segunda-feira, 8 de outubro de 2007

entranhas cinematográficas ( e ideológicas ) de Tropa de Elite (2)


Mississipi em Chamas, filme de Alan Parker.



Considero este filme um dos mais abjetos já realizados. O cineasta inglês foi mais feliz em filmes como Expresso da Meia-Noite, apesar da xenofobia anti-turca, em Asas da Liberdade, no ótimo Commitments, em Coração Satânico. Mas este seu filme me incomoda pelo descompasso entre o discurso progressista - a luta pelos direitos civis na América, no início dos anos 60 - e a metodologia típica dos filmes policiais mais fascistas, comum à cultura e ao cinema hollywoodiana. Recordemos a história do filme: Gene Hackman e Willian Dafoe são dois agentes do FBI que investigam o cruel assassinato de militantes dos direitos civis pela Ku-Klus-Klan, no Mississipi ainda dominado pelo racismo. Para desbaratar o grupo de extrema direita, e capturar os assassinos, o policial experiente e linha dura (interpretado por Hackman ) acaba convencendo o colega liberal e ético ( Dafoe ) que somente pelo mal poderão vencer o mal. E para combater os KKK terão que usar os métodos mais sujos - no caso a tortura. Eles capturam e torturam um dos membros do Klan que, como inevitavelmente acontece em casos de tortura, acaba delatando o resto do grupo. O que me incomoda é a lógica de que os fins nobres justificam os meios mais perversos. Tortura é crime hediondo, mas o fato dos "bons" torturarem os "maus" (ainda mais por uma causa nobre ) acaba sendo absorvida ( e absolvida ) pela platéia como um método necessário para o combate ao crime, ao racismo, etc.
A ética do filme é maniqueísta pois estabelece que o crime quando praticado pelos maus é errado, enquanto que o crime praticado pelos bons é justificavel, e em certas circunstâncias, aceitável e mesmo necessário. Esse discurso é adotado pelo filme do José Padilha, ainda que ele insista em dizer que o filme só faz reproduzir o ponto de vista do personagem policial, que pratica a tortura. No filme do Parker há um conflito entre o personagem ético ( "certinho e careta") de Dafoe e o personagem realista e pragmático ( "que conhece a realidade das ruas" ) de Hackman quanto a sujar as mãos em nome do exito da missão. Ao final do filme, os bons triunfam, o mal é derrotado e a sensação que o expectador vivencia é que para derrotar o mal é necessário renunciar ( como faz o personagem de Dafoe ) à sua consciência, aos seus princípios éticos e morais, e "sujar as mãos", usando de métodos tão hediondos como os praticados pelo inimigo.
O que me irrita particularmente no filme de Parker é o uso de uma causa nobre - a luta pelos direitos civis e humanos, o combate ao racismo - para justificar a prática da tortura (ou de qualquer expediente abominável ). Como, a exceção talvez de reacionários racistas, ninguém simpatiza mesmo com os membros da KKK, quem irá se importar que eles sejam torturados, mortos, who cares? O importante é punir o mal, seja lá sob qual a forma ele apareça. Sejam os racistas da KKK, os bandidos, os traficantes, os terroristas. Pela ótica do filme, se aceitamos que sejam usados métodos "não-ortodoxos" no combate ao crime, ao mal, como protestar contra a tortura que o governo americano pratica em Guantánamo contra os prisioneiros supostamente acusados de terrorismo?
No caso brasileiro, quem liga se o Bope tortura traficantes?
Talvez haja um exagero, como quando no filme, os bravos soldados da Tropa de Elite torturam uma moça da favela para que ela revele o paradeiro do "Baiano", afinal, ela não é bandida. Talvez a platéia se incomode com a exposição da violência - mas o filme, até por sua postura "independente", não julga a ação dos seus personagens, deixa para a platéia julgar. E qual o julgamento que se espera de uma platéia assustada pelos altos índices de violencia e criminalidade vivenciados hoje no Brasil? Ainda mais uma platéia que assiste a um filme que, ao renunciar a uma visão crítica, apenas mostra os "homens de preto" como seres humanos, passíveis de erros, capaz de exageros, porém profundamente dedicados ao combate ao crime e a corrupção.
Da mesma forma que a platéia se identifica com os nobres agentes do FBI na sua luta contra os racistas criminosos da KKK, e perdoa ou mesmo admite o uso de meios sujos nessa luta, penso que a platéia brasileira pode achar brutal algumas cenas de Tropa de Elite, mas sai do cinema com o sentimento reconfortante de que felizmente existe no país alguém que faça o "serviço sujo" para ela. E a visão acrítica ou, como prefere o Padilha, "independente" do filme "Tropa de Elite" acaba servindo para aplacar a consciência pesada do expectador, que no escurinho do cinema, considera que aquela tortura é incorreta porém necessária, afinal, como o filme também mostra, os maus, os traficantes, os corruptos, a classe média permissiva, precisam ser derrotados.
E no mais, por mais que o filme e seu diretor tenham adotado uma postura "independente", Tropa de Elite não consegue fugir ao maniqueísmo. Independente dos "excessos", independente da brutalidade de muitas cenas de tortura ( o da moça da favela e o quase empalamento de um vapor, devidamente interrompido pela vitima que se "dispõe" a delatar o esconderijo do traficante antes que os expectadores sejam violentados por uma cena realmente brutal, como bem observou Carlos Reichenbach, num artigo em o Globo ), o maniqueísmo domina o filme, até mesmo na escalação do elenco. Os "bons" tem cara boa. Os "homens de preto" são os boa-pintas Wagner Moura, Caio Junqueira e o André Ramiro enquanto que o "vilão", o traficante Baiano (Fábio Lago ) é feioso, barrigudo, despojado de qualquer atrativo. Será que ao pensar "visualmente" seus personagens, o Padilha teria tido uma postura "independente"?

Um comentário:

Henrique disse...

Perfeito! Mas ainda assim não vejo como fazer um filme tão diferente sob angulo escolhido pelo Padilha. Sendo advogado do diabo: porque não fazer um filme sob essa ótica e não julgar?