo de Gabriel Conroy, aqui numa versão em espanhol... belíssimo.

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da série "Grandes diálogos do cinema" (para estudantes de roteiro)


Gabriel Conroy: [voice over] "One by one, we're all becoming shades. Better to pas
s boldly into that other world, in the full glory of some passion,
 than fade and wither dismally with age. How long you locked away in your heart the image of your lover's eyes when he told you he did not wish to live. I've never felt that way myself towards any woman but I know that such a feeling must be love. Think of all those who ever were, back to the start of time. And. me transient as they, flickering out as well into their grey world. Like everything around me, this solid world itself which they reared and lived in, is dwindling and dissolving. Snow is falling. Falling in that lonely churchyard where Michael Furey lies buried. Falling faintly through the universe and faintly falling, like the descent of their last end, upon all the living, and the dead."


parte do monólogo de Gabriel Conroy (Donald McCann ) no filme Os vivos e os mortos ( The Dead ) de John Huston (1987). Roteiro de Tony Huston, a partir do conto de James Joyce.

Quadros que queria ter na parede aqui de casa (13)



"Os noivos", de Gustav Klimt

sábado, 6 de setembro de 2008

Deus e o diabo na terra do rock...


Essa é a sequência final do filme Simão do Deserto, de Buñuel. Um dos melhores filmes do mestre espanhol, e sem dúvida, um dos mais divertidos.  Let´s rock! 

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A volta dos que não foram

Depois de um longo período parado, volto a escrever aqui... espero que alguém tenha sentido falta.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

humor rubro-negro


segunda-feira, 28 de abril de 2008

Mais feliz do que pinto no lixo


Se o tricolor roxo Chico Buarque quiser virar a casaca, será muito bem recebido.

É raça! (1)


A voz do povo é a voz de Deus: Obina é melhor do que o Eto'o !

domingo, 27 de abril de 2008

Dicas

Tenho escrito pouco aqui, nos últimos tempos. Não é por falta de assunto, e sim de tempo. Estou meio ocupado, por conta de um projeto no qual estou envolvido. Trata-se do seriado Dicas de um sedutor, novo programa do Luiz Fernando Guimarães, exibido pela TV-Globo, do qual sou um dos roteiristas.

Está sendo uma experiência muito curiosa. Nunca tinha trabalhado na Globo, e meus trabalhos em televisão se resumem a alguns programas que escrevi e dirigi para a Tv-Escola e, como escritor, O Farol, uma minissérie para a saudosa TV-Manchete, no início dos anos 90, e a participação numa novela, Amazônia, da mesma emissora ( e que, de acordo com as más línguas, foi a principal responsável pela falência da Manchete, um pouco depois... ).

Trabalhar em televisão é completamente diferente de escrever pra cinema, por conta da velocidade em que as coisas acontecem. Por mais que a gente escreva os episódios com uma frente bem razoável, a toda hora surge uma mudança, uma novidade, às vezes temos que escrever uma coisa que vai ao ar na véspera, ou, até no mesmo dia em que o programa é exibido. Outra diferença é escrever balizado com a resposta do público, e também com a Espada de Dâmocles do Ibope pendurada em cima da nossa cabeça. Saber quantos pontos o programa rendeu, se em que momento o telespectador deu uma zapeada, se ele voltou ou não a assistir ao programa, acompanhar a evolução do programa, minuto a minuto, é uma experiência fascinante e ao mesmo tempo angustiante.
Haja adrenalina.

domingo, 30 de março de 2008

fotogramas (6)

"in vino veritas".

sábado, 29 de março de 2008

Agravo/Desagravo


Não sou dos maiores fãs do Glauber Rocha. Na época da UFF, quando os alunos se dividiam entre os "glauberianos" e os "nelsistas", eu sempre tive mais afinidades com o cinema cru e realista, mas sempre poético, do Nelson Pereira dos Santos do que com a pletora barroca do baiano. Isso nunca me impediu de reconhecer o talento, a força imagética e a importância de Glauber, como um dos grandes autores de cinema mundial.

Dos seus filmes gosto de Terra em Transe, na minha opinião um dos melhores filmes já realizados em todos os tempos, Deus e o diabo na terra do sol, Dragão da maldade contra o santo guerreiro ( apesar de achar que envelheceu mais rápido que os anteriores ) e do curta Di, pequena obra prima, um grande filme de curta duração. Barravento e Cabezas cortadas têm seus méritos, apesar de não falarem muito ao meu coração . Não gosto muito dos demais e acho mesmo alguns insuportáveis ( Das Leone have sept cabezas e Claro são osso duro de roer... ). Mas mesmo seus filmes menos interessantes ou mesmo desinteressantes possuem elementos que despertam minha curiosidade cinematográfica, tem sempre algo que chama atenção - Glauber é, queiram ou não seus detratores, um dos artistas brasileiros mais importantes e influentes de todos os tempos. Não me enquadro portanto no grupo de "viúvas" do Glauber, que veneram cada fotograma do cineasta como se fosse um relicário sagrado.

Agora, maior que meu apreço pelo Glauber é meu desapreço por essa figura abjeta chamada Marcelo Madureira. Esse sujeito combina desarmoniosamente sua repugnante figura com sua boçalidade. Como humorista, já teve seus tempos de glória e hoje parece marchar inexoravelmente para fazer quadros no Zorra Total - com a diferença que os comediantes daquele programa, Paulo Silvino, Agildo Ribeiro, Lúcio Mauro entre outros, independente do estilo de humor que pratiquem, bons comediantes, enquanto que o "casseta" não passa de sujeito sem graça, medíocre, que pratica o pior tipo de humor, com seus trocadilhos fáceis, seu homofobismo e sexismo, sua escatologia, seu preconceito social e seu reacionarismo político disfarçado em anarquismo. Em suma, no máximo seria um tipo contando piadas de salão no fundo de um bar "pé sujo" não tivesse parasitado o carisma do Bussunda, este sim, um bufão nato ( é só perceber como o Casseta e Planeta decaiu, depois da morte do palhaço gordo).

Mas se como comediante Madureira é sofrível, mais deploráveis são suas intervenções sérias. O "intelequitual" Madureira é um repetidor de factóides, falastrão sem nenhum embasamento ou qualquer idéia original. Chamado para participar de um debate sobre cinema num evento promovido pela revista Piauí ( quem teria sido o gênio que teve a brilhante idéia? ), saiu alardeando velhos preconceitos contra o cinema brasileiro, com uma originalidade de leitor da Veja. Na falta de argumentos com algum conteúdo, partiu para a grosseria, para a provocação, ganhando assim alguma notoriedade: "Glauber Rocha é uma merda", foi a coisa mais relevante que seu raciocínio tatibitate conseguiu elaborar. Lançou o factóide, ganhou algumas páginas no Globo ( jornal onde trabalha, registre-se, afinal é o redator da coluna do Agamenon Mendes Pedreira ) e correu para a galera. Deve estar se sentindo o máximo. Afinal, para um pseudo-artista cuja indigência intelectual só consegue superar a ignorância atávica dos BBBs, deve ser reconfortante ser assunto de discussão na mídia. Uma vez que o Casseta e Planeta não repercute mais como nos tempos do Bussunda, é preciso apelar para chamar um pouco de atenção.

Que Madureira não curta o Glauber e expresse sua opinião sobre o cineasta de forma tão sofisticada, é direito dele. Gosto é uma coisa pessoal, e o Madureira tem direito de gostar ou desgostar do que bem quiser. Me incomodou mais as patranhas que ele proferiu no tal debate da Piauí ( "o cinema brasileiro era uma droga", "cineasta brasileiro é tudo ladrão", frases muito similares àquelas difundidas à época do Collor, Ipojuca Ponte et caterva, quando acabaram com a Embrafilme, causando a maior crise da história do nosso cinema ) do que sua opinião pessoal contra o Glauber. E me incomodou ainda mais que ninguém, absolutamente ninguém na platéia, basicamente composta por estudantes de cinema, cinéfilos, intelectuais, etc, gente "bem nascida" e "bem informada", como suponho serem os leitores da Piauí, tenha manifestado qualquer reação à frase destemperada do Madureira. Me incomoda que o cineasta, perdão, o documentarista ( é ele que faz questão de frisar a diferença, não eu ) João Moreira Salles, ao lado de Madureira na mesa, não tenha tido sequer a gentileza de dizer que a opinião de Madureira não era partilhada por boa parte dos presentes. Me pergunto se a Piauí endossa a opinião do Madureira. Sobre Glauber e sobre o cinema brasileiro, em geral.

Dias depois, artistas e cineastas resolveram fazer um ato de desagravo a Glauber, exibindo Deus e o Diabo na terra do Sol, na reabertura do cineclube da ABI ( antigo templo de vivência cinematográfica nos anos cinzentos da ditadura, e que foi o responsável pela formação de toda uma geração de cinéfilos e cineastas, eu incluído ). Acho que a melhor resposta às provocações do "intelequitual" Madureira é mesmo essa: exibir os bons filmes do Glauber. Haverá os que gostarão, da mesma forma que haverá quem não goste ou, mesmo, quem ache uma merda. Só espero que não passem Claro nem O Leão das Sete Cabeças, porque aí a coisa degringola...

Da minha parte, faço aqui meu desagravo, usando um trecho de Deus e Diabo que considero, junto com a morte da cachorra Baleia em Vidas Secas ( do Nelson ), uma das mais fortes e belas sequencias do cinema novo ( e do cinema brasileiro, como um todo). O beijo entre Corisco e Rosa, com uma Yoná Magalhães linda, novinha e um Othon Bastos exuberante, embalados pela belíssima Bachiana Brasileira #2, de Villa-Lobos. Talvez o mais belo beijo da história do cinema.

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quinta-feira, 27 de março de 2008

coisas que eu gosto (de ver) 7:


Vida de cigano, de Emir Kusturica (1989).

Terceiro longa-metragem do diretor ( o primeiro "Quem se lembra de Dolly Bell?" não foi lançado e o segundo, o espetacular Quando papai saiu em viagem de negócios fez muito sucesso aqui, ao ponto de ser "citado" no belo filme de Cao Hamburger, "o ano em que meus pais sairam de férias"), estabelece os elementos dramatúrgicos e estéticos do cinema de Kusturica, a saber, o equilíbrio entre a comédia rasgada e o melodrama, o surrealismo, o kitsch, a extrema musicalidade, o humor negro, o erotismo, a riqueza visual de seus planos, o sentimentalismo, o patético, o lirismo, o fabulismo de suas narrativas, a estranha e harmônica convivência de humanos com animais, as estranhas relações entre pais e filhos, sempre conflituosas e ao mesmo tempo, amorosas ao extremo, o enforcamento ( essa característica é quase um fetiche: em todo filme de Kusturica há uma tentativa bem ou mal sucedida de enforcamento por parte de um de seus personagens ), as festas - geralmente bodas - que se tornam cenários de batalhas, as gags circenses, a índole infantil de seus protagonistas, a celebração da morte.
Algumas dessas características são próprias da cultura eslava, da qual Kusturica, ex-iugoslavo, de origem sérvia, nascido e criado em Sarajevo, na Bósnia, é sem dúvida um dos maiores divulgadores ( tanto em seu trabalho como cineasta, quanto na sua produção como músico, com sua banda The No Smoking Orchestra ).
Há evidentes influências de Buñuel e Fellini em sua obra, da mesma forma que é evidente o seu apreço pelas comédias malucas do cinema mudo, particularmente, de Mack Sennet e mesmo Chaplin, dos primeiros filmes.
Todavia, em Vida de Cigano há uma nítida aproximação com um dos clássicos do neo-realismo, Milagre em Milão ( onde aliás, se passa boa parte da história ), de Vittório de Sica e Zavattini. Há uma grande semelhança entre os mendigos e desafortunados do filme de de Sica e os ciganos de Kusturica. E também um jeito de filmar que desglamouriza cenários, atores, a própria ação, que remete à estética do neorealismo, em particular a Milagre de Milão, que seria (digamos ) uma incursão do neorealismo num ambiente mágico das fábulas.
E se podemos entender Milagre em Milão como uma possível ruptura de de Sica ( e mesmo Zavattini ) aos cânones do neo-realismo, com sua proposta de fábula não-realista, Vida de Cigano é uma ruptura ao tom ainda realista presente em Quando papai saiu de viagem à negócios e um mergulho radical numa narrativa mais mágica, surrealista, onírica, fincada no fabulismo dos contos populares.
É da estrutura dos contos populares que Kusturica vai extrair seus elementos dramatúrgicos, seus personagens, a estrutura moral da história, a musicalidade e a magia da trama. Os rompantes de comédia pastelão e os momentos sentimentais, trágicos, até, do bom melodrama são também frutos dessa absorção do elemento popular que caracteriza as narrativas de Kusturica. Podemos dizer que, em princípio, Vida de Cigano é uma comédia dramática, como igualmente comédias dramáticas são Quando Papai saiu em viagem de negócios, Arizona Dream ( única incursão de Kusturica no cinema americano, com Johnny Deep, Jerry Lewis, Faye Danaway e Lili Taylor, pessoalmente o filme de Kusturica que gosto menos ), Underground e mais declaradamente cômicas Gato Preto, Gato Branco e A vida é um milagre. Digo em princípio porque, à excessão desses dois últimos, poderíamos definir igualmente os filmes de Kusturica como dramas com laivos de humor.
Em geral, as histórias que Kusturica conta parecem mais enredos de dramas: o pai de família que é delatado pela amante desprezada e que é enviado para um campo de trabalhos forçados, na Iugoslávia de Tito ( Quando papai etc ), um grupo de partizans que é se escondem dos nazistas no porão da casa de um compatriota que posteriormente decide mantê-los presos e trabalhando a seu favor, mentindo sobre o término da guerra (Underground ), surgimento de uma máfia que se estabelece no vácuo do fim do regime comunista (Gato preto, gato branco ),a guerra civil que pulverizou a Iugoslávia, despertando ódios étnicos entre sérvios, bósnios, croatas, kosovares ( A vida é um milagre ). Temas que não parecem mais adequados para provocar o riso. Mas da mesma forma que Kusturica faz piada com as tentativas de enforcamento de seus personagens ( a mais dramática ou patética em Quando papai saiu de viagem à negócios, a mais engraçada, sem duvida, a tentativa de Lily Taylor se suicidar com suas meiacalças, em Arizona Dream ), ele consegue extrair humor e poesia destes enredos "pesados". Em Vida de cigano, a miséria e a mercantilização da pobreza, em paralelo com o processo de corrupção do protagonista, é o assunto pesado em que Kusturica vai exercitar sua habilidosa capacidade de provocar risos e emocionar com um lirismo mágico, pungente.
Numa aldeia de ciganos, o jovem Perhan (Davor Dujmovic ) vive com sua avó Khaditza ( Ljubica Adzovic ), sua irmã caçula Danira, que tem um pequeno defeito numa das pernas e o tio fracassado Merdzan. Perhan possui poderes telecinéticos ( é uma espécie de Ury Geller - lembram-se dele? - capaz de mover talheres e outros objetos metálicos ), tem como melhor amigo um peru e é apaixonado pela jovem Azra, mas a família da moça o rejeita por ser pobre. O infortúnio amoroso será motivo para uma tentativa fracassada de suicídio de Perhan por enforcamento. A vida do rapaz muda com a chegada de tio Ahmed (Bora Todorovic ), irmão de Merdzan e ao contrário, rico e bem sucedido. Ahmed fica encantado com os poderes telecinéticos do rapaz e decide levá-lo com ele para a Itália, onde poderá ganhar muito dinheiro. O rapaz recusa-se, pois teria que separar-se da avó, do peru e de Azra ( nesta ordem de afeto ). Num jogo de cartas, Merdzan perde a casa para Ahmed, que propõe trocar a dívida pela tutela dos dois sobrinhos. Diante do problema, Khaditza arma um estratagema: propõe que Perhan siga com o tio para levar a irmã para ser operada, e assim, Perhan e Danira seguem com Ahmed para Milão. Lá descobrem que o tio na verdade é líder de uma gangue de ciganos, envolvido com todo tipo de contravenção, e que não tem escrúpulos em colocar Danira para esmolar nas ruas e forçar Perhan a usar seus poderes em roubos. A vida dos dois irmãos se torna um inferno digno das melhores narrativas de Charles Dickens ( há muito do judeu Fagin de Oliver Twist no inescrupuloso porém divertido Ahmed ). Boa parte desse momento da trama se passa aos pés da bela catedral de Milão ( por sinal, onde se passa também boa parte da ação de Milagre em Milão ).
Após muitos infortúnios e humilhações, a sorte de Perhan muda. Um derrame irá abater Ahmed e tornar Perhan em seu sucessor, no comando da gangue. Corrompido pelo dinheiro, Perhan irá paulatinamente a afastar-se de seus ideais de juventude e enveredar na decadência moral, afastando-se da avó, da irmã e mesmo, repudiando Azra, com quem acaba casando ( agora que fica rico, é plenamente aceito pela família dela ). O jovem Perhan torna-se um homem mau, talvez até mais inescrupuloso que seu tio Ahmed.
Ao final, uma sucessão de incidentes trágicos irão redimir o jovem, que consegue levar sua irmã de volta à aldeia natal. O enredo ( e mesmo o desfecho ) é trágico, mas Kusturica consegue fazer de Vida de cigano um belo ( e muitas vezes hilariante ) poema cinematográfico.
Vejam um belo trecho do filme (escolhi uma sequência em que se apresentam quase ou senão todas as características que enumerei na obra de Kusturica, e claro, por ser um momento belíssimo ):

video

Há outras cenas notáveis, como o momento em que o jovem Perhan vira homem, ou o comovente reencontro de Perhan con Danira, nas ruas de Milão, e a mágica morte de Azra, quando ela dá a luz ao filho de Perhan ( com direito a outro elemento chave na obra de Kusturica: a levitação como parte do ritual da morte, os moribundos flutuam nos filmes de Kusturica). Com este magnífico filme ("hipnotizante" como define o cartaz norte-americano, que ilustra esta postagem), Kusturica ganhou o prêmio de melhor diretor em Cannes, 89. Creio que é o filme do Kusturica que gosto mais - e minha incerteza se dá porque gosto muito dos filmes dele, mesmo do Arizona Dream, sabidamente o mais fraco (mas ainda assim, um filme bem interessante e divertido).
Minha sugestão é correrem às locadoras e tentarem encontrar uma cópia do filme em VHS, pois até o presente momento não foi lançado em dvd aqui no Brasil.
Não esmoreçam diante das dificuldades ( que antecipo serem muitas). A beleza da narrativa, a riqueza visual, o excelente trabalho dos atores, a belissima trilha sonora de Goran Bregovic, a mescla de drama e comédia, o registro carinhoso mas não complacente do povo cigano, em suma, o talento de Kusturica, sem duvida, um dos mais importantes e interessantes cineastas da atualidade, justifica qualquer trabalho.

sábado, 22 de março de 2008

ver e ouvir (2)

video

Cenas de Aprile, de Nanni Moretti.

Continuação de Caro Diário, Aprile mostra, entre outras coisas, o dilema do cineasta, dividido entre o dever moral e político de fazer um documentário sobre o momento político italiano do final dos anos 90 ( com a ascensão de Berlusconni ), sério, crítico, contundente, e seu desejo secreto e inconfessável de fazer um filme musical do tipo que se fazia nos anos 50... deste conflito criativo, surge uma síntese que reuniria as duas aparentemente antagônicas propostas: "Il pastelaria trotzkista", um dos filmes dentro do filme de Aprile.

Vendo O Crocodilo, filme mais recente de Moretti, percebe-se que este "conflito" criativo, na verdade, traduz a premissa artística do cineasta: discutir política, com humor e ao mesmo tempo, fazer uma releitura do cinema italiano, num jogo metalinguístico bastante inteligente. Aprile e O Crocodilo, no geral inferiores ao Caro Diário e o Quarto do filho, crescem - e muito - quando vistos em conjunto. Que o aperitivo acima desperte o apetite por este cineasta tão interessante e original.

domingo, 9 de março de 2008

coisas que eu gosto (de ouvir ) 8:

Blood on the tracks, Bob Dylan, 1974.

