domingo, 28 de outubro de 2007

entranhas cinematográficas ( e ideológicas ) de Tropa de Elite (3)


Full Metal Jacket - "Nascido para Matar", de Stanley Kubrick (1987)



Não sou dos maiores fãs do Kubrick, tampouco deste filme. Mas há de convir que há uma profunda semelhança entre o treinamento dos recrutas no filme de Kubrick e o dos "caveiras" de Padilha. Num e noutro, assistimos a cenas brutais, sádicas, um ritual extenuante através do qual o homem se transforma numa besta letal. Tanto em Full Metal Jacket quanto em TE há cenas engraçadas, sendo que a aula de "estratégia" de TE, em que o capitão Nascimento dá uma granada engatilhada para um sonolento aspira Matias segurar, enquanto segue com sua monotona peroração acerca das diferentes versões da palavra "estratégia", é , disparado, uma das sequências mais engraçadas que o cinema já produziu. As cenas são muito parecidas.
Mas ser parecido não quer dizer necessariamente ser igual. É aí que reside a grande diferença entre forma e conteúdo.
A semelhança formal das sequências são enormes, até mesmo no tom visivelmente "exagerado", que provoca risos. Quando analisamos o discurso dos filmes, a distância que surge entre um e outro é abissal. Quase antagônicas.

A diferença entre um e outro filmes é o ponto de vista do diretor - enquanto que Kubrick tem um evidente propósito em mostrar como o homem pode ser desumanizado e tornar-se uma eficaz e disciplinada máquina de matar, dando uma aula sobre o processo de alienação ( e o tom propositalmente caricatural das cenas remete ao distanciamento brechtiano ), em Tropa de Elite o que vemos é um processo de depuração. O treinamento é bruto, não para desumanizar seus participantes, mas para eliminar o mal inflitrado - os corruptos. A brutalidade dos exercícios é uma forma de desestimular que recrutas covardes, preguiçosos e, principalmente, os corruptos consigam penetrar no impoluto corpo de "caveiras".
Neste sentido a humilhação que sofre o capitão Fábio, o tíbio PM envolvido com prostituição e bicheiros, é exemplar: todos sabemos que ele é covarde, preguiçoso e principalmente, corrupto. Típico estereótipo do policial. O que vemos é que na Tropa de Elite não há lugar para tipos assim. E as cenas em que Fábio é achincalhado pelo Capitão Nascimento são sempre bem humoradas. Moral do filme: é assim que se deve tratar os maus policiais. Não é isso que a sociedade quer? Uma polícia honesta, séria, que cumpra seu necessário trabalho? Sem corruptos, sem moleirões, sem covardes e velhacos?


Neste sentido, é inóqua a crítica que o colunista do Globo Arthur Xexéu faz ao filme, ao mencionar o comentário sobre um "aspirante a caveira" que ficou surdo pelo rigoroso treinamento aplicado pelo capitão Nascimento. Vendo, depois, a tentativa do covardão e corrupto capitão Fábio em ingressar na Tropa incorruptível, conseguimos "ver" o que deve ter acontecido com o citado aspirante que ficou surdo. E como Nascimento alerta que "ele era safado", entendemos que ele teve o castigo merecido.


Sobram do treinamento apenas os bons, os mais fortes, os incorruptíveis. Como toda depuração é uma purificação, entendemos que os que sobrevivem para tornar-se "caveiras" são uma espécie de "eleitos", no sentido religioso mesmo da palavra. São imunes à dor, às privações, às tentações. Os "caveiras", antes de máquinas desumanas treinadas para matar, são uma espécie de "cruzados", homens superiores, acima do bem e do mal.


E o conceito de "homens acima do bem e do mal, acima do conceito de classes, disciplinadores da sociedade e mantenedores da ordem" não é exatamente um dos princípios do fascismo?

saudades do "bodódromo" (Petrolina, PE)




"Cabritada mal-sucedida"
(1953)


Samba de Geraldo Pereira e Jorge Gebara



Bento fez anos,
E para almoçar me convidou,
Me disse que ia matar um cabrito,
Onde tem cabrito eu tou,
E quando o "Comes e Bebe" começou,
No melhor da cabritada,
A Polícia e o dono do bicho chegou.
Puseram a gente sem culpa,
No carro de Radio Patrulha e levaram,
Levaram também o cabrito,
E toda a bebida que tinha, quebraram,
Seu Comissário, zangado,
Não tava querendo ninguém dispensar,
O patrão da Sebastiana,
É que foi ao distrito,
E mandou me soltar.


domingo, 21 de outubro de 2007

quadros que queria ter na parede aqui de casa (7)


Jogo de Bola, de Cândido Portinari.

coisas que eu gosto (de ver) 4:


Noite Escura, filme de João Canijo, Portugal 2004.