Aproveitando a passagem de Bob Dylan no Rio, para mais uma "estação" de sua "Never Ending Tour", o jornal O Globo dedicou a capa e a matéria principal do RioShow ao velho bardo. A matéria procura fazer um inventário da carreira de Dylan, ao longo de quase cinco décadas, e, num paralelo ao lançamento do filme Não estou lá, de Todd Haynes, acaba definindo-o como um artista camaleônico, multi-facetado, uma espécie de Fernando Pessoa do rock´n´roll, com suas diferentes vozes poéticas, distintas entre si, e as multiplas "personas" encarnadas pelo músico.

A grosso modo, a matéria divide Dylan em quatro: o Dylan da época do folk rock, com sua gaitinha e violão e as canções de protesto, o pop star do meado dos anos 60, surrealista e empunhando guitarras elétricas, o Dylan irregular dos anos 70 e 80 e finalmente, o artista renascido, aos 66 anos ( 67 em maio próximo ). Bem, a divisão é arbitrária e superficial. Mas para uma revista de programação de fim de semana, com finalidade de divulgação de eventos e não de análise e crítica, digamos que categorizar a carreira de um artista tão importante e profílico como Dylan nestas quatro fases é até passável. O problema é quando o repórter resolve justificar as facetas de Dylan, classificando-as através dos discos lançados nos períodos abarcados em cada fase.

Ora, como todo artista, Dylan tem discos melhores do que outros, uns excepcionais, outros nem tanto, e claro, tem alguns discos sofríveis ( geralmente classificam seus discos da fase "cristã" como horríveis, mas é uma injustiça, afinal, Slow train coming e Shot of Love, a saber o álbum inicial e o final da trilogia cristã são discos muito bons, sendo que o primeiro contém uma das melhores músicas de Dylan de todos os tempos, a pulsante "You´ve gotta serve to somebody" e o último traz a belíssima "Every Grain of Sand", que sem nenhum exagero, podem fazer parte de qualquer boa antologia do músico ). Mas o que me incomodou na matéria foi, ao comentar a fase irregular da carreira de Dylan, ter citado o disco Blood on the tracks como um trabalho irregular, com "poucos belos momentos".

Tudo bem, o repórter pode ter se deixado trair pelo subjetivismo de seu gosto pessoal, mas classificar Blood on the Tracks como irregular é ir na contra-mão da maioria da crítica especializada, que considera este um dos melhores discos de Dylan de todos os tempos - comparado à Bringing It All Back Home, Highway 61 Revisited, Blonde on Blonde, John Wesley Harding, o recente Time Out the Mind e, claro, ao mítico Basement Tapes, álbum duplo que Dylan gravou com o The Band e manteve escondido por quase oito anos e que foi considerado uma lenda durante muito tempo.

Talvez pese contra Blood on the tracks o fato de ser um dos mais tristes e soturnos do artista, registro do fim do casamento de Dylan com sua primeira esposa, Sara Lowdes, e marcado pelo sofrimento, pelo rancor, pela desesperança e pela dor de cotovelo. É um disco denso, sofrido, amargo e amargurado. Afora a alegre quadrilha "Lily and Jack of Hearts", com sua letra quilométrica e brincalhona, as demais canções do disco são reflexões sobre a perda do ser amado. Um disco sobre perdas não é exatamente um disco agradável, porém Blood on the tracks é algo que se escuta da primeira a ultima faixa com prazer. Trata-se de uma pequena obra-prima musical, cheia de nuances, de poesia e com um Dylan inspirado como intérprete.

O disco abre com uma das melhores canções de Dylan, Tangled up Blue, que ele costuma cantar em quase todas as suas apresentações ao vivo, e dá o tom do disco: perda, culpa, solidão, melancolia, alguma auto-ironia. As canções cantam pequenas histórias de ajustes de contas de casais, reencontros frustrados, despedidas, saudades, nostalgia. Há um quê de Tcheckov nas letras e no clima do disco - da mesma forma que o escritor e teatrólogo russo, a dor e a tristeza de Dylan soam de forma acridoce, melancólica. É o tom de Simple Twist of fate, If you see her, say hello ( que aliás foi gravada por Renato Russo numa versão gay, mudando para If you see him, say hello, no disco Tributo a Stonewall, onde o cantor do Legião Urbana presta homenagem ao movimento homossexual ), de You´re a big girl now, Shelter from the storm e you´re gonna make me lonesome when you go ( recentemente regravada pela nova diva da musica cool, a francesinha Madeleine Peyroux, no seu também excelente disco Careless Love ). Esse tom acridoce é rompido pela raivosa e pungente Idiot Wind, uma das melhores ( e maiores, quase 9 minutos de duração ) músicas de Dylan de todos os tempos ( se bem que a melhor versão desta música está registrada num disco ao vivo, Hard Rain, lançado pouco depois. Ao vivo, toda raiva, mágoa e desesperança da letra, amplificada por guitarras elétricas distorcidas, soa inigualável ).

video

Como todo grande artista, Dylan fala de si e faz com que seus sentimentos mais íntimos ecoem em nossas próprias experiências pessoais. Blood on the Tracks, composto e gravado em meio ao turbulento processo de separação de Dylan e sua esposa, talvez seja um dos seus trabalhos mais confessionais - é o seu sangue que escorre das faixas.

Dolorido, melancólico, triste. Um disco essencial.

domingo, 2 de março de 2008

Shoah palestino

"Quanto mais os ataques com foguetes se intensificarem, maior será o holocausto ("shoah"), porque usaremos o que for necessário para nos defendermos".

Matan Vilnai, vice-ministro da Defesa de Israel, 27/02/2008, anunciando a ofensiva militar na faixa de Gaza, em retaliação aos foguetes disparados por militantes palestinos à cidades israelenses.

Às vezes, uma frase vale mais do que mil imagens.

Mas são os números, ou mais claramente falando, as vítimas, a prova maior de que Vilnai não estaria usando a expressão judaica erroneamente, ou no sentido de dizer "desastre, catástrofe", outros sinônimos de Shoah. Aliás, Matan Vilnai é quase um anagrama: mata e é vil. Seria engraçadinho, não fosse trágico.

O placar do conflito, até agora, mostra a "goleada" israelense...

Vitimas israelenses: 1 morto, 3 feridos.
Vitimas palestinas: 90 mortos, dezenas de feridos.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

É raça!


segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

ver e ouvir (1)

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"Subterranean Homesick Blues", Bob Dylan

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Momento poético em tempos de dureza (6)


Eu não tenho onde morar
É por isso que eu moro na areia

Eu nasci pequenininho
Como todo mundo nasceu
Todo mundo mora direito
Quem mora torto sou eu
Eu não tenho onde morar
É por isso que eu moro na areia

Vivo na beira da praia
Com a sorte que Deus me deu
Maria mora com as outras
Quem paga o quarto sou eu
Eu não tenho onde morar
É por isso que eu moro na areia

Eu não tenho onde morar, de Dorival Caymmi.

A pergunta que não quer calar

Sei que parece pergunta do Xexéu, mas é a grande dúvida nacional:
Que diabo de touquinha é aquela que o Padilha estava usando na premiação de Berlim???

Direita, volver!

A premiação de Tropa de Elite como melhor filme do Festival de Berlim pode significar várias coisas.
A mais óbvia, o reconhecimento das qualidades cinematográficas do filme, coisa que eu nunca neguei.
Que o prêmio é bom pro cinema brasileiro como um todo, também. É importante para resgatar o prestígio do cinema brasileiro, que andava obscurecido em meio à superestimada produção oriental, que há anos vem amealhando prêmios nos grandes festivais internacionais, muitas vezes com filmes de qualidade duvidosa.
Agora, a premiação sinaliza que a orientação ideológica mais alinhada à esquerda ou ao menos liberal, que sempre moveu a sensibilidade artística sofreu um vigoroso revés à direita.
Me parece que agora, no caso de dúvidas diante do discurso ideológico de um filme, opta-se pela direita. Neste sentido é indicativo que o Prêmio Especial do Juri, que nos meios cinematograficos costuma-se chamar de "segundo lugar", tenha ido para o documentário "Standard Operating Procedure", de Errol Morris, crítico às torturas aplicadas por soldados americanos aos prisioneiros iraquianos no presídio Abu Ghraib .
Essa orientação para filmes conservadores ou explicitamente de direita, como o TE, numa disputa com filmes de discurso mais progressista sempre regeu, por exemplo, a premiação do Oscar. Parece que agora orienta também o julgamento de festivais mais politizados.
Feliz mesmo deve estar Goebbels, na sua quentinha toca no quinto dos infernos. Finalmente conseguiu o seu tão desejado "Encouraçado Potenkim" de direita.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Quadros que queria ter na parede aqui de casa (12)




Bailarina se banhando, de Degas.

sábado, 9 de fevereiro de 2008

ontem/hoje (final)


O passado é conhecido por todos.





































Essas imagens te chocam?


























O que você pode fazer para impedir que elas se repitam, hoje?








quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

ontem/hoje (8)



Varsóvia, Polônia, 1943.

















Começam as deportações dos judeus para os campos de extermínio.




A violência torna-se intolerável.









Grupos de resistentes iniciam um levante contra os nazistas.

































A luta é desigual e encarniçada.








































































































O levante é debelado e o gueto destruído.































Palestina - hoje.



















































Explode a resistência contra a ocupação.















































A repressão israelense é violenta.


















































































A luta é desigual.
Mas os palestinos resistem.




ontem/hoje (7)




Varsóvia, Polônia, 1939/1941.
























































Infância destruída.











As maiores vítimas, sempre.









Palestina - hoje.


































A mesma infância ultrajada.



As vítimas de sempre.













































terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

ontem/hoje (6)




















Varsóvia, Polônia, 1939/1943.













Mulheres do gueto.























Até os lenços e véus se assemelham.






































































































































Palestina - hoje.


































segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

ontem/hoje (5)

























Varsóvia, Polônia, 1941/1943.








Premidos pela fome e pela miséria, os judeus confiandos no gueto, tentam desperadamente obter alimentos do outro lado do muro.
















Crianças são utilizadas para atravessar pequenos buracos no muro, para chegar ao outro lado, e assim conseguir alimentos.











































Palestina - hoje.





















O muro erguido por Israel em nome de uma suposta contenção de ataques terroristas separa milhares de palestinos de seus trabalhos, de suas terras, de suas escolas, famílias.








(continua )

ontem/hoje (4)




Varsóvia, Polônia - 1939/1943


















































































A vida possível no gueto.













































































Palestina - hoje.






































































A vida possível.


























ontem/hoje (3)
















Varsóvia, Polônia, 1941.





























Humilhação.



















































Palestina - hoje.

















Humilhação.



















ontem/hoje (2)










Varsóvia, Polônia, 1941.















































Palestina - hoje.








































ontem/hoje (1)

















Varsóvia
Polônia -1939/1943





















































Palestina - hoje.














































(continua)

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Fotogramas (6)


Bia, Clarisse e eu, no desfile do Brejeiros (sexta, 1 de fevereiro). Foto tirada no meio da muvuca, pelo celular da Anits. A resolução da foto é baixa, mas a animação era altíssima.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Quem são nossos ídolos? - a lista - final (10)

Para finalizar esta já extensa lista de grandes roteiristas, nada melhor do que apontar aqui novos e promissores talentos, que com certeza se tornarão referências ( muitos já são ) para quem quiser escrever para cinema.

O primeiro nome não dá para ser chamado de "promissor" pois já é um veterano: Marçal Aquino.

Jornalista, escritor e roteirista, com vários romances e livros de contos publicados, o paulista Marçal Aquino tem seu nome imediatamente ligado ao do igualmente jovem e talentoso diretor Beto Brant.

São parceiros constantes desde "Os matadores". A este seguiram-se Ação entre Amigos e O Invasor, que talvez seja o melhor trabalho da dupla.
Mais precisamente, da primeira fase do trabalho dos parceiros.
Nestes três primeiros filmes, percebe-se um olhar sobre a realidade nacional, focada basicamente numa trama policial com sensibilidade social. A violência da fronteira do Brasil com o Paraguai, quase um far-west nacional, e os matadores de aluguel, a serviço dos grandes fazendeiros, o ajuste de conta tardio e desesperançado de antigos militantes de esquerda contra o agente da repressão que os torturara no passado, nos anos de chumbo, e finalmente, a corrupção e violência que envolvem todas as classes sociais do país, como uma metástase que se alastra pelo corpo da nação doente, a temática do filme é sempre um olhar aguçado e crítico sobre a realidade brasileira, embalado num formato de triller ou drama policialesco.
Eis que ocorre uma reviravolta no trabalho da dupla e a partir de Crime Delicado, começa uma nova fase no trabalho da dupla. Agora o olhar volta-se para o interior, para pequenos dramas individuais e intimistas. E, de certa forma, num novo formato: são filmes que discutem o relacionamento humano, mais especificamente, o amor.
É esse o tema de Crime Delicado, adaptado do romance de Sergio Sant´anna, e Cão sem Dono, o mais recente trabalho da dupla, adaptação do romance "Até o dia em que o cão morreu", do jovem escritor gaúcho Daniel Galera.

Além do trabalho com Brant, Marçal desevolveu uma parceria com Heitor Dhalia, com quem escreveu Nina, uma adaptação bastante livre de Crime e Castigo, de Dostoievski e o excelente O cheiro do ralo, baseado no romance homônimo do desenhista underground Lourenço Muttareli e que considero um dos melhores filmes nacionais dos últimos anos.

Um retrato cruel e mesmo sórdido de um país que parece ter perdido a compostura, um filme cheio de cinismo, mas com sua dose de dor. Um belo filme, e sem dúvida, um dos melhores trabalhos de Marçal de Aquino como roteirista.

Também escritor, com vários romances publicados, o segundo nome "promissor" é o mexicano Guillermo Arriaga, parceiro do excelente diretor Alejandro Gonzalez Iñarritú, e com o qual escreveu três filmes: Amores brutos, ainda no México, e 21 Gramas e Babel, já na fase hollywoodiana de Iñarritu.
De certa forma o prestígio da dupla nasce pela forma fragmentada e caleidoscópica com que Amores brutos é narrado, num processo constante de desconstrução do tempo da ação, com flash-backs e flash-fowards intercalados.
O filme, realmente inovador na sua falsa aparência de filme de episódios, reproduziria a desestruturação emocional e psicológica dos personagens, sua desorientação em relação à condução das próprias vidas, o sentimento desesperador de se estar perdido e como se o controle de seu destino lhes escapasse pelas mãos.
Neste sentido, forma e conteúdo eram orgânicos: a fragmentação da narrativa traduzia o caos daqueles personagens.
Mas a exaustiva repetição dessa idéia ( e da forma ) nos filmes seguintes, acabou por desgastar o que seria uma característica narrativa da dupla, tornando-se um esquema, quase um maneirismo, postiço e portanto, desnecessário.
Em 21 gramas por exemplo, minha impressão foi que, passado os primeiros 20 minutos de filme, em que a história é narrada de forma totalmente fragmentada, e o tempo pulverizado com os contínuos deslocamentos de tempo, para trás e para frente, o drama dos tres personagens principais torna-se plenamente compreensível, e a fragmentação torna-se desnecessária, por inferior à força do conflito dos personagens.
Na verdade, a sensação é quase de irritação, pois as marcas do esquema de fragmentação cronológica da narrativa começam a tornar-se muito visíveis. Então, o que era uma necessidade orgânica da forma traduzir o conteúdo acaba virando um truque de virtuosismo, excessivo, postiço e desnecessário.

Particularmente, considero o melhor roteiro de Arriaga o belo filme de Tom Lee Jones, Os três enterros de Melchiades Estrada, onde o esquema é abandonado e sua vigorosa capacidade narrativa e seus personagens cheios de ambigua humanidade são devidamente aproveitados. Não à toa, o roteiro foi premiado no Festival de Cannes.

Mais recentemente, escreveu, a partir de seu próprio romance, Búfalo da noite, ainda inédito no Brasil ( passou no Festival do Rio, mas não há data para seu lançamento comercial ).

Após Babel, houve a ruidosa separação da dupla, com acusações de Arriaga à Iñarritu, que particularmente não desejo comentar. Lamentei o fim da dupla, pois acreditava que eles conseguiriam superar o esquema que haviam criado e finalmente produzir um novo e vigoroso filme, com a originalidade e força de Amores Brutos. Talento eles têm de sobra. Quem sabe separados, os dois venham atingir, por caminhos diferentes, este objetivo, satisfazendo assim à minha expectativa?

De qualquer forma, Arriaga está dirigindo seu primeiro longa-metragem de ficção ( já havia dirigido no México dois documentários ), com produção norte-americana, "The Burning Plain", que conta com Charlize Theron e Kim Bassinger no elenco.

Por fim, o terceiro nome que considero importante ressaltar é de um roteirista que pessoalmente nem me agrada tanto assim, mas que com certeza é importante e cuja carreira ainda iniciante, tem tudo para tornar-se referencial para os jovens e futuros roteiristas.

Trata-se de Charlie Kaufman.

Egresso da televisão, onde escrevia sit-coms como "Ned & Stacey","The Dana Carvey show" e "The problem with Larry", Kauffman se tornou um grande nome no cinema americano a partir de Quero Ser John Malkovich, estréia do então diretor de video-clipes Spike Jonze no cinema, um filme independente, que seduziu o Establishment e acabou sendo indicado ao Oscar de melhor roteiro original.
Em seguida viriam Natureza Humana, de Michel Gondry, que pessoalmente acho mais interessante do que Quero ser John Malkovich apesar de não ter feito muito sucesso.
Novamente com Jonze, faz o bizarro Adaptação, que muita gente acha fantástico, ao ponto de ser novamente indicado ao Oscar, mas que eu particularmente acho chatérrimo e esquemático, ainda que partindo de uma boa idéia e que tenha aqui e ali, algumas boas gags.


Em seguinda, e novamente com Gondry, Kaufman escreve Brilho Eterno de uma mente sem lembranças, com o qual ganha finalmente o Oscar. Nitidamente inspirado em Je t´aime, Je t´aime, de Allan Resnais, o filme é interessante, sem dúvida o melhor roteiro de Kaufman até então. Mas persiste a sensação de que, como nos anteriores, o roteiro começa bem e instigante, partindo de uma idéia original, mas que degringola do meio do segundo ato em diante, se esticando demasiada e enfadonhamente, e apelando para uma solução insatisfatória e meio postiça no final.

Em Brilho Eterno, o final é até bacana, mas persiste o problema no "meio do campo".

O melhor roteiro de Kaufman para mim é Confissões de uma mente perigosa, que ele escreveu para George Clooney. Neste, os problemas narrativos recorrentes de Kaufman parecem bem resolvidos, sem prejuizo à originalidade da trama. Mas li numa reportagem que Kaufman repudiou o trabalho, ficando revoltado com as mudanças que Clooney teria feito no roteiro, sem sua autorização. Então penso que os acertos foram cometidos pelo diretor, e que possivelmente o roteiro original possuísse os mesmos e já citados problemas dos outros trabalhos de Kaufman.

Nesta mesma reportagem, Kaufman alegava ser um autor, e que os filmes na verdade eram reproduções daquilo que escrevia, estavam subordinados ao seu texto. Não à toa, ele era o produtor dos filmes de Jonze e de Gondry. Achei-o profundamente pedante e equivocado. De qualquer forma, é um nome que irá certamente produzir mais coisas e quem sabe, mais maduro, despido dessa pose de diva, passe a entender que o roteiro é parte de um filme, e não o filme no papel.

Aliás, talvez essa maturidade chegue em breve: ele está dirigindo agora seu primeiro longa.

E com esses nomes encerro a lista dos roteiristas que devem ser devidamente conhecidos e estudados por qualquer um que queira se aventurar nessa seara chamada roteiro.

( E, lembrando a origem e a finalidade primeira dessa lista, posso responder ao meu querido aluno Renato: taí a lista dos nossos ídolos que você pedia. Agora você já tem a quem citar, quando algum aluno pernóstico de direção vier falar de Godard ou Glauber ou Orson Welles... )

domingo, 27 de janeiro de 2008

Quem são nossos ídolos? - A lista (9)

Não poderia fechar a lista dos grandes roteiristas sem mencionar Gerard Brach.
Esse grande roteirista francês está indissociavelmente ligado a um dos maiores cineastas de todos os tempos, Roman Polanski.

Quase toda a obra do genial diretor polonês foi escrita por Brach, numa das parcerias mais longevas e profílicas da história do cinema, competindo talvez com a dupla Buñuel e Carriére em matéria de clássicos.

A parceria de Brach com Polanski começa no primeiro filme que o diretor realizou, fora da Polônia: um dos episódios do longa "As mais belas trapaceiras do mundo", que contava com a participação de outros cineastas, como Godard, Chabrol, etc.

Logo em seguida, Brach escreveria Repulsa ao sexo, um dos melhores filmes de Polanski, estrelado por uma fria e belíssima Catherine Deneuve.

Repulsa ao sexo é um filme perverso, que fala sobre loucura, morte e sexo - temas caros a Polanski, que ele revisitaria em filmes posteriores, como O inquilino e Lua de Fel (os dois escritos por Brach ). De certa forma, pode ser entendido também como uma espécie de filme de terror - gênero que Polanski domina como poucos e que também é frequente em sua obra.

Depois viria Armadilha do destino, mais conhecido pelo título original Cul-de-sac. Essa pequena obra prima surrealista, com toques de Samuel Beckett é uma mistura de filme noir com comédia de humor negro. Personagens estranhos que se cruzam, encurralados dentro de um pequeno labirinto, se envolvendo em situações cada vez mais absurdas, num tom que beira o non-sense.

Quando Polanski atravessa o oceano e vai filmar em Hollywood, Brach segue com ele. Juntos, fariam A dança dos Vampiros, uma comédia divertidissíma, que seria o primeiro dos grandes sucessos de Polanski na América.

A dança dos vampiros tem gags antológicas, como a do vampiro gay, talvez a melhor de todas piadas sobre vampiro já feitas ( depois, Neil Jordan faria uma versão séria dessa gag, Entrevista com vampiro, com sua coleção de vampiros gays ou bissexuais, mas convenhamos que como piada a situação é muito mais interessante ).

Brach não acompanhou as seguintes produções de Polanski na América, voltando a trabalhar com o amigo somente no pequeno, pouco conhecido e estranho "Que?" um filme que Polaski faria, num intervalo entre suas grandes produções hollywoodianas como O bebê de Rosemary e Chinatown. "Que?" é uma espécie de Alice no país das maravilhas erótico e o clima de labirinto surrealista mais uma vez se repete aqui.

Em 1976, de volta de sua longa temporada nos EUA, Polanski e Brach se reunem para criar mais uma obra-prima: O inquilino.

O filme é um híbrido de comédia de humor negro e filme de terror, e narra o progressivo enlouquecimento de um jovem tímido ( interpretado pelo próprio Polanski ) que começa a absorver a identidade da antiga moradora do apartamento em que mora, e que havia se suicidado pouco tempo antes. Os vizinhos do prédio formam uma coleção de personagens bizarros, em muito semelhantes aos vizinhos de Rosemary, no edifício Dakota, só que mais aterradores e muito mais engraçados. O inquilino fecharia uma trilogia bolada por Polanski, chamada a trilogia do apartamento, composta por Repulsa ao sexo e Bebê de Rosemary - de fato, os tres filmes têm em comum o cenário principal ser um apartamento, além da temática do enlouquecimento dos personagens e sua filiação ao gênero do terror.

Sempre com Polanski, Brach escreveria também "Tess" ( estrelado por Natassja Kinski no explendor de seus 18 anos, belíssima ), o fracasso "Piratas", uma tentativa de reviver os clássicos de capa e espada, estrelado por Walter Mattaw, seguido pelo hitchcockiano Busca Frenética, estrelado por Harison Ford e que marcaria a estréia de Emmanuelle Seigner, estonteante atriz de formas quase brasileiras, então esposa do diretor, e que se tornaria sua musa, fazendo com ele outros dois filmes, entre eles, o genial Lua de Fel.


Lua de fel é, sem dúvida, o melhor trabalho da dupla Polanski e Brach desde O inquilino.
Novamente em cena os temas recorrentes de sexo, morte e loucura.
O humor negro que é marca da dupla, assim como os personagens pervertidos, amorais, estão presentes numa narrativa cheia de flash-backs e mudanças de narrador e de ponto de vista, gerando um instigante jogo de quebra-cabeças, onde verdade e mentira se sucedem e se confundem. Além de Seigner, estão no elenco Peter Coyote, Hugh Grant e Kristin Scoth-Thomas. Lua de fel seria o último trabalho de Brach com Polanski. O fim da parceria com fecho de ouro. Um grande filme, e um roteiro impecável.

Mas a carreira de Brach não está de modo nenhum subordinada à de Polanski.

Paralelamente aos trabalhos realizados com o genial cineasta, Brach escreveu para outros renomados diretores, sendo que o mais recorrente deles foi o francês Jean Jacques Annaud, formando uma parceria tão notável e profíqua como a que mantinha com Polanski.

A nova parceria começa com um dos filmes mais originais já realizados até hoje, o fascinante A Guerra do Fogo. A trama do filme é genial: como forma de se defender de uma tribo mais forte e violenta, um grupo de homens da caverna sai em procura do fogo. Nessa busca, eles cruzam com tribos que vivem diferentes e simultâneos estágios de desenvolvimento, tanto os mais primitivos, presos ainda à uma fase animalesca, e portanto, já em vias de extinção, e os que atingiram precocemente uma fase mais próxima ao que poderíamos chamar de civilização, e que também caminham para a extinção, por conta da decadência em que se encontram. Deste modo, o homem se confronta com seu passado e o seu futuro, e através disso, consegue encontrar os meios de sobreviver. Se historica ou antropologicamente essa trama possa ser questionada, como fantasia, é brilhante.

Em seguida, Brach adaptaria para Annaud o romance de Umberto Eco, O nome da rosa. O filme, que fez uma carreira brilhante, tornando-se um dos maiores sucessos comerciais da carreira de Annaud, é bem inferior ao livro, como entretenimento, mesmo, e a adaptação de certa forma é subserviente ao cinema hollywoodiano, abusando de clichês e do maniqueísmo que de certa forma caracteriza os filmes de ação norte-americanos. Mas nem de longe é um filme ruim, ao contrário, tem grandes méritos. Centrando basicamente na trama investigativa da história de Eco, uma bela homenagem a Sherlock Holmes, o filme se desenrola como um belo filme de detetive, com mistérios, reviravoltas surpreendentes, tipos misteriosos, mulher sedutora e, óbvio, assassinatos. Tudo isso passado dentro de um mosteiro. É um filme divertido, com excelentes atuações de Sean Connery, F. Murray Abraham e de Christian Slater.

O filme seguinte de Annaud é "O Urso", estranha e bela fábula cujo protagonista é um urso. Fique bem claro que não é um filme para crianças. É um belo filme, com toques de Jean-Jacques Rousseau em sua reflexão sobre a vida selvagem. Um momento genial do filme é quando o Urso ainda filhote, come cogumelos e vive uma experiência lisérgica.

Em 1992, Brach e Annaud adaptariam o famoso romance de Marguerite Duras, O Amante, de cunho profundamente auto-biográfico, realizando um belo filme, ao mesmo tempo poético e pontuado por um forte erotismo, pleno de cenas de sexo ousadas, protagonizadas por Jane March e Tony Leung. É um filme melancólico, triste até ( como de resto, é a literatura de Duras). O filme conta também com uma bela narração, a cabo de Jeanne Moreau. Este seria o último trabalho da parceria Annaud-Brach.

Outro diretor com quem Brach faria bons trabalhos é o russo Andrey Konchalovsky, para quem escreveu o belo "Os amantes de Maria", drama protagonizado por Natassja Kinski, o sumido John Savage e o veterano Robert Mitchum, e que marcou a estréia de Konchalovsky em Hollywood.

Depois, Brach escreveria o roteiro de Shy People, Gente diferente, talvez o melhor trabalho de Konchalovsky no cinema americano, um drama passado nos pantanais da Louisiana, totalmente narrado sob a ótica profundamente feminina, mostrando o conflito entre uma burguesa de Nova York, esclarecida, sofisticada ( vivida por Jill Clayburgh ) e sua prima caipira, obtusa, arcaica, magistralmente interpretada por Barbara Hershey ( premiada em Cannes pela sua performance ) e, num terceiro ponto de vista, a testemunha desse confronto de personalidades e, principalmente, de mundos tão diferentes, ainda que simultâneos, a filha adolescente da mulher da cidade, uma irritante patricinha interpretada por Martha Plimpton ( uma talentosa atriz mirim que desapareceu, depois de adulta).

Outro diretor com quem Brach trabalhou bastante é o francês Claude Berri, para quem, entre outros trabalhos, escreveu a bela saga Jean de Florette, baseado na obra de Marcel Pagnol - drama realizado em duas partes, distintas, Jean de Florette, com Gerárd Depardieu e Yves Montand e a continuação, A vingança de Manon, com Yves Montand e Emanuelle Beart.

Brach chegou a dirigir alguns filmes, como Le Bateau sur l´herbe, cujo roteiro foi escrito por Polanski, numa memorável troca de papéis.

Brach morreu em 2006.

(continua).

sábado, 26 de janeiro de 2008

Quem são nossos ídolos ? - a lista (8)

Esta lista já está ficando maior que o livro dos santos... ( temo que sua intenção se desvirtue e daqui a pouco estejam acendendo velas e fazendo pedidos para os roteiristas aqui citados... ).

Mas dois nomes não podem ficar de fora. Dois grandes roteiristas, cujo trabalho realmente é inspirador.

O primeiro deles é o inglês Robert Bolt.
Também oriundo do teatro, Bolt é um nome que está associado ao grande diretor David Lean, de quem foi parceiro em alguns de seus mais importantes fimes.

Sua primeira parceria com Lean foi o espetacular Lawrence da Arábia, baseado nas aventuras do polêmico militar inglês, T.H. Lawrence, um dos mais belos filmes já realizados em todos os tempos e que lançou ao estrelato o então jovem e belíssimo ator Peter O´Toole ( que recentemente, tem retornado às telas com pequenos e interessantes filmes, como Vênus) .

O roteiro, que foi indicado ao Oscar, retrata com perfeição as ambiguidades de Lawrence, inclusive seu discutido homossexualismo, e sua dedicação à emancipação dos povos árabes, em detrimento inclusive dos interesses britânicos, a quem deveria responder, primeiramente. O filme conta com atuações memoráveis do já citado O´Toole, de Omar Sharif ( que depois iria estrelar Dr. Jivago ), Anthony Quinn e Alec Guinness.

Há uma polêmica acerca do roteiro, que teria sido escrito também por Michael Wilson. Wilson, grande roteirista, autor de "Um lugar ao sol" e "Planeta dos macacos", escrevera com David Lean "A Ponte do rio Kwai", teria sido o primeiro roteirista a participar de Lawrence, mas como estava na "lista negra" de Hollywood, por conta do maccartismo ( junto com Dalton Trumbo, já citado aqui anteriormente), acabou não sendo creditado. Dizem as más línguas que a razão de sua exclusão deve-se menos ao fato de estar lista negra do que ao temperamento excessivamente ciumento e autoral de Bolt, que recusou a parceria.

De qualquer forma, a partir de 1995, com Bolt, Lean e Wilson já falecidos, seu nome foi finalmente incluído nos créditos, constando já nas versões em dvd do filme.

A parceria de Bolt com Lean rendeu também o não menos grandioso Dr. Jivago, adaptação do famoso romance de Boris Pasternak, pelo qual ganhou seu primeiro Oscar como roteirista.
O filme, de todo magistral, ficou conhecido entre outras razões pelo belo Tema de Lara, uma das mais famosas músicas oriundas do cinema, e que quase todo mundo assobia, sem associar ao filme ou ao seu compositor, Michael Jarre.
Dr. Jivago é um dos mais belos dramas românticos de todos os tempos, narrando o sofrido romance entre Jivago e Lara, cheio de encontros e desencontros (mais estes do que aqueles) em meio à dramática Revolução Russa e define, com perfeição, a premissa cinematográfica de Lean: o drama individual e particular eclodindo em meio a um forte conflito social.
No elenco, Omar Sharif, Julie Christie, Geraldine Chaplin e Tom Couternay.

Bolt escreveu também A filha de Ryan, um belo filme de Lean, mas meio subestimado ( talvez por ser menos grandioso que os anteriores, em termos de produção ). Novamente presente aqui a temática do drama indivídual em meio a um conturbado processo histórico, no caso, um romance adúltero que ocorre em meio à revolução irlandesa. Sendo que a esposa trai o marido irlandês com um oficial britânico, o que acirra ainda mais o conflito, pois ela não só está traindo o esposo, mas toda a causa revolucionária e patriótica. O filme traz excelentes atuações de Sarah Miles, Robert Mitchum e Trevor Howard.


Bolt ganharia seu segundo Oscar por O homem que não vendeu sua alma, adaptado de sua própria e prestigiada peça teatral, The man for all seasons, dirigida pelo grande diretor Fred Zinnemann. Baseado na história real de sir Thomas Moore, que era o conselheiro e preferido do rei Henrique VIII mas que acabou decapitado por se recusar a renunciar ao catolicismo e endossar o divórcio do rei, que queria se casar com Ana Bolena ( que depois, já casada e rainha, seria decapitada, também, para permitir um novo casamento de Henrique, mas isso é outra história e outro filme, "Ana dos mil dias"), o filme ganhou, além do já citado Oscar de roteiro, outros cinco Oscars. É um belo drama histórico, que de vez em quando passa de madrugada na televisão.

Além desses, Bolt escreveu também O grande motim, segunda refilmagem ( a versão original, dos anos 30, tinha Clark Gable e Charles Lawgton no elenco, sendo refilmado primeiramente nos anos 60, com Marlon Brando e Trevor Howard, nos papéis que nesta versão seriam entregues a Mel Gibson e "sir" Anthony Hopkins ) sobre a história real do motim no navio inglês Bounty, no século XVIII.

Bolt dirigiria um filme, Lady Caroline Lamb, mas a má recepção da crítica fez com que abandonasse o projeto de tornar-se diretor.

Seu último trabalho como roteirista foi A Missão,dirigido por Rolland Joffé, belo drama ambientado nas "missões" jesuíticas no sudoeste brasileiro - e que de certa forma busca repetir a fórmula de Lean, grandes produções baseadas em fatos históricos que na verdade não passam de filmes intimistas, sobre o drama de consciência de homens em meio a importantes processos históricos. E deu certo pois, além de ser um belo filme, foi premiado com a Palma de Ouro, em Cannes.
Com belas interpretações de Robert de Niro, Jeremy Irons e Liam Neeson e Aidan Quinn no começo da carreira.



O outro nome indispensável numa lista de grandes roteiristas é o norte-americano Robert Towne, também diretor.



Pertencente à geração de artistas que surgiu nos anos 60 e que foi responsável pela última era de ouro do cinema americano, chamada "Nova Hollywood" ( o período de dez anos que vai de Bonnie e Clide à Rede de Intrigas, já comentado aqui ), ao lado de Coppola, Scorsese, Arthur Penn, Brian de Palma, Jack Nicholson, Dennis Hooper, Spielberg, entre outros, Towne é imediatamente lembrado por seu principal roteiro, Chinatown, dirigido por Roman Polansky, magistral homenagem ao cinema noir e que lhe rendeu o Oscar de roteiro original.


A carreira de Towne começa no início dos anos 60, na produtora do rei dos filmes "B", Roger Corman, escrevendo (e às vezes até atuando ) alguns dos filmes do cineasta notabilizado por fazer filmes com baixissimo orçamento e com uma velocidade assombrosa ( há casos de filmes rodados em apenas um dia ). São desta fase os roteiros de "A última mulher sobre a Terra", ficção científica apocalíptica e erótica, e "O gato fantasma", baseado em conto de Edgar Allan Poe e estrelado por Vicent Price, o astro das produções de Corman.

Trabalhando com Corman, Towne iria conhecer aquele que durante muito tempo seria seu parceiro e camarada, Jack Nicholson, para quem escreveria o longa Drive, He said, obscura incursão de Nicholson na direção. É dessa época também sua parceria com o mítico John Cassavetes, para quem escreveria o curta "My daddy can lick your daddy".

Tendo participado do roteiro do clássico de Arthur Penn, Uma rajada de balas - Bonnie e Clyde, sem entretanto ser creditado por este trabalho ( o roteiro é oficialmente atribuido a Robert Benton e David Newman), Towne começa a ser reconhecido como um roteirista "sério" e promissor.


Trabalha depois como scriptdoctor em O poderoso chefão, de Coppola, o que consagraria seu nome como roteirista profissional.


É quando escreve o roteiro do filme de Hal Ashby, A Última missão, comédia dramática estrelada por seu chapa Nicholson. A Última Missão lhe valeu uma indicação para o Oscar e com isso, uma valorização imediata de seu trabalho. (Aliás, abrindo um parentesis, Hal Ashby é um grande diretor norte-americano que anda esquecido, atualmente, apesar de ter feito grandes sucessos como este A última missão, Harold e Maude, Essa terra é minha terra, Amargo Regresso e Muito Além do Jardim. Vou falar dele, numa próxima postagem ).

A última missão, entre outros méritos, iria consagrar definitivamente Jack Nicholson como um dos maiores atores norte-americanos.

Em seguida vem Chinatown e o Oscar de melhor roteiro. Este maravilhoso filme, em que tudo funciona com perfeição, desde o roteiro espetacular de Towne, à direção soberba de Polansky, passando pelas interpretações antológicas de Nicholson, Faye Dunaway e John Huston ( no papel do patriarca Noah Barnes, aliás uma justa homenagem ao pai dos filmes "noir"), é muito analisado, sendo inclusive a base de toda "teoria" de roteiro do Syd Field. Justiça seja feita, a análise do roteiro do filme por Field é a melhor coisa que ele fez ( conferir no seu livro Manual do roteiro).

video

Depois de Chinatown, Towne escreveria a comédia romântica Shampoo, nova parceria com Hal Ashby, que estrelada e produzida por Warren Beatty, que também assina o roteiro. Novamente, Towne foi indicado ao Oscar, por este trabalho.


Este filme seria veículo para a consagração de Beatty como grande galã americano. Posteriormente, Beatty começaria uma carreira como diretor, realizando entre outros o belo filme Reds ( que em algum momento comentarei aqui ).

Depois de Nicholson, Beatty é um dos seus principais parceiros e camaradas. Towne escreveu para ele dois roteiros, sem ser entretanto creditado: A Trama ( the Paralaxx view ) e O céu pode esperar.


Para Jack Nicholson e Arthur Penn, e mais uma vez não creditado, trabalharia no roteiro de Duelo de Titãs, curioso western estrelado por Marlon Brando e Nicholson.

O sucesso como roteirista levou Towne para a direção. Seu primeiro filme é As parceiras, drama baseado em fatos reais, sobre a equipe de atletismo feminino norte-americano nas olímpiadas de 1980, em Los Angeles, envolvendo lesbianismo, cenas de sexo soft, etc. O filme foi estrelado por Mariel Hemingway, então estrela em ascensão em Hollywood.


Em seguida, realiza Conspiração Tequila, pretensioso e confuso triller, numa trama que misturava elementos do cinema noir, com tráfico de drogas, traições, contando com um elenco estelar, encabeçado por Mel Gibson, Michelle Pfeiffer, Kurt Russel e Raul Julia.