Grande filme português, de um diretor pouco conhecido aqui no Brasil ( apesar de já ter feito um filme, A Filha da mãe, estrelado pelo José Wilker ). Conheci o João Canijo no Festival de Cinema Latino de Chicago, em 2002. Éramos quase que dois peixes fora d´água. Eu porque estava representando como roteirista o filme da Sandra Werneck, Amores Possíveis ( e em festivais de cinema, se você não é o diretor ou produtor do filme, ou então o ator principal, você fica ali, meio perdido, ninguém te dá muita atenção, roteirista então...). E o João, por ser português. Se no meio daquela multidão de cineastas hispânicos, latino-americanos, ser brasileiro já era motivo de estranheza ( apesar de uma estranheza carinhosa, afinal, nossos hermanos latinos simpatizam gratuitamente conosco ), um cineasta luso, com um filme totalmente rodado em Paris, era realmente uma espécie de ET. O filme que ele tinha em concurso era o belo Ganhar a vida, que retrata a migração portuguesa contemporânea para os países mais desenvolvidos na Europa "sem fronteiras". Nos encontramos numa festa promovida pelo sempre simpático Pepe Vargas, diretor do festival, um convescoste bem familiar, nada a ver com as festas nababescas do cinema brasileiro, uma coisa bem íntima, um churrasco no quintal de sua casa, num simpático subúrbio de Chicago. De modo que o brasileiro e o português acabamos por juntarmos nosso deslocamento e ficamos papeando sobre os cinemas de nossos países.

Papeando é uma licença poética. Meu inglês é, como naquela comunidade do orkut, "too bad", meu espanhol só funciona depois de algumas doses de birita, mas o maior problema linguístico é entender o português falado pelos portugueses. Às vezes parece russo. Realmente, é uma coisa que dificulta em muito a circulação do cinema português no Brasil. "Aquela língua" só consegue ser compreendida com legendas. E pra complicar, o Canijo fala com aquele acento gutural típico dos moradores do Porto, mais fechado e hermético que o português cantadinho dos alfacinhas, os lisboetas. O irônico é que o nosso português é plenamente compreendido pelos lusos, por ação e graça das telenovelas globais, que inundam a programação televisão portuguesa há mais de 20 anos - há casos de emissoras que passam novelas das duas as dez...

Mas não é pra falar dessa conversa de meio-surdos em Chicago que estou escrevendo, e sim para comentar um filme do Canijo, que acabei assistindo em 2004, por ocasião do Festival de cinema Luso-brasileiro de Santa Maria da Feira, onde ambos fomos jurados. Noite escura passou, fora de competição. A despeito da dificuldade de compreensão idiomática, o filme me impressionou sobremaneira. É um filme muito forte, brutal, com uma mis-en-cene elaboradérrima, um ritmo tenso, sempre crescente, uma fotografia cheia de movimentos de câmera que às vezes lembram a movimentação da câmera de um Altman, passando de assuntos e ambientes, criando uma espécie de labirinto visual, onde os personagens parecem aprisionados e sem saída. Ao mesmo tempo, o uso de câmera na mão, sempre tensa e angustiante, encurralada nos limites de um amabiente quase sempre fechado, remete ao cinema de Cassavetes É um filme bastante tenso, sufocante. A trama é inspirada na tragédia de Eurípedes, Ifigênia em Aulis, transmutada para um Portugal moderno, repleto de contradições, dividido entre a fartura dos investimentos da comunidade européia e a agonia de suas tradições e a corrupção de seus valores.

A peça de Eurípedes fala do drama do rei de Micenas, Agamemnon, que é obrigado a sacrificar a filha mais jovem, Ifigênia, a fim de aplacar aos deuses, que vinham castigando seu reino com a seca e a devastação. Agamenon tem outra filha, Electra, que nutre pelo pai uma espécie de amor incondicional. Já a esposa de Agamenon, Clitemnestra, ao descobrir que o marido sacrificara a filha caçula, acaba matando-o.

Na adaptação de Canijo, a ação se passa numa boate de prostituição. Pressionado por mafiosos russos, Nelson, o dono do bordel aceita oferecer sua filha mais jovem como pagamento de suas dívidas. A decisão do pai é questionada pela filha mais velha, que tenta salvar a irmã do destino cruel: tornar-se prostituta. É um filme dominado pelas mulheres, determinadas, enérgicas, enquanto os homens parecem rastejar na sua impotência ou covardia. Nelson ( em ótima interpretação de Fernando Luis) , é tíbio, pusilânime em sua covardia em aceitar o destino cruel que se lhe apresentam. Apesar de amar a filha, tem mais amor ao próprio pescoço. Ele é pressionado por todos os lados: pelos russos, pela filha mais velha ( interpretada por Isabel Batarda, belíssima atriz, aqui enfeiada, masculinizada ), pela esposa Celeste, aparentemente cínica e alienada ( numa interpretação cheia de nuances de Rita Blanco, espécie de atriz-fetiche de Canijo ), pelos próprios remorsos - sabe que é um patife covarde, mas isso não o impede de sofrer.

A trama de Canijo é narrada pelo ponto de vista de Carla, a filha mais velha e mais feia. E é o seu desespero em ver a família ser destruída pela covardia do pai, que no entanto ama desesperadamente. Ela tenta dissuadir o pai, sem sucesso, tenta pedir auxílio à mãe, que ignora seu desespero, tenta ajudar Sônia, a irmã caçula, que entretanto rechaça seu socorro. A percepção de sua incapacidade de mudar o destino, traçado por mãos mais fortes que a sua, vai enlouquecendo progressivamente a personagem.