Paralelamente à carreira de diretor, segue como roteirista, escrevendo Greystoke - A lenda de Tarzã, que assinou com o pseudônimo de P.H. Vazak e com o qual foi mais uma vez indicado ao Oscar.

Em 1990, escreve a esperada sequência de Chinatown, chamada A chave do enigma ( the Two jakes ), que almeja dirigir.

Depois de uma longa e desgastante pré-produção, quem levou a direção foi seu amigo e parceiro Jack Nicholson, que dirigiu e interpretou o filme, de resto bem inferior à Chinatown, algo confuso, apesar de charmoso.

O filme contava com um elenco interessante, além de Nicholson, com participações de Harvey Keitel, Meg Tilly, James Huong.

Towne segue escrevendo e dirigindo. Trabalha mais uma vez com seu parceiro de Chinatown, Pollansky, no triller "Busca Frenética", mas mais uma vez seu nome não entra nos créditos. Ao mesmo tempo que estabelece uma parceria com Tom Cruise, escrevendo os roteiros de Dias de trovão, A firma, Missão Impossível I e II, dirige os filmes Prova de Fogo, mais um drama ambientado no mundo do atletismo e mais uma vez mal recebido pela crítica, voltando a escrever com seu amigo Waren Beatty o filme "Amor sem limites", refilmagem de Tarde Demais para esquecer, estrelado por Beatty e sua esposa, Annette Bening.


Sua mais recente obra como diretor foi a adaptação da obra de John Fante, Pergunte ao Pó, estrelado por Salma Hayek e Collin Farrell, que dividiu opinões: alguns adoraram o filme, enquanto outros, talvez leitores do romance de Fante, odiaram.

Talvez Towne sofra daquela maldição que é atribuída aos roteiristas que dirigem, cujos filmes acabam sendo chamados de "filmes de roteiristas", que é um termo pejorativo com o qual se define boas narrativas mediocremente filmadas.

Mas ainda que como diretor, Towne seja bastante ( e injustamente ) criticado, seu trabalho como roteirista é sempre irretocável. E cujos roteiros precisam ser sempre analisados e cotejados por qualquer um que deseje se tornar um roteirista.

(continua)

diálogo palestino-israelense


(precisa traduzir?)

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008


Da série "Grandes diálogos do cinema" (para estudantes de roteiro):

Ray
She took his dinner in to him once. Me mum, in the pub, and plonked it in front of him on a tray. Knife and fork, salt and pepper. He said, "What's that?" She said, "It's your dinner. I thought you might be hungry. You ain't eaten for three fucking days. You live in here, you might as well fucking eat in here." It's funny. He didn't like that, did he? Mugged him up in front of his mates. Thought more of them cunts than he did us. Lovely. Yeah. She got a clump over that. Well, she would, wouldn't she? He was always pissed in there, weren't he? You know? We go in the pub to get our living, you know? That's where we do our business. He'd be there spunking out while we're sitting at home without a dinar, you know, thank you. And he'd promise things. You know? Promise to take us places, you know? Never did. Never took us anywhere. And when he did bother to come home he'd sit in that fucking chair, doss off with his tray in his lap. And I'd just stand there looking at him. I'd look in his face, and my mother'd go upstairs, and I'd say, "Say, Mum, ain't Daddy coming to bed?" And she'd say, "No. No, he's all right, son. He'll come up when he wakes up." He's gotta wake up to go to bed! Now, I'd stand there looking at this fucking old man, you know, my dad, you know, in that chair, that horrible fucking chair with the shiny, worn-out arms. I should've burnt the fucking thing. By the end he was hemorrhaging from both ends, you know? I used to hear him in the morning hanging on to the kharzi. It was lovely. Never stopped him going to the pub, though. No, he was well enough to do that. Now, one day, right, he's staggering across the pub pissed from the night before. He's gone over, crunch, right on his mooey, like a fucking ironing board. His hooter's around here, his railings all over the fucking place. Me and me mum had to go the hospital to see him. We walked in. He's laying in bed. He's got tubes up his arms, fucking up his nose, down the back of his Gregory. He didn't look well. Fucking vodka was keeping him alive. Well, I ain't that interested, so I'm having a little mooch about, you know. I looked above his bed, and there's this sign, right, with some weird writing on it. I couldn't read too well at the time. I said to my mum, "Mum, what's that say? You know, that sign above Daddy's head." All right? She said, "Nil by mouth." "What's that, a football score?" One-nil, three-nil, two-nil, a geezer called fucking Nil. Yeah. I said, "Well, what's it mean?" She said, "It means...”

Mark
It means nothing to eat.

Ray
Yeah, nothing down the... [points into his mouth]

Mark
Nothing down the... Yeah.

Ray
Yeah, all right. I remembered that day, because I could've put that on his fucking tombstone, you know? Because I don't remember one kiss, you know, one cuddle. Nothing. I mean, plenty went down, not a lot came out, you know, nothing that was any fucking good. And I'd look at this man that I call Dad, you know? My father, I knew him as Dad. He was my fucking dad but he weren't like other kids' dads, you know? It was as if the word itself were enough, and it ain't.

Mark
That ain't when he died though, is it?

Ray
No. He lived another ten years, slippery old cunt. He died one afternoon in that fucking armchair. About right. I went around to see him, you know, when he was plotted up at me mother's.

Mark
Hatcham Road?

Ray
Yeah, Hatcham Road. He was upstairs in that front bedroom. Laid out.

Mark
Free.

Ray
Yeah. Yeah. I've gone up there, gone in. I'm sitting on the bed looking at him. He's laying there like... Mullered. And it was like he'd shrunk, you know? He was a big man.

Mark
He was a lump.

Ray
Yeah. You should know. You got enough clumps off the cunt. (sighs) And I just touched him, you know? He was fucking freezing cold. It frightened the life out of me. I was looking at him, you know? For the first time in my life, I talked to him. I said, "Why didn't you ever love me?"

Ray (Ray Winstone) e Mark ( Jamie Foreman ) em Violento e Profano, de Gary Oldman. Roteiro de Gary Oldman.

Esse belo diálogo, uma confissão pungente, quase um monólogo, um solilóquio (as intervenções de Mark funcionam mais como eco, como uma espécie de coro que sublinha alguns momentos da confissão de Ray, ou, simplesmente, como "escada" para o protagonista )com as pausas, o tom correto, a respiração pesada de quem está abrindo as entranhas, não deve durar menos de dois, dois minutos e meio.
Me pergunto que diretor ou produtor brasileiro permitiria um momento assim num roteiro.
-"Blá, blá, blá" - seria a primeira reação."Isso é teatro", diriam alguns mais ilustrados. "Isso é televisão", retrucariam os mais ignorantes. "É bonito para ler, mas não como ação", talvez argumentassem os mais sensíveis, mas igualmente avaros produtores e diretores nacionais. "Não sei filmar gente falando", talvez confessasse o diretor mais sincero. A maioria pediria para diminuir o texto, "dar uma enxugada". Outros, simplesmente, pediriam para limar.
É por essas e outras que a atividade de roteirista é tão desgastante.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Quem são nossos ídolos? - A lista (7)

Sei que sou suspeito, mas nenhuma lista dos grandes roteiristas estaria completa sem o nome de Jorge Durán. Os mais de vinte anos de amizade que mantemos, na qual nossa relação foi evoluindo de discípulo, assistente, aprendiz, colaborador e finalmente, colega de profissão, talvez me impeçam de uma apreciação objetiva do trabalho do Durán.

Mas, quem me obriga a ser objetivo? Aqui é apenas e tão somente um espaço onde expresso meu particular ponto de vista - ou simplesmente, onde jogo conversa fora. No mais, a opinião que tenho sobre o Durán é partilhada por quase a totalidade dos roteiristas. É um verdadeiro mestre.

Penso que devemos sempre ter a obra do Durán como referência ao encarar nosso trabalho. Não que ele acerte sempre. Pelo contrário, às vezes ele erra e feio. Mas é justamente essa experiência, que acumula títulos históricos e fundamentais entre os acertos, e alguns deslizes em filmes no todo infelizes, que faz de Duran o grande roteirista que é.

Chileno, Durán estudou teatro, tendo começado a vida como ator. Depois começou a trabalhar em cinema, como assistente de direção. Trabalhou com o famoso diretor greco-francês Costa-Gravas, em "Estado de Sítio", filmado no Chile. Parece que eles se deram super-bem. Tanto que o Durán ganhou de Costa-Gravas dois presentes: um visor de diretor ( view-finder ) com uma carinhosa dedicatória, impressa no aparelho e o plano final do filme ( é quase uma aparição, Duran surge como um guerrilheiro tupamaro remanescente, após a repressão, de modo a dizer que a luta continuaria ). Nessa época, Durán começa a escrever seus primeiros roteiros, que no entanto, não conseguirá ver filmados. Em 1973, o presidente socialista Salvador Allende seria derrubado por um golpe militar, com a intalação de uma das mais cruéis e sangrentas ( e longevas ) ditaduras do continente, comandada pelo famigerado Pinochet. Como a vida sob a ditadura ficou intolerável, Duran veio ganhar a vida no Brasil. A fama de ter sido assistente do Costa-Gravas lhe abriu as portas, e ele trabalhou com Jabor, Cacá Diegues, Bruno Barreto, Ruy Guerra, ou seja, como a nata do cinema brasileiro dos anos 70. Mas seu encontro com Hector Babenco, com quem trabalhou em "O rei da noite" ( primeiro longa de Babenco), iria marcar sua transição de assistente de direção para roteirista. Com e para Babenco escreve o roteiro de "Lúcio Flávio, o passageiro da agonia", a partir do romance reportagem do escritor, jornalista e também roteirista José Louzeiro ( que co-assina o roteiro ). Seria seu primeiro sucesso.

Os convites começaram a aparecer.
Ele escreve para Tizuka Yamazaki o roteiro de Gaijin, os caminhos da liberdade, com o qual a diretora estrearia.
Saga da imigração japonesa para o Brasil, no começo do século, inspirado na história pessoal de Tizuka, Gaijin é um belo filme, e o roteiro do Durán é sem dúvida um dos grandes responsáveis pela qualidade do filme. Um dos grandes momentos do filme é quando o peão nordestino ( interpretado com o talento de sempre por Zé Dumont), igualmente migrante, tenta ensinar o português ( ou seria mais apropriado, o "brasileiro" ) aos japoneses. Cena em que humor e lirismo se conjugam, com maestria.

Em seguida, e de novo com Babenco, a partir de um romance-reportagem de José Louzeiro, Duran faria aquele que seria considerado o seu melhor roteiro ( ou pelo menos, o trabalho com o qual até hoje é conhecido ) Pixote, a lei do mais fraco.
Em Pixote, estão delineadas todas as características dos trabalhos de Duran: a sua aguçada sensibilidade social, seus personagens duros, agressivos, provocadores, uma simpatia evidente pelos outsiders, pelo marginal, pelo errado ( como contraponto do que a sociedade, ou mais corretamente, o status quo considera correto ), o realismo que não abre brechas para nenhuma possibilidade melodramática ou piegas, e, ao mesmo tempo, uma capacidade de fazer poesia com situações e personagens tão avessos ao lirismo. E claro, dentro da medida do possível, o humor, com o qual Duran sempre pincela seus trabalhos. O filme foi um dos maiores sucessos do cinema brasileiro, e alavancou a carreira de Babenco no cinema hollywoodiano. E obviamente consolidou o nome do Durán como roteirista.

É nessa época que escreve o poético "O sonho não acabou", de Sergio Rezende (em parceria com o Zé Joffily, que à essa época se aventurava no roteiro), o excelente Nunca fomos tão felizes ( estréia do prestigiado fotógrafo Murilo Salles na direção, aliás, Durán podia ser definido como roteirista de diretores estreantes, e pé quente, pois esses estreantes, como Babenco, Tizuka e Murilo acabaram tornando-se grandes nomes do cinema brasileiro ), e "O rei do Rio" ( de Fábio Barreto, novamente em parceria com Joffily ), adaptação da peça O rei de Ramos, de Dias Gomes ( que por sua vez, havia sido a base da novela Bandeira 2, do proprio Dias, de grande sucesso na década de 70).


É desse período tambem que escreve, e novamente para Babenco, a adaptação da famosa peça do escritor argentino Manuel Puig, O beijo da Mulher-Aranha. Mas depois o filme tornou-se uma co-produção internacional, o o roteiro foi reescrito e assinado unicamente por Leonard Schrader ( irmão do Paul, já falamos nele em outra postagem).

Se não me engano, Durán foi creditado como "adaptação literária", seja lá o que isso signifique.

Paralelamente ao trabalho como roteirista, começou a fazer também produção de filmes, visando a direção. Dirigiu um filme, O Escolhido de Yemanjá, para Jece Valadão, que acabou não sendo lançado comercialmente ( creio que recentemente foi exibido na televisão ) Até que em 1986 consegue dirigir seu primeiro longa-metragem, A cor do seu destino, que amealhou uma infinidade de prêmios e teve uma recepção muito boa da crítica, e uma razoável carreira comercial ( razoável para as bases do cinema brasileiro nos anos 80, os 150 mil expectadores que fez podia ser pouco naquela época, hoje seria uma das maiores bilheterias nacionais, pra se ter uma idéia de quanto perdemos, do Collor para cá... ). Mas o sucesso de "A cor do seu destino", ao contrário do que se esperava, não alavancou sua carreira como diretor. Os tempos estavam mudando, naquele final da década de 80, e para pior. A eleição do Collor e o subsequente desmonte de toda estrutura que subsidiava a produção nacional literalmente acabaram com o cinema brasileiro. Para se ter uma idéia da crise, basta pensar que a média de 100 filmes produzidos anualmente no Brasil, nos anos 70 e 80, caiu para tres títulos, em 1991.

As carreiras refluiram, os profissionais tiveram que buscar outros meios de sobrevivência. As coisas começaram a melhorar, na metade da década de 90. Mas Durán teve que adiar seu retorno à direção, seguindo escrevendo, tendo feito entre outros, o roteiro do polêmico Como Nascem os anjos, novamente para Murilo Salles, "Fica Comigo" ( uma bomba, certamente o pior filme da Tizuka Yamazaki e o momento mais infeliz da carreira do Duran ), "Uma onda no ar"( para Helvécio Ratton), além de escrever roteiros para dois jovens diretores latinos, "Last Call", da chilena Christine Lucas e "Mi mejor enemigo", do argentino Alex Bowen.

Finalmente, em 2007, exatamente 20 anos depois de "A cor de seu destino", retorna com o emocionante Proibido Proibir, que como o primeiro, falava de jovens, seus sonhos, ansiedades, perplexidades. Ao mesmo tempo, com uma forte crítica social e um poderoso discurso político e moral, que ademais, é marca dos roteiros do Durán.
O fato de ser chileno o faz ver o Brasil melhor do que muito brasileiro. Melhor, de forma mais crítica, mas ao mesmo tempo, sempre apaixonada.
Da mesma forma que A cor..., Proibido Proibir amealhou dezenas de prêmios em diversos festivais, obteve uma excelente resposta da crítica, mas não fez uma carreira comercial tão boa. Mas felizmente, o sucesso agora obteve uma resposta mais rápida: Durán já prepara seu novo longa como diretor, "Gabriel".

Mas Duran continua escrevendo, e entre seus trabalhos como roteirista mais recentes, está a boa adaptação do conto de Cortazar, Jogo Subterrâneo, dirigido por Roberto Gervitz. Também é muito solicitado como "script doctor", participando de diversos work-shops de roteiro no Brasil e no exterior.

E paralelamente às suas atividades como roteirista e diretor, Durán segue dando aulas.

Tenho certeza de que, dos alunos que passaram e passarão por suas mãos ( "a mão do mestre", piada que corre à boca miúda entre nós, demais roteristas ) sairão futuros grandes roteiristas.

Eu sou prova cabal disso. Duran foi meu mestre, e a ele sou eterno devedor,além de ser seu grande admirador.
(continua )

Fotogramas (5)


"saíb" Bruno Vianna, num modelito étnico muito elegante, por sinal - Barcelona, comecinho de 2007.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Quem são nossos ídolos? - a lista (6)

A atividade de roteiristas muitas vezes atrai pessoas de outras áreas da dramaturgia, especialmente, dramaturgos, romancistas, jornalistas. O fato de trabalharmos com texto e palavras ( sendo que nosso caso, unicamente como meio, e não como fim ) nos aproxima bastante dos demais ditos "profissionais da palavra". No mais, somos todos contadores de histórias, independente da mídia em que atuamos. Muitos dos grandes roteiristas contemporâneos, e mesmo, diretores de mão cheia, são egressos do teatro e da literatura.

Dos contemporâneos, talvez o mais notável seja o norte-americano David Mamet.

Consagrado autor e diretor de teatro, Mamet começou adaptando seus próprios textos para a tela, e como demonstrou grande talento para a coisa, passou a escrever diretamente para o cinema.


Dentre seus primeiros trabalhos, chama destaque a adaptação para cinema do romance noir de James M. Cain, "O destino bate a sua porta" ( que já havia sido adaptado algumas vezes antes, uma dirigida por Luchino Visconti, com o nome de Ossessione, em 1943 e outra, na década de 50, com a bomb-shell Lana Turner e John Garfield). Esta versão é famosa pela tórrida cena de amor na mesa, entre Jack Nicholson e a então estonteante Jessica Lange. O filme foi dirigido por Bob Rafelson, e fez grande sucesso.

Depois escreveu o drama de tribunal, O Veredicto, de Sidney Lumet, com Paul Newman e que lhe valeu sua primeira indicação ao Oscar como roteirista.


Mas talvez o grande trabalho de Mamet como roteirista seja Os Intocáveis, de Brian de Palma. O filme grandioso, tem um roteiro a àltura das elucubrações cinematográficas de de Palma, com suas famosas citações ( a cena do tiroteio na Estação de trem citando o Encouraçado Potemkin é brilhante ) e ao mesmo tempo, com rigor narrativo e dramatúrgico pouco visto nos demais filmes de de Palma ( sabidamente um cineasta que usa as tramas como pretexto para criar climas e exercícios estilísticos, num virtuosismo genial ). Partindo do antigo seriado de televisão de mesmo nome, que por sua vez, era inspirado na real força-tareda policial que botou Al Capone atrás das grades, Mamet habilmente soube dosar o protagonismo de Ness com seus companheiros, criando personagens diferentes, humanos, distintos, cada um a sua maneira possuindo um grande momento solo. Eliott Ness seria o idealista, puro e deslocado da realidade ( papel sob medida pro jeitão de bom moço de Kevin Costner ), Jim Malone ( brilhantemente interpretado por Sean Connery, justamente premiado com o Oscar de melhor ator coadjuvante ), o policial irlandês durão, que não reluta em meter a mão na podridão representaria o senso comum, que transforma em prática o que a teoria de Ness não consegue materializar, George Stone ( Andy Garcia), seria a juventude, com seu voluntarismo e alguma irresponsabilidade, cujo processo no final irá amadurecer e Oscar Wallace (interpretado pelo dublé de ator e escritor Charles Martin-Smith, autor de vários romances policiais, como O Assassinato na rua Gorki ) seria o homem comum, destituído de músculos, pontaria ou qualquer outro atributo especial, mas por isso mesmo, tão ou mais heróico quanto os demais. Mais que personagens, são arquétipos- mas não de heróis, e sim de homens, de gente como a gente ( pelo menos, como a gente americana).

Sem dúvida, Os intocáveis alavanca a carreira de Mamet como diretor, que começa com pequenos e inteligentes filmes como Jogo de Emoções e As coisas mudam. Sua carreira é alternada com roteiros que escreve para grandes estúdios e com os quais financia parte de seus filmes mais autorais, como "Olleana", adaptação de sua própria peça, e Homicídio.
Entre os roteiros que escreveu profissionalmente estão "Hoffa - o homem, a lenda", de Danny de Vito, "Ronin", de John Frankenheimer, "Mera Coincidência", de Barry Levinson ( nova indicação ao Oscar ). Mas mesmo um roteirista de talento como Mamet não conseguiu escapar do fiasco na adaptação da "bomba" Hannibal, sequência estúpida e desnecessária do grande triller de Jonathan Demme, O Silêncio dos Inocentes, produzida e dirigida pelo cada vez mais mão pesada Ridley Scoth. Estranhamente, este filme Mamet assinou, ao contrário de Ronin, onde utilizou um pseudônimo. Será que ele não considera o roteiro tão ruim? Nem a constrangedora sequência de Ray Liotta comendo os próprios miolos ( de um humor involuntário, parece até um pastiche de Tarantino ).

Mas talvez graças a essa sua derrapagem, conseguiu dinheiro para seguir produzindo seus próprios filmes, muito mais interessantes dos que, em geral, acaba sendo chamado para escrever profissionalmente ( já expliquei aqui que faço uma diferenciação entre o escrever para si, atividade a que chamo artística, ou autoral, se preferirem, e escrever profissionalmente, que é fazer roteiros para terceiros, sob contrato, ou para vender para algum produtor, coisa que não existe aqui no Brasil, mas que é bastante frequente nos EUA).
Alguns de seus textos teatrais foram levados para as telas, por outros diretores, como Sobre ontem à noite, adaptação de Perversidades sexuais de Chicago ( montada aqui no Brasil com Paulo Betti e José Mayer no elenco ), que fez grande sucesso nos anos 80, principalmente pelo público mais jovem, pois contava com dois jovens astros então em plena ascensão, o hoje sumido Rob Lowe e a ainda não siliconada Demi Moore.

Outra peça sua que foi filmada é "O sucesso a qualquer preço", talvez seu maior sucesso teatral, premiada com o Tony ( espécie de Oscar do teatro norte-americano), mas que foi filmada de forma burocrática por James Folley apesar do grande elenco que contava com Jack Lemmon, Al Pacino, Kevin Spacey, Ed Harris, Alan Arkin, só feras.
Também ganharam as telas os textos "American Buffalo" e recentemente, "De porta em porta ( Edmond)", que conta com uma incrível performance de um dos atores ícones de Mamet, o excelente Willian H. Macy.
Outros filmes de Mamet que merecem ser vistos e estudados: A trapaça, O cadete Winslow, Spartan, a comédia sobre o fazer filmes State & Main, estupidamente batizada no Brasil como "Deu a louca nos astros" ( há uma irritante preguiça mental nos distribuidores brasileiros, que vem abusando da expressão "deu a louca", roubada de uma velha comédia pastelão dos anos 60, "Deu a louca no mundo", para renomear os filmes, gerando uma enxurrada de comédias iniciadas como a já batida expressão, como "Deu a louca no chapeuzinho vermelho", "Deu a louca na cinderela", etc, não havendo nada em comum entre os filmes, além de serem comédias ) e principalmente, o triller O assalto, pouco badalado mas excelente exercício de Mamet no gênero do suspense ( mais especificamente, no subgênero 'filme de assalto', modalidade de filme de suspense iniciada com o Segredo das Jóias, de John Huston, e que tem como um dos paradigmas o Grande Golpe, de Kubrick ) contando com atuações espetaculares de Gene Hackman, Delroy Lindo, Danny de Vito, Sam Rockwell e pela senhora Mamet, a atriz Rebecca Pigeon.

No momento, Mamet dirige seu novo filme "RedBelt", que conta com a participação do Rodrigo Santoro e de Alice Braga.

Mamet escreveu um livro, Sobre dirigir filmes ( Ed. Civilização Brasileira), que é muito interessante e, apesar de tratar de questões basicamente voltadas para o exercício da direção, é uma leitura fundamental para quem pretende escrever filmes. Uma das vantagens de ser um grande diretor e um excelente roteirista é pensar o filme sempre como um processo que envolve inseparávelmente os dois momentos de criação. Altamente recomendado.
Outro nome que devemos ter em mente, e que é egresso do teatro, é o grande dramaturgo Paddy Chayefsky. Curiosamente, sua obra no cinema é relativamente pequena, uma vez que sua produção áudio-visual majoritariamente se concentraria na televisão americana, na qual trabalhou grande parte de sua vida.
Dividindo-se primeiramente entre a Brodway e telepeças gravadas ao vivo, nos primeiros anos da televisão, Chayefsky se notabilizou pela criação de tipos cheios de humanidades, pessoas comuns, tipos sem glamour, gente do povo, numa espécie de dramaturgia realista em voga nos EUA de pós-guerra ( não custa atentar que o cinema mundial como um todo estava de olhos voltados para o magnífico e revolucionário movimento neo-realista, em pleno apogeu, na Itália ).

Tanto que seu primeiro roteiro é uma adaptação para o cinema de uma telepeça sua, chamada Marty, que falava das agruras de um açougueiro italo-americano desajeitado e tímido, feio mesmo, solteirão que ainda vive com a mãe superprotetora, interpretado por Ernest Borgnine ( que merecidamente ganhou o Oscar de melhor ator ). Um personagem e uma temática que nada tinha a ver com o cinema americano até então.

Marty, um melodrama com algum humor, ainda que amargo, foi dirigido por Delbert Mann ( também oriundo da televisão, e que dirigiria outros dois roteiros de Paddy, Despedida de solteiro e Crepúsculo de uma paixão, com Kim Novak ), e Chayefsky foi premiado com o Oscar de melhor roteiro( Marty ganhou também o Oscar de melhor filme e também a Palma de Ouro em Cannes).

Aliás, a carreira de Paddy é marcada pelos Oscars. Em 1971, ganharia novamente o Oscar de melhor roteiro por Hospital, comédia de humor negro dirigida pelo seu amigo Arthur Hiller.

O terceiro viria com Rede de Intrigas. Dirigido Sidney Lumet, grande diretor americano também egresso da televisão, e parceiro de Paddy em diversas ocasiões, Rede de Intrigas é um dos melhores filmes americanos de todos os tempos. Ganhador de vários Oscars, além do já citado de melhor roteiro, é uma espécie de raio X amargurado e devastador das entranhas podres das grandes redes de televisão, e seria posteriormente muito imitado, tanto no cinema como em filmes como Nos bastidores da Notícia ( James L. Brooks ), Quarto Poder (Costa Gravas), ou em seriados como the 3rd rock, etc.
A trama é simples, porém genial: num surto de loucura, um veterano comentarista de tv às vésperas de ser demitido, faz um desabafo ao vivo, dizendo que vai se suicidar, o que provoca comoção nacional entre es expectadores e catapulta a audiência do canal. Então os executivos da emissora, ao invés de demití-lo transformam-no na grande atração do programa. Sua morte anunciada vai sendo devidamente adiada, a fim de manter a audiência do programa, para satisfação dos patrocinadores. O ensandecido comentarista torna-se uma espécie de pregador midiático, fazendo discursos iracundos contra o capitalismo, o consumismo, contra a propria TV: desliguem as televisões, vocifera ele, desliguem as televisões e vão às ruas gritar, protestar.

video
Mas obviamente chega o momento em que ele se torna descartável, pois como tudo em televisão, é efêmero e perde o interesse. Então só resta ao sujeito morrer. Um filmaço, inteligente, crítico, que conta com o brilho de um elenco afiadissimo: Willian Holden, Faye Dunaway, Robert Duval e Peter Finch, como o ensandecido messias televisivo.

O último trabalho de Chayefsky é o estranho Viagens Alucinantes, dirigido por Ken Russel, e estrelado por William Hurt no comecinho de carreira. Baseado num romance de sua autoria, Viagens Alucinantes em tese é um filme de ficção-científica, mas pode ser muito bem interpretado como uma crônica sobre os efeitos das drogas alucínogenas na mente humana. Aliás, é este o enfoque dado ao roteiro pelo diretor inglês Russel, outrora famoso por seus ensadecidos musicais como as óperas rock Tommy, Liztomania ou os barrocos Os demônios (refilmagem do clássico polonês, Madre Joana dos Anjos ) ou Delírio de Amor ( cinebiografia sobre Tchaikovski ) e que neste Viagens Alucinantes fez seu último filme interessante.

É um filme estranho. O conflito é quase metafísico, um cientista busca, através de experiencias bizarras, alcançar a essência do homem, primeiramente retrocedendo ao seu estágio animal, depois, mais profundamente, regredindo até ao nivel molecular, numa tentativa de chegar à alma, essência básica da humanidade.

Chayefsky não deve ter gostado muito do resultado ou do trabalho com Russel, pois assinou o filme com um pseudônimo: Sidney Aaron.

Mas é um filme que vale a pena ver.

(continua)

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Gil (1)


Leio alhures, na internet:

"(...) Na SPFW, a mais importante semana de moda do País, Gilberto Gil fez uma palestra/coletiva sobre a moda e a economia da cultura. Comparou a indústria brasileira da moda à Amazônia e seu "potencial não completamente realizado".(...)

Perto de terminar a sessão de perguntas, uma repórter pediu ao ministro para definir a moda. Gil ponderou: "Não defino, a moda é plural". Para ilustrar, recordou sua roupa na passagem de som, três dias antes, no Festival de Verão de Salvador.
- Fui para o ensaio com uma calça muito usada pelos meninos do Ilê Aiyê, na Bahia. É a calça do dia de minha iniciação no Opô Afonjá (terreiro de Candomblé em Salvador). Me sinto bem com ela, e tenho outras duas. Minha moda é assim: da calça do Ilê a esse terno Prada aqui...
A bancada dos jornalistas abandonou a sobriedade e se entusiasmou ao ouvir a palavra "Prada". Gritos e aplausos. "Uh-hu, uh-hu!". Gil voltou ao microfone:
- Ah, é? Vocês só gritam "uh-hu" quando eu falo no terno Prada? Não vi a mesma reação com a minha calça. Essa é uma mentalidade colonizada que precisamos superar. Prada não é mais elegante que um turbante do Ilê Aiyê!" (...)

É por essas e outras que eu admiro sinceramente o ministro da cultura Gilberto Gil.
Não à toa um dos mais atuantes do governo Lula.

Quadros que eu queria ter na parede aqui de casa (11)




Guernica, de Picasso.

tourinho

Estava aqui, diante do meu computador, limpando meu cachimbo, olhando (mais escutando que olhando ) a chuva, quando Clarisse me fala que o Luiz Carlos Tourinho tinha morrido. Levei um susto. Qual Tourinho? O Biu, diz ela. Fiquei chocado. Aneurisma cerebral, informa o Terra, ao qual recorro para verificar a notícia. Era um garoto, ainda. 43 anos. Que tristeza.

Conheci o Tourinho em 95, quando filmei com ele meu média-metragem Biu, ou Na vida real não tem retake. Ele era ainda pouco conhecido na mídia, apesar de ser um ator bastante requisitado em teatro, de onde era oriundo. Mais especificamente, do Tablado, ícone do teatro infantil nacional, que formou boa parte dos atores que hoje brilham no cinema, teatro e tv, como Andrea Beltrão, Cláudia Abreu, Pedro Paulo Rangel, Malu Mader, etc. Tourinho fez o protagonista, Severino, mais conhecido como Biu, um "boy" que trabalhava numa produtora de comerciais e que sonha virar ator de cinema. Um papel que escrevi, veja só que ambição, para o Renato Aragão. Sabendo disso, Tourinho incorporou o "Didi Mocó" em algumas cenas do filme, mais especificamente na cena em que ele canta e dança uma espécie de "embolada heavy-metal", aliás, um dos momentos que mais gosto do filme.
Depois do Biu, ele fez uma ponta no "Quem Matou Pixote?" do Joffily, que eu escrevi e produzi ( o papel, de um trocador de onibus que dá uma sacaneada no Fernando Ramos, era um nada, apenas uma cena, mas eu pedi ao Joffily para chamarmos o Tourinho, que daria um brilho especial àquela pequena cena ilustrativa da capacidade do homem espizinhar seu semelhante, independente de quão semelhante e fudido ele seja ).

Um dia o telefone toca e atendi ( sim, atendia telefone naquela época, ainda não tinha desenvolvido essa minha fobia que hoje é quase marca registrada ) e era o Bigode, o diretor Luiz Carlos Lacerda me pedindo pra dar uma olhada no Biu, porque haviam lhe falado da performance do Tourinho e ele queria conferir. Fiquei meio cabreiro de emprestar um vhs do filme pro Bigode porque ele é sabidamente homossexual e militante do movimento gay, e o filme fazia algumas piadas, digamos, meio estereotipadas ( o Paulo Betti fazia um diretor de arte gay cheio de trejeitos, mas a intenção era menos debochar da sexualidade alheia e sim, tripudiar de um determinado tipo de artista afetado e presunçoso, que amiúde existe no cinema brasileiro ). Independente disso, e muito cortez, o Bigode viu o filme, elogiou e disse que tinha gostado muito do Tourinho e que ele iria servir pro papel que tinha em mente. Tempos depois, Tourinho aparecia como protagonista do longa "For-All, o trampolin da vitória", fazendo um recruta gay, com interpretação hilária, que remetia aos bons momentos do grande Oscarito. A partir daí, sua carreira deslanchou e ele tornou-se bastante conhecido, fazendo vários trabalhos na televisão.

Ele era realmente muito talentoso e seu tipo físico, miúdo, quase um garoto, era ideal para personagens cômicos, ligeiros, serelepes, gaiatos. Mas ao mesmo tempo, seus olhos azuis tinham uma espécie de doçura, melancolia, que ele, como ator completo que era, sabia usar para interromper uma sapequice e trazer dignidade e dor a seus personagens.

Não acompanho novelas, mas pelo que li no Terra, ele estava brilhando num papel cômico, numa novela da Globo, Desejo proibido. Imagino a consternação e a tristeza de seus colegas.

Na parede ao lado do meu computador há um poster do Biu. Nele, há uma grande foto de Tourinho, encarnando o Biu, apoiado sobre um tripé de câmera e olhando para frente, com um ar sonhador, os olhos azuis alinhados com o horizonte imaginário, como que imaginando um futuro de glórias à sua frente. Ao contrário do Biu, Tourinho teve seu quinhão de sucesso e glórias, merecido.

Era um grande ator. E um garoto muito bacana.

Vai fazer falta.

sábado, 19 de janeiro de 2008

Quem são nossos ídolos? - a lista (5)

Um nome que deve ser sempre levado em consideração quando pensarmos nos nossos roteiros e cujo trabalho será sempre inspirador é o norte-americano Paul Schrader.
Este incrível diretor e roteirista ( ao centro, na foto, ao lado de seu irmão, também roteirista, Leonard, de bigode ) é um personagem fascinante: até os 18 anos de idade, nunca tinha posto os pés num cinema ou sequer visto um filme ( o primeiro que viu foi "Anatomia de um crime", de Otto Premminger, que certamente deve ter sido sua epifania, se bem que Schrader cita como suas referências o escritor Dostoievski e o cineasta francês Robert Bresson).

Oriundo de uma família calvinista, criado dentro dos mais rigorosos padrões da ética cristã, moralista, após sair de casa justamente para estudar cinema ( na UCLA e depois na Columbia University, em Nova York), caiu na gandaia, vivendo anos no bas-fond nova-iorquino, levando uma vida desregrada, em meio à drogas, prostituição, etc. Sua obra é fundamenta marcada por essa dicotomia: rigidez dos valores morais, religiosos e familiares em detrimento com os desejos mais carnais, obscuros e pecaminosos, resultando numa crise moral e numa culpa invariavelmente redimidas pelo sacrifício (puro Dostoievski). Não seria exagero dizer que o cinema de de Paul Schrader parece uma incursão ao círculo mais profundo do inferno. Tanto como diretor quanto como roteirista, seu trabalho é impregnado de violência, sexo, loucura, ganância, vícios - é como se ele escrevesse e filmasse da mesma forma como Hyeronimus Bosch pintava seus quadros.

O mal está presente, material, totalizante, envolvendo a ação dos homens, como se fossemos não criados à imagem de Deus, mas à do próprio capeta.

Basta pegarmos dois de seus principais roteiros: Taxi Driver e Touro Indomável, ambos com o diretor Martin Scorsese, de quem Schrader foi parceiro durante muito tempo. Em ambos vemos personagens transitando numa espécie de limbo moral, na fronteira tênue da loucura e da sanidade, homens que progressiva e conscientemente se transformam em monstros.


Aliás, esta metamorfose de homens em bestas, que poderíamos considerar a premissa básica de seu trabalho, seria trabalhada de forma explícita num dos primeiros filmes de Schrader como diretor, A Marca da Pantera, refilmagem mais sexista e violenta de "Sangue da Pantera", um clássico do cinema B de Jacques Tourneur , onde a bela Natassja Kinski sofre de uma maldição que a transforma literalmente numa pantera.


Os filmes que Schrader escreveu revelam uma predileção pelo tema da tentação e consequentemente perdição, fruto óbvio de sua formação religiosa rígida e pelos anos de "perdição" pós-universidade.

Isto está presente, em maior ou menor intensidade, nos seus trabalhos com Scorcese como "A última tentação de Cristo" e mais recentemente, "Vivendo no Limite" ( um Scorsese meio subestimado, em detrimento das muitas porcarias que anda fazendo nos últimos tempos, como Kundum, Gangues de Nova York, O aviador e principalmente Os infiltrados, este um clone vergonhoso e descarado, copiado quase fotograma a fotograma de um filmeco homônimo de Hong-Kong, com o qual ganhou seu tão desesperadamente desejado Oscar ).

Além da parceria com Scorsese, Schrader escreveu também "Trágica Obsessão", um bom de Brian de Palma pouco conhecido ou lembrado, "Operação Yakuza", de Sidney Pollack, "A outra face da violência", de John Flynn ( um dos filmes prediletos de Quentin Tarantino e,possivelmente, do qual ele mais copia, ops, cita em suas "originais" produções ), escreveu um dos tratamentos de "Contatos Imediatos de Terceiro Grau", de Spielberg ( recusado pelo diretor por conta do acentuado viés religioso que Schrader imprimiu à trama ), "A costa do Mosquito", talvez o melhor filme de Peter Weir, com atuações magníficas e surpreendentes de Harrison Ford, Helen Mirren e do precocemente falecido River Phoenix, e "Cith Hall - bastidores do poder", de Harold Becker, com Al Pacino e John Cusak.

Como diretor, sua obra não é menos interessante e instigante: desde "Vivendo na corda bamba" (Blue Collar), seu primeiro filme, uma espécie de triller com pinceladas de drama proletário, com Richard Pryor, Harvey Keitel, Yaphet Kotto, passando pelos mega-sucessos "Gigolô Americano" ( que consolidou a carreira de Richard Gere como sexy simbol ) e o já mencionado "A Marca da Pantera". Menos conhecido que esses mas profundamente pertubador é "Hard-Core, o submundo do sexo", que narra a desesperada jornada de um pastor protestante (interpretado por George C. Scoth ) pelo submundo de prostituição, drogas, cinema pornô, sadomasoquismo e snuff movies ( aqueles filmes que mostram estupros, violências sexuais e físicas e mesmo mortes, ao vivo, supostamente reais, sem truques), em busca de sua filha desaparecida.

Em 1984, Schrader viria a realizar um dos mais inteligentes filmes da década, e com certeza seu melhor filme, Mishima - uma vida em quatro tempos, baseado na vida e obra do escritor japonês Yukio Mishima, em que mais uma vez a premissa da transformação de homem em monstro está presente, além dos temas recorrentes rigidez moral, vida pecaminosa, redenção e sacrifício. Mishima, escritor sensível e homossexual atormentado com sua própria sexualidade, acaba superando os preconceitos e a rejeição, transformando-se de homem franzino num musculoso "samurai", moldado em academias de malhação e adotando uma ideologia militarizada e fascistizante, em detrimento aos seus primeiros anos de esquerdista, formando uma espécie de milícia cujo objetivo era resgatar a glória do Japão pré-guerra mundial e que acabou praticando haraquiri após um fracassado ataque ao parlamento japonês. É um belo, forte e mágico filme, com um roteiro ousado e moderno, cheio de flash-backs e alternando a vida real de Mishima com a encenação de trechos de suas obras, um verdadeiro mosaico narrativo, com a(s) história(s) sendo contada(s) em camadas alternadas, paralelas, em diferentes perspectivas.

Ainda nos anos 80, seu período mais inspirado como diretor, Schrader faria o provocador "O Sequestro de Patty Hearst", que registra a transformação da herdeira do magnata da imprensa Willian Hearst ( em quem Orson Welles se inspirou para criar seu Cidadão Kane ) em guerrilheira e assaltante de bancos, sob o comando do Exército Simbionês de Libertação, justamente por quem fora sequestrada ( mais uma vez presente a temática da transformação de homem em fera ).
O roteiro, de Nicholas Kazan ( filho do grande cineasta Elia Kazan ), da mesma forma que "Mishima" trabalha com uma interessante estrutura narrativa, contando a história em diversos planos e tempos alternados, paralelos.
É um bom roteiro para ser estudado. Pena que o filme não tenha sido lançado ainda em DVD, e as cópias em VHS são muito dificeis de se achar ( mas procurem).


É neste período que realiza também o ótimo "O dono da noite", história de um traficante viciado em heroína, que é um angustiante mergulho no mundo das drogas. Schrader considera este seu melhor filme. É um filme sufocante, neurótico, com interpretações eletrizantes de Willen Dafoe e Susan Sarandon. Altamente recomendado, nesses tempos de "Meu nome não é Johnny".

Dá para supor pela temática, tanto do roteirista quanto do diretor, que Schrader busca de certa forma fazer uma catarse, uma expiação. Deve ser uma figura atormentada.

Dos anos 90 para cá, mais especificamente desde "Estranha passagem em Veneza" ( um filme estranho, protagonizado pelo não menos estranho Christopher Walken, com roteiro de Harold Pinter), sua obra parece entrar em declínio, dirigindo mais do que escrevendo, mas com uma produção menos interessante e bem menos autoral, fazendo filmes de qualidade duvidosa, como a 'prequel' do clássico do terror, "O exorcista", "Exorcista: o começo", ainda que sempre transitando no lodaçal temático que caracteriza sua obra.

Recentemente, parece ter retomado as rédeas da própria carreira, realizando filmes interessantes "Temporada de caça" ( que concorreu a vários Oscars, ganhando o de melhor coadjuvante para James Corburn ) e, principalmente, em "Auto-focus", cinebiografia do ator Bob Crane, famoso pelo seriado cômico Guerra, Sombra e Água Fresca, deliciosa sátira aos campos de concentração ( inspirado em "Inferno 17" de Billy Wilder que, por sua vez, era inspirado em "A Grande Ilusão", de Jean Renoir - de ambos falaremos mais tarde), que depois enveredou pela indústria de vídeos pornôs, filmando suas próprias experiências sexuais. Isso numa época em que o home video ainda era uma novidade, sendo um dos pioneiros (podemos chamá-lo assim ) da exploração do sexo para exibição privada e doméstica. Crane era viciado em sexo, levava uma vida dividida: em casa era excelente marido e pai de família, mas fora era um sátiro sedento por sexo, de preferência o mais pervertido. No final da vida, solitário, falido, fracassado, foi encontrado morto ( suicídio? assassinato? ) num quarto de um hotel vagabundo do Arizona. Temática e personagem típicos de Schrader.

A título de curiosidade, seu irmão Leonard, já falecido, também é roteirista, tendo trabalhado nos filmes do irmão ( Vivendo na corda bamba, Mishima, etc ) e também escrito o roteiro do grande sucesso de Hector Babenco, O Beijo da mulher aranha (em parceria não creditada com o nosso mestre Jorge Durán, de quem falaremos já, já ).

(Pelo espaço que dediquei ao Schrader, dá pra perceber que é um dos meus prediletos... )

Momento poético em tempos de dureza (5)

"Você sabe que a maré
Não está moleza não
E quem não fica dormindo de touca
Já sabe da situação
Eu sei que dói no coração
Falar do jeito que falei
Dizer que o pior aconteceu
Pode guardar as panelas
Que hoje o dinheiro não deu














Dei pinote adoidado
Pedindo emprestado e ninguém emprestou
Fui no seu Malaquias
Querendo fiado mas ele negou
Meu ordenado apertado, coitado, engraçado
Desapareceu
Fui apelar pro cavalo, joguei na cabeça
Mas ele não deu

Você sabe que a maré
Não está moleza não
E quem não fica dormindo de touca
Já sabe da situação
Eu sei que dói no coração
Falar do jeito que falei
Dizer que o pior aconteceu
Pode guardar as panelas
Que hoje o dinheiro não deu

Para encher a nossa panela, comadre
Eu não sei como vai ser
Já corri ora todo lado
Fiz aquilo que deu pra fazer
Esperar por um milagre
Pra ver se resolve essa situação
Minha fé já balançou
Eu não quero sofrer outra decepção"

Pode guardar as panelas, de Paulinho da Viola (1979)

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Coisas que eu gosto ( de ver ) 6:


Violento e Profano, de Gary Oldman (1998)


Filmaço do grande ator inglês, confessadamente baseado em sua juventude, é um drama proletário mostrando as entranhas da Inglaterra pós-Margareth Tatcher, com seus ex-operários desempregados, vivendo de biscates, seguro social, decaíndo na beberragem, na pequena contravenção, nas drogas.
Esse tema já havia rendido outro grande filme britânico realizado quase na mesma época, Ou tudo ou nada ( Full monty, de Peter Cattaneo ), que pelo viés da comédia mostrava como a antiga e poderosa classe operária inglesa foi ferida de morte pela política neo-liberal de Tatcher. Mas no filme de Oldman não há refresco.
É porrada, é cusparada, é um niilismo constante.

Oldman é um artista que conviveu com o movimento punk, e cronológicamente, sua adolescência deve ter ocorrido no momento em que aquele movimento eclodiu. Não custa lembrar que Oldman interpretou nada mais nada menos do que Sid Vicious, o mais auto-destrutivo dos ícones do punk, no visceral Sid&Nancy, de Alex Cox.

Aos 18 ou vinte anos naquela época, Oldman testemunhou ou conviveu com os anseios daquela juventude marcada pelo desencanto, uma juventude "sem futuro", portanto frustrada, furiosa, que revidou os dissabores da vida na música brutal que teria entre os epígonos as bandas Sex Pistols e, mais sofisticada e politizada, o The Clash.

Mas, inteligentemente, Oldman ( que escreveu o roteiro) optou por não "datar" seu filme. Ao transferir aquele que seria o relato mais ou menos autobiográfico de sua juventude dos anos setenta para o final do século XX, Oldman radicalizou a sensação de perda e de desencanto que marcou seu olhar de jovem num momento ainda mais acentuadamente crítico da sociedade inglesa - pelo menos, para a banda pobre da sociedade inglesa. Neste sentido, os personagens adultos de Violento e Profano são os remanescentes do movimento punk, destituídos de piercings e cabelos moicanos descoloridos, já quarentões e com a barriga proeminente e pais de familia. Mas igualmente desiludidos, desorientados, perdidos, frustrados, furiosos. São o que os garotos "no future" viraram.

Não há exatamente uma trama. Se quisermos definir um gênero ou subgênero que enquadre o belo filme de Oldman, ele é um drama familiar por excelência. Mostra uma família desajustada: marido desempregado e envolvido com trambiques e pequenos delitos, sua esposa feiosa com alguns (muitos) quilos acima do peso, e o cunhado mais jovem, tratado como filho pelo casal. A ação se concentra em Raymond, o marido, bruto, irrascível, descontrolado ( numa atuação memorável do grande ator inglês Ray Winstone ), que parece uma força da natureza, uma tempestade, um furacão, um terremoto, totalmente irrefreável e como numa calamidade, arrastando tudo e todos consigo na sua jornada auto-destrutiva. Em contraponto à Ray, se colocando no meio de seu caminho arrasador, está Billy, o jovem cunhado. Em resposta a violência de Ray e à sua própria falta de perspectivas, Billy se droga. Podemos dizer que o conflito do filme é basicamente o confronto, não necessariamente físico (mas sempre violento) dos dois, Ray e Billy, mas de suas formas de enfrentamento da sua nulidade social. Enquanto Ray agride o mundo que o rejeita, Billy se droga como forma de negar esse mesmo mundo e recusa. No meio dos dois, se ergue com uma força dramática digna das grandes personagens trágicas, a esposa e irmã, Val ( numa atuação explendorosa de Kathy Burke, premiada como melhor atriz em Cannes ). Obviamente, ela recebe a sua cota de catiripapos do marido. Ela aguenta estoicamente a boçalidade e mesmo, as porradas, do marido a quem ama e de quem está grávida mas num determinado momento, cansada daquela vida sem esperanças, ela abandona Ray.
Neste momento, o filme torna-se uma estranha, bruta, mas não menos comovente história de amor. As tentativas de Ray reconquistar a mulher é tocante. Começa bruta, reação natural de macho violento abandonado. Ele não admite ser abandonado pela mulher - pela sua mulher. As primeiras abordagens de Ray tentando reaver sua esposa parecem mais uma crônica das páginas policiais do que uma narrativa amorosa.
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Mas a percepção de que perdeu menos "uma propriedade" ( talvez a única que sente sua, já que os empregos foram evaporados pela política neo-liberal, o apartamento no conjunto residencial está com a hipoteca vencida, seus lucros com seus pequenos golpes e sujeiras se esvaem numa velocidade maior do que a capacidade de obtê-los ) e sim a mulher que estranhamente ama e que está grávida de um filho seu, irá amainar a fúria e substituí-la por uma dor profunda e sem paliativos. É através da solidão e da melancolia que Ray irá se descobrir, mas obviamente essa não é uma descoberta agradável.
Ao final de duas horas e dez minutos há uma espécie de reconciliação ( que Oldman deixa bem claro que não será a primeira nem a última das muitas separações e reconciliações daquele casal que se ama ao seu modo ), um rápido fragmento de oxigênio ao afogado que se debate entre as ondas, um vislumbre de sol no céu cinzento que parece emoldurar o igualmente cinzento e frio conjunto habitacional em que vivem os personagens, uma breve e frágil esperança que mais parece um espasmo de um doente terminal.

A metáfora é forte, mas é a que talvez melhor traduza o filme de Oldman. Ela me veio à mente a partir da lembrança de uma das mais belas cenas do filme, um longo e dolorido monólogo de Ray, no qual ele fala da lembrança de seu pai, com quem nunca trocara um abraço, um beijo, uma palavra de carinho, nada. O velho era tão ou mais desregrado do que Ray. Ele conta que um dia em que fora visitá-lo num hospital, e lá está o velho ( que fora destruido pela "fucking vodka" ), todo entubado, respirando por aparelhos, num estado de petição de miséria. Eles perguntam ao velho se ele quer algo. O pai faz um gesto, meio de deboche, mostrando a boca, murmura algo que o então garoto Ray não compreende. E a mãe explica que ele chegara a um estágio em que não podia ingerir nada que fosse sólido, nada pela boca ( "nil by mouth", daí o título em inglês ). Depois Ray explica que o pai ainda viveria mais dez anos, até morrer sentado na sua fucking cadeira de balanço, no meio da sala. A lembrança desse encontro com o pai é a epifania de Ray.
Mas esta epifania, dolente, suja, embalada a uísque vagabundo e anfetaminas, não chega a ser uma "redenção" tampouco uma transformação. Ainda que haja a epifania, não há catarse na narrativa de Oldman.
Embalado por uma bela e melancólica trilha sonora de Eric Clapton, por uma fotografia puxada ao azul espetacular, pelas interpretações viscerias de Ray Winstone e Kathy Burke, pela exímia direção de Oldman, Violento e profano é um filme que recomendo. Agora, um aviso: é muito dificil conseguir achar o filme. Lamentavelmente, ele não foi lançado em dvd ( nem lá fora ) e as poucas cópias em VHS se tornaram uma espécie de Santo Graal para quem admira o bom cinema. Eu mesmo há anos tento achar o filme. Tinha uma cópia na locadora do Estação Botafogo, aqui no Rio, mas parece que algum malandro roubou-a ( antes de mim, sou forçado a escrever... )

Um ex-aluno meu, Maldonado, conseguiu baixá-lo pelo E-mule, mas até hoje não me deu a cópia. Devia tê-lo chantageado, só lhe dado nota contra entrega da bendita cópia do filme. Mas eu o aprovei, e o malandro sumiu levando o filme com ele.
Eu o amaldiçoo-o entredentes todos os dias, antes de dormir.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Quem são nossos ídolos? - a lista (4)

Deixando as pendengas ideológicas de lado, voltemos à nossa lista. E para não parecer que esta lista é "machista", cito mais uma roteirista.

Não somente uma mulher que escreve mas, sem exageros, se formos analisar sua obra, talvez a melhor de todos ( vejam bem, de todos, e não de todas ) roteiristas: Suso Cechi d´Amico.

Parceira constante e preferida de Luchino Visconti ( com ela, à esquerda na foto ) e também de Mario Monicelli , tendo trabalhado também com Vittorio de Sica, Francesco Rosi, Zeffirelli e Antonionni, Suso d´Amico é roteirista de alguns dos maiores filmes da história do cinema mundial.

E com certeza uma das mais profílicas, estando em atividade há seis décadas.

Suso d´Amico colaborou com o grande Cesare Zavattini em Ladrões de bicicleta e Milagre em Milão, ambos de de Sica e também em Belissíma, de Visconti.

A partir desse filme, trava uma longa parceria com Visconti, escrevendo alguns de mais importantes filmes do grande mestre do cinema italiano, como Senso, Noites Brancas, O Estrangeiro, Rocco e seus irmãos, Vagas estrelas da Ursa Maior, O Leopardo, Ludwig, O inocente.


É também parceira frequente do grande Mario Monicelli com e para quem escreveu alguma de suas mais deliciosas comédias, como Os eternos desconhecidos, que uso frquentemente nas minhas aulas como modelo brilhante para a escritura de uma comédia ( foi recentemente filmada uma versão hollywoodiana desse filme, com Sam Rockwell no papel que fora de Vittorio Gassman, Willian H. Macy no de Marcelo Mastroianni, George Clooney etc ), Mortadela, Tomara que seja mulher, As duas vidas de Mattia Pascal ( baseado na obra de Pirandello ), Caros e F... amigos, Parente é serpente, A rosa do deserto, entre outros.

Sendo parceira de Visconti, acabou trabalhando também com aqueles que foram assistentes de direção do grande mestre, Frascesco Rosi e Franco Zeffirelli.

Com Rosi escreveu, entre outros, o clássico O bandido Giuliano.

Já com Zeffirelli sua parceria é mais extensa, tendo escrito boa parte de seus filmes mais conhecidos, como A megera domada ( adaptação hollywoodiana da peça de Shakespeare, com Richard Burton e Elizabeth Taylor ), Irmão Sol, irmã Lua ( baseado nas vidas de São Francisco de Assis e Santa Clara, sem dúvida o melhor filme do Zeffirelli, ou, segundo as más línguas, o único que presta ) e Jesus de Nazaré.

Para Antonioni escreveu, entre outros, As Amigas.

Além destes, colaborou no roteiro de A princesa e o plebeu, de Willian Wyller, de Caravaggio de Derek Jarman e trabalhou no delicado filme de Nikita Mikhalkov, Olhos Negros, inspirado no conto de Tchecov, "A dama do cachorrinho". Mais recentemente, ela escreveu o roteiro do maravilhoso documentário de Martin Scorsese, "Minha viagem à Itália".

Aos 93 anos, Suso d´Amico continua atuando no cinema, escrevendo e dando aulas de roteiro.

É um nome que todo roteirista ou aspirante deve ter em mente, como referência ( e como "estojo de primeiros socorros", toda vez que se deparar com um roteiro que não funciona ).

(continua)

domingo, 6 de janeiro de 2008

coisas que eu gosto ( de ouvir ) 7:


Nervos de aço, de Paulinho da Viola (1973).

Sou fã do Paulinho da Viola. Minha admiração por ele começou de criança, meu pai tinha todos os discos dele, e desde sempre escutei suas canções. Morávamos em Jacarepaguá e naquele tempo, quem vivia em Jacarepaguá não tinha jeito, ou era Portela ou Império Serrano. Lá em casa, éramos Império, o que não nos impedia de admirar aquele que, à epoca, era a mais perfeita tradução da azul e branco de Madureira.
Seu samba, Foi um rio que passou na minha vida, declaração de amor à Portela, sempre foi uma das minhas músicas prediletas. Tenho quase todos os discos dele ( tenho uma razoável discoteca, com mais de 600 cds, e a coleção de Paulinho só perde para a de Bob Dylan, a do Chico Buarque, do Caetano e, claro, do The Clash, do qual tenho todos - o que é razoavelmente fácil, uma vez que o Clash só lançou sete discos, afora duas coletâneas ).
Mas de todos os discos do Paulinho, Nervos de Aço é o meu predileto.
A música de Paulinho não é exatamente eufórica - antes, é melancólica e intimista. Herdeiro direto do grande Zé Ketti ( qualquer dia publico um comentário sobre ele, de quem gosto muito também) , Paulinho une modernidade e tradição, experimentando e explorando até o limite as possibilidades criativas e musicais do samba, sem nunca esquecer seus mestres diretos, o já citado Zé Ketti e Wilson Batista.
Criado em rodas de choro, foi ali, mais do que na quadra das escolas de samba ou nos terreiros de fundo de quintal, que encontrou os acordes delicados que utilizaria na sua refinada engenharia sonora. Seu samba é um samba triste, com melodias e letras sofisticadas ( vide Sinal Fechado ou a Dança da Solidão ), algo nostálgica, sempre elegante. Isso não significa que não tenha grandes e efervescentes canções como a já citada Foi um Rio..., Lapa em 3 tempos ( mais conhecida como "Abre a janela formosa mulher", verso de abertura do samba, que na verdade é uma citação ao samba "Abre a janela" de Arlindo Marques Jr. e Roberto Roberti, grande sucesso de Orlando Silva), Guardei minha viola, Pode guardar as panelas, BebadoSamba, Coração Leviano, etc.
Neste "Nervos de aço" estão presentes as principais características da música de Paulinho da Viola: a sofisticação, a melancolia, o choro, o experimentalismo, a tradição. Esta representada não só pela canção que dá nome ao disco, o belo samba de Lupiscínio Rodrigues, pela maravilhosa Não quero mais amar a ninguém, de Cartola, Carlos Cachaça e Zé da Zilda e pelo clássico Nega Luzia, do mestre Wilson Batista.
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Já o experimentalismo, que atravessa o disco inteiro, com arranjos elaborados ( quase jazzísticos, ousaria a dizer, quase heréticamente ) se faz presente em Roendo as unhas e Comprimido, que aliás, é a faixa que mais gosto em todo o disco ( se é que é possível ter apenas uma predileta num disco que do começo ao fim só tem grandes momentos ). Há destacar ainda Sentimentos e a empolgante Não leve a mal, sambão dançante que é mais uma declaração de amor à Portela.
Não bastasse a música, o disco tem também uma das mais belas capas de toda a discografia brasileira, assinada por Elifas Andreatto, que durante muito tempo foi o designer dos discos dos sambistas brasileiros, como Paulinho, Martinho da Vila, etc. O trabalho de Andreatto é irrepreensível, cada capa dele era uma obra de arte que lamentávelmente se perdeu no formato CD.
Nervos de Aço é um disco irrepreensível, uma obra prima da música brasileira. Quem não conhece a obra de Paulinho da Viola, se é que exista esse alguém, pode começar sem erro por este disco, que é uma espécie de síntese de sua música.
Depois é só ir comprando os outros...

sábado, 5 de janeiro de 2008

Quem são nossos ídolos? - a lista (3)

Fazendo um salto temporal, o próximo da lista dos grandes roteiristas que devem ser analisados, e seguindo a "linha ideológica" aberta por Thea Von Harbou, ou seja, artistas que trafegam no espectro político de direita, o nome que me vem à mente é o diretor e roteirista americano John Milius.

Ao contrário de Thea, não posso afirmar que Milius seja de direita, mas como boa parte de seus filmes como diretor apresentam uma visão de mundo individualista, belicista, imperialista, anti-liberal e anti-comunista ( um de seus filmes - um dos piores - Amanhecer Vermelho é uma pérola da paranóia remanescente da guerra fria, típico sub-produto ideológico dos anos Reagan, descrevendo a inacreditável invasão dos EUA por tropas russas, cubanas e angolanas e a resistência comandada por um grupo de adolescentes, mistura intragável de Goonies com Rambo ), em suma, como boa parte de seus filmes se aproxima do ideário direitista, suponho que ele compartilhe desta posição política. Neste aspecto, sua obra é mais comprometida ideológicamente que os trabalhos de Thea von Harbou, nazista de carteirinha e de coração, mas muito mais isenta ( com certeza, "por culpa" de Fritz Lang).

Mas falemos do roteirista Milius, que é o que nos interessa. É um excelente roteirista, que transita com eficácia dos filmes de ação aos filmes mais autorais. E bastante versátil, o que podemos constatar, analisando os filmes que escreveu. Roy Bean, o homem da lei, genial western cômico de John Huston, Mais forte do que a vingança, de Sidney Pollack, Dirt Harry e Magnum 44, de Don Siegel ( que consolidou a imagem de "homem duro" de Clint Eastwood ), colaborou no roteiro de Tubarão, de Spielberg, para quem escreveu depois a comédia maluca 1941 ( o maior fracasso de Spielberg, quando vi achei uma bomba, mas acho que merece ser revisto ), e mais recentemente, Perigo Real e Imediato, de Philip Noyce.

Mas o principal roteiro de Milius é, sem dúvida, Apocalipse Now, de Coppola. Adaptação livre de romance de Joseph Conrad, transposto das selvas da Africa no período de colonialismo inglês para a Guerra do Vietnã, é um roteiro inteligente e exemplo do que considero uma boa "adaptação literária" - onde deve valer menos o que foi escrito e mais o que se lê. O roteiro de Milius contém o essencial do romance de Conrad, mas ao mesmo tempo, é uma obra original.

Curioso que o roteiro foi escrito originalmente para George Lucas. Sorte de Milius, e nossa, que foi parar nas mãos de Coppola.

Além de Apocalipse Now, merecem destaque os roteiros que Milius escreveu para dois dos filmes que dirigiu: O vento e o leão, espetacular mistura de filme de aventura com drama político ( em tempos de guerra do Iraque e de histeria anti-muçulmana, é um filme que merecia ser revisto por mostrar como, há mais de cem anos, os EUA não mede esforços para impôr ao mundo seus interesses politicos e economicos) e, claro, Conan, o bárbaro ( este em parceria com o então roteirista Oliver Stone), adaptação da saga do brucutu cimério criado por Robert E. Howard e popularizado pelos quadrinhos da Marvel -filme que alavancou a carreira do hoje governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger. Milius também é produtor da série Roma.

Ainda no ambito dos roteiristas "de direita", um dos que se declaram despodurodamente de direita é o grande roteirista brasileiro Leopoldo Serrán. Não sei se em tom de blague, ou se por opção política verdadeira.
Seja como for, sua obra é magistral: Dona Flor e Seus dois maridos ( com o hoje mestre do documentário Eduardo Coutinho ), Amor Bandido e A estrela sobe, de Bruno Barreto, Bye Bye Brasil, de Cacá Diegues, Tudo Bem e Eu te Amo, de Arnaldo Jabor, Faca de dois Gumes, de Murilo Salles, além das minisséries globais Engraçadinha, A Máfia no Brasil e do seriado Plantão de Polícia. Não é à toa que Serran é considerado o "decano" dos roteiristas brasileiros.

Tendo começado a carreira no cinema novo, nos anos 60, com Ganga Zumba, primeiro longa de Cacá Diegues, Serran é um nome recorrente no cinema brasileiro ao longo de quatro décadas. Como todo profissional, alterna momentos excelentes com outros não tão felizes. Às vezes custo a crer que o mesmo roteirista de Bye-Bye Brasil escreveu Beladona... não só pela qualidade que distância um filme do outro, mas pela visão do Brasil que os dois filmes apresentam. Enquanto que em Bye-bye Brasil há um olhar crítico e mesmo desencantado com o Brasil real, o Brasil profundo, não tocado pelo progresso, pela assim chamada "civilização", em Beladona o tom é folclorizante, condescendente, o que vai as telas é uma sucessão de cartões postais turísticos de beleza edulcorada. Claro que o roteirista não é culpado pelo filme que o diretor faz, muito menos do que gostaria de fazer. Muita coisa se perde no processo de transposição do que está no papel para a pelicula. Obviamente, no caso de Bye-bye Brasil, Serran estava trabalhando com um Cacá Diegues no melhor momento de sua carreira, enquanto que em Beladona, o que se buscava era evidentemente um produto de linha comercial menos criteriosa de Luis Carlos Barreto, já numa fase decadente de sua exultosa carreira de produtor ( lembrando que Bye-bye Brasil também foi produzido pelo Barretão ).
Num debate que participei com Serran, ele falou que em seu processo de trabalho há um cuidado excessivo na escaletagem do filme, definindo com o diretor cena a cena exatamente o que virá se tornar o roteiro. Esse trabalho geralmente leva dois, três meses. Fechada a escaleta, ele escreve o roteiro e não mexe mais nele. Se o diretor quiser alterar alguma coisa, que contrate outro. Segundo Serran, se o diretor mudou de idéia, isso não é problema seu, pois tiveram tempo suficiente para mudanças no processo de escaletagem e roteirização. Então, ele não se preocupa com o que acontece com o roteiro, depois que o entrega ao contratante. Não se preocupa nem se responsabiliza, deixou bem claro. Talvez esse "despreendimento" justifique a qualidade claudicante de alguns de seus últimos trabalhos. Mas isso não impediu que tenha feito outros bons trabalhos como Onde Anda Você, de Sérgio Rezende e O dia da Caça, de Alberto Graça.

Vale registrar que Serran também é o roteirista de O que é isso companheiro?, lamentável filme de Bruno Barreto baseado nas memórias de Fernando Gabeira, que se notabilizou por fazer uma leitura, digamos, "à direita", daquele relato sobre a luta esquerdista contra a ditadura militar.

Numa entrevista à epoca do lançamento do filme, Bruno Barreto disse que chamou Serran para escrever o roteiro, por ele "ser filho de um almirante" (sic), portanto, capaz de ver o ponto de vista dos militares naquela que seria (ou deveria ter sido ) uma história sobre o heroísmo e o sacrifício de jovens idealistas de esquerda. Parece que essa moda de que "narrar-a-história-do-ponto-de-vista-de-um-personagem-fascista-não-faz-do-filme-um-filme-fascista, blá-blá-blá" teria começado aí. Ao contrário do pessoal de Tropa de Elite ( prometi a mim mesmo que não tocaria mais nesse filme, que ilusão), Serran não fugiu da raia e defendeu seu ponto de vista refletido no filme, acusando seus críticos de "comunistas e esquerdistas ressentidos". Mais digno do que jogar a culpa na platéia.

Independente desse filme, e de outros tropeços como Beladona ou Paixão de Jacobina, Serrán é, ao lado de Jorge Durán ( de quem falaremos, já, já ) o grande roteirista do cinema brasileiro.

Altamente recomendável para quem quer aprender a fazer cinema no e do Brasil.

(continua)

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Quadros que queria ter na parede aqui de casa (10)








Eu e a aldeia, de Marc Chagall

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Quem são nossos ídolos? - a lista (2)

Dos grandes roteiristas que devemos tomar como referência há um que durante muito tempo foi uma espécie de "meu guru": Cesare Zavattini.

Escritor, poeta, teórico do cinema, professor, diretor e um dos ideólogos do "neo-realismo italiano". Sua parceria com Vittorio de Sica ( à direita, na foto ) produziu alguns dos melhores e mais tocantes filmes de todos os tempos. Ladrões de bicicleta, Umberto D, Milagre em Milão, ícones do movimento cinematográfico italiano que inverteu a lógica do cinema-espetáculo e que até hoje inspira cineastas do mundo inteiro.

Zavattini era um humanista e seu cinema visava trazer para as telas o homem comum, o operário, pessoas simples das quais os pequenos sofrimentos e alegrias eram a matéria-prima para uma nova dramaturgia.

Para ele, o grande filme seria aquele que registrasse, sem alardes ou truques narrativos, o dia na vida de um homem comum, insignificante até.

Quando o neo-realismo começa a perder sua força, ao final dos anos 50, Zavattini escreveu roteiros mais convencionais, e sempre com seu parceiro de Sica fez Duas Mulheres ( La Ciociara, baseado em romance de Alberto Moravia ), Ontem, Hoje e Amanhã ( onde há a famosa cena do streap-tease de Sophia Loren para um aparvalhado Marcelo Mastroianni, cena que seria repetida quase na integra, pelos mesmos atores, 40 anos, por Robert Altman em Pret-à-porter ), o Jardim dos Finzi-Contini, Os girassóis da Rússia.


Além de de Sica, Zavattini trabalhou com Visconti em "Belissíma" e com Antonioni, para quem escreveu um dos episódios do filme O Amor na cidade.

Nos últimos anos de vida, Zavattini deu aulas de cinema em Cuba.


Já falei muito sobre ele, em postagens recentes, mas sempre é bom citar Dalton Trumbo.

O roteirista, romancista e cineasta americano, que foi colocado na lista negra por conta do maccartismo e que foi obrigado a escrever sob pseudônimos e, mesmo, com "testas de ferro", é um dos maiores roteiristas de todos os tempos.

São de sua autoria roteiros de Spartacus ( de Stanley Kubrick ), A princesa e o plebeu ( de Willian Wyller ), The Fixer ( creio que em português o filme se chama "O homem de Kiev", de John Frankenheimer ), "O último pôr do sol"( western de Robert Aldrich ), Pappillon (de Franklin Schaffner), Exodus ( de Otto Preminger ), Adeus às ilusões ( de Vicent Minelli ).

Recebeu dois Oscars ( por The brave one e por A princesa e o plebeu), porém como estava na lista negra, não pode recebê-los. O oscar por The Brave One lhe foi entregue, pouco meses antes de sua morte, em 1976. O segundo foi entregue póstumamente, já nos anos 90.


Citei dois roteiristas que eram homens de esquerda. Mudando radicalmente o espectro político e também, de sexo, nenhuma lista de grandes roteiristas estaria completa sem o nome de Thea Von Harbou.

Atriz, romancista, roteirista, também diretora, foi esposa e parceira do grande Fritz Lang. Juntos escreveram A morte cansada, Dr. Mabuse - O império do crime, Os Nibelungos, Dr. Mabuse- o jogador, Metrópolis, M - o vampiro de Dusseldorf, Espiões, O testamento do Dr. Mabuse.

Também escreveu roteiros para Murnau e para Carl T. Dreyer.

Thea era filiada ao Partido Nazista. Quando Hitler ascendeu ao poder ( por voto direto e democrático, nunca esqueçam isso ), Goebbels, ministro de Propaganda do governo nazista, admirador do cinema de Lang, quis torná-lo o cineasta oficial do nazismo. Lang que, ao contrário da esposa, não nutria nenhuma simpatia pelos nazistas, fugiu da Alemanha e depois de uma breve temporada na França, foi para os Estados Unidos, onde seguiu sua carreira fazendo filmes em Hollywood. Thea ficou na Alemanha, onde continuou escrevendo e mesmo, dirigindo filmes. Ao final da guerra, foi presa e já na democratização pós guerra, voltou a trabalhar em cinema, até morrer, no final dos anos 50.


Independente da sua posição política, é uma grande roteirista. Considero M, O vampiro de Dusseldorf um dos mais perfeitos roteiros já escritos. Uma aula de narrativa cinematográfica (ver postagem referente ao filme ).

Thea merece figurar numa lista dos melhores. E justiça seja feita, não é a única roteirista "de direita" - talvez a única sabidamente de extrema direita. Mas seu trabalho é exemplar.




(continua)

... e inferno


Copacabana, de dia... 42 graus à sombra... "o horror, o horror"

céu...


Copacabana à noite, no primeiro minuto do primeiro dia do ano...

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Pros apressadinhos de plantão: Já é ano novo...




...em Sidney, Austrália.

domingo, 30 de dezembro de 2007

Quem são nossos ídolos? - a lista (1)

Procurei elencar um grupo de roteiristas bem diverso, tanto na origem quanto no estilo, procurando ser o mais abrangente possível. Por outro lado, procurei listar trabalhos que possam ser facilmente consultados, podendo ser encontrados em qualquer locadora decente. Deixo claro que a ordem de apresentação dos roteiristas não obedece nenhuma hierarquia, nem escala de valores, tampouco são listados por ordem cronológica. Na verdade, seguem a forma aleatória pela qual os nomes foram surgindo à minha memória.

E pensando em grandes roteiristas, o primeiro nome que me veio à mente foi Jean-Claude Carrière.

Quase sempre associado ao grande Luis Buñuel, com quem escreveu todos os filmes da fase francesa ( O Discreto Charme da Burguesia, Esse obscuro objeto do desejo, A bela da tarde, Fantasma da Liberdade, entre outros ), Carrière é também dramaturgo, escritor, teórico do roteiro ( seu livro A linguagem secreta do cinema é uma obra indispensável para quem quer entender os processos narrativos de um filme ) e também diretor. É um roteirista bastante requisitado, tendo escrito para alguns dos maiores cineastas em atividade na atualidade.

Entre seus principais trabalhos, destaco O Tambor e Um Amor de Swann, ambos de Volker Schlöndorf, Salve-se quem puder - a vida, de Gordard ( sim, ele mesmo, até o mais autoral dos cineastas autorais se vale da ajuda de um roteirista profissional ), Danton, de Andrej Wadja, A insustentável leveza do ser, de Philip Kaufman, Cyrano de Bergerac, de Jean-Paul Rappeneau, Valmont e Os fantasmas de Goya, de Milos Forman, O Mahabharata, de Peter Brook.


O segundo nome que me veio à mente foi o italiano Tonino Guerra. Parceiro mais do que constante de Antonionni, com quem escreveu filmes como A noite, A Aventura, O Eclipse, Deserto Vermelho, Blow-Up, Zabrisky Point, entre outros, Guerra também trabalhou com Fellini, sendo roteirista de Amacord, La Nave Va, Ginger e Fred e A Entrevista. É roteirista frequente dos Irmãos Tavianni, com os quais fez A Noite de São Lourenço, Good Morning Babilônia, Noites sem sol, Kaos. Para Francesco Rosi, escreveu Crônica de uma morte anunciada, baseado em Garcia Marques e A trégua, baseado no relato de Primo Levi. Trabalhou ainda com o grego Theo Angeopoulos ( Paisagem na Neblina )e com o russo Tarkovsky ( Nostalgia ). Tonino Guerra é também escritor e poeta ( o que talvez explique sua parceria com diversos cineastas poetas ).


O terceiro nome que me lembrei foi Charles Brackett. Na verdade, o nome que me veio à mente foi de Billy Wilder. O grande diretor também era roteirista, e entendia como poucos do riscado. Wilder sempre trabalhou com grandes parceiros. Brackett foi um deles.


Aliás, Brackett já era parceiro de Wilder, antes dele virar diretor. Juntos escreveram grandes sucessos como Ninotchka, de Ernst Lubitsch e Bola de Fogo, de Howard Hawks, trabalhos que pavimentaram a carreira de Wilder como diretor.

Para e com Wilder, Brackett escreveu clássicos como Cinco covas do Cairo, Farrapo Humano e, claro, Crepúsculo dos Deuses.

Bracket é roteirista também do clássico "waltdisneyano" Viagem ao Centro da Terra e de Paixões em Fúria, de Henry Hattaway.



Outro grande parceiro de Wilder foi I.A.L. Diamond, com quem manteve uma produtiva parceria por mais de 20 anos.

Diamond escreveu algumas das melhores comédias de Wilder como Quanto Mais quente Melhor, Se meu apartamento falasse ( com o qual ganhou o Oscar de melhor roteiro), A primeira página, Irma la Douce - todas estreladas por Jack Lemmon -, A vida íntima de Sherlock Holmes e também o subestimado e pouco conhecido Fédora, um dos últimos filmes de Wilder ( e talvez um de seus poucos fracassos ).



Falando em Wilder e no divertido A primeira página, o nome que imediatamente vem à tona é de Ben Hetch, que vem ser o autor da peça que inspirou o filme. Na verdade, a comédia de Wilder é a terceira ou quarta versão da peça de Hetch, que antes foi filmado por Howard Hawks como Núpcias de Escândalo ( com uma diferença fundamental - na peça e no filme de Wilder, os protagonistas são dois homens, enquanto a versão de Hawks transforma um dos protagonistas em mulher e o filme em comédia romântica ).


Hetch escreveu vários filmes de Hawks, sendo o que mais se destaca é Scarface, a vergonha de uma nação.

Hetch também escreveu para Hitchcock, sendo roteirista de Correspondente Estrangeiro, Notorious, Quando Fala o coração e Festim Diabólico.

É roteirista também de Gilda , de Charles Vidor, O Morro dos ventos uivantes ( de Willian Wyller, tendo como parceiro John Huston ) e Adeus às armas, de King Vidor.


(continua... )

sábado, 29 de dezembro de 2007

Quem são nossos ídolos?

Quase no finzinho das aulas na Darcy, meu aluno Renato perguntou:


"- Quem são os ídolos de um roteirista? Os alunos de direção geralmente têm seus cineastas prediletos, são fãs de Bergman, de Buñuel, do Glauber, de Woody Allen, do Godard, do Orson Welles, do Tarantino, etc. Um roteirista ou um aspirante à roteirista também tem seus ídolos?"

Renato é um bom aluno, pernambucano sério, dedicado, mas a primeira coisa que me passou pela cabeça foi "aluno de roteiro tem cada uma, isso é pergunta que se faça..." Depois, pensei em responder, parafraseando Bretch: "infeliz do roteirista que precisa de ídolos". Mas acabei ponderando que a pergunta do Renato merecia uma resposta mais concreta ( e menos pedante ).


Admiramos e mesmo emulamos esses e outros cineastas por conta de sua obra, dos filmes que realizaram. E ainda que um filme seja uma obra criada pelo somatório de diversos talentos, em última instância, é o diretor o maior responsável por ela, é o seu autor. Claro que meu raciocínio está completamente alinhado com a teoria do autor (o que talvez me crie problemas com meus colegas roteiristas). Para o bem e para o mal, o filme é a expressão artística do seu diretor. Daí admirarmos a obra de um Buñuel, de um Fellini, do John Huston, do Nelson Pereira dos Santos, do Ruy Guerra, pois seus filmes são a expressão de seu talento e sua personalidade.


Mas sabemos que os filmes são obras coletivas.


E que os filmes de Bergman são excelentes, além de seu gênio criador incomparável, mas também pela fotografia de Sven Nykvist, pelas atuações de atores soberbos como Max von Sydow, de Liv Ulmman, de Erland Josephson, de Harriet Anderson, de Ingrid Thulin, de Bibi Anderson, entre outros. No caso de Bergman ( e no da maioria dos cineastas citados anteriormente ), ele também é o autor do roteiro de seus filmes, o que torna a sua obra ainda mais pessoal.

Alguns dos maiores cineastas são autores dos seus roteiros. Por outro lado, alguns cineastas também são roteiristas. Esssa é uma diferença fundamental.

Entendo que, antes de mais nada, escrever roteiros é um trabalho. O diretor que escreve, escreve para si. Escrever faz parte do seu processo de criação como diretor.

O roteirista é aquele que escreve filmes para terceiros: sejam diretores ou produtores.


John Huston por exemplo, foi roteirista antes de virar diretor, tendo escrito roteiros de filmes como Jezebel ( de Willian Wyler), Sargento York (de Howard Hawks) , Seu último refúgio, Os assassinos, O Estranho ( para seu amigo Orson Welles).

Escreveu boa parte ou pelo menos a maioria dos roteiros de seus filmes. Mas não de todos. Nem por isso, os filmes em que contratou um roteirista para escrever para ele ( ou com ele ) são menos pessoais e autorais.


Martin Scorsese nunca escreveu um roteiro. Já Coppola era roteirista antes de tornar-se diretor ( ganhou o Oscar de melhor roteiro com Patton, que foi dirigido por Franklin Schaffner), da mesma forma que Billy Wilder, Oliver Stone, o nosso Jorge Durán aqui no Brasil. E há também caso de roteiristas que dirigiram filmes, como Dalton Trumbo, bons filmes, inclusive, sem nunca terem deixado de ser roteiristas.

Outra coisa importante a ser considerada. Da mesma forma que o filme, o roteiro também é uma obra coletiva. Muitos dos melhores roteiros foram escritos por dois, três autores, às vezes por uma equipe inteira. E isso não se aplica apenas a filmes chamados "comerciais". Crime delicado, filme de Beto Brant, uma obra extremamente autoral, foi escrito por quase um time de futebol de salão. Roteiristas de diferentes personalidades e estilos as vezes colaboram num mesmo roteiro, e nem por isso ele perde a sua unidade, a sua força dramatúrgica, o seu papel no filme.

Então, antes de elegermos ídolos a quem reverenciar, o importante é ter alguns roteiristas como referências para cotejar seu trabalho, de forma a nos ajudar a escrever melhor. Apresento aqui uma lista de roteiristas notáveis. São artistas de diferentes épocas, origens e estilos, cujo trabalho deve ser fruto de estudo e análise, nunca de cópia.

Ah, Renato, é uma lista pra calar a boca de qualquer aluno de direção esnobe, hehehe...


(continua)

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Momento poético em tempos de dureza (4)





"As I was out walking on a corner one day,
I spied an old hobo, in a doorway he lay.
His face was all grounded in the cold sidewalk floor
And I guess he'd been there for the whole night or more.
Only a hobo, but one more is gone
Leavin' nobody to sing his sad song
Leavin' nobody to carry him home
Only a hobo, but one more is gone


A blanket of newspaper covered his head,
As the curb was his pillow, the street was his bed.
One look at his face showed the hard road he'd come
And a fistful of coins showed the money he bummed.
Only a hobo, but one more is gone
Leavin' nobody to sing his sad song
Leavin' nobody to carry him home
Only a hobo, but one more is gone

Does it take much of a man to see his whole life go down,
To look up on the world from a hole in the ground,
To wait for your future like a horse that's gone lame,
To lie in the gutter and die with no name?
Only a hobo, but one more is gone
Leavin' nobody to sing his sad song
Leavin' nobody to carry him home
Only a hobo, but one more is gone"


Only a Hobo, de Bob Dylan

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

momento gastronômico (2)


Bacalhau Natalino

Já que não dá pra me teletransportar pra Marte, nem manter a pose blasé em relação às festas de fim de ano, o jeito é tentar entrar no clima da forma menos pusilânime possível. E como a única coisa que resta em meio ao bimbalhar dos sinos natalinos e ao espocar dos fogos de artifício do Reveillon é comer bem, é sempre bom ter uma coisinha gostosa para fazer. De preferência, algo que seja bastante farto para alimentar os amigos que sempre vem filar a bóia aqui em casa.

Minha peça de resistência é uma espécie de bacalhau ao Zé do Pipo, que os amigos já apelidaram de "bacalhau ao Zé do Pepê". Apesar de achar gostoso, o Bacalhau ao Zé do Pipo sempre me pareceu um prato meio óbvio. Acho que todo mundo faz. Pensou em bacalhau, lá vem o manjado Zé do Pipo. Por isso, procurei adaptar esse prato, que é razoávelmente fácil de se fazer ( talvez por isso todo mundo acabe fazendo ), de forma a tornar o clichê culinário natalino a meu favor.

Aliás, saber usar um bom clichê é algo que aprendi a fazer, no meu dia-a-dia de roteirista. Nunca tive preconceitos com os clichês. É preciso entender que antes de virar clichê, a idéia original deve ter sido muito boa, tanto que passou a ser usada abusiva e repetidamente, até perder sua originalidade anterior e cair na vala comum das soluções fáceis. Como a famosa elipse da cena de sexo, no cinema, o casal se beijando, deitando na cama com desejo e a câmera corrigindo lentamente para uma lareira que crepita. Fusão para a mesma lareira, na qual agora só há cinzas e uma nova correção da câmera enquadra novamente o casal, agora devidamente deitados, nús sob as cobertas, fumando seu indefectível cigarrinho pós-coito. Há de convir que essa solução para driblar a censura da época é genial - por trabalhar com a cumplicidade do espectador, que completava a cena do jeito que achasse mais interessante. Pena que o gênio anônimo que bolou essa elipse foi tão copiado que hoje só dá pra utilizar a famosa "correção de cama pra lareira" de forma cômica, paródica.

Mas se olharmos sem preconceito e com criatividade, vamos perceber que por baixo do óbvio há coisas muito boas para serem devidamente aproveitadas. As pessoas geralmente torcem o nariz para o que aparentemente soa como óbvio, sem entender que é possível subverter o clichê, quebrando a expectativa do público. Pelo menos é o que eu tento fazer, nos meus roteiros. E que faço em relação ao bacalhau.

Contando com a espectativa que o bacalhau cria, uso a base do Zé do Pipo e surpreendo a todos com um bacalhau gratinado que aparentemente parece o Zé do Pipo, mas que é bem diferente e na minha opinião, muito mais saboroso.

Já estão salivando? Bem, vamos à receita. É bem simples, não tem como errar.

Os ingredientes:


Dependendo da quantidade de pessoas, o ideal é um quilo e meio de bacalhau. Se preferir, e se estiver com bala na agulha, compre logo apenas o lombo do bacalhau, que é na verdade a parte que vale a pena comer.

Cebola e alho, em grande quantidade. As cebolas devem ser cortadas de duas formas: picadas pra refogar o bacalhau e em rodelas, para depois ir montando o prato. Então, não economize na cebola.

Batatas... meio quilo das grandes.

Creme de leite... dependendo da quantidade de bacalhau ( pensando no quilo e meio), umas 4 latas.

Pimenta do reino

Queijo ralado

Sal.

Azeite, muito azeite. E de preferência, extra virgem.


Primeiramente, deixe o bacalhau cortado de molho em água fria por 24 horas, trocando a água de tres em tres horas. Depois cozinhe por 20, 30 minutos. Desfie o bacalhau ( cuidado com as espinhas! ) e separe.

Corte e cozinhe batatas em rodelas mais ou menos compridas e finas.

Doure a cebola e o alho picado em azeite e coloque o bacalhau desfiado para refogar. Tempere com pimenta e algum sal ( é bom provar o bacalhau antes de refogar pra saber se ele ficou pouco ou suficientemente salgado, após as de 24 horas molho. Dependendo, coloque a quantidade de sal que seu paladar aprovar, com devido cuidado, pois se tem uma coisa ruim é bacalhau sem sal, mas pior ainda é bacalhau excessivamente salgado ).

Refogado o bacalhau e cozida as batatas, vamos armar o prato.


Pegue uma travessa que vá ao forno e despeje uma boa quantidade de azeite. Coloque uma camada de batatas, fazendo uma "cama". Depois coloque uma porção de bacalhau desfiado sobre essa "cama" de batatas. Coloque rodelas de cebola sobre o bacalhau, azeite e despeje uma lata de creme de leite. Feito isso, arme uma nova camada de batatas, mais bacalhau, cebolas, etc. Repita o processo até atingir a borda do refratável. Não esqueça de colocar azeite a cada camada. Polvilhe com queijo ralado e leve ao forno para gratinar. Estado o forno razoavelmente aquecido, o bacalhau gratina em 20, 25 minutos.


Um quilo e meio de bacalhau geralmente dá pra fazer uma travessa grande e uma pequena. O que é bom, pois enquanto seus amigos estão se deliciando com a primeira fornada, dá tempo suficiente de gratinar a segunda travessa, e quando todos pensam que o bacalhau acabou, eis que vc surge da cozinha com um repeteco.
É servir e correr pra pros aplausos.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

coisas que eu gosto (de ver ) 5 - Especial de Natal



Johnny vai à guerra, de Dalton Trumbo, 1971.



Já que estamos nesse lufa-lufa de Natal, pensei em comentar este filme, que tem tudo a ver com "o espírito natalino". Único filme do grande roteirista americano Dalton Trumbo ( só clássicos, como Spartacus, Pappillon, The Fixer, A Guy named Joe- refilmado por Spielberg como Além da Eternidade-, Exôdus, O último pôr do sol, A princesa e o plebeu, etc ), ganhador de 2 oscars como roteirista ( que, entretanto, foi impedido de receber ), baseado em seu romance, de mesmo nome.

Trumbo foi uma das vítimas do macartismo, tendo sido proibido de trabalhar no cinema, isso quando estava no auge da sua carreira como roteirista. Ele foi um dos "dez de Hollywood", cineastas que, ao serem confrontados pela sanha anti-comunista oportunista do medíocre senador Eugene McCarty, alegando a 1a Emenda da constituição americana, se recusaram a testemunhar no Comissão de assuntos anti-americanos - uma espécie de CPI do mensalão local, formada por uma laia que muito se assemelha à turba de tucanos, pefelistas e heloísas helenas assanhados travestidos de moralistas e patriotas, mas que buscavam apenas aparecer na tv e angariar votos ( tal como cá ). Testemunhar na CPI, digo, na comissão era um eufemismo para delatar possiveis comunistas ou simpatizantes. Muitos fizeram isso. O grande cineasta Elia Kazan, entre eles. Para salvar a pele, muitos entregavam qualquer um. Havia até uma lista com os nomes manjados que a comissão oferecia aos depoentes. O que importava era, como em qualquer processo inquisitório, que as vítimas capitulassem, e abdicassem de sua dignidade através do processo mais torpe: a delação, a traição. Nada mais prazeroso ao algoz do que transformar suas vítimas em algozes de novas vítimas. É a legitimação da opressão.


Os "dez de Hollywood" se recusaram a fazer qualquer delação e caíram em desgraça. Foram presos, depois colocados na "lista negra", proibidos de trabalhar em qualquer atividade da indústria cinematográfica.

Abrindo um parenteses: Junto com Trumbo estava John Howard Lawson, também roteirista e, pelo que penso, talvez o único que fosse realmente comunista no grupo. Lawson era ativista dos direitos civis, foi criador e presidente da WGA ( Writers Guild of America, o sindicato dos roteiristas, o mesmo que hoje está deixando os executivos de Hollywood de cabelos em pé, com essa greve histórica que já dura tres meses... ), escreveu o roteiro de "Bloqueio", um filme que defendia os republicanos espanhóis contra as forças fascistas de Franco, visitou a antiga União Soviética diversas vezes, era sem dúvida um militante de esquerda. Lawson terminaria sua vida dando aulas, escrevendo um excelente livro sobre dramaturgia chamado O processo da criação cinematográfica, que recomendo a quem quiser entender um pouco de roteiro e de direção. Os demais, como Trumbo, eram apenas humanistas, progressistas, coisa que na América equivale a ser "vermelho". Ainda mais nos anos cinzentos da guerra fria. Ou, nos dias atuais, da doutrina Bush.

Seja como for, comunistas, esquerdistas, ou apenas simpatizantes, eles foram severamente punidos e perseguidos. Para poderem sobreviver, já que estavam na lista negra, e nenhum estúdio lhes dava trabalho, foram obrigados a escrever sob pseudônimos, ou, mesmo arrumar "testas de ferro" que assinassem seus trabalhos. Há um belo filme de Martin Ritt, Testa de Ferro por acaso, com Woody Allen, que retrata de forma pungente essa página vergonhosa da história americana recente.

Trumbo passou anos escrevendo com pseudônimos ou através de amigos que lhe emprestavam o nome. Os dois Oscars que recebeu foram entregues aos seus testas-de-ferro, só sendo devidamente creditado como o verdadeiro premiado e recebido as estatuetas carecas nos anos setenta ( só um, o outro lhe foi "entregue" postumamente, pois morreu em 1976).



Sua reabilitação se deve em muito a Kirk Douglas, que bancou toda sua reputação de grande ator para incluir o nome de Trumbo nos créditos de roteiro de Spartacus.


Trumbo escreveu o romance Johnny got his gun em 1938, já prevendo os horrores da 2a guerra mundial que se aproximava. O romance, como o filme, conta a história de um jovem idealista que se alista para lutar no exército americano durante a primeira guerra mundial. Atingido por uma bomba, perde os braços, as pernas, tem o rosto destruído, ficando cego, surdo e mudo. Todo o romance se passa na mente de Johnny que, apesar de tudo, se mantém intacta e ativa. A narrativa é mesclada pelas sensações vividas pelo "pedaço de carne viva" e seus sonhos, lembranças, devaneios, que se misturam à realidade de tal forma, que aos poucos, vamos perdendo a noção do que é real ou imaginário. Levando em conta a capacidade inesgotável de fazer o mal do ser humano, com suas armas, suas guerras, com a frieza dos cientistas, o oportunismo dos políticos, a mentalidade tacanha e autoritária dos militares, a ganância desenfreada dos capitalistas ( os únicos que ganham com as guerras, seja qual forem elas ), qualquer pesadelo parece insignificante diante da realidade. Neste sentido, o livro tem uma perspectiva de humor negro, apropriada para quem deseja denunciar a hipocrisia dos sentimentos patrióticos. Totalmente despojado de qualquer membro ou sentido que o faça interagir com os outros homens, aquele "pedaço de carne viva" é o único ser humano em toda a história.

Trumbo sempre quis transformar seu livro num filme, apesar de a princípio, a história oferecer pouca ou quase nenhuma perspectiva cinematográfica - pelo menos, para um filme narrativo.

Diversas vezes provoquei meus alunos nas aulas de roteiro, oferecendo este desafio: como fazer um filme onde o personagem não fala, não vê, não escuta, não tem rosto, não tem braços, nem pernas ( porém, tem sexo - isso é um detalhe fundamental. "Quando sentem a aproximação de uma bomba, instintivamente os soldados se colocam em posição fetal, protegendo seu sexo¨, diz um dos médicos-militares que "cuida" de Johnny ). Diante dessa provocação, a maioria dos alunos acaba desistindo do desafio, por considerá-lo insolúvel. Ao que eu respondo: mas ele pode pensar. E o pensamento é talvez a matéria mais cinematográfica existente.


E é assim que Trumbo consegue fazer sua narrativa fluir - através de dois planos, a realidade, onde um cotoco humano coberto por uma tenda deitado numa padiola num quarto vazio e escuro, imagem apavorante, e o imaginário, o mundo interior de Johnny. Através da representação dos pensamentos, sonhos, delírios do rapaz deformado, o filme respira, se realiza plenamente.

Trumbo penou para realizar o filme. Primeiro, pelas questões referentes à lista negra. Depois, pela aparente inviabilidade do projeto. Nenhum estúdio quis arriscar um centavo num filme no qual 50% ou mais da história se passava num quarto escuro, onde um "pedaço de carne viva" tecia comentários em voice-over. Trumbo resolveu ele próprio produzir o filme, usando seus proprios recursos. Num primeiro instante, pensou em entregar o projeto a Buñuel. Se havia alguém capaz de contar aquela história, esse alguém era Buñuel. Porém, problemas de orçamento e cronograma impediram o gênio espanhol de fazer o filme. Buñuel aconselhou Trumbo a dirigir ele mesmo o filme.

O filme é mais soturno que o romance, ainda que, aqui e ali, haja espaço para algum humor - nigérrimo. O tom mais pesado e totalmente pessimista deve-se ao fato de que muita água - e principalmente, muito sangue - correu, desde que ele escrevera o romance, até o momento em que conseguiu levá-lo às telas. Se as atrocidades vivenciadas por Trumbo na primeira guerra mundial forneceram horror suficiente para escrever seu romance, ele agora tinha não somente as experiências da 2a guerra mundial, muito mais cruenta e violenta que a primeira, bem como todo o processo de desumanização vivido pelo mundo, com a revelação dos horrores nazistas, dos campos de concentração, da bomba atômica, da descoberta do terror stalinista ( que foi uma ducha de água fria para aqueles que, como Trumbo, acreditavam num "outro lado" diferente e oposto ao mundo ocidental e capitalista ), a perseguição macartista, a guerra fria e, mais diretamente, à guerra do Vietnã, em pleno curso quando Trumbo finalmente consegue viabilizar o filme.

Estéticamente, o filme é dividido em dois planos, realidade e sonho. As cenas do "cotoco humano" são primorosas, filmadas em preto e branco com tons expressionistas ( a cena que abre o filme, com os médicos filmados de baixo pra cima, numa grande angular, eles usando máscaras de cirurgia, num preto e branco totalmente contrastado parece saída de um filme de Robert Wiene ou Lang, do cinema expressionista alemão, é impressionante ). Já as cenas "mentais" de Johnny, suas lembranças, seus sonhos, são todas num colorido que começa em tons pastéis e vai acumulando cores, num tom mais surrealista. Não só a fotografia cria a aura onírica, mas a própria interpretação, progressivamente rompendo com o realismo, e o espetacular uso do som, sempre exagerado, com pontuações que muitas vezes seguem o sentido dramático oposto ao da cena. O silvo da bomba que irá atingir Johnny é usado repetidamente, criando uma sensação incômoda - é através da aproximação da bomba que a ação retorna à realidade.

A narrativa aposta na perda progressiva da sensação de realidade, e aos poucos perdemos a noção do que é lembrança, do que é sonho, do que é delírio, os elementos vão se misturando de tal forma que o que vemos é muitas vezes confuso, estranho, perturbador.

Num dos sonhos, Johnny encontra-se com Jesus, interpretado de forma extraordinária por Donald Shuterland, não à toa, um dos atores mais identificados com a contra-cultura naquele momento. Recém saído do anarquico M.A.S.H., de Altman, Shuterland faz um Cristo cínico, engraçado, demasiadamente humano. Um Cristo que, impotente diante da desumanidade dos homens, aceita seu papel de "coveiro" da humanidade. Há uma cena muito boa, em que Jesus e Johnny discutem os limites de deus, diante das ações dos homens ( foram os homens que fizeram Johnny ser o que é ), na oficina de carpintaria de Cristo. O trabalho de Jesus é justamente fazer as cruzes que irão enfeitar os cemitérios.

Neste sentido, há um evidente sentimento de cristandade perdida e ressentida no filme. O filme usa e abusa de elementos cristãos, além do próprio Cristo, para mostrar a inviabilidade da proposta cristã ( estendendo-se aí para qualquer outra religião ) em resolver os problemas do mundo. É impossível acreditar em Deus neste mundo. Lembrando a famosa frase de Dostoiévski em "Irmãos Karamazov", "se deus não existe, tudo é permitido", Trumbo parece afirmar, não sem tristeza ou desencanto, que a impossibilidade da existência divina levou o homem a uma permissividade sem limites em relação à sua própria humanidade. "Tudo é permitido": o horror, o horror, como anos depois balbuciaria Marlon Brando, em "Apocalipse Now"(sobre esse filme falarei depois).

(atenção: a partir daqui falo sobre o desfecho do filme. Quem preferir ver o filme antes de saber como ele termina, é bom parar por aqui. )

Ao final, desiludido, Johnny, que consegue finalmente se comunicar com os demais, através de código morse ( batendo a cabeça contra a cabeceira da cama, repetidamente, a frase S.O.S ), pede para ser exibido num show de circo de horrores, pois seria a unica forma de poder conviver com