Num momento intenso do filme, ao propôr que o pai lhe entregue aos russos, no lugar da irmã caçula, ela procura mostrar que, apesar de feia, é muito mais experiente que a outra. Ela seduz o pai, numa cena cheia de sensualidade doentia, incestuosa, que culmina numa felação nervosa a qual o pai não consegue resistir. Essa cena é talvez a melhor representação do "complexo de electra" em cinema ( em detrimento às diversas representações do mito do amor edipiano, que gerou filmes tão dispares quanto O sopro no coração, de Louis Malle, La Luna, de Bertollucci, Os imorais, de Sthephan Frears e, mesmo, os incompreendidos, de Truffault). Mas nem pelo sexo ela consegue demover o pai tíbio e covarde.

O filme é impregnado de violência. A abertura do filme mostra Carla lavando o assoalho sujo de sangue de uma prostituta russa, que aparece com a garganta dilacerada. Mais adiante, um sócio de Nelson será esfaqueado na jugular, em meio a uma discussão com o chefe dos mafiosos russos. Uma outra prostituta é enforcada - seu corpo despenca do teto pesado e inerte. No final, há um tiroteio, muitas mortes - enquanto isso, mulheres em trajes sumários, seminuas exibem-se monotonamente no palco da boate, num contraponto que remete à disputa entre Eros e Thanatos, com a predominância deste.

Numa tentativa final de salvar a imã, Carla parte para o sacrifício, pistola na mão, enfrentando os russos. Mas mais uma vez, ela falha. E morre. Sua morte não impede que Sônia seja levada pelos mafiosos russos, tampouco salva o pai. Nelson, causador e vítima de sua própria desgraça, é morto por Celeste. Ao final do filme, enquanto os corpos de Carla e Nelson abraçados e unidos pelo mesmo sangue derramado jazem no estacionamento, a noite segue na boate, onde clientes e prostitutas seguem seu cotidiano aviltante, sem perspectivas, mais monótono do que trágico.

Aliás, dentro do conceito de tragédia grega, as prostitutas e clientes da boate de Nelson funcionam como uma espécie de côro, que de certa forma comenta, num segundo plano, aspectos da história e, principalmente, a questão da prostituição - que seria uma metáfora da situação de Portugal, corrompido pelos euros que mudaram radicalmente o país, sem no entanto resolver nenhum de seus problemas estruturais ( tanto que é um dos países mais pobres da comunidade européia ).

O filme é tenso, duro, nervoso, de um colorido neurótico - há uma preponderância das cores vermelhas e verdes, por sinal, cores da bandeira portuguesa. Num dado momento da trama, a personagem Sônia, a irmã caçula, canta uma triste canção, uma espécie de fado - e o que é o fado se não uma junção entre a premissa fatalista da tragédia grega e a melancolia incurável dos portugueses? A canção funciona como uma espécie de comentário melódico ao filme, mas também é um contraponto - é um raro momento de doçura ( ainda que uma doçura agônica, acridoce ) em meio à nervosa movimentação da câmera e a cada vez mais tensa atuação dos atores.

É uma pena que a sonoridade do português de Portugal difira tanto do nosso português. Isso impede que um filme impressionante como Noite Escura possa vir ser exibido no Brasil. Pelo menos, não sem legendas. Tenho uma cópia em dvd que só dá pra assistir com auxílio das legendas em inglês.

É lamentável porque, além de privar o público brasileiro do cinema de Canijo, sem dúvida um dos cineastas portugueses mais interessantes, figura constante em Cannes - Noite Escura concorreu à Palma de Ouro e também foi o filme português indicado ao Oscar de filme estrangeiro - , essa dificuldade idiomática entre Brasil e Portugal acaba criando o mito de que o único cineasta português é Manoel de Oliveira, cujos filmes acabam passando no Brasil com mais frequência mas pelos quais eu não tenho a menor paciência (apesar de achar simpático o velhinho continuar filmando a "bordo" dos seus noventa e tantos anos, mas daí gostar de seus filmes, há uma grande distância ).

João Canijo e Pedro Costa ( O quarto de Vanda, Juventude em marcha ) são os melhores realizadores portugueses da atualidade, sendo que o cinema de Canijo me agrada mais, pela sua elaborada dramaturgia. Pena que falemos a "mesma" língua. Fossem cineastas espanhóis ou franceses, ou mesmo romenos, seus filmes teriam melhor aceitação aqui, no Brasil.

sábado, 20 de outubro de 2007

coisas que eu gosto ( de ouvir) 5:



A bossa eterna de Elizeth e Ciro


Disco fundamental para quem deseja conhecer a boa música popular brasileira.
Dois pesos pesados da musica brasileira dando o melhor de si, para felicidade daqueles que apreciam um bom samba.
A divina Elizeth Cardoso, consagrada por interpretações sublimes e pungentes ( considero sua gravação de "Barracão", de Herivelto Martins, no disco ao vivo com Jacó do Bandolim a mais bela interpretação da MPB ) revela aqui seu lado mais descontraido, ao lado do sempre irreverente e malandro Ciro Monteiro.
Sou fã de carteirinha do "formigão", sem dúvida o mais carioca dos cantores da MPB. Apoiado num timbre de voz saboroso, dono de um estilo personalíssimo, Ciro esbanjava alegria.
Ao seu lado, a Elizeth dá um tempo à "diva" e incorpora uma cabrocha cheia de ginga e malandragem. É um disco que celebra a alegria, e que compartilha com os ouvintes o prazer de viver.
Na versão "bolachão", tanto o lado A quanto o B abriam com dois deliciosos "pout-porrys", com duelos entre Ciro e Elizeth, marcados pelo bom humor que contagia o ouvinte. São trechos de canções imortais, cuja letra imediatamente vem à lembrança e é irresistível não unir nossa voz à dos grandes cantores. É o caso de Taí, de Joubert de Carvalho, Adeus Batucada, de Ismael Silva ( por sinal, dois grandes sucessos de Carmen Miranda ), ou Mulher de Malandro, de Heitor dos Prazeres e Meu fraco é mulher, de Conde e Heitor de Barros.
Nestas e nas demais faixas do disco, Elizeth e Ciro são acompanhados pelo regional do Caçulinha ( sim, ele mesmo, o que hoje se apresenta no "circo de horrores" dominical do Faustão, triste aposentadoria para um grande músico ), em ótima forma.
Juntos também a dupla arrasa com "Quando eu penso na Bahia", de Ary Barroso, número cheio de deliciosa teatralidade, bem ao estilo do teatro de revistas - um aspecto da cultura e do show bizz brasileiros lamentavelmente perdidos. Ao ouvir essa faixa, quase é possível "ver" Elizeth e o formigão em um palco imaginário, tal a força visual da interpretação.
Nos momentos solos, o destaque é a emocionante Sei lá Mangueira, que Elizeth canta de forma sublime, talvez a mais bela canção sobre já feita sobre a verde-e-rosa, curiosamente composta pelo rival portelense Paulinho da Viola, com versos de Hermínio Belo de Carvalho: "visto aqui do baixo, mais parece o céu no chão". Que bela metáfora.
video
Outra boa interpretação de Elizeth é o samba "Louco", de Wilson Batista e Henrique Alves, que anos depois o saudoso João Nogueira iria gravar e associar inevitavelmente à sua carreira: "louco, pelas ruas ele andava, o coitado chorava/ transformou-se até num vagabundo/ Louco, para ele a vida não valia nada, para ele a mulher amada/ era seu mundo".
Já Ciro arrebenta com Certa Maria, composição sua com o poetinha Vinícius de Moraes.
É um disco que não parece ter sido gravado há quase 40 anos. O frescor e força dos intérpretes, a eternidade das canções, o clima de camaradagem que emana das gravações, sempre contagiante, afungentam qualquer sentimento nostálgico.
Um disco pra botar no "repeat" e deixar rolar. Recomenda-se ouvir acompanhado de uma boa cervejinha gelada. Ou melhor, várias.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Precisa dizer mais alguma coisa?


Capa da Veja desta semana.
"Pegou geral" - O filme Tropa de Elite é o maior sucesso do cinema brasileiro porque trata bandido como bandido e mostra usuários de droga como sócios dos traficantes".
Para uma revista sabidamente inimiga do cinema nacional, seria estranho uma capa e uma crítica tão elogiativas...
Seria estranho, não fosse a Veja a porta-voz da direita brasileira. A maior publicação conservadora da mídia brasileira não ia fazer essa publicidade de graça.
O Padilha pode se dizer "surpreso" com a reação empática dos expectadores que gritam "caveira" ou aplaudem o seu capitão Nascimento no escurinho do cinema. Pode tirar o corpo fora dizendo que "apenas retratou o ponto de vista de um policial" e jogar a culpa na platéia pela "leitura" fascistizante que fazem do seu filme. Mas será que ele vai escrever uma carta pra Veja criticando o ponto de vista ultra-direitista da revista sobre seu filme?
A pergunta que não quer calar: o Padilha não sabia o filme que estava fazendo?

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

momento gastronômico (1)


Falei que, vez em quando, ia publicar umas receitas. Pois é, adoro cozinhar. Saudades do tempo em que tinha um fogão de seis bocas. Foi logo que mudei pra Santa Teresa, 11 anos atrás. Quem frequentou o apartamento da Aarão Reis e partilhou das minhas "experiências" culinárias deve sentir saudades das verdadeiras orgias gastronômicas que volta e meia eu produzia lá.

Hoje em dia sou um cozinheiro preguiçoso. Só enfrento o fogão quando tem visitas. Sem contar que a Clarisse também cozinha bem. E que a Beth, a moça que trabalha aqui três vezes por semana, cozinha muito bem, de modo que enfrentar uma cozinha tem que ser por uma boa causa. Um puta almoço de domingo, com amigos, por exemplo. E sou daqueles cozinheiros pantagruélicos, gosto de cozinhar pra um batalhão. Minha feijoada é famosa. Dizem que dá de dez na do Mineiro, de Santa Teresa ( que a Angela não leia esse blog ). Mas não faço p´ra menos de 20 pessoas. Durante a Copa passada, a galera vinha ver o jogo ( aliás, ia, era ainda em Santa Teresa ) lá em casa, menos por conta do futebol insosso do timeco do Parreira, mas para "afogar" as mágoas na suculenta feijoada - que, modéstia a parte, é feita só com carnes nobres do porco.
O bacalhau ao zé do pipo, que eu prefiro chamar de "bacalhau dos amigos", que geralmente sirvo na época do Natal, também faz a alegria da moçada. A lula recheada também tem seus fãs, bem como o polvo a espanhola e, claro, o lombinho com puré de maças que durante um tempo, era a especialidade da casa.
Mas a intenção aqui é partilhar de receitas legais, não encher a minha bola.
A primeira que publico aqui é um prato maravilhoso, a Camoranga, ou mais simplesmente, camarão na moranga. Esse ainda não fiz, foi a Clarisse que cozinhou outro dia. Não é dificil, não. Prato ideal pra tres, quatro pessoas no máximo. Excelente pra um dia frio, se estiver chovendo então, melhor ainda. Com um vinhozinho, desce "redondo", mas também não cai mal com uma cerveja gelada e uma cachacinha. É comer e ficar "lagarteando" de barriga pro alto, o que pode não ser lá muito saudável, mas não tem nada melhor.


CAMORANGA


Ingredientes:

1 moranga média

3 colheres (sopa) de azeite de oliva

1 cebola picada

2 xícaras (chá) de molho de tomate

2 xícaras (chá) de requeijão cremoso

2 colheres (chá) de molho de pimenta

500 g de camarão limpo

1 xícara (chá) de salsinha picada

sal a gosto


Modo de Preparo:

Lave a moranga, faça uma tampa na parte superior e com uma colher retire as sementes e as fibras. Em seguida, embrulhe a moranga a moranga com papel-alumínio e coloque-a em uma panela grande. Junte 1 litro de água, sem cobrir a moranga, leve ao fogo e cozinhe por 30 minutos, ou até ficar macia. Aqueça em uma panela 2 colheres (sopa) de azeite de oliva, junte a cebola e refogue, mexendo de vez em quando, até dourar. Adicione o molho de tomate, o requeijão, o molho de pimenta e o sal. Misture bem e cozinhe por 5 minutos, mexendo de vez em quando. Por último, adicione os camarões e a salsinha e misture bem. Cozinhe, mexendo de vez em quando, por mais 5 minutos, ou até os camarões ficarem cozidos. Retire do fogo e despeje o creme de camarões dentro da abóbora. Pincele a casca de abóbora com o azeite restante e embrulhe-a em papel-alumínio. Disponha-a em uma fôrma de 30 cm de diâmetro e leve ao forno em temperatura média por 20 minutos, ou até a abóbora assar. Retire do forno e sirva em seguida.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

entranhas cinematográficas ( e ideológicas ) de Tropa de Elite (2)


Mississipi em Chamas, filme de Alan Parker.



Considero este filme um dos mais abjetos já realizados. O cineasta inglês foi mais feliz em filmes como Expresso da Meia-Noite, apesar da xenofobia anti-turca, em Asas da Liberdade, no ótimo Commitments, em Coração Satânico. Mas este seu filme me incomoda pelo descompasso entre o discurso progressista - a luta pelos direitos civis na América, no início dos anos 60 - e a metodologia típica dos filmes policiais mais fascistas, comum à cultura e ao cinema hollywoodiana. Recordemos a história do filme: Gene Hackman e Willian Dafoe são dois agentes do FBI que investigam o cruel assassinato de militantes dos direitos civis pela Ku-Klus-Klan, no Mississipi ainda dominado pelo racismo. Para desbaratar o grupo de extrema direita, e capturar os assassinos, o policial experiente e linha dura (interpretado por Hackman ) acaba convencendo o colega liberal e ético ( Dafoe ) que somente pelo mal poderão vencer o mal. E para combater os KKK terão que usar os métodos mais sujos - no caso a tortura. Eles capturam e torturam um dos membros do Klan que, como inevitavelmente acontece em casos de tortura, acaba delatando o resto do grupo. O que me incomoda é a lógica de que os fins nobres justificam os meios mais perversos. Tortura é crime hediondo, mas o fato dos "bons" torturarem os "maus" (ainda mais por uma causa nobre ) acaba sendo absorvida ( e absolvida ) pela platéia como um método necessário para o combate ao crime, ao racismo, etc.
A ética do filme é maniqueísta pois estabelece que o crime quando praticado pelos maus é errado, enquanto que o crime praticado pelos bons é justificavel, e em certas circunstâncias, aceitável e mesmo necessário. Esse discurso é adotado pelo filme do José Padilha, ainda que ele insista em dizer que o filme só faz reproduzir o ponto de vista do personagem policial, que pratica a tortura. No filme do Parker há um conflito entre o personagem ético ( "certinho e careta") de Dafoe e o personagem realista e pragmático ( "que conhece a realidade das ruas" ) de Hackman quanto a sujar as mãos em nome do exito da missão. Ao final do filme, os bons triunfam, o mal é derrotado e a sensação que o expectador vivencia é que para derrotar o mal é necessário renunciar ( como faz o personagem de Dafoe ) à sua consciência, aos seus princípios éticos e morais, e "sujar as mãos", usando de métodos tão hediondos como os praticados pelo inimigo.
O que me irrita particularmente no filme de Parker é o uso de uma causa nobre - a luta pelos direitos civis e humanos, o combate ao racismo - para justificar a prática da tortura (ou de qualquer expediente abominável ). Como, a exceção talvez de reacionários racistas, ninguém simpatiza mesmo com os membros da KKK, quem irá se importar que eles sejam torturados, mortos, who cares? O importante é punir o mal, seja lá sob qual a forma ele apareça. Sejam os racistas da KKK, os bandidos, os traficantes, os terroristas. Pela ótica do filme, se aceitamos que sejam usados métodos "não-ortodoxos" no combate ao crime, ao mal, como protestar contra a tortura que o governo americano pratica em Guantánamo contra os prisioneiros supostamente acusados de terrorismo?
No caso brasileiro, quem liga se o Bope tortura traficantes?
Talvez haja um exagero, como quando no filme, os bravos soldados da Tropa de Elite torturam uma moça da favela para que ela revele o paradeiro do "Baiano", afinal, ela não é bandida. Talvez a platéia se incomode com a exposição da violência - mas o filme, até por sua postura "independente", não julga a ação dos seus personagens, deixa para a platéia julgar. E qual o julgamento que se espera de uma platéia assustada pelos altos índices de violencia e criminalidade vivenciados hoje no Brasil? Ainda mais uma platéia que assiste a um filme que, ao renunciar a uma visão crítica, apenas mostra os "homens de preto" como seres humanos, passíveis de erros, capaz de exageros, porém profundamente dedicados ao combate ao crime e a corrupção.
Da mesma forma que a platéia se identifica com os nobres agentes do FBI na sua luta contra os racistas criminosos da KKK, e perdoa ou mesmo admite o uso de meios sujos nessa luta, penso que a platéia brasileira pode achar brutal algumas cenas de Tropa de Elite, mas sai do cinema com o sentimento reconfortante de que felizmente existe no país alguém que faça o "serviço sujo" para ela. E a visão acrítica ou, como prefere o Padilha, "independente" do filme "Tropa de Elite" acaba servindo para aplacar a consciência pesada do expectador, que no escurinho do cinema, considera que aquela tortura é incorreta porém necessária, afinal, como o filme também mostra, os maus, os traficantes, os corruptos, a classe média permissiva, precisam ser derrotados.
E no mais, por mais que o filme e seu diretor tenham adotado uma postura "independente", Tropa de Elite não consegue fugir ao maniqueísmo. Independente dos "excessos", independente da brutalidade de muitas cenas de tortura ( o da moça da favela e o quase empalamento de um vapor, devidamente interrompido pela vitima que se "dispõe" a delatar o esconderijo do traficante antes que os expectadores sejam violentados por uma cena realmente brutal, como bem observou Carlos Reichenbach, num artigo em o Globo ), o maniqueísmo domina o filme, até mesmo na escalação do elenco. Os "bons" tem cara boa. Os "homens de preto" são os boa-pintas Wagner Moura, Caio Junqueira e o André Ramiro enquanto que o "vilão", o traficante Baiano (Fábio Lago ) é feioso, barrigudo, despojado de qualquer atrativo. Será que ao pensar "visualmente" seus personagens, o Padilha teria tido uma postura "independente"?

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

O retorno do Jedi ou a volta do boêmio - Eduardo Coutinho reencontra seu melhor cinema





Jogo de cena, de Eduardo Coutinho.

Confesso que achava que o cineasta Eduardo Coutinho estava nos "devendo" um bom filme há tempos.

Autor dos magistrais Cabra Marcado pra Morrer ( sem dúvida, um dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos ), Santa Marta-duas semanas numa favela, Boca do Lixo, Santo Forte e Edifício Master, Coutinho tinha demonstrado uma certa "preguiça" no Babilônia 2000, que, apesar de simpático, era uma espécie do "mesmo do mesmo" do cinema que, desde "Boca do Lixo, o diretor vinha propondo. Uma sala de visitas para pessoas simples, gente do povo, anônimos, geralmente em condições adversas, falarem de suas vidas anônimas, se exporem, cantarem (desde Boca do Lixo todos os filmes de Coutinho têm um "número musical" ), em suma, brilharem. O cinema humanista de Coutinho parece ecoar os versos de Caetano ( na verdade, inpirado em Maiakovsky ) que dizem: "gente é pra brilhar, não pra morrer de fome". Mas se havia simpatia ( e todo carioca sabe que "simpatia é quase amor") em Babilônia 2000, a impressão que passava ( ao menos, para mim ) era de uma visível indolência, uma repetição, como se o diretor houvesse encontrado uma "fórmula" que, como sempre acontece, acaba por diluir a força expressiva de seus melhores filmes.

Depois veio "Peões", que considero um dos filmes mais reacionários já realizados no Brasil. Vou melhorar a frase: um dos filmes mais reacionários já realizados por um cineasta nitidamente identificado com os valores sociais e com as classes menos favorecidas. Um amigo em comum me disse que Coutinho não gostava do Lula. Gostar ou não do Lula é um direito do Coutinho, mas daí fazer um documentário impregnado com essa antipatia, disfarçando-o de forma a parecer "neutro", são outros quinhentos. Peões é um filme que busca o tempo todo "demonstrar" que, enquanto Lula se "deu bem", seus antigos e anônimos companheiros de fábrica e de greves tinham ficado para trás, tinham fracassado, como se fossem apenas uma massa de manobra para a ascensão do líder operário que viria tornar-se presidente do Brasil. Para defender a tese, Coutinho chega a cometer um dos "pecados capitais" do documentário: o falseamento da "verdade", através da omissão de fatos que, se expostos, revelariam o parcialismo de seu ponto de vista. Um exemplo: para mostrar que a maioria dos companheiros de Lula acabou no ostracismo, na pior, enquanto o atual presidente ascendia politica, social e mesmo economicamente, Coutinho "omite" que um daqueles anônimos, que desfilam pelo filme, na verdade é Djalma Bom, um dos fundadores do PT, ex-deputado federal e atualmente vice-prefeito de São Bernardo. No filme, ele é apresentado apenas como um ex-operário, que tocava violão ( olha aí o número musical ) nos comícios, reforçando a tese (reacionária ao extremo, digna de um Diogo Mainardi da vida ) de que só Lula teria obtido vantagens nas famosas greves do final da década de 70, enquanto que a massa, "aqueles anônimos que realmente fizeram a greve", no final das contas, apenas perderam. Questionável manipulação da verdade para defender uma tese, por si só lamentável.

Por muito menos, por editar "desfavoravelmente" o depoimento de Charlton Heston, porta voz da famigerada NRA, quase crucificaram o Michael Moore...


Depois veio "O Fim e o Princípio", que, sinceramente... é uma nulidade, uma chatice sem par, um filme que parece ter sido realizado apenas porque deram dinheiro para o diretor filmar "o que bem entendesse", como ele mesmo diz, na narração, no ínicio do documentário (?). Nem a famosa capacidade do Coutinho em extrair depoimentos sinceros e espontâneos de seus entrevistados, que torna seus filmes tão pessoais e interessantes, parece funcionar. Tudo soa meio forçado, ele chega ao ponto de perguntar a uma octogenária se ela tem medo da morte. Feito por um dos muitos imitadores do Coutinho ( aliás, uma praga na cinematografia brasileira recente, quase 80% dos estudantes de cinema fazem filmes pastichados dos filmes do Coutinho ), O Fim e o Princípio teria sido ignorado ou mesmo tratado como pueril. Mas os fãs de Coutinho, assim como seus imitadores ou discípulos, são complacentes, e o filme foi elevado à estratosfera das obras primas. Houve quem enxergasse naquela "conversa pra boi dormir" uma espécie de "prosa roseana" cinematográfica, seja lá o que isso venha significar... mas a maioria da crítica no Brasil é assim, mesmo. Ou totalmente bajuladora, ou de uma fúria sanguinolenta.

Por essa razão, há algum tempo considerava Coutinho no "vermelho", estava nos devendo um filme que fizesse juz à sua fama e ao seu talento. Eis que surge "Jogo de Cena". Talvez o filme do Coutinho mais rico, do ponto de vista da linguagem cinematográfica, desde Cabra Marcado. Ainda que seja um filme no formato "talking heads", cabeças falantes, planos próximos de rostos, closes, pouquissíma ou quase nenhuma mudança no enquadramento (afora uma ou outra inserção de planos dos entrevistados subindo uma escura escada em espiral, que leva ao palco do teatro onde ocorrem as entrevistas ), o filme cria um espetacular jogo metalinguístico, a partir do confronto entre realidade e ficção, com atores e personagens reais alternando depoimentos, criando uma rica dialética, na qual o expectador é apresentado aos mecanismos da criação artística. Como não lembrar de Brecht? Como não lembrar de Pirandello? O filme provoca diversas reflexões. O que é realidade? O que é simulação? O que é criação? O que é material dramático? O expectador é questionado o tempo todo, forçado a pensar, melhor: convidado a pensar, pois, mais do que em qualquer outro de seus filmes, Coutinho nos transporta da poltrona do cinema para um banquinho, ou, mais comum numa filmagem, para uma "três tabelas" colocada ao lado da câmera e diante do entrevistado, partilhando com o diretor o convívio direto com aquelas pessoas, aquelas mulheres, personagens reais ou interpretes, e mesmo essas, pessoas reais, despojadas da "máscara", desencarnadas dos seus personagens.
O que poderia ser apenas um "jogo de cena", aos moldes do quadro que o Jorge Furtado criou no Fantástico (onde atores e personagens reais contavam histórias, cabendo ao expectador advinhar quem era quem ), nas mãos habéis de Coutinho, com ajuda da montagem brilhante de Jordana Berg, vira um profundo estudo sobre o ser humano, mais especificamente, sobre a mulher.

"Jogo de cena" talvez seja o filme mais profundamente feminino já realizado por um homem, similar cinematográfico da poética de Chico Buarque ( reconhecidamente, um homem que consegue entender e traduzir como poucos a essência feminina ). Os depoimentos, tanto os reais, como os interpretados, são reveladores da "dor e a delícia de ser o que é”, como dizia aquela canção do Caetano ( outro que também entende e muito da anima feminina ). Por outro lado, o depoimento das atrizes sob o processo de composição das "personagens" que interpretam é uma aula de dramaturgia. Penso que, desde Nossa Música, de Godard, não via um filme tão imprescindivelmente didático, no sentido de ensinar cinema. Devia ser incluído nos currículos de todas as escolas de cinema, não na cadeira de documentário, mas na área de dramaturgia, especificamente em direção de ator.
"Jogo de Cena" consegue ser profundamente intelectual e ao mesmo tempo, emocional, sensível, comovente. Porque no fundo, o filme aponta a gênese de toda criação artística e intelectual : o ser humano, com suas qualidades e defeitos, com sua beleza e feiúra, com sua força e sua fragilidade. Seja numa atitude mimética, seja questionando os processos de simulação da realidade, a função da arte no fundo é do recompôr a nossa humanidade estilhaçada, e o artista, seja ele o ator, o poeta, o cineasta, é aquele que recolhe nossos fragmentos perdidos e nos devolve a unidade perdida. Nos reintegra. Nos totaliza. "Jogo de cena" não mostra "versões" diferentes de um mesmo ser. Ele completa cada uma daquelas mulheres, torna aquelas mulheres anônimas em seres humanos ímpares, únicos, cada qual ciente da " dor e da delícia de ser o que é". E no palco de Coutinho, tanto as atrizes famosas, como as menos conhecidas e aquelas mulheres anônimas, todos brilham com a mesma intensidade. "Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome" - é isso o que o filme nos mostra.
Há, entre muitos achados geniais e tocantes, um momento especialmente mágico. Uma das personagens canta uma canção ( não seria um filme do Coutinho sem um personagem cantando, não é mesmo?). Ouvimos, em off, Marília Pera, a atriz que "a interpreta", cantando em contraponto a mesma canção. Através do som, realidade e simulacro se unem, pessoa e intérprete se fundem, é um momento de rara poesia.
É gratificante testemunhar o reencontro de um grande cineasta com seu melhor cinema, após alguns trabalhos menos interessantes ou mesmo, decepcionantes. Eduardo Coutinho mostra que, como poucos, conhece o "segredo do polichinelo", sendo capaz de reinventar seu próprio cinema, quando muitos ( eu, inclusive ) consideravam-no exaurido. Aos 74 anos, o mestre faz um filme cheio de frescor, de vitalidade, de um humanismo contagiante e necessário, nestes tempos de cinismo e desencanto, profunda e verdadeiramente moderno. Perto de Jogo de Cena, os ditos filmes "moderninhos" parecem rançosos, natimortos.

Um grande filme. Imperdível. Mais: imprescindível.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

entranhas cinematográficas ( e ideológicas ) de Tropa de Elite (1)


Batalha de Argel, de Gillo Pontecorvo (1966)


Filme magistral sobre a luta pela independência da Argélia contra colonizador francês. O filme, que é totalmente ficcionado, passa, pela maestria de suas tomadas, a impressão que é um documentário. As cenas de conflitos são de um realismo cru e ao mesmo tempo, eletrizante.
Penso que o Padilha ou, com certeza, o diretor de fotografia do Trope de Elite, Lula Carvalho, deva ter se inspirado nas imagens de Batalha de Argel para compôr as cenas da ação do Bope nas favelas. Até porque, geograficamente, os bequinhos e vielas de nossas favelas lembram muito os tortuosos caminhos da Casbah argelina ( imagino que talvez eles também tenham usado o magnífico filme Terra e Liberdade, do Ken Loach, como modelo para filmagem das cenas de combate ).
Mas o que me fez lembrar mais do Batalha de Argel foi a atuação do pelotão de paraquedistas franceses, tropa de elite sanguinária enviada para Argel, num momento em que os guerrilheiros argelinos começam a ter sucessivas vitórias em sua luta. Da mesma forma que a nossa "tropa de elite", o esquadrão francês se utilizava da violência bruta e da tortura para derrotar seu inimigo. A cena em que o comandante paraquedista francês tortura um prisioneiro argelino com um maçarico é uma das mais brutais do cinema. De certa forma, a tática dos militares franceses foi incorporada pelo Bope - a tortura destrói o inimigo duplamente: fisicamente pela dor, e moralmente, pelo que é obtido pela dor - a delação, a traição.
E a concepção de que o "mal" só poderá ser derrotado por um "mal" pior e mais malévolo parece reger tanto a atuação dos paraquedistas franceses como a da "tropa de elite" tupiniquim.
A estratégia do terror como forma de intimidar e derrotar os inimigos não é nova. Os aviões nazistas da Legião Condor tocavam sirenes assustadoras quando se aproximavam de Guernica, anunciando o bombardeio e a matança, na Guerra Civil Espanhola. Copolla iria reproduzir essa sensação de pavor e atemorizamento na famosa cena em que helicópteros americanos atacam aldeias vietnamitas ao som ensurdecedor da Cavalgada das Valquírias, de Wagner, no magnífico Apocalipse Now ( filme que Carlão Reichenbach considera fascista, opinião com a qual não concordo, mas isso é outra história ). Cavalgada das Valquírias é também a música que acompanha as ações dos cavaleiros embuçados da Ku-klus-klan de Nascimento de uma nação, de Grifitth. A caveira, que o aspira Neto tatua no braço, a caveira que é o símbolo do Bope e "grito de guerra" dos ardorosos admiradores do filme do Padilha, por sua vez, era a insígnia da SS nazista. E o "Caveirão", blindado usado pela polícia carioca para invadir favelas, por sua vez, usa sirenes e gritos de guerra amedrontadores, da mesma forma que a Legião Condor nazista.

Recomendo assistirem ao Batalha de Argel. Além de ser um filmaço, nos ensina que o uso do mal contra o "mal" não surte efeitos duradouros. Da mesma forma que a violência da repressão francesa não conseguiu impedir a população argelina de obter sua independência, me parece que a repressão estúpida praticada pelo Bope, que viola os direitos humanos, que apenas reproduz de forma ampliada o mal produzido pelo "inimigo", está igualmente fadada ao fracasso.
Mas o filme do Padilha sequer aventa essa possibilidade